Entrevista com Alexandre Ribeiro

Alexandre Ribeiro, violonista que passou a atuar também com a guitarra barroca e a teorba em concertos e palestras fala nesta entrevista sobre particularidades, curiosidades e dificuldades deste interessante instrumento de época e muito mais.

Rodrigo Chenta- Você começou inicialmente no violão e posteriormente acrescentou a teorba e a guitarra barroca. Como isso se deu?
Alexandre Ribeiro-
Eu gostava de fazer aquele programa tradicional contendo peças desde o renascimento até os dias de hoje, contando a historia do violão, mas queria ser o mais fiel possível a escrita original porque acreditava que a “verdadeira“ ideia do compositor residia tão somente no texto da peça, no entanto, achava um absurdo tocar os instrumentos antigos, afinal a tecnologia já havia evoluído nos dando o violão e sua técnica. Entre 2.007 e 2.009 passei a pesquisar mais a fundo as dedilhadas antigas e em 2.009, após voltar da Alemanha e já mais receptivo a tocar esses instrumentos, obtive uma teorba. Apesar das muitas dificuldades que eu tinha com o instrumento e o embate entre ele e o violão fui me adaptando, mas cheguei a ter pesadelos como se o violão ficasse bravo comigo por substituí-lo! Mais acostumado a teorba, tentei o alaúde, mas não houve muita química e peguei a guitarra barroca, como já tinha alguma noção das cordas duplas devido ao alaúde e as scordaturas são parecidas com o violão, o trauma foi menor que em relação a teorba.

RC- Quais são as dificuldades daquele que vai de instrumentos de corda mais convencionais aqui como violão e guitarra para estes outros considerados de época?
AR-
Depende muito do instrumento que você pega, uns tem as dificuldades com as cordas duplas, outros com os baixos, outros com a reentrância, outros com vários desses pontos ao mesmo tempo. No meu caso, que fui para a teorba, tentava pensar no violão com cordas adicionais e reentrância, mas isso atrapalhava mais que ajudava porque a distância entre as cordas é outra, a técnica de mão direita e esquerda também, a corda mais aguda é a terceira, e assim por diante. Fora as questões técnicas existem as relacionadas a leitura de tablaturas, outras claves, conseguir corda, achar o melhor calibre para os trastes.

RC- Como fica a questão do repertório em relação à composição de músicas atuais para os mesmos?
AR-
Como são instrumentos pouco conhecidos, a produção contemporânea para eles é ainda mais difícil, eu tenho pedido para alguns compositores escreverem para teorba, mas com pouco êxito. É um instrumento cheio de recursos por um lado e muito limitado por outro, meu duo com violonista João Kouyoumdjian, o Scordatura Antiqua, tem estreado uma ou outra peça escrita para formação.

"... queria ser o mais fiel possível a escrita original ..."

Alexandre Ribeiro RC- Qual é a aceitação da escuta destes instrumentos no Brasil?
AR-
Tenho a impressão que tem sido excelente, os timbres e possibilidades são muito diferentes e as pessoas sempre apontam experiências positivas, apesar de ainda incipiente, a quantidade de instrumentistas e estudantes destes tem crescido, os festivais de música também tem aberto cada vez mais espaço para esta vertente e muitos festivais tem surgido com enfoque nos instrumentos antigos.

RC- Quais as dificuldades de acesso ao estudo formal e aquisição deles?
AR-
Há poucas escolas com cadeira para instrumentos antigos aqui, de cabeça sei da EMESP em São Paulo e da UnB em Brasília, nenhuma aceitando crianças. Algumas universidades têm professores especialistas em performance histórica e tentam movimentar as coisas, mas formalmente ainda há poucas instituições que ofereçam ensino formal. Claro que isso se deve a muitos fatores, há pouco luthiers trabalhando nessa área e a maioria está em fase de experimentação, além da ainda escassa divulgação.

RC- Na afinação especificamente da teorba há algum tipo de facilitação no uso de recursos melódicos e/ou harmônicos?
AR-
O fato da terceira corda ser mais aguda que as duas primeiras facilita as campanelas (permite que sons adjacentes como dó, ré, mi, fá soem simultâneos, imitando sinos) e os baixos diatônicos permitem graves mais sonoros.

RC- Este instrumento é bastante peculiar e caricato. Fale sobre as curiosidades?
AR-
Surgiu em um dos muitos grupos de artistas e intelectuais que existiam na Itália do final do século XVI, na Camerata Florentina, que buscava retomar os ideais gregos da tragédia e criaram seconda pratica, a melodia acompanhada em oposição a prima pratica, e a predominância contraponto. Antonio Naldi é tido como responsável pela criação do chitarrone (grande citara), não sabemos exatamente o porquê do nome tiorba (teorba), que era intercambiável com o primeiro até 1.650 na Itália e fora dela o nome chitarrone nunca foi utilizado. Il Bardela (como era conhecido Naldi) tocava alaúde e talvez por isso a relação intervalar entre as ordens (cordas) da teorba seja a mesma dele, com baixos acrescidos. Provavelmente devido a seu tamanho as duas primeiras ordens arrebentavam antes de afinar por isso optou por torná-las mais graves. O instrumento possui dois jogos de cravelhames, o mais curto com as cordas pisáveis e o mais longo com os baixos soltos. Ao longo da história pela Europa, houve registro de vários tipos de teorbas, algumas com mais de 2 metros, teorbas com 19 cordas, 3 ou 1 roseta, com cordas duplas, simples, afinadas em ré, em lá, com reentrância em uma ou duas ordens (de acordo com o país). Como padrão, hoje adotamos teorbas de 14 ordens com 10 trastes no braço, afinadas em lá (em 415Hz, ou seja, meio tom abaixo do lá 440Hz), mas está longe de ser um formato definitivo.

"... cheguei a ter pesadelos como se o violão ficasse bravo comigo por substituí-lo!"

Alexandre Ribeiro
RC- É possível afirmar que a teorba como muitos outros instrumentos de época parece ter a manutenção bastante onerosa?
AR-
Cordas e trastes frequentemente estourando e a manutenção do instrumento, isso tudo custava caro (e ainda custa), escritos de época afirmavam que manter uma teorba era tão oneroso quanto manter um cavalo.

RC- A teorba também teve músicas editadas em tablatura tanto francesa como italianas. Como ficava a questão rítmica nestas grafias. Havia também o auxílio de partituras neste caso?
AR-
Nos dois tipos de tablatura e também na tablatura alemã a duração das figuras vem escritas encima delas, darei um curso no Centro de Pesquisa e Formação do SESC a respeito disso no dia 14 de outubro, apresentarei os vários tipos de tablaturas, como fazer para transformá-las em notação ordinária e como transcreve-las para violão. Vou anexar uma imagem com tablaturas, uma imagem vale mais que mil palavras.

RC- Comente a proposta da “Performance Interativa”.
AR-
Este conceito tem sido bastante explorado nos EUA desde os concertos para Juventude de Leonard Bernstein. Ganhou força na Juilliard School que tem o assunto como matéria oficial para todas as linguagens em sua grade curricular. Trata-se de engajar a audiência durante qualquer tipo de performance, seja conversando (não somente expondo, mas deixando o público falar), seja convidando-os para cantar o “refrão“ de um rondo, fazer a parte rítmica em uma dança ou até sugerir como executar um ritornelo. O objetivo é que a plateia faça a performance acontecer junto com o performer de maneira ativa. Os principais nomes nesta área na linguagem da música hoje são: Eric Booth, David Walace e Bob McFerrin.

RC- Como o público reage a este tipo de programa?
AR-
O público leigo tende a gostar bastante, o público que tem expertise tende a achar piegas.

"... escritos de época afirmavam que manter uma teorba era tão oneroso quanto manter um cavalo"

Alexandre Ribeiro RC- Em relação ao design desta performance interativa você aborda em um momento a questão: “Qual a relação entre música barroca, o centenário de Luiz Gonzaga e um instrumento que tinha o intuito de imitar a citara grega?”. Comente o assunto.
AR-
Resumidamente, em 2012 foi comemorado o centenário de Luiz Gonzaga e eu estava fazendo um programa abordando danças barrocas em um curso que estava participando na Inglaterra, então montei um programa apontando o que havia em comum entre várias danças. Dentre elas um canário e em um baião (que compartilham um ritmo básico constante dentro de uma harmonia simples, exploração improvisatória modal) tudo tocado na teorba, o instrumento que tinha por conceito inicial ser uma grande citara, dai o nome original chitarrone.

RC- Fale sobre os paralelos da música barroca com o choro no “Quarteto Diálogos”.
AR-
O caráter modal/tonal, improvisação, discurso fortemente marcado por semicolcheias, estrutura fraseológica e função do baixo, são pontos comuns às duas linguagens que tentamos evidenciar dentro do quarteto, que é formado por dois chorões, Jorge Elias no violão de sete e no tenor, Santiago Steiner no bandolim e no cavaco, Anderson de Lima no alaúde e na guitarra barroca, eu na teorba e na guitarra romântica (eventualmente trocamos os instrumentos, mas a predominância é essa).

RC- Neste projeto como funciona a questão dos arranjos e instrumentação utilizada?
AR-
A exemplo de como algumas evidências sugerem da execução musical no barroco, os arranjos do quarteto são guiados pela harmonia e melodia das músicas que escolhemos, oscilando entre partes escritas e improvisadas, tentamos manter o equilíbrio entre o antigo e o novo na instrumentação. Apesar de trocarmos os instrumentos durante as apresentações, são sempre dois antigos e dois contemporâneos, apresentamos um barroco e um choro. Como exemplo posso citar a Folias do Sanz e Gaucho da Chiquinha Gonzaga que deixo o link para facilitar a visualização da instrumentação: Folias e Gaucho.

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