Entrevista com Alfredo Dias Gomes

Alfredo Dias Gomes, baterista e compositor fala sobre o seu recente disco "Looking Back" com regravações de clássicos do jazz e fusion, arranjos, composições, influências, programa ADG Studio Live e muito mais.

Rodrigo Chenta- Como surgiu a ideia de gravar "Looking Back"?
Alfredo Dias Gomes-
A ideia de gravar o álbum veio quando eu assistia a um show do Chick Corea no Rio de Janeiro em 2014. Ouvindo "Spain", me deu vontade de gravar algumas das músicas que eu estudava quando era garoto.

RC- No encarte deste trabalho você disse sobre os compositores escolhidos que "influenciaram musicalmente e fizeram a trilha sonora" de sua juventude. Como foi a seleção do repertório que gravou, já que o mesmo é vasto?
ADG-
Foi muito prazeroso relembrar essas músicas e foi difícil escolher somente dez. Eu dei preferência para as que favoreciam a bateria. "Birdfingers", do Larry Coryell, é uma música com compasso composto em 11/8. Eu sou fascinado por compasso composto. Outro exemplo, "Nite Sprite", do Chick Corea, é cheia de convenções e tem um solo de bateria. Já "Red Baron" é uma composição de um dos melhores bateristas do mundo Billy Cobham. E algumas, como a balada "A Remark You Made", marcaram algum momento da minha vida, essa especialmente eu dediquei pra minha mãe Janete Clair.

"Eu sou fascinado por compasso composto."

Alfredo Dias Gomes RC- Ao gravar clássicos do jazz e fusion neste álbum como funcionou a questão dos direitos autorais para a comercialização do CD?
ADG-
A legislação nos Estados Unidos é diferente do Brasil. Lá você não precisa da autorização do autor. Basta a música estar editada e você paga os direitos pra editora. Não tive nenhum problema.

RC- "Looking Back" foi gravado e mixado em teu estúdio, o ADG. Quais são as vantagens da produção de um projeto deste porte em um estúdio próprio?
ADG-
A maior delas é você não ter a pressão de um estúdio comercial. Aqui eu gravo a hora que eu quero sem me preocupar com o tempo. Muitas vezes eu saio do estúdio e já amanheceu, nem sinto a hora passar. Outra vantagem é que, sem a pressão do tempo, os músicos se sentem mais à vontade. Têm liberdade de experimentar, criar durante a sessão. É mais descontraído. A gente pode parar pra descansar, pedir uma pizza.

RC- Fale sobre os arranjos das releituras feitas neste CD.
ADG-
Eu tenho uma concepção musical facilmente identificável nos meus outros discos, todos autorais, em cima de solos de guitarra, sax e de bateria, claro! Os dois solistas que estão nesse CD, Widor Santiago e Yuval Ben Lior, e o tecladista Lulu Martin já tocam comigo há muito tempo. Quando eu pensei nos arranjos, já pensei neles para essa formação.

RC- Em relação à produção fonográfica, tudo foi gravado separadamente ou teve alguma coisa que foi captada em conjunto (ao vivo) como bateria, baixo e teclado, por exemplo?
ADG-
Primeiramente foi gravada a base: bateria, baixo e teclado, priorizando a bateria. Depois as guitarras, sax e flautas e, por último, as participações do Serginho Trombone, meu irmão Guilherme no trompete e trombone e os teclados adicionais do David Feldman.

RC- O álbum "Corona Borealis", de 2010, possui títulos de músicas bastante incomuns. Qual o critério que utiliza para nomear as suas composições?
ADG-
Não tenho um critério pré-definido, mas adoro tudo relacionado ao espaço. Sou aquele cara que para no canal Discovery Channel pra assistir documentários sobre o universo. No caso do "Corona Borealis", todas as faixas têm nomes de constelações: Andrômeda, Pegasus, Taurus... no encarte desse disco, inclusive, tem a explicação da origem de cada um desses nomes. Meu disco anterior "Atmosfera" também seguia a mesma onda, Estratosfera, Exosfera...

"O que interessa é que a música seja boa e bem tocada."

Alfredo Dias Gomes - CD Looking Back
RC- Os dois últimos discos que gravou em sua carreira solo possuem uma sonoridade voltada para o fusion. Como poderíamos definir este gênero/estilo musical?
ADG-
Fusion é a liberdade de você misturar e experimentar diversos estilos, sem preconceito ou patrulhamento. No meu caso jazz/funk/rock. O que interessa é que a música seja boa e bem tocada.

RC- Fale sobre o programa ADG Studio Live.
ADG-
Com a chegada das novas tecnologias, surgiu a ideia para o ADG Studio Live, um programa de música, transmitido ao vivo do meu estúdio pela internet. Para realizar o programa, eu adicionei ao equipamento câmeras de vídeo, spots de luz, softwares para corte das câmeras e transmissão ao vivo. Eu apresento workshops e jams com vários convidados.

RC- Você faz algum tipo de pesquisa em relação aos timbres da bateria antes de gravar?
ADG-
Não exatamente. Eu tenho duas baterias, uma Yamaha bem pesada, com bumbo de 24 polegadas, mais apropriada para rock e pop, e uma Gretsch, mais adequada para outros gêneros como jazz e MPB. Dependendo da situação eu uso uma ou outra.

RC- De que maneira você compõe as suas músicas?
ADG-
Isso não tem uma regra, mas geralmente eu começo a partir de uma ideia rítmica na bateria, gravo essa ideia só como uma guia e coloco harmonia e melodia no teclado. Mas muitas das minhas músicas eu compus direto a partir do teclado.

"Eu tenho uma concepção musical facilmente identificável nos meus outros discos ..."

Alfredo Dias Gomes RC- Atualmente é bastante comum o lançamento de CD em formato digital. Existem aqueles que optaram somente por esta forma. Como você encara estas tecnologias?
ADG-
Além do CD, também lancei o "Looking Back" para download, do álbum inteiro ou das faixas separadamente. E também tem a novidade dos cartões de download, onde a pessoa compra um cartãozinho parecido com um cartão de crédito, que tem um código pra ela entrar no site e baixar o disco. A vantagem é que o cartão é bem mais barato que o CD.

RC- Os alunos atuais possuem acesso a materiais que outrora eram difíceis de conseguir. Existe a questão de alguns não poderem assimilar tudo o que se tem à disposição. O que pensa a respeito disso em relação aos alunos de música desta geração?
ADG-
Realmente, quando comecei a tocar bateria eu só podia escutar os meus ídolos, não tinha muitas imagens disponíveis. Quando eu tinha a oportunidade de assistir ao vivo, muitas vezes descobria que reproduzia o que eu ouvia, mas tecnicamente de maneira completamente diferente. Hoje, você vê na internet exatamente como os músicos tocam. A informação é muito maior. Não vejo problema em assimilar isso, pelo contrário, essa nova geração já nasceu com toda essa informação.

RC- Com apenas dezoito anos gravou o disco "Cérebro Magnético" de Hermeto Pascoal. Qual foi o grande aprendizado deste tempo?
ADG-
O grande aprendizado foi a música brasileira e a forma livre que o Hermeto interpreta estes ritmos.

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