Entrevista com Aline Morena

Aline Morena, cantora e compositora fala sobre o trabalho com Hermeto Pascoal e Grupo, o Duo e CDs gravados, processo criativo, som da aura, o documento "Princípios da Música Universal criada por Hermeto Pascoal" e muito mais.

Rodrigo Chenta- Conte-me um pouco sobre sua trajetória pelo mundo da música, experiências, formação, apresentações e como surgiu a Aline Morena multi-instrumentista?
Aline Morena-
Eu comecei cantando desde criança, primeiro na igreja, em corais, em casamentos, e depois fiz Faculdade de Canto em Passo Fundo, RS. Em seguida, comecei a dar aulas de Canto desde a pré- escola até a oitava série, além dos recitais de Canto, de participar de peças de teatro como cantora, reger corais infantil e infanto-juvenil, além de cantar a música folclórica do Rio Grande do Sul...Tudo isso aconteceu até eu me mudar para Curitiba. Foi aqui que eu passei a estudar a música do Hermeto e me apaixonei por esse som. Quanto aos instrumentos, eu já tinha noção de piano e de violão porque fiz aulas quando criança e também na faculdade nós estudávamos como instrumentos complementares ao Canto. Mas foi o Hermeto que me encorajou a tocar viola caipira e desenvolver o piano, bem como a percussão corporal. Então, eu venho tocando também desde 2003.

RC- Quando e como apareceu o interesse pela obra de Hermeto Pascoal e em que circunstâncias aconteceu este encontro de vocês?
AM-
Quando me mudei para Curitiba com o intuito de me desenvolver profissionalmente como cantora, fiquei fascinada com o som que os melhores músicos de Curitiba faziam aos domingos na feirinha do Largo da Ordem...era Hermeto Pascoal... Foi aí que passei a mergulhar no universo da música do Hermeto e passei a estudar só esse som. Até varrendo a casa eu colocava os discos, mas aí, em determinadas músicas, eu tinha que parar de varrer para poder prestar atenção... Foi então que passei num concurso para cantores no Conservatório de MPB, através de uma demo que havia gravado com o Glauco, o Marinho Conde, o Bebê...e pude montar um show como quisesse. Não podia ser melhor a oportunidade. O show se chamou:"Hermeto em Voz para Dançar". Isso foi em agosto de 2002. Dois meses depois disso, conheci o Hermeto num workshop em Londrina e subi no palco para cantar uma melodia que havia criado, dentro de um cano e depois cantei "Montreux". No dia seguinte, o Grupo do Hermeto ia se apresentar em Maringá e eu fui pra lá, pois conhecia o produtor Paulo Petrini e já tinha o ingresso...acabei conhecendo todo o Grupo e o Hermeto me convidou para dar uma canja no show...foi maravilhoso, me senti em casa, como se já fizesse parte desse som! No dia seguinte, fui embora para o Rio com o Hermeto, com o objetivo de estudar as composições do irmão dele, mas acabei ganhando a música do Hermeto e ele próprio.

"...cada música nova, tem suas próprias exigências e você precisa superá-las..."

Aline Morena RC- Hermeto lhe ensinou novas noções de canto, dança, viola caipira, percussão e piano. Como é o aprendizado e absorção destes instrumentos diversos e dos elementos musicais da concepção de Hermeto Pascoal?
AM-
É muito gostoso estudar pela metodologia do Hermeto. Claro que como eu já tinha noção de teoria, no caso do piano, ele me entregou algumas peças dele e eu fui decifrando, mas em todos os instrumentos a gente não precisa ficar estudando exercícios repetitivos, a gente precisa é tocar cada música. Então cada música nova, tem suas próprias exigências e você precisa superá-las...quando você venceu aquela dificuldade técnica, você já está tocando mais uma música e não exercícios chatos...

RC- Como é o processo criativo das composições, improvisações, arranjos e a busca de timbres e sonoridades inusitadas empregadas nas apresentações?
AM-
A mim me parece que é mais fácil cantar no palco do que em casa porque a energia do público faz tudo ficar mais fácil e mais leve... No caso dos instrumentos, eu preciso estudar mais para ficar à vontade no palco, mas a criação é constante porque se tem algo que o Hermeto não é, é previsível. Então, tenho que estar muito entregue para o que quer que seja necessário fazer no momento...quanto mais seguros estamos com os instrumentos, mas à vontade ficamos e criamos mais...os arranjos nos shows muitas vezes são construídos na hora, mesmo nas gravações é assim, espontaneamente. Por ex. nas danças, na piscina, a estrutura, o repertório muda muito, conforme vamos sentindo...

RC- Quais seriam as dificuldades de encarar a voz como instrumento em músicas que propiciam momentos de improvisação?
AM-
Foi preciso estudar muita nota longa como um instrumento de sopro, começar dos graves para aveludar os agudos e estudar os acordes para afinar melhor e estudar diferentes dicções para dar conta do recado...

RC- Quando vocês assumiram o relacionamento amoroso, muitas pessoas fizeram questionamentos de naturezas diversas. O que você teria a dizer sobre este episódio?
AM-
Eu pessoalmente nunca fui questionada. O que sentia no começo é que as pessoas que demonstravam ter problemas em seus relacionamentos pessoais, eram mais desconfiadas, mas as pessoas mais felizes, sentiam logo a nossa afinidade. Eu sempre torço que todos possam ser o menos preconceituosos possível para poderem viver com mais profundidade, evoluir em mais e serem mais felizes.

"...os arranjos nos shows muitas vezes são construídos na hora..."

Aline Morena RC- Você integra o Grupo de Hermeto desde 2002. Como surgiu a ideia de apresentarem-se em duo e o porquê dos nomes dos CD's "Chimarrão com Rapadura" e "Bodas de Latão"?
AM-
Comecei dando canjas nos shows do Hermeto Solo e nos shows com o Grupo e conforme fui evoluindo, fui assumindo uma responsabilidade maior, mas a ideia do duo foi do próprio filho do Hermeto, o Fabio, que um dia deu a sugestão e nós acabamos levando a ideia adiante... O nome do CD e do DVD "Chimarrão com Rapadura" foi dado pelo Hermeto, referindo-se ao fato de eu ser gaúcha e ele nordestino. Já o "Bodas de Latão" foi sugestão minha para comemorar nossos sete anos juntos na vida e na música...descobri por acaso numa relojoaria que tinha uma lista dos nomes para cada ano de bodas...

RC- A dupla estreou em 2004 com o show "O som nosso de cada um" e já se apresentou em muitos países. Como é a interação com o público nas diferentes culturas que o entornam?
AM-
É sempre maravilhosa a interação do público e nós entregamos letras de Idioma Universal em todos os lugares e todos aprendem na hora e cantam juntos as letras que não tem sentido cognitivo nem na nossa língua! Além de cantarem sem letra e até fazerem ritmos conosco! A energia que rola é tão linda, tão divina, que poderíamos proteger toda a Terra naquele momento!.

RC- O DVD lançado em 2006 é considerado um grande registro da "Música Universal" que vocês defendem. Quais seriam os elementos desse estilo e como poderia ser definido?
AM-
A Música Universal é a confraternização entre os povos através da música feita sem preconceitos, misturando gêneros e estilos com muito bom gosto harmônico, melódico, rítmico e tímbrico.

RC- Como surgiu a ideia do documento "Princípios da Música Universal criada por Hermeto Pascoal" que você redigiu em 2008?
AM-
Era pra fazer parte do prefácio de um método que o Hermeto irá lançar um dia, mas como nunca temos como prever quanto pode demorar para isso acontecer porque depende de muitos fatores, achei que já deveria colocá-los no site para compartilhar os ensinamentos que estava tendo. São princípios que o Hermeto considera importantes... Eu apenas fui elaborando, deduzindo e ouvindo conforme ia estudando essa música.

RC- O duo gravou duas músicas no álbum "Chimarrão com Rapadura" no contexto do "Som da Aura" que segundo Hermeto, é a vibração sonora da alma. Fale mais sobre esta forma de música.
AM-
O Som da Aura é uma criação do Hermeto que desde criança já percebeu que ao falarem as pessoas estavam cantando...com o tempo ele pode colocar essa idéia em prática...começando com os narradores esportivos Osmar Santos e José Carlos Araújo...e daí não parou mais... Ele nos fez perceber a melodia que existe em cada fala e para ele, a nossa fala é o nosso verdadeiro cantar assim como os pássaros têm o seu próprio cantar... No nosso CD acabamos utilizando o som de bichinhos de pelúcia. O princípio e o mesmo, mas nesses casos os autores são aqueles que construiram os sons dos brinquedos.

RC- Certa vez você disse "A faculdade de música não te dá muito da prática" e em seu site li outra frase tua "Com Hermeto, eu comecei a sentir primeiro, para depois saber". Fale mais sobre este assunto.
AM-
É que na faculdade o tempo para a prática é bastante restrito no meu ponto de vista. E, de qualquer forma, há lições que você só aprende se apresentando mesmo. Com o Hermeto, eu tive que ouvir mais do que usar a teoria porque ele fazia um ritmo, por ex., eu queria que ele escrevesse, mas ele dizia que eu devia primeiro reproduzi-lo para depois escrever... No método tradicional, você tem que ler primeiro para reproduzir depois. É exatamente o contrário.

"...há lições que você só aprende se apresentando..."

Aline Morena RC- Ao assistir sua apresentação com Hermeto Pascoal e Grupo na Virada Cultural de São Paulo neste ano (2010), uma mulher andava na frente do palco em alguns momentos com uma bandeira diferente a cada espaço de tempo. O que significa este momento?
AM-
Na verdade ela estava anunciando o nome da música, mas como o Hermeto muda muito, uma hora ela acabou entrando com outro nome na faixa e muitos que estavam na frente perceberam que não era aquela a música que estava sendo executada...foi uma risada só. A própria ideia de anunciar cada música foi do Hermeto e o nosso amigo Ruy Pereira, aí de SP, bolou tudo na prática em forma de bandeira...pena que nem todos puderam ver....

RC- Que conselhos você daria para aqueles que almejam entrar para o mundo da Música Universal?
AM-
Quem gosta de misturar, não tem problemas em pegar num instrumento não-convencional, prima pela qualidade, pode ir se descobrindo a cada dia nesse som porque o mais importante é que ele não padroniza, ele revela o que você tem de melhor para oferecer. Deve-se tentar não querer ter controle, mas estar aberto para aproveitar na música tudo o que estiver acontecendo no momento. Essa música permite filtrar tudo o que poderia ser ruim... Até a raiva pode se transformar num som lindo e assim por diante...

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