Entrevista com Bruno Migotto

Bruno Migotto, contrabaixista e compositor fala sobre seu CD solo intitulado "In Set", um trabalho com músicas autorais interpretadas por um septeto, discorre sobre os arranjos, processo criativo e muito mais.

Rodrigo Chenta- Você atua tanto com o contrabaixo acústico como com o de corpo sólido ao tocar com a técnica de pizzicato. No momento da execução quais são as maiores diferenças para tocar estes dois tipos de instrumento?
Bruno Migotto-
Acredito que a maioria dos baixistas assim como eu começaram com o baixo elétrico e depois foram para o acústico. Eu comecei a tocar baixo elétrico com 11 anos de idade, e o que eu mais ouvia e tocava nessa época era rock n roll e heavy metal, até que com uns 15 anos comecei a estudar harmonia e improvisação e comecei a conhecer mais o jazz, a bossa nova. Ai comecei a perceber que o som que eu tirava do baixo elétrico e o jeito que eu tocava teriam que ser diferentes para aquela linguagem, e ao longo do tempo fui percebendo que as maiores referencias que eu tinha de baixistas para aquela linguagem, eram baixistas acústicos, então foi um processo natural e buscando aquela sonoridade que eu comecei a tocar o acústico, com uns 18 anos. E realmente, são instrumentos ao mesmo tempo muito similares e muito distantes. O baixo elétrico já é um instrumento com o braço grande, a distância entre as notas é grande, e como todo instrumento de corda, tem a dificuldade de visualização das notas no braço do instrumento (ao contrário do piano por exemplo, que segue o mesmo padrão visual para todas as oitavas). Já o acústico tem o braço ainda maior, e a visualização ainda mais difícil pois não tem trastes. É um instrumento que exige muito fisicamente, então tem todo um processo para começar a ganhar resistência e uma postura correta é ideal para não ter problemas nas mãos ou na coluna. E como todo instrumento acústico, ele exige que você tire o som dele, esse é outro processo também. Então realmente são instrumentos que apesar de exercerem a mesma função na música, são bem diferentes na hora de executar e tem que estar sempre estudando os dois para manter tudo em dia.

RC- Em diversos momentos quanto você toca em um contrabaixo de corpo maciço soa com uma pegada de acústico. Isso é proposital?
BM-
Acredito que sim, depende do som que estou tocando. Se estou tocando um walking bass no baixo elétrico, com certeza estou pensando no som do acústico, porque aquela é minha referência para aquele tipo de som. O conceito de tocar as notas longas e ligadas umas nas outras, pra dar a maior sustentação possível para a banda, isso veio do acústico, as vezes baixista elétrico tem mania de tocar tudo staccatto, todas as notas curtas e cheias de divisões rítmicas, mas nem sempre é o que a música pede e o que vai fazer suingar mais e se você tentar tocar assim no acústico vai ver que não acontece nada (risos).

"... tento compor primeiro o 'esqueleto' da música, ou seja, harmonia e melodia."

Bruno Migotto RC- Você compõe já pensando no arranjo e formação instrumental ou separa de forma bem clara estas duas fases do processo criativo?
BM-
Depende bastante da situação, já fiz dos dois jeitos. Quando componho para um grupo especifico gosto de pensar principalmente nos músicos que irão executar, e nas suas características musicais. Mas normalmente tento compor primeiro o "esqueleto" da música, ou seja, harmonia e melodia. E quando vou levar uma das minhas composições para algum grupo que faço parte, ai escolho a música que mais tem a ver com aquelas pessoas que vão tocar e dependendo da proposta do grupo penso em um arranjo, ou então só o "esqueleto" da música já é o suficiente quando a proposta é ter mais liberdade para criar e improvisar sobre o tema. Dessa forma o tema e a forma da música viram nosso espaço para criação e o arranjo vira coletivo e inédito a cada vez que for executado.

RC- Existe uma grande gama de formações instrumentais em que você atua seja gravando ou em situações de concerto. Quais dicas você daria para os baixistas que talvez trilhem por este caminho?
BM-
Acho muito importante para qualquer músico que queira lidar com improvisação, estar sempre tocando em formações diferentes e com gente diferente. Essa foi e continua sendo minha maior escola, tocar cada noite com um grupo diferente e com um repertório diferente. Isso me fez perceber que independente da formação ser a mesma ou não, se os músicos são outros, eu tenho que tocar sempre diferente, cada grupo é um grupo, mudando uma pessoa, muda o som do grupo e meu objetivo é estar cada vez mais aberto e sensível para tocar o que a Música pede, claro, quando o trabalho que estou fazendo me dá a liberdade para isso.

Por exemplo, ultimamente estou tocando no trabalho de 3 grandes guitarristas de São Paulo, Michel Leme, Djalma Lima e Chico Pinheiro. Os grupos são na mesma formação, guitarra, baixo, piano, e bateria, porém não posso tocar igual com os 3 grupos, e isso não tem a ver com personalidade, meu som continua lá, nos 3 grupos, mas tenho que respeitar o que cada música pede pra eu fazer como baixista. Talvez uma das principais mudanças de um grupo para o outro pra mim seja o baterista, minha primeira preocupação é em tocar e pulsar junto com o baterista, isso já de cara muda o som de qualquer grupo. Mas para chegar na gig o mais preparado e aberto possível para fazer Música, tenho que estar sempre ouvindo muitos discos, quanto mais referências do estilo melhor, com diferentes formações, diferentes músicos. Se gravar é uma parte muito importante também, gravar as gigs e se gravar estudando, enquanto estamos tocando ouvimos as coisas diferentes e não conseguimos ouvir realmente como está soando, essa escuta depois esclarece muita coisa pra mim, é um processo de autoconhecimento e tem que ser muito sincero consigo mesmo. Mas não é pra se gravar e depois ficar postando vídeos no Youtube estudando no quarto para todo mundo ver que você estuda e ganhar elogios e "curtidas", estudar não é nada mais do que a obrigação, é como publicar vídeos escovando os dentes ou indo ao banheiro.

RC- O teu CD chamado "In Set" possui sete músicas executadas por um septeto. Eu gostaria que você discorresse sobre o título deste trabalho.
BM-
O nome In Set veio de um grupo que eu formei no ano em que me mudei pra São Paulo em 2004, chamado Quarteto In Set. A gente se reunia pra tocar composições próprias e estudar juntos basicamente. Em 2006 cada um seguiu para um lugar diferente para continuar os estudos de música, e eu fiquei em São Paulo e comecei a tocar e conhecer muitos músicos diferentes todos os dias. Continuei compondo e como exercício comecei a escrever arranjos para as minhas músicas, para a formação de septeto, baixo, guitarra, bateria e 4 sopros (sax tenor, sax alto, trombone e trompete). Depois de fazer os arranjos fui obrigado a chamar os caras para tocar e ver como soava aquilo tudo. O septeto tocou algumas vezes em São Paulo, e em 2009 resolvi gravar aqueles arranjos, e quando me dei conta eram 7 arranjos, 7 músicos e o "In Set" caiu perfeitamente para o nome do disco, tanto pelo trocadilho sem vergonha para o "Em Sete" quanto na tradução do inglês, não sei se usam mesmo essas palavras dessa maneira, mas a tradução literal seria "Em conjunto".

RC- No encarte deste disco você disse que em 2007 foi “quando tudo realmente começou” em sua carreira musical. Fale mais sobre este início e o que mudou de lá para cá?
BM-
É claro que as coisas realmente começaram bem antes, desde que decidi que queria ser músico aos 11 anos. No começo tocava em bandas de rock, ensaiava bastante, me juntava sempre com amigos que tocavam outros instrumentos e meus primeiros trabalhos foram dando aulas de baixo e violão para alguns amigos do colégio. Quando terminei o colégio, sai de Campinas e me mudei para São Paulo para estudar música. Tive aula com grandes músicos que hoje em dia se tornaram grandes amigos e parceiros musicais como Vitor Alcântara, Daniel D'Alcântara, e dentre eles o que considero meu pai musical, o baterista Bob Wyatt. Cheguei a fazer um sub no quarteto do Bob logo no ano que cheguei em São Paulo, na época eu ainda nem tocava baixo acústico, comecei a estudar acústico no final no mesmo ano, no final de 2006 o Bob me convidou para entrar para o quarteto, que era com o Djalma Lima na guitarra e o Edson Santanna no piano. Então o ano de 2007 foi realmente muito importante porque fizemos uma temporada quinzenal com o quarteto do Bob que durou o ano todo, e paralelo a isso eu entrei para a Soundscape Big Band e também para o quinteto do Djalma Lima, além disso, foi o ano que toquei pela primeira vez com caras que eram referencias pra mim e que continuo tocando junto até hoje como Michel Leme, Cuca Teixeira, Edu Ribeiro, Alex Buck, dentre outros. Enfim, de lá pra cá basicamente o que mudou é que agora nem sempre eu sou o mais novo da gig (risos). Continuam surgindo grandes jovens músicos em São Paulo e é bom poder aprender com os mais velhos e com os mais novos agora também. O que continua igual e acredito que sempre vai continuar é a busca insaciável pela Música.

"... minha primeira preocupação é em tocar e pulsar junto com o baterista ..."

Bruno Migotto - CD In Set
RC- Todas as representações do septeto como bancos, copos, lâmpadas feitas pela Luda Lima na arte gráfica do CD foram propositais? Existe esta relação do visual com o sonoro nesta produção?
BM-
Sempre gostei muito de discos que tenham um conceito como um todo. Na parte musical me preocupei muito nesse sentido nesse disco, e queria que tivesse isso na arte gráfica também. Uma vez estava em Brasília e fui em uma exposição que eram fotos da Europa em preto e branco e os artistas continuavam as fotos desenhando a mão, e um desses artistas era a Luda Lima. Na época estava realmente procurando alguém para fazer a arte para finalizar o disco que já estava gravado. Me lembro de conversar com a Luda e eu não tinha a menor ideia de como queria a arte, só gostaria de explorar mais esse assunto do número 7, não tenho nenhuma ligação com a numerologia, só achei divertido mesmo. Dei o disco para ela ouvir e ela veio com a ideia toda da arte.

RC- Na música "Paz de Cristo" é possível supor alguma relação desta composição com o teu lado espiritual. Diga o que pensa em relação a música neste contexto.
BM-
A Música é o meu lado espiritual. O exercício de "matar" o ego, amar a Deus acima de todas as coisas, e amar ao próximo, isso é tocar, ou pelo menos acredito que deveria ser. Tocar para a Música acima de todas as coisas, tocar com e para o grupo, e "matar" o ego, por razões óbvias. A música no contexto religioso é de cada um, eu estou interessado no contexto espiritual da Música.

RC- Fale sobre o Blues que em alguns momentos "não parece" na forma da música “Quase Roxo”.
BM-
Essa é a música mais antiga do disco, fiz ela em 2005. Ela foi feita em cima da forma e da harmonia do blues de 12 compassos, mas a melodia eu realmente quis que fugisse daquela linguagem do blues. No disco eu fiz um arranjo com uma intro, e a melodia é tocada duas vezes, uma com a harmonia do blues e a outra reharmonizada, então ficou menos parecido com o blues ainda, é daí o nome "Quase Roxo".

RC- Você tem o hábito de compor junto com algum instrumento específico? Fale sobre este processo.
BM-
Por muito tempo usei o violão como instrumento harmônico para compor e escrever arranjos, para o disco In Set tudo foi escrito com o violão. Mas de uns anos pra cá tenho estudado bastante piano e agora uso o piano pra praticamente tudo, as possibilidades no piano são maiores, e a visualização mais fácil também. Acho que todo músico deveria estudar piano. E para o baixista em especial, saber reconhecer um acorde no piano ou na guitarra é essencial, e se ainda não consegue reconhecer ouvindo, é muito útil reconhecer pelo menos olhando para o braço da guitarra ou a mão esquerda do piano, isso facilita muito as coisas na hora de tocar ou para aprender uma música na hora, situação que acontece bastante tocando na noite.

"A Música é o meu lado espiritual."

Bruno Migotto RC- Reunir sete músicos é bastante difícil. Muita gente passou pela formação do teu septeto. O que contribuiu para chegar aos músicos que gravaram o CD?
BM-
Realmente, reunir sete músicos sempre foi a parte mais difícil de todo o processo. Desde o começo quando pensei no septeto eu tinha em mente a formação que gravou o disco, que são: Michel Leme, Alex Buck, Daniel D'Alcântara, Cássio Ferreira, Josué dos Santos e Jorginho Neto. São todos músicos que tenho uma amizade e afinidade musical muito grande e eu já vinha tocando bastante com todos eles em diversas situações diferentes. Porém só fui conseguir juntar todos eles mesmo no dia da gravação. Sempre tinha um ou outro que não podia, então as formações foram variando um pouco nas gigs, mas por sorte, estou cercado de grandes músicos e amigos que sempre quebraram tudo no som e todos contribuíram muito para o resultado final do disco.

RC- Neste trabalho existe uma presença bastante marcante dos instrumentos de sopro como sax, flauta, trompete, trombone, etc. Me diga como você procedeu nos arranjos destes instrumentos.
BM-
Desde que entrei na Soundscape Big Band em 2007 e comecei a fazer subs em outras big bands, minha convivência com músicos de sopro aumentou muito. E quando pensei em montar um grupo maior, quis aproveitar a situação para começar a aprender a escrever para esses instrumentos. Na hora de escrever os arranjos, o conceito não foi muito de escrever blocos para os sopros (harmonias a 4 vozes), me preocupei mais nas combinações dos timbres, e em contrapontos muitas vezes de duas vozes mesmo. E a grande preocupação para esse disco foi em equilibrar arranjo e improvisação. Todos os músicos que chamei são grandes improvisadores e solistas, então tive o cuidado de não prende-los demais com os arranjos. O resultado final é que a composição e os arranjos são menos da metade do disco, o som do disco é principalmente feito pela maneira como o grupo toca e cria junto em cima das composições.

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