Entrevista com Bruno Tessele

Bruno Tessele, baterista e compositor fala sobre a produção do seu CD intitulado "Adelante", comenta sobre interação e improvisação musical, timbre e arranjo, espaços para concertos, seus estudos e muito mais.

Rodrigo Chenta- Fale sobre o título "Adelante" e a arte da capa deste CD.
Bruno Tessele-
Tudo bem, Rodrigo? Primeiramente, obrigado pela oportunidade.

Quanto ao nome do disco, "Adelante", é o nome de uma das faixas do álbum, e me traz a ideia de seguir sempre em frente, a diante, apesar de todas as dificuldades que a vida pode colocar na nossa frente. Se refere a alguns problemas muito graves de saúde que passei e consegui superar. Além disso, o fato da palavra ser em espanhol me leva um pouco para a terra onde eu nasci, a cidade de Alegrete, que fica quase na fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina.

A arte do álbum foi feita pelo amigo Jean Rafael Ehrat. Tentamos expressar um pouco do que foi a minha vida e de como ela é nos dias de hoje. Na capa tem uma foto minha com um efeito de dupla exposição com uma imagem de alguns prédios da cidade de São Paulo (cidade que adoro e escolhi viver) saindo das minhas costas, o que para mim representa um pouco o fardo que é viver em uma metrópole como esta. Além disso, tem imagens de algumas árvores e folhas da erva mate (erva que se usa no chimarrão, típico da cultura gaúcha), o qual tenho o habito de tomar diariamente, e também remete às minhas origens.

Acredito que no som há esta mistura de influências, oriundas das coisas mais gauchescas e das experiências que tive no Rio Grande do Sul, somadas a toda a minha busca musical na cidade de São Paulo.


RC- Como foi a pré-produção deste álbum?
BT-
Nós fizemos um ensaio antes da nossa primeira apresentação (que foi no meu recital de formatura na Faculdade Souza Lima) apenas para ler as músicas e entender as formas. Eu já tinha na cabeça a ideia de gravar um disco. Logo depois desta apresentação, o Michel virou pra mim e disse: "precisamos gravar isso". Naquele momento, eu tinha o plano de gravar o meu outro projeto autoral chamado "Bronco Trio", mas o destino acabou trazendo algumas questões que impossibilitaram isto de acontecer, então, foi o caminho natural gravar o quinteto.

O próximo passo foi tocar bastante ao vivo. Marquei várias datas nas quais tocamos sempre o mesmo repertório para tentar aprofundar ao máximo o som e tentar achar todas as "texturas" e ideias que poderiam surgir nas músicas a ponto de torná-las naturais a todos, quase como standards, para podermos improvisar e criar climas de acordo com o que acontecia no momento, sem combinar e pré-determinar muita coisa.

Gravamos o disco em um dia (31 de maio de 2017) no estúdio Costella, com a captação do Chuck Hipolitho. Tocamos ao vivo, na mesma sala, sem fones, com os vazamentos naturais que ocorrem nestas situações. Além disso, não corrigimos nada com edições, o que se escuta é o que foi tocado no dia. A gravação é uma representação fiel de como tocamos. Dessa maneira foram gravados a maioria dos discos que eu adoro e ouvi minha vida inteira e acredito que nestas situações, principalmente quando estamos lidando com improvisação, o quanto mais natural e real for o ambiente onde estivermos gravando, maiores são a interação e a conexão que rola no som. Outra questão é que praticamente todos os takes que valeram foram os primeiros gravados, apenas na faixa "Adelante" usamos o segundo take.

O disco foi mixado e masterizado nos Estados Unidos e acredito que chegamos em um resultado bem fiel ao que eu tinha na cabeça.

RC- O timbre tem uma grande importância e logo na faixa de abertura "Johnny is dark" há um curioso som juntamente com o contrabaixo. Fale sobre o assunto.
BT-
Quanto aos timbres, no geral, buscamos o mais natural possível, sem muita compressão e efeitos. Não usei (e geralmente não uso) nenhum tipo de abafamento na bateria, a não ser uma toalha na pele batedeira do bumbo, no qual eu uso uma pele sem furo na resposta.

Especificamente na faixa "Johnny is Dark", o Bruno Migotto (baixista) usou pedais com uns efeitos, antes de entrarmos no tema da música, que criaram um clima meio espacial. Optamos por isso no próprio dia da gravação e demos uma mudada no arranjo da primeira exposição do tema da música, deixando os sopros mais espalhados, um respondendo ao outro.

"... não corrigimos nada com edições, o que se escuta é o que foi tocado no dia."

Bruno Tessele RC- Ficou interessante a estrutura formal de improvisação na música "Huh" onde acontece um intercâmbio entre trompete e saxofone e no final o solo de bateria mais presente nas partes "A" deste tema. Como define quem improvisa em cada composição?
BT-
Nas apresentações ao vivo que fizemos antes de gravar, fomos testando os instrumentos que funcionariam melhor para improvisar em cada música. Geralmente, ao vivo, deixamos isso mais à vontade para mais músicos solarem em cada música. Para colocar no disco, ao invés de termos que combinar o número de chorus em que cada um deveria solar, optei por definir menos solistas para cada música, para que cada um conseguisse desenvolver o seu solo sem ter que cortar no meio, preocupado em não ficar muito grande.

A ideia de o Bruno Belasco (trompete) e o Lucas Macedo (saxofone) intercalarem seus solos, surgiu ao vivo e os dois fizeram isso naturalmente sem ninguém falar nada. Acho que dá um frescor para a faixa e cria um interesse a cada troca de solista. Muitas vezes as melhores ideias são as que surgem naturalmente, sem ser algo pré-concebido.

Quanto ao solo de bateria, seguimos a forma da música, AABA, o que aconteceu no take do disco foi que quando eu passei pelos "Bs" eu dei uma baixada na dinâmica e deixei um espaço para dar uma respirada no som. Mas isso rolou no improviso deste dia, cada vez é de um jeito.


RC- Na música "Anja" há apenas a guitarra e o flugelhorn. Isso é curioso e mostra a prioridade da composição e arranjo, pois não precisou de outros instrumentos. Como é o teu processo de arranjo?
BT-
Quanto a faixa "Anja", o que se ouve no disco foi a primeira vez que o Michel Leme (guitarrista) e o Belasco tocaram a música. Eu fiz ela para a minha esposa, e havia uma certa responsabilidade natural na homenagem (rs). Havíamos tentado tocar uma primeira versão dela ao vivo, mas não havia rolado, eu achei que o último "A" havia ficado meio forçado. Fiquei com ela meio travada por mais de meses, bati muitos papos com o Michel sobre ideias gerais de composição, e sentei novamente com a música um dia antes de gravar o disco e a finalizei.

O fato de serem apenas os dois instrumentos foi uma maneira de dar uma relaxada no meio do disco, e acho que funcionou bem nesta música. Me sinto contemplado em estar na faixa como compositor e admirar os amigos tocando com a excelência deles.

Sobre os arranjos, estes já vêm meio prontos em cima da composição. Já penso no clima que quero para cada música. Já tendo as ideias na cabeça, parti para abrir as vozes para os sopros e definir quem tocaria a melodia. Em algumas músicas defini o tipo de acompanhamento, onde a harmonia entraria e, nas músicas nas quais achei necessário, escrevi algumas linhas de baixo, além disso, defini os solistas para cada faixa na gravação.

No geral tento deixar bastante coisa livre para ser criada na hora. Tocando com caras do nível destes queridos que gravaram o disco, não preciso me preocupar em combinar ou dizer muita coisa, é mais inteligente deixar que eles coloquem a sua personalidade no som. O Duke Ellington, dizia que compunha e arranjava já pensando nos músicos que tocariam as músicas, acho que esta ideia funciona neste quinteto também. Quando chamei os caras eu já sabia o que eles poderiam fazer com as músicas e que tipo de sonoridade trariam para o grupo.


RC- O desenvolvimento da música "Milonga do Adeus" possui uma parte mais solta onde os músicos improvisam com mais liberdade. Fale sobre esta estética.
BT-
Esta música é uma homenagem póstuma a um grande amigo argentino que faleceu há uns 2 anos (Norberto Feijó) e ela tem um clima meio espiritual pra mim, é meio que uma meditação. Geralmente nas apresentações ao vivo a gente abre com esta música, como que tentando dar uma desligada no dia que passou e nos problemas e trazer todos para dentro do som.

Testei algumas versões de solos para ela, mas chegou em um momento em que vi que não faria sentido abrir para solos em cima de uma forma. Acabei optando por deixar apenas uma ponte, totalmente livre, sem harmonia definida entre um tema e outro, com todos os músicos criando um clima.

"Muitas vezes as melhores ideias são as que surgem naturalmente, sem ser algo pré-concebido."

Bruno Tessele - Adelante
RC- Em relação à improvisação como você encara o conceito de interação musical?
BT-
Considero o improviso uma das coisas mais interessantes na música e algo que sempre tentei desenvolver e aplicar, independente do estilo em que estivesse tocando. E principalmente quando se trata de um som influenciado pelo Jazz, isto se torna um ponto central no som.

Quanto a interação entre os músicos, desde a década de 60 (quando surgiram grupos como o segundo quinteto do Miles Davis, o quarteto do Charles Lloyd, o grupo do Ornette Coleman, entre tantos outros) ficou cada vez mais importante a interação entre os músicos e não apenas a cozinha "acompanhando" um solista.

É mais ou menos com este espírito que tento tocar, sempre ligado no que está acontecendo no som para poder reagir ou sugerir novas ideias enquanto o som está rolando. Sinto que todos os músicos do quinteto buscam isto também, tocando, ouvindo e interagindo com o que está rolando no momento.


RC- Existem aqueles que defendem que ela não existe realmente. Qual a sua visão sobre o assunto?
BT-
Acho que é uma questão de conceito, do que estamos chamando de improvisação. Para mim improvisação é um discurso sendo criado na hora, mas, obviamente, baseado em conhecimentos prévios, como uma linguagem oral, onde conhecemos a gramática, as sílabas e palavras, mas, o assunto e como isto será contado, é criado na hora.

RC- É comum atualmente muitos músicos lançarem suas produções somente no formato digital. Por que optou por fazer no formato físico de CD?
BT-
Acredito que estamos no meio ou no final de uma fase na qual o CD ainda é importante. Além disso, este é o meu primeiro disco e fez sentido para mim ter a cópia física, foi assim que tive contato com todos os sons que ouvi e ter a cópia física deste meu som é uma grande realização pessoal.

Parece que a "indústria" decidiu que o CD vai acabar e assim será, não temos força para lutar contra isso. Hoje em dia os carros e computadores já estão vindo sem leitor de CD, tudo virando digital, não palpável. Acho que isso é muito perigoso e afasta ainda mais o público do artista. Agora ouve-se música em mp3 de baixíssima qualidade em aplicativos de "streaming", com a imagem minúscula da capa, sem informação nenhuma dos músicos que gravaram o disco, quem produziu, quem fez a capa, onde foi gravado, etc.

E acho que a música, nesta fase de digitalização, perde muito mais do que o cinema, por exemplo. Em sites como o Netflix, temos os nomes dos atores, diretor, sinopse do filme, além disso, a qualidade da imagem digital que acessamos é no mínimo a mesma do DVD ou até melhor, com alguns conteúdos em full HD.

Mas é uma realidade, sempre existem interesses econômicos dos poderosos que mandam em tudo o que acontece ao nosso redor e a música, infelizmente, entra nessa e cada vez mais é usada apenas como pano de fundo para o dia-a-dia da população.


RC- Existem pessoas que tem uma ideia mais pessimista em relação aos espaços para a música instrumental em São Paulo. Como você entende esta questão?
BT-
Existem muitos lados desta estória. Eu, vindo do interior do Rio Grande do Sul, se comparar com a quantidade de espaço que havia lá, certamente aqui em São Paulo tem muito mais espaço, e não vejo outra cidade do Brasil onde eu poderia viver tocando o tanto que toco aqui, principalmente, som instrumental.

Mas, ouvindo as estórias dos músicos que viveram nos anos 70, 80 aqui na cidade vemos que, em termos de trabalho, já rolou muito mais coisa.

Me parece que cada vez mais temos que tentar criar os próprios espaços e projetos para conseguirmos tocar fora do circuito "tradicional", e este circuito tradicional parece que cada vez está pagando cachês mais baixos e com mais exigências que vão tirando a liberdade do som que está sendo feito, tipo armar tributos ou homenagens a determinados artistas. Parece que o interesse por ouvir o que você realmente tem de seu a mostrar, está diminuindo, talvez porque, economicamente, por exemplo, seja mais viável colocar no cartaz o nome do Miles Davis como se isso fosse uma grande ideia, super inovadora, e tocar standards que foram tocados pelo trompetista, ao invés de apresentar algo mais pessoal.

Por outro lado, tem muita gente fazendo som, muita gente correndo atrás de tocar e evoluir e existe sim uma cena na cidade de muitos músicos tocando e rodando por aí.


RC- Fale sobre os teus estudos em Boston na Berklee College of Music. Como foi esta experiência?
BT-
Fui para a Berklee em 2005 depois de viver um ano em São Paulo. Cresci ouvindo estórias da escola, de músicos que foram para lá para tocar ou estudar, e me parecia um sonho muito distante a ideia de ir pra Boston. Corri atrás desta oportunidade e ganhei uma bolsa, através do programa "World Scholarship Tour", e isto me possibilitou ir.

Quanto à escola, sinceramente, eu acabei me decepcionando. Eu estava esperando estudar a fundo o lance do Jazz e me pareceu que naquele momento a escola estava muito mais "aberta" musicalmente, com alunos interessados em todo tipo de música e em carreiras musicais, o que poderia ser legal, mas não funcionava para o que eu queria. Além disso, a escola é gigante, com muitos professores, e muitos alunos, o que deixa a coisa um pouco mais burocrática e menos pessoal.

Mas, a experiência na cidade, na qual fiquei um ano, foi ótima, aprendi muito, fiz aulas particulares e toquei com excelentes músicos, além da proximidade ter me permitido conhecer Nova Iorque.

"Parece que a "indústria" decidiu que o CD vai acabar e assim será, não temos força para lutar contra isso."

Bruno Tessele RC- Você se formou como bacharel em composição aqui no Brasil. No que este curso te mudou para melhor?
BT-
Me formei ano passado na Faculdade Souza Lima. O curso me ajudou, principalmente, nos estudos de harmonia e composição. A carga horária é super puxada, então foi um esforço muito grande conseguir levar a faculdade e seguir tocando e estudando bateria. Além disso, o recital de formatura foi a estreia do quinteto.

RC- Existe alguma linha específica de pensamento em relação à metodologia que usa para o ensino da bateria?
BT-
Assim como tocando, ao dar aulas tento não me prender muito a regras e pré-definições quanto a como devem ser as coisas. Busco ser o mais específico possível, tentando encontrar o melhor caminho para cada aluno, escutando suas vontades, dificuldades e facilidades.

RC- Você já publicou alguns estudos na revista "Modern Drummer". Como funciona este processo de escolha do que publicar?
BT-
Cada um dos colunistas escreve em média, 2 lições por ano. Quanto ao material a ser publicado, a revista me deixa totalmente à vontade para escrever sobre o assunto que eu desejar. Sendo assim, costumo escrever coisas que estou estudando, ou estudei, e percebi que me ajudaram a me desenvolver no instrumento. Algumas lições foram baseadas em informações que me foram passadas por professores, mas a maioria são estudos que eu mesmo criei para melhorar algo que eu percebia que não estava rolando. Para algumas destas lições eu gravei vídeos de apoio para torna-las mais claras.

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