Entrevista com César Roversi

César Roversi, saxofonista e compositor fala sobre sua formação, os arranjos e composições do seu disco intitulado "Entre Linhas", um álbum onde o tradicional dialoga com o contemporâneo, fala sobre sonoridades e muito mais.

Rodrigo Chenta- Conte como você iniciou no mundo da música e fale sobre a tua formação.
César Roversi-
Olá Rodrigo,

Primeiramente, gostaria de agradece-lo pelo convite, é uma grande satisfação poder falar de momentos significativos da carreira e da vida.
Iniciei aos 7 anos de idade, na banda municipal da cidade de Leme, minha cidade natal, e onde vivi até os 20 anos. Devido a bronquite e asma, os médicos aconselhavam exercícios respiratórios, então, meu pai me levou para ter aulas de musica na banda da cidade. Foi uma grande surpresa para mim, pois já tinha um enorme interesse em participar das aulas de violão que meu irmão mais velho frequentava, mas devido à pouca idade, não era possível. Chegando à sede da banda, vi que teria aulas de música com um tio-avô, e surpresa ainda maior foi ver que ele era o maestro, que até então não tinha conhecimento.

Entrei na banda tocando clarinete, me matriculei no conservatório de Tatuí, no curso de clarinete erudito em 1994, mas abandonei o curso no ano seguinte para tocar saxofone em bandas de baile no interior paulista, nas quais viajava muito, e me proporcionou um grande aprendizado.

Em 1996, aos 16 anos, voltei para a banda de Leme, e lá buscava informações sobre improvisação. Foi através de um grande amigo de infância, que se tornara maestro, que tive contato com o be-bop: a trilha sonora, em vinil, do filme BIRD... E pensei: é isso que quero fazer.

Aos 17, entrei no curso de saxofone - música popular – novamente no conservatório de Tatuí, onde tive como principal professor, Vinícius Dorin.

Durante o curso, tive muitos contatos com outras áreas musicais, o que despertou interesse pela música erudita. Ingressei no curso de saxofone erudito, no qual me formei, juntamente com o curso de música popular.

A formação acadêmica se concluiu na FAMOSP – bacharelado em saxofone, no ano de 2002.

RC- Ao atuar na execução dos instrumentos saxofone e flauta o que é necessário para que um não seja tocado com a "linguagem" do outro de forma não proposital?
CR-
Sobre "linguagem" musical, não influencia muito, pois por serem muito diferentes, acabamos buscando o idiomatismo do instrumento. O que influencia consideravelmente é a parte técnica. Busquei a flauta como instrumento complementar, a fim de proporcionar maiores recursos de sonoridade em arranjos com grupos grandes, como big bands.

"Busquei a flauta como instrumento complementar ..."

César Roversi RC- Ao todo, três composições de sua autoria foram gravadas e inseridas em dois álbuns do grupo Mente Clara. Como funcionou o processo de arranjo destas músicas para o quinteto?
CR-
No Mente Clara, muitos arranjos eram feitos coletivamente nos ensaios. Chegávamos com uma composição e uma idéia de arranjo, e essa idéia era trabalhada por todos, e muitas vezes contestada também. Ensaiávamos muito, três vezes por semana, e tinha ensaios que duravam 3 horas de manhã e 4 horas à tarde, no mesmo dia. Experimentávamos muito na improvisação, na interação da base com solista, e em arranjos também. Foi a maior experiência musical que tive, e carrego todo aprendizado daquela época, inserindo-os nos meus trabalhos atuais.

RC- O teu dinamismo engloba tanto o ambiente sinfônico como o de big bands e grupos menores. Como funcionam os momentos de interação nestas formações instrumentais?
CR-
É preciso conhecimento e estudo direcionado. Cada formação tem suas especificidades, e o principal é ter sensibilidade e senso de coletividade, buscando sempre potencializar o som, a música e o grupo. A sonoridade do saxofone tem de se moldar ao grupo, à intenção musical/estilística. Saber qual a função que está ocupando no momento também é importante: quando é solista, quando está tocando em naipe, quando está tocando com outros instrumentos que não são do naipe, função de linhas de baixo, de harmonia, de efeitos. É preciso se moldar a cada situação e saber se colocar com musicalidade e bom gosto, sempre contribuindo de maneira agregadora, amalgamando-se à sonoridade.

RC- Como se deu a tua participação na música "Tenebroso" de Ernesto Nazaré no método "Choro para Big Bands" gravado pela Orquestra Fervorosa e lançado pela Choro Music? Fale sobre este material.
CR-
Através do produtor desse projeto, Paulo Serau, fui convidado a ser o solista dessa faixa.

Os projetos da Choro Music são muito importantes como referência no estudo do choro, e participar desse projeto como solista precisa ter seriedade e responsabilidade, pois será referência para os músicos que procuram o aprendizado e aperfeiçoamento no estilo.

O Material didático é de qualidade, permite que o estudante tenha referência auditiva e visual, através das gravações e partituras, e ainda abre espaço para o estudante trabalhar sua própria interpretação, devido aos playbacks, todos executados por músicos, não por meio de reprodução eletrônica.

RC- O teu primeiro álbum solo tem o título de Entre Linhas. Porque este nome?
CR-
"...Sabendo que Pixinguinha andava muito mal das finanças, Benedito propôs a seguinte parceria: ele ficaria com a metade das autorias das músicas de Pixinguinha e em troca arranjaria shows e gravações para a dupla. O resultado foi uma linda dupla de contraponto, em que o saxofone de Pixinguinha respondia à flauta de Lacerda..." (http://www.pensario.uff.br).

A idéia do projeto, inspirada em Pixinguinha, é trazer de volta o sax-tenor na posição de "contrapontista", desenvolvendo instantaneamente contrapontos sob melodias executadas pelos solistas convidados.

Contraponto são duas melodias de igual importância que, executadas simultaneamente, evidenciam a harmonia. No CD Entre Linhas, executo ora os contrapontos, ora as melodias, além de abrir espaço à improvisação também. Por essa frequente troca de posição com solista e "contrapontista", surgiu o nome Entre Linhas.

"É preciso se moldar a cada situação e saber se colocar com musicalidade ..."

César Roversi - CD Entrelinhas RC- Ao escutá-lo é notória a maestria na execução das composições. Este trabalho teve a direção do grande músico do choro Zé Barbeiro, conte como foi trabalhar com ele e no que foi a sua maior contribuição?
CR-
Conheci o Zé no bar Ó do Borogodó através da Roberta Valente, que me proporcionaram as maiores experiências com choro e samba, são grandes músicos e professores.

O Zé tem um jeito de trabalhar que explora o músico ao máximo, garantindo a alta performance. Além disso, é um dos maiores chorões, violonistas, músicos e compositores do país, com profundo conhecimento e vivência do tradicional, se permitindo explorar novos sons, de caráter moderno, com muito embasamento. É um músico tradicional e moderno ao mesmo tempo, exatamente o que busquei na sonoridade do Entre Linhas.

Nenhum erro escapa dos ouvidos do Zé Barbeiro, e como ele conhece o jeito de tocar de cada um dos músicos que participaram no CD, soube orientar para que a execução e musicalidade fossem de excelência. Sem contar que ele foi referência na vida de cada um ali.

RC- Como foi o processo de escolha dos músicos que gravaram o CD com você?
CR-
Somos parceiros, grandes amigos e são músicos pelos quais tenho profundo respeito e admiração, pois todos me ajudaram no desenvolvimento e no aprendizado do choro.

Os quatro músicos da base já tocam juntos há bastante tempo, e se conhecem muito bem, pessoal e musicalmente, o que dá unidade ao som. Também são músicos que correspondem com a idéia do CD, tradicionais com abertura para a exploração do novo.

Os solistas convidados são minhas grandes referências, meus ídolos.

RC- É bastante evidente a sonoridade de Pixinguinha e Benedito Lacerda neste trabalho. No que estes músicos mais te inspiram?
CR-
Na forma de interpretação e improvisação, onde a sonoridade e criação não se afastam do gênero musical, e também na forma que eles exploravam seus instrumentos, de maneira original.

"... uma boa performance muitas vezes se consegue mais ouvindo do que tocando."

César Roversi RC- A música "Clara Mente" foi gravada apenas com o acompanhamento de outros dois instrumentos de corda. Quais são os cuidados ao executar obras com este andamento e formação instrumental?
CR-
Essa música, especificamente, tem andamento livre, que chamamos de Ad Libitum, muito frequente em grupos de música de câmara.

Para responder essa questão, gostaria de lembrar uma frase de um grande amigo: uma boa performance muitas vezes se consegue mais ouvindo do que tocando.

Parece simples, mas é frequente alunos se preocuparem demasiadamente com o desenvolvimento técnico em uma apresentação, voltando toda a atenção a si mesmo, esquecendo que há outras pessoas fazendo um som com você.

A música é um ato coletivo, em um grupo, todos têm igual importância. Se estiver sempre ouvindo, atento às nuances que cada músico explora em seus instrumentos, dando liberdade à criatividade, muitos problemas serão automaticamente resolvidos.

RC- O tradicional e o contemporâneo dialogam livremente na música "Misto Quente" dentre outras. Como foi elaborada a concepção dos arranjos do disco?
CR-
A música "Misto Quente" é do Proveta, que já chegou com o arranjo pronto, tudo escrito para cada músico, e foi sensacional. Algumas outras músicas, como "No Fio da Navalha', têm arranjos mais elaborados, mas a maioria foi concebido de uma forma em que todos pudessem criar de acordo com o gênero musical. O que deu mais trabalho foi a harmonia, uma vez que os arquétipos harmônicos utilizados nas composições não são encontrados nos choros tradicionais, mas os músicos resolveram rapidamente e com maestria, alcançando um resultado superior às minhas expectativas.

Quero agradecê-lo novamente por ter aberto este espaço, muito importante aos músicos e pesquisadores da música, e também parabenizá-lo pelo trabalho que tem feito, que permite-nos expressar nossas idéias, contribuindo para a divulgação de nossa música.

Grande Abraço.

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