Entrevista com Christiano Rocha

Christiano Rocha, autor do livro "Bateria brasileira" fala sobre docência musical, a produção do seu CD solo intitulado "Ritmismo", composição na bateria, repertório e muito mais.

Rodrigo Chenta- Você convidou uma grande quantidade de músicos para participarem neste projeto. Como foi a pré-produção desta gravação e a organização de todo este pessoal?
Christiano Rocha-
Ótimos músicos, na verdade. Acho que o "mais fraco" do disco é quem assina o trabalho, ou seja, eu! Cada faixa teve uma história diferente. Algumas das músicas eu toquei durante anos, então muitas já estavam prontas. Outras foram tomando forma ao longo do tempo e levaram meses para finalizar. Como gravei o material do disco ao longo de dez anos, foi relativamente fácil organizar quem tocaria o quê. Difícil foi a logística de conciliar as agendas dos músicos, do estúdio e minha.

RC- No encarte do CD consta que este trabalho "apresenta crônicas musicais gravadas entre 1996 e 2007". Porque um espaço de tempo tão grande?
CR-
Perfeccionismo, falta de pressa e, em alguns períodos, de verba para tocar o projeto adiante.

RC- Ouve algum imprevisto no processo de produção deste projeto?
CR-
Fora a eventual falta de grana, não.

"Queria, antes de tudo, fazer um disco que conseguisse escutar."

Christiano Rocha RC- As composições são obras de diversos autores como Zezo Ribeiro, José Roberto Gaia, Cláudio Machado, Wander Taffo, Fábio Augusto, além das tuas próprias. Como foi o processo de escolha do que iria entrar para o repertório final?
CR-
As músicas foram aparecendo naturalmente. A única música encomendada foi "Ritmismo", do Zezo Ribeiro, que foi a última a entrar no disco.

RC- Cada música apresenta um breve texto no encarte que pode contribuir com alguns pequenos detalhes para quem escuta o CD. Fale sobre este procedimento que adotou.
CR-
Gosto de ler os encartes dos discos que compro, coisa que faço até hoje, inclusive leio até os agradecimentos. Acredito que um encarte bacana valoriza um disco, até porque isso aproxima o ouvinte do trabalho. Além disso, gosto de escrever.

RC- Descreva o que o disco "Ritmismo" representa para você.
CR-
Foi um dos sonhos que realizei, que era gravar um disco bonito e que levasse o meu nome. Queria, antes de tudo, fazer um disco que conseguisse escutar. Mesmo vendo ele como algo do passado, afinal ele tem quase dez anos, não posso negar que o disco representa boa parte do que sou como músico até hoje.

RC- Neste CD você falou sobre a dificuldade de fazer música na bateria "ainda mais em dias em que tocar esse instrumento... está mais para esporte do que para arte". Eu gostaria que discorresse sobre este assunto.
CR-
Vejo muita gente tocando o tempo todo num volume ensurdecedor e com milhões de notas por segundo. Uma hora isso cansa. Música também precisa respirar. Não acho que "menos é mais" sempre. Técnica é importante, acho aconselhável um músico ter desenvoltura para executar solos, tocar rápido, em diversos tipos de compasso, mas isso é apenas parte da música. Hoje em dia você olha o Facebook e às vezes aquilo parece um circo. Parece que tudo precisa ser inacreditável. Música para impressionar, não emocionar. Quer ver se um músico é realmente bom? Coloque-o para tocar um jazz, um rock ou um samba bem lento.

"... mais que educar, acho que um bom educador deve inspirar."

Christiano Rocha - CD Ritmismo
RC- Fale sobre a tua composição solo "Baião de três".
CR-
É baseada num ostinato de xaxado com um motivo em 3 por 8 no chimbal. Existem algumas partes em "Baião de Três", sendo que uma delas – um tema nos tambores – se repete, mas de forma desdobrada. Enfim, não é apenas um solo de bateria cheio de nota. E, felizmente, não é muito longo! Mesmo assim, é uma das poucas faixas que pulo quando escuto o disco, pois tenho uma tendência a achar solos exclusivamente de bateria, ou seja, sem acompanhamento, algo muito chato, principalmente quando sou eu quem fez o solo.

RC- O disco começou e terminou com a música "Cavalo de Troia", no entanto, com outro arranjo, formação instrumental e duração. Como surgiu esta ideia?
CR-
Sinceramente, não lembro o motivo de eu ter feito isso.

RC- Em 1996, você frequentou em Nova York, a escola Drummers Collective. Quais foram os aprendizados que mais marcaram este período?
CR-
Primeiramente que um músico não precisa estudar no exterior para tocar decentemente. Aliás, 90% dos músicos brasileiros que admiro, inclusive bateristas, não estudaram fora do País. Apesar de me arrepender de ter ficado dois meses estudando lá, a começar pelo investimento financeiro que rolou, acho que foi uma excelente experiência pessoal. Se pudesse voltar no tempo teria ido, mas ficado menos tempo (detesto neve!) e feito aulas particulares com alguns dos professores da DC, como Kim Plainfield, Mike Clark, Bobby Sanabria e Frank Katz, que são excelentes músicos.

RC- Quais são os diferenciais que possui o teu livro/método "Bateria Brasileira" lançado em 2006?
CR-
Na verdade é um livro, não um método. Quanto aos diferenciais do livro eu realmente não sei ao certo, pois tem muito material excelente que cobre o assunto "música brasileira na bateria". Só para citar alguns autores: Nenê, Sergio Gomes, Ramon Montagner, Kiko Freitas, Cássio Cunha, Pascoal Meirelles, Renato "Massa" Calmon, Andre Tandeta, Tito Oliveira, Vera Figueiredo e Daniel Oliveira e muitos e muitos outros.

"Música também precisa respirar."

Christiano Rocha RC- Em suas atividades como docente o que percebeu como sendo os equívocos mais corriqueiros cometidos por um estudante?
CR-
Cada um tem caminhos, objetivos, sonhos e limitações diferentes. Não sou um educador que costuma dizer "certo", "errado", então é delicado falar sobre erros que um estudante comete. Eu mesmo, que me considero um eterno estudante, cometo inúmeros erros. Na verdade, o erro faz parte do aprendizado, tanto no âmbito musical como pessoal. Em contrapartida, para não ficar tão vago, acho que é importante um músico TOCAR, principalmente com outros músicos. É bacana tocar tudo que é tipo de música com tudo que é tipo de músico. Esse é o melhor aprendizado, e não fazer isso talvez seja um erro que um músico não deva cometer. Também há uma série de coisas que – em minha opinião – precisamos nos dedicar, como: repertório, time, sonoridade, técnica, percepção, leitura etc. Bom, pensando bem, acho que um erro terrível é a pessoa achar que "já está", que é a "última bolacha do pacote". Aproveitando o ensejo, gostaria de dizer que tenho o hábito de conversar bastante com meus alunos que desejam seguir carreira na música, até porque sou educador e educação vai desde o "bom dia, obrigado e por favor", até o aspecto da conduta ética e do cuidado que todos nós devemos ter com o maldito ego, que todo mundo tem. Isso sem falar na questão musical e do mercado de trabalho, cada vez mais competitivo. Enfim, mais que educar, acho que um bom educador deve inspirar.

RC- Para quem deseja atuar com a bateria especificamente no repertório da música brasileira, o que fazer?
CR-
Escutar e tocar música brasileira. E, se possível, gostar.

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