Entrevista com Dani Mattos

Dani Mattos, cantora e regente fala sobre os projetos musicais "Cronistas da cidade", "Villa-Lobos para todos", o espetáculo "Vinícius, o poeta amador", comenta sobre o Espaço Cultural Caraiga, o grupo "Poucas e Boas" e muito mais.

Rodrigo Chenta- Parte de sua formação musical compreendem os cursos superiores de "Educação artística" e o de "Regência". Como estes dois estudos dialogam em sua carreira?
Dani Mattos-
Minha atuação como regente está profundamente ligada à questão da educação musical, à musicalização, enfim, ao aprendizado musical e artístico dos meus alunos-coralistas. Isso transparece nas apresentações que fazemos, sempre interativas e comentadas.

RC- Você atua com várias pesquisas em projetos diversos. Como procede em relação às metodologias usadas?
DM-
Na verdade não há uma metodologia específica. O que acontece primeiro é a vontade irresistível de conhecer, me debruçar sobre certo período ou fenômeno histórico e social, sempre do ponto de vista artístico que é o meu por natureza. Essa vontade me faz ir à fundo nas minhas pesquisas, fico tomada por questões que vão aparecendo, não consigo pensar em outra coisa, tudo o que vejo, relaciono com o assunto da minha pesquisa. Daí vão aparecendo personagens, artistas que viveram naquele período. Eles abrem caminho para o meu entendimento, são testemunhos fieis do que estava acontecendo na época, como são mesmo os artistas. Finalmente, a partir de tudo que descobri, escrevo o roteiro do projeto, relacionando os fatos, dando minha contribuição como artista da minha época, influenciada por esses artistas todos que vieram antes de mim. Esse roteiro vira o espetáculo!

RC- Em relação ao projeto "Cronistas da Cidade" fale sobre o uso da língua italiana no samba por Adoniran Barbosa?
DM-
Fantástico! Adoniran ou João Rubinato, sentia-se bem onde estava, a metrópole paulista, e sentia-se bem também com sua condição de filho de imigrantes. Transitava com segurança entre essas duas culturas tão distintas, a italiana e a brasileira, e ainda sentia que podia contribuir sendo fruto dessa mistura. Língua italiana mais samba, por que não? E ele não parou por aí, ajudou a desenvolver o que muitos chamavam na época de "paulistês", mistura de sotaques que se ouvia pelas ruas da cidade de São Paulo.

"Acho que as entidades governamentais devem ser as primeiras a valorizarem as produções artísticas ..."

Dani Mattos RC- Quais foram os critérios para eleger quais artistas entrariam neste projeto como objeto de pesquisa?
DM-
Bem, eu também sou descendente de imigrantes italianos, e, na minha cabeça de criança (numa família que sempre ouvia muita música), Adoniran era como se fosse um tio (aliás, descobri que meu tio-bisavô foi padrinho de uma das irmãs de Adoniran!), Vanzolini também... Então, a pesquisa partiu de uma premência pessoal. Depois fui aprofundando a pesquisa e conhecendo o trabalho de outros artistas importantes, como Germano Mathias e o excepcional roteirista Osvaldo Moles. Enfim, os critérios podem ser pessoais, no início, mas depois te levam ao conhecimento de outros artistas que contribuíram muito para entender as questões abordadas no projeto. Interessante também é a formação do grupo Toque de Bambas, com quem me apresento. Cada um de nós tem uma formação, uma vivência que enriquece muito nosso trabalho!

RC- Este trabalho foi contemplado pelo ProArt (secretaria da cultura de São Paulo). Muito se fala sobre a falta de apoio por parte de entidades governamentais. Qual a sua visão sobre esta questão?
DM-
De fato, apresentamos este projeto em diversas ocasiões (CCP, Virada Cultural, Casa das Rosas, etc), mas só nós artistas sabemos como é difícil mostrarmos nosso trabalho. Acho que as entidades governamentais devem ser as primeiras a valorizarem as produções artísticas, principalmente se relacionadas à nossa cultura, pois trata-se de um patrimônio de todos nós, brasileiros. Se as pessoas hoje em dia não tem conhecimento disso a sociedade se empobrece.

RC- É fato a sua atuação com grupos vocais como o “Poucas & Boas” além de vários corais. Quais seriam os desafios de trabalhar com esta formação?
DM-
Gosto de trabalhar com grupos amadores. Então, as dificuldades são assiduidade e comprometimento. Nós, regentes, sabemos como o ensaio é importante. Coisas incríveis acontecem neles. Às vezes penso até que são mais importantes que a própria apresentação, embora entenda que esta é o objetivo final. É muito legal notar como no ensaio o grupo vai vencendo as dificuldades, se ajudando mutuamente, apurando o senso musical e artístico. E, na apresentação, o grupo, superar o nervosismo e a inibição, se arrisca e ocorre o imponderável, a comunicação com o público. Acho tudo muito rico, fascinante mesmo.

RC- É evidente que atua com projetos musicais diferenciados e se apresenta através de concertos em muitos lugares, no entanto, ainda não houve um projeto de produção em formato de CD solo. Fale sobre o assunto.
DM-
A realização do nosso primeiro álbum é um projeto em construção que vem sendo cuidadosamente pensado e lapidado. Muitas pessoas nos cobram em nossos shows e estamos buscando parcerias.

"Busquei, em minha pesquisa, opiniões de diversos artistas ..."

Dani Mattos
RC- O espetáculo "Vinícius, o poeta amador" procura privilegiar algum aspecto específico da obra deste artista já que além de poeta era músico, compositor, escritor, dramaturgo, diplomata, etc?
DM-
Na verdade o espetáculo busca aprofundar a imagem de Vinícius em todos os aspectos. Busquei, em minha pesquisa, opiniões de diversos artistas que conviveram com ele, além dos bibliógrafos, e pude relacionar todas as informações de maneira a construir um roteiro que falava de sua vida e obra de maneira consistente.

RC- Este projeto possui uma dinâmica diferenciada onde o público é convidado a interagir com participações. Comente a proposta dele.
DM-
Criei este espetáculo sem saber que ele teria a forma de um sarau. A chama inicial foi: Qual a contribuição da obra de Vinícius para minha vida?, De que maneira ele me ajudou? Ele me ajudou quando adolescente, experimentando pela primeira vez uma porção de sentimentos, numa solidão daquelas... quando a poesia de Vinícius me foi apresentada por um professor maravilhoso que tive, o Alcides, vi que não estava sozinha nesse turbilhão. Vinícius abria caminho e falava de todos esses sentimentos com tanta verdade e de maneira tão poética. Isso me acalmou demais. E, pela vida, continua me acalmando e excitando ao mesmo tempo. Gostaria que todo mundo tivesse esse privilégio. A poesia de Vinícius é muito acessível, fala de sentimentos, de sensações comuns a todos nós. Então, compartilhar a leitura entre amigos e/ou desconhecidos torna-se um prazer. Um risco também, mas um prazer, e uma oportunidade de comunicar-se através da interpretação.

RC- Existem muitas pessoas que privilegiam a letra da canção, no entanto, tem aquelas que entendem que cantor é aquele que canta melodia. O que pensa a respeito?
DM-
Depende do tipo de música. O rap, rithm and poetry, não tem melodia, já as canções de jazz, muitas vezes tem uma letra muito simples, e, o importante ali é criar melodias novas, improvisar mesmo. Acho que o cantor deve entender o papel que deve desempenhar no tipo de música que interpreta e na linguagem apropriada. Eu, por exemplo, me ancoro muito na palavra, então minha interpretação sempre passa pelo sentido do texto, estou sempre querendo contar uma história ao público...

RC- Quais são os cuidados necessários que você mantém para preservar a boa qualidade da voz?
DM-
São cuidados que tomo no geral comigo mesma; preciso me sentir equilibrada como um todo para que minha voz esteja forte, firme, ao mesmo tempo que cheia de nuances... claro, tem a questão de não tomar água gelada, dormir bem antes dos shows, mas, o principal é o equilíbrio interno, sem dúvida.

"... o cantor deve entender o papel que deve desempenhar no tipo de música que interpreta ..."

Dani Mattos RC- As canções folclóricas parecem a cada dia se distanciarem mais da vivência das crianças em algumas escolas. Com o projeto "Villa-Lobos para todos" há uma espécie de resgate deste repertório. Como surgiu esta ideia?
DM-
Criei um coral para adultos em Ilhabela e percebi que muitos coralistas não tinham uma vivência musical apropriada. Achei interessante me valer desse material riquíssimo que são nossas canções infantis, conhecidas da maioria dos coralistas, ainda por cima arranjadas por Heitor Villa-Lobos. A partir das canções o grupo criou cenas e jogos utilizando os ritmos de algumas delas; virou um espetáculo. Esse espetáculo, apresentamos nas escolas públicas, aos alunos de educação infantil, (muitos deles não conheciam muitas das canções!), e a seus professores. Foi incrível constatar na época e hoje em dia também, quando nos apresentamos nos CEUs (dentro da programação do Recreio nas férias), o quanto as crianças se identificam com essas canções. É um momento de encontro de gerações cantando e brincando juntas!

RC- Comente quais são as atividades do "Espaço Cultural Caraiga" que dirige.
DM-
O Espaço Cultural Caraiga / Dani Mattos é o lugar onde acontecem os nossos ensaios, apresentações, aulas, sempre relativo à arte. Conseguimos, com o tempo, formar um público cativo, que é bem exigente, por sinal. A isto chamamos de formação de público, que devia ser a meta dos teatros e centros culturais públicos.

RC- Quais seriam as dificuldades de se manter um espaço nesta proporção?
DM-
Nenhuma dificuldade, já que recebemos apoio; as atividades que acontecem por lá são desdobramentos das atividades dos meus grupos: Poucas e Boas, Toque de Bambas e Dani Mattos trio.

Saiba mais sobre Dani Mattos
Saiba mais sobre Rodrigo Chenta