Entrevista com Daniel de Paula

Daniel de Paula, baterista e compositor fala sobre a gravação do seu primeiro trabalho solo intitulado "Daniel de Paula e a Irmandade", um CD gravado com um sexteto onde se ouve Improvisações e muito mais.

Rodrigo Chenta- Você nasceu em uma família de músicos. Até que ponto isso te ajudou a ser o instrumentista que é hoje?
Daniel de Paula-
Isso me ajudou muito, não só como instrumentista, mas como músico de uma maneira geral. Nascer em um ambiente onde a música se faz presente de várias formas diferentes, faz com que você, desde cedo, já comece a desenvolver suas percepções e seu vocabulário musical. Ouvir música para o músico, além de ser um grande prazer, é um exercício fundamental e a chance de ouvir música, ver gente tocando de perto, ter contato com instrumentos musicais desde a infância é um grande privilégio do qual eu agradeço muito de ter podido desfrutar.

RC- O fato de você ter estudado piano te auxiliou em algum ponto ao tocar bateria?
DP-
Talvez ajude na forma como você se coloca na música tocando bateria. Acho que não diretamente tocando bateria. Claro que o ideal é você poder unir a inspiração com o conhecimento. Mas acho que a percepção e a intuição, nesse caso, talvez sejam os mais importantes. O piano ou qualquer outro instrumento harmônico ou melódico ajuda o baterista a enxergar e entender algumas coisas que ele já traz dentro de si. Existem gênios na bateria que talvez não conheçam harmonia e nem toquem outro instrumento, mas que tem a sensibilidade para interagir de uma maneira tão musical com os climas e mudanças que a música propõe, que é como se tivessem esse conhecimento.

"... sempre ouvi e continuo ouvindo muita canção ..."

Daniel de Paula RC- No que você se baseia para nomear as tuas composições musicais?
DP-
Eu me baseio na busca pela melhora do ser como um todo. Acredito que a evolução do ser influencia muito na maneira como ele vai interagir com o mundo e consequentemente, para um músico, na maneira como ele toca. Gostaria de passar isso através da música para as pessoas de uma maneira geral. Não só para músicos mas para todo mundo. O amor ao próximo como uma grande fonte para um mundo melhor. Para mim a música está muito ligada a esse lado espiritual.

RC- Você intitula a banda de "A Irmandade". Como você faz para administrar as características de cada um para o bem musical do sexteto?
DP-
Essa coisa da Irmandade vem da vontade de formar uma banda, que tivesse um som próprio e uma unidade tocando junto. Não me preocupo muito em administrar temperamentos, nem pessoais e nem musicais, pois eu chamei essa rapaziada justamente por achar que seus temperamentos se encaixavam ao som que eu buscava e também por saber que todo mundo já se conhecia e se dava muito bem. Na verdade, eu falo pouca coisa para eles. Eu tento deixá-los o mais à vontade possível e acho que isso, no caso, é a melhor forma de fazer o sexteto soar bem. Cada um sabe muito bem o que fazer ali.

RC- Baseado na sua experiência profissional é fácil presumir que conheça muitos bons músicos. Porque especificamente a escolha destes que gravaram o teu CD solo?
DP-
Eu conheço e já toquei com bastante gente que eu admiro e adoro tocar. A escolha desses caras tem um lado racional mas também tem um lado intuitivo.

RC- Algo que chama a atenção são os contrapontos produzidos pela guitarra e saxofones como em partes da músicas "O Perdão" e "A irmandade" (faixa 5). Fale um pouco sobre a construção destes arranjos.
DP-
Os arranjos vão nascendo muito de forma intuitiva, assim como as composições. Ouvindo a melodia, vão surgindo ideias em torno dela, que vão se desenvolvendo e contribuindo de alguma forma para a construção do todo. Essas duas músicas trazem em alguma parte delas ou em sua maioria, a guitarra fazendo a melodia principal. Como minhas composições tem muita influência de canção, eu uso os dois saxofones como naipe respondendo e conversando com a melodia.

RC- Sobre as tuas composições, você crê ser necessário inspiração? Qual é a maneira que você utiliza para escrever as tuas músicas.
DP-
Eu acho inspiração importantíssimo sim. Mas acho que uma coisa leva a outra. Eu tenho momentos de inspiração mas que sempre são seguidos por momentos de labuta, desenvolvimento e lapidação dessa inspiração. E também momentos de labuta que acabam trazendo alguma inspiração. E dessas duas situações vão nascendo as músicas.

"Para mim a música está muito ligada a esse lado espiritual."

Daniel de Paula e a Irmandade RC- O disco todo soa bastante moderno e com muitos climas contrastantes. Como seria possível definir a sonoridade deste trabalho?
DP-
Essa é uma pergunta muito difícil de responder. Eu ouço muita coisa diferente e acho que meu trabalho tem influência de tudo o que eu gosto em música. Ele tem essa estética jazzística, mas é fruto de muita coisa.

RC- Porque o álbum tem duas faixas (5 e 8) com o mesmo título: "A Irmandade"?
DP-
Porque as duas são a mesma música. Só que a faixa 8 é só um pedaço dela. Essa música tem uma letra, mas eu achei que só esse trecho cantado já seria suficiente para passar a mensagem que eu gostaria.

RC- O projeto gráfico do CD feito por Denise Fujimoto preza pelo uso de poucos elementos, concisão e muito espaço. Isso de alguma forma tem a ver com a proposta musical do sexteto?
DP-
Inconscientemente, talvez. Mas isso não foi pensado e feito propositalmente. Acho que as artes, de uma maneira geral, conversam entre si e talvez, as nossas predileções, tenham todas relações umas com as outras. Talvez por isso, o meu gosto pela estética da capa tenha alguma coisa haver com a estética do som. Não sei. Isso é bem relativo também.

"... o ideal é você poder unir a inspiração com o conhecimento."

Daniel de Paula e a Irmandade RC- Com exceção da última faixa do disco, todas as demais foram gravadas em outro estúdio. Porque não todas no mesmo?
DP-
Porque essa faixa já havia sido gravada antes de gravarmos o restante do disco, e como ela é uma faixa com uma sonoridade um pouco diferente das demais, achei que não havia necessidade de gravá-la de novo.

RC- O disco todo é basicamente de modern jazz. É possível afirmar a influência da música brasileira? Fale sobre o assunto.
DP-
Então, como já havia falado antes, o disco tem essa estética jazzística, mas tem influência de muitas outras coisas. E na minha opinião, a música brasileira, principalmente a canção, é uma das grandes influências que minhas músicas tem. Na verdade, para mim, elas são todas canções. As melodias são bem simples e muito cantáveis. Eu sempre as concebo através do canto mesmo. Dificilmente crio uma melodia usando algum instrumento. Eu acho que é aí que talvez esteja o lado mais brasileiro desse som, pois eu sempre ouvi e continuo ouvindo muita canção e de uma forma ou de outra isso acaba impresso nas composições.

RC- Na música "Retratos da Alma", onde os saxofones improvisam a cada 8 compassos de forma individual e posteriormente em um solo coletivo, se ouve muita interação entre eles. Como você administra estes momentos na hora de escolher que sola em qual música?
DP-
Eu penso no improviso, nesse som, como uma parte da composição. Acho que na maioria das músicas do disco, o que me levou a escolher quem improvisaria, foi a sonoridade do instrumento, aliada ao perfil de quem iria tocá-lo. A contribuição que cada um trouxe com sua personalidade foi essencial no resultado final desse disco. A concretização desse trabalho, só foi possível, porque essa rapaziada entendeu muito bem a proposta e contribui de forma magistral para que esse trabalho pudesse nascer.

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