Entrevista com Daniel Guimarães

Daniel Guimarães, violonista, guitarrista e compositor fala sobre seu CD solo intitulado "Ensimesmado", um trabalho com músicas autorais muito melodiosas com influência de bossa nova, canções mineiras e muito mais.

Rodrigo Chenta- O CD "Ensimesmado" é repleto de canções bastante melodiosas e com grande influência da música mineira. Fale sobre a escolha do título deste trabalho.
Daniel Guimarães-
Acho que o título reflete um pouco essa coisa introspectiva do mineiro, que aparece na música. Sou de família mineira e sempre achei que a minha música era meio para dentro, daí pensei nesse título que é algo como voltado para si mesmo... Considero-me muito ensimesmado.

RC- Como foi a pré-produção deste disco?
DG-
Foi algo bem empírico, pois eu nunca havia passado pelo processo de gravação de um disco do início ao fim. Eu demorei muito nas guias, já que, em algumas, eu não tinha ideia ainda de como ficaria o arranjo no final. Levei material pré-gravado para o estúdio, mas acabei regravando tudo lá e estabelecendo um padrão de forma e sonoridade. Fui arranjando as músicas e gravando simultaneamente, após gravar as guias. No final tudo deu certo.

"Considero-me muito ensimesmado"

Daniel Guimarães RC- Eu gostaria que você discorresse sobre a arte da capa do CD.
DG-
A capa é uma foto feita pelo próprio André Maya (um amigo designer muito talentoso que fez toda arte do disco) de uma pá daqueles barcos a vapor antigos. Você pode perceber diversos tons na madeira e algumas bolhas... Mas, como ele tratou a foto, ficou parecendo um quadro, uma paisagem... Eu queria algo meio difuso, parecendo aquelas capas da ECM (gravadora) e ele acertou em cheio. Adorei a arte. Todos elogiam. A parte de trás é uma outra foto do mesmo tema.

RC- Quais são os canais e estratégias que você utiliza para divulgar este trabalho?
DG-
Encarei esse disco como um marco pessoal e nem tanto algo para buscar mais público ou algo assim. Fiz shows de lançamento nas três cidades em que vivi: Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Angra dos Reis e todos foram shows sem apoio ou patrocínio. Montar um grupo e bancar viagens é difícil, mas contei com a ajuda da família e, também, dos músicos que aceitaram comigo esse desafio. Não sou um músico conhecido, nem apadrinhado por ninguém (e nem quero isso), portanto, divulguei os shows de lançamento e o disco em si basicamente por email e redes sociais.

RC- Por que esse CD foi gravado em dois estúdios? Quais são as características de cada um que justifique a escolhas dos mesmos?
DG-
Na verdade, o disco foi primeiramente gravado inteiro no Saci Estúdio, mas, depois de tudo pronto, eu quis refazer umas partes e achei melhor fazer isso no home studio do meu amigo (que acabou mixando o disco) Daniel Drummond, pela compreensão que ele tinha da minha sonoridade e valeu muito a pena. Após a primeira gravação, eu tive a ilusão de que algumas partes que eu não gostei poderiam ser tratadas e melhoradas na mixagem, mas aprendi que é melhor regravar com calma, pois, tudo fica melhor. Acho que essa foi a grande lição desse primeiro disco. No próximo, gostaria de gravar tudo ao vivo, em uma sala muito boa e com microfones muito bons, para não ter que me preocupar em reparar o som com mixagem e masterização.

RC- A faixa "Ensimesmado" em que aparece o violão como protagonista exige certo cuidado ao se gravar devido à arquitetura do instrumento. Conte como foi o processo de captação especificamente nesse caso.
DG-
É verdade, usamos um posicionamento padrão com dois microfones, um na boca e um no braço. Eu achei que a ambiência ficou um pouco exagerada, mas depois me acostumei, gostei da sonoridade. O disco foi gravado ao longo de uns seis meses, sempre em dias diferentes. Isso fez com que os sons dos violões ficassem diferentes em cada faixa, mas, o resultado geral ficou até homogêneo e o timbre na faixa "Ensimesmado" me agradou bastante.

"Gosto da respiração ao tocar ..."

Daniel Guimarães - CD Ensimesmado
RC- Na música "Trinta anos" na qual você atua em um duo com Felipe Machado, tanto na gravação como na autoria, se ouve claramente quem toca o que. Ela foi gravada na mesma sala ou em salas separadas? Foi ao vivo?
DG-
Sim, essa música foi muito especial. O Felipe é um violonista fenomenal e quando toco com ele vejo que ainda falta muito para mim em termos de mão direita e em nuances de dinâmica em instrumentos acústicos. Nós tocamos juntos por muitos anos e, então, existe uma interação muito legal. O estúdio tinha apenas a técnica e uma sala, logo eu fiquei em um ambiente e o Felipe no outro. Gravamos ao vivo.

RC- É possível escutar respirações na gravação dessas duas músicas faladas há pouco. Na tua visão, isso acrescenta algo de positivo ao resultado sonoro?
DG-
Sim, são músicas muito suaves e profundas, então tentei realmente interpretar à altura. Gosto da respiração ao tocar, deixa a coisa mais orgânica. Ouvia muito a respiração nos discos do Ralph Towner e achava muito bonito. Para mim isso acrescenta sim, deixa a música mais viva..

RC- Qual a mensagem que você pretende passar com o conteúdo da letra da canção "Ao que virá"?
DG-
Essa música eu fiz em um momento de transição da minha vida, em que as coisas estavam difíceis, mas que eu sabia que iriam melhorar. A música fala do momento em que meu coração iria encontrar novamente a paz. Para mim é uma letra sobre o otimismo.

RC- Em relação ao violão e guitarra, quais são as suas referências auditivas? Fale sobre os métodos e as escolas que estudou.
DG-
Tenho uma formação mais de guitarrista, fui estudar violão mais formalmente nos tempos da faculdade, mas não foi por muito tempo. Tive professores muito bons como a Maria Haro e o Rick Ventura e convivi com grandes violonistas nessa época, que sempre me davam dicas legais. Não estudei nenhum método específico para violão, mas tive um contato básico com a obra de Guinga, Villa Lobos, Leo Brower, Marco Pereira, Helio Delmiro e Ralph Towner. Mas, acho que as minhas maiores influências vieram da guitarra, sobretudo do Pat Metheny e do Toninho Horta.

"... desenvolvo mais as harmonias do que as melodias ..."

Daniel Guimarães RC- Na música "Como se fosse sombra" me vem à memória a sonoridade do Pat Metheny Group, principalmente a da década de 80. Existe essa influência?
DG-
É verdade, eu digo que é a faixa mais "Pat" do disco. Ela para mim é a faixa que tem a melodia mais ampla do disco (digo isso pois acho que sempre desenvolvo mais as harmonias do que as melodias em minhas composições e essa música é uma exceção) e foi se desenvolvendo muito no ato da gravação. Tem várias guitarras (cítara, guitarra com pedal rotary, com pedal de volume...) e a voz funcionou muito bem. Essa época do Pat Metheny Group é certamente marcante para mim e acho que para toda a minha geração de guitarristas.

RC- Em "Nossa valsa" é interessante a mudança de timbre em certas partes da melodia em que a guitarra troca com o violão. Você já compõe pensando nesse tipo de arranjo ou separa uma fase da outra?
DG-
Essa música também foi composta com o Felipe Machado então, tentamos preservar a identidade de cada um, o Felipe no violão e eu na guitarra. Não compus pensando assim, tínhamos a estrutura da música e o resto saiu meio improvisado mesmo.

RC- Quando você toca a guitarra o faz com o uso dos dedos e não com a palheta. Isso muda tanto o timbre como o jeito de se executar. Fale sobre a tua forma de tocar esse instrumento.
DG-
Sim, acontece que minha técnica de palheta não é muito legal. Acho que a palheta oferece um timbre rico e muitas vezes uma limpeza que eu não consigo com os dedos, mas eu prefiro tocar com os dedos para poder tocar os acordes também e fazer algum contraponto com o polegar.

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