Entrevista com Dolores Tomé

Dolores Tomé, flautista e uma das idealizadoras do projeto Musibraille, software utilizado na escrita e transcrição de partituras para o braille, fala sobre este interessante projeto, sobre a música para deficientes visuais e muito mais.

Rodrigo Chenta- Como surgiu o teu interesse em lecionar para pessoas com deficiência visual.
Dolores Tomé-
Na verdade nunca sei responder se foi por causa do meu pai ter sido músico ou por ele ter me alfabetizado em braille. Mas no início dos anos 80, uma jovem que acabara de ficar cega se hospedou na minha casa e pelo ambiente onde sempre vivi respirávamos música, essa jovem se interessou a estudar música na Escola de Música de Brasília, onde meu pai músico cego tinha sido um dos fundadores. Incrivelmente essa jovem recebeu um NÃO da escola por não receber pessoas cegas... Como estava me formando na Unb me interessei e lutei pela entrada dessa jovem e aí fui me lembrando dos ensinamentos em braille e me especializei.

RC- Você tem uma grande importância participando do desenvolvimento do software Musibraille, uma ferramenta de inclusão gratuita usada na educação musical de pessoas com deficiência visual. Fale sobre este projeto.
DT-
O projeto foi uma junção da vontade de uma educadora e outro analista de sistema. Depois de muito tempo juntamos força e ganhamos o projeto em um edital público e aí em 2009 finalmente saiu o software musibraille, mas que infelizmente não está avançando como queríamos porque não dispomos de equipe.

RC- É possível afirmar que a musicografia braille é fundamental para o aprendizado musical destas pessoas ou este método atua com algo que auxilia neste processo?
DT-
A musicografia braille é imprescindível ao cego que quer ser profissional e concorrer em igualdade de condições com os músicos que tem a informação junto ao conhecimento musical e obrigatoriamente o aprendizado da escrita musical em negro.

"A musicografia braille é imprescindível ao cego que quer ser profissional ..."

Dolores Tomé RC- Este software já passou por algumas atualizações. Quais são as partes dele que poderiam melhorar futuramente?
DT-
Sim já passou e precisa passar muitas vezes como qualquer software que se atualiza. Mas para nos deixar em situação confortável é fundamental para o Musibraille a exportação e importação de arquivos do formato Musicxml, favorecendo o diálogo do Musibraille com os principais softwares de edição de partitura em tinta. O que torna a comunicação escrita-musical entre pessoas cegas e videntes bastante facilitada.

É de grande importância que o software consiga trabalhar com duas linhas melódicas distintas, escrevendo a parte da mão direita e mão esquerda do piano separadamente, por exemplo. Assim como a execução sonora das partes, separadas e unidas.

RC- Nos países de língua portuguesa e espanhola o software Musibraille está na vanguarda. Ele difere em quê dos programas produzidos em outros lugares?
DT-
Por ser gratuito e ajudar os professores com uma linha básica abaixo com a pauta musical. Ou seja, ser interativo e contribuir para a inclusão de pessoas cegas estar no mesmo ambiente com pessoas que enxergam, sem que o professor tenha que se especializar em musicografia braille. Também o fato de ser acoplado um dicionário musical que ajuda a guiar tantos os que vêem como os que não vêem.

RC- Como se deu a tua parceria com o programador e professor José Antônio Borges?
DT-
Música, sempre a música. Sou flautista e Antônio pianista. Ambos com envolvimento na vida das pessoas cegas. Deu certo!

RC- Este projeto conseguiu o patrocínio da empresa PETROBRAS, algo de grande importância. Fale sobre o assunto.
DT-
Conseguimos por edital entrar com o projeto em 2005, mas foi só concretizado em 2009. O mais importante de tudo isso foi conseguirmos a partir de 2009 darmos cursos de capacitação pelo Brasil todo em quase todas as capitais do Norte ao Sul. Conseguimos a difusão da musicografia braille e como retorno temos alunos cegos nos bancos das Universidades e Conservatórios mesmo que ainda seja inexpressível é um excelente retorno para a ferramenta da música braille que andava tão esquecida. O importante é não deixarmos a exclusão dessa comunidade com habilidade musical sem entrada nas escolas especializadas de música, por falta de conhecimento dos professores de música.

"Não existe essa de adaptação, apenas que eles tenham o material em braille no mesmo tempo real dos outros alunos ..."

Software Musibraille
RC- Comente sobre os eventos e oficinas neste projeto.
DT-
Capacitação com o curso INTRODUÇÃO DE MUSICOGRAFIA BRAILLE, para professores de música, alunos e instrumentistas, cegos músicos mesmo que sem contato com a música formal, enfim o curso não tinha restrição. Não era necessário saber o braille e isso assustava um pouco os leigos, mas pode perguntar a qualquer um como saiam muito impressionado com a facilidade do sistema do genial Louis Braille (1809-1852), cego e músico onde viveu sua vida como professor de gramática, geografia e música e em 1846 já ensinava solfejo nos textos religiosos das cerimônias da capela.

RC- Ainda existe muita "repulsa" por parte de alguns professores em atuar com o perfil de aluno com deficiência visual. Acredita que isso tende a diminuir?
DT-
Acho essa palavra um pouco forte, ou prefiro pensar que aqueles que não querem dar aulas as pessoas cegas tem medo do desconhecido e a ignorância sim é de ter repulsa. A Sociedade em Rede está provando que essas pessoas ou melhoram sua cabeça ou serão excluídas. Se lerem sobre quem foi João Tomé, Joaquim Rodrigo, Andrea Bocelli, Ray Charles, e tantos outros...

RC- Fale como foi a produção dos CDs "Piquenique" e "Todos sabem" com obras do compositor e violonista João Tomé.
DT-
Muito legal e com músicos excelentes e competentes do Brasil todo. Além disso, ambos CDs vieram com as partituras acopladas em PDF e em Braille.

"... o software musibraille... que infelizmente não está avançando como queríamos porque não dispomos de equipe."

RC- É escassa a quantidade de obras transcritas para a musicografia braille. O que poderia ajudar no aumento deste número?
DT-
Aumentar o banco de dados junto a nossa musicoteca: www.musibraille.com.br.

RC- Nas universidades brasileiras sejam públicas ou privadas ainda é supérflua a presença desta musicografia. O que se pode fazer para mudar esta realidade?
DT-
Claro que sim, e para mudar essa realidade só capacitando os professores e oferecendo um curso de introdução à musicografia braille desmistificando essa visão de quem enxerga de ser um código muito difícil.

RC- Existe alguma adaptação usada no ensino de pessoas com deficiência visual?
DT-
Não existe essa de adaptação, apenas que eles tenham o material em braille no mesmo tempo real dos outros alunos e com o mínimo de interesse dos professores em conhecer o software musibraille é evidentemente possível entender e ajudar o aluno cego em uma sala de aula inclusiva.

Saiba mais sobre Rodrigo Chenta