Entrevista com Fábio Leal

Fábio Leal, guitarrista e compositor fala sobre o seu CD denominado "Quarteto", suas composições, arranjos, improvisação, os trabalhos tanto em Duo como com o grupo Mente Clata, ensino musical e muito mais.

Rodrigo Chenta- "Piazzolando", música que escreveu e gravou com o grupo Mente Clara demonstra vários climas e aos poucos cresce em tensão, andamento e mudanças de texturas. Fale sobre esta música e como costuma compor.
Fábio Leal-
Fiz essa música em 2002, nessa época além da paixão pela música de Piazzola, eu estava imerso na escuta e no estudo dos compositores do séc. XX como: Stravinsky, Shoenberg, Bela Bartók, etc. Essas influências estão nessa composição. Gosto muito de ouvir música, ouço muito e de uma maneira bem abrangente. Quando estou compondo, gosto de deixar vir as influências de tudo que já ouvi, seja lá o que for.

RC- É fato a interação de gêneros musicais em tuas obras como a que aconteceu, por exemplo, em "Cururu urbano", onde o jazz dialogou com o ritmo regional brasileiro. Fale sobre esta miscigenação.
FL-
Aprendi isso com a música de Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Piazzolla, que é uma miscelânea de ritmos, formas harmonias etc. Notamos isso também no jazz, que apesar de nichos conservadores, sempre recebeu influência do mundo todo, e a discografia fala por si.

Faz 20 anos que estudo os ritmos brasileiros e sempre estou descobrindo coisas novas. A riqueza musical do Brasil é espantosa! Me identifico muito com a cultura do Brasil, mas não sou do tipo conservador.

A maioria das minhas composições e improvisações tem a música brasileira como principal material temático, mas sempre estou aberto a outras influências.

RC- No grupo Mente Clara muitos integrantes compunham inclusive você. Fale como faziam em relação aos arranjos e ensaios.
FL-
No começo eu que mais levava composições, no decorrer do tempo os outros integrantes começaram a compor também. Ensaiávamos muito, e tínhamos liberdade para mexer um no arranjo do outro. Os primeiros anos o Mente Clara era também uma espécie de "coletivo de estudo". Era uma fase de muita pesquisa rítmica e harmônica, passávamos horas e horas fazendo exercícios de polirritmia, gravávamos os ensaios e logo depois havia uma escuta coletiva, e nisso surgia mais ideais etc.

"Quando estou compondo, gosto de deixar vir as influências de tudo que já ouvi ..."

Fábio Leal RC- O trabalho que tem em duo com a cantora Danielle Domingos demonstra na guitarra uma forma de acompanhar original, inusitada e bastante rítmica. Como você pensa para criar texturas que causam interesse no acompanhamento?
FL-
Como disse acima, sou apaixonado pela riqueza musical do brasil e desde que comecei a estudar guitarra, um dos objetos de estudo que me dedico é a mão direita e suas possibilidades rítmicas.

Sempre estou tentando adaptar algum ritmo regional e também de outros países para a mão direita da guitarra, e nesse processo aprendo várias maneiras de tocar e uma variedade de timbres e articulações. Atualmente estou estudando timbres de staccato. Sempre observei não só as figuras rítmicas de um determinado ritmo, mas também a mentalidade de quem está tocando esse ritmo. Por exemplo, você pode aprender a figura rítmica do jongo e passar isso para o instrumento, mas também você pode observar as nuances de timbres, sua relação com o pulso e variações rítmicas dos tocadores de Tambú.

Sempre observo a dança porque é tão importante quanto o ritmo, aliás essa dicotomia entre ritmo e dança é uma coisa ocidental. Nas culturas afro descentes da américa, isso não tem separação: todos dançam, tocam e cantam.

Nesses anos de estudos adquiri um repertório rítmico adaptado para a guitarra, e isso surge de uma maneira orgânica nos arranjos e composições para o duo com a Danielle.

RC- Esta formação instrumental é complexa e difícil pois os dois ficam muito expostos e qualquer deslize aparece. Como vocês fazem com os arranjos e a escolha do repertório abordado.
FL-
Nesse tipo de formação, ainda mais com guitarra, acho que as principais dificuldades são: Massa sonora e tempo, ou seja, pulsar juntos. A guitarra é limitada em massa sonora, nem se compara com um piano, mas consigo resolver esse problema com a solução do segundo problema: O tempo. Se os dois pulsam juntos com swingue, o som ganha massa. O paradoxo é que para termos um tempo bom e suingue não podemos pensar no pulso, mas sim no ritmo. Os ritmos são estados de espíritos musicais e o pulso é uma consequência. Pulso é uma maneira acadêmica de entender os ritmos. Sempre pergunto para meus alunos: Quem veio primeiro nesse fenômeno antropológico que chamamos de música: O ritmo ou o pulso?

Se observarmos bem, notamos que a música aparece de uma maneira orgânica e total em todas as culturas ou seja: Ninguém começa a bater o tempo 1,2,3,4 e diz: Vamos criar um ritmo novo? O ritmo "nasce pronto". Quando aprendemos de forma acadêmica (seja onde for) pulsamos primeiro, e depois aprendemos figuras rítmicas.

Por exemplo: Você pulsa 1,2,3,4 encaixa as figuras rítmicas do frevo, mas isso são só figuras e está sem alma ainda.

Temos que superar isso através de um treino repetitivo dessas figuras até virar ritmo, e quando isso acontece temos o tal swingue. Eu e a Danielle conversamos bastante sobre isso, e trazemos essas ideais para nossa música.

RC- A versão que gravou da música "Giant Steps" de John Coltrane ficou muito interessante. Fale especificamente sobre este arranjo.
FL-
Esse arranjo é de uma época em que eu estava estudando as articulações de samba no Giant Steps e por isso resolvi gravar. Por ser uma música muito gravada resolvi fazer um arranjo diferente. Ela começa com 2 compassos de 7/4 e a harmonia caminhando em colcheias pontuadas e uma rearmonização que na verdade são só inversões.

RC- Quem fez a arte da capa do teu álbum lançado na formação de quarteto?
FL-
Quem fez toda a capa foi o Rodrigo Pinheiro que era o idealizador do selo UnwrittenMusic.

"Me identifico muito com a cultura do Brasil, mas não sou do tipo conservador."

Fábio Leal - CD Quarteto
RC- No Brasil é muito comum os músicos da cena instrumental lançarem seus trabalhos de forma independente e o teu CD saiu pela UnwrittenMusic. Como surgiu esta parceria?
FL-
O selo UnwrittenMusic foi uma ideia do baixista Rodrigo Pinheiro e do violonista Fabricio Gomes. O Rodrigo tinha o próprio estúdio e resolveu gravar alguns projetos. Eu conheci o Rodrigo através do grupo "Amanajé" que ele tocava. Depois ele foi estudar em Tatuí, e aí começou a amizade e as conversas sobre o selo.

RC- A música "Guitarra sanfonada" tem vários trechos em que o título faz muito sentido. Como a guitarra se relaciona com os outros instrumentos em sua visão de compositor e pensando nas tuas músicas?
FL-
A adaptação do resfulego da sanfona para a guitarra é um dos meus estudos. Nos trabalhos que gravei com o Mente Clara e com o Quarteto, a guitarra sempre tem uma função mais melódica, do que harmônica, aliás, sempre que toco com um grupo que tem pianista eu já assumo a função melódica. Gosto muito de tocar ou compor para grupos com piano, sopros, etc., onde a guitarra tem outra função e você precisa ter um poder de síntese para fazer um "acabamento" musical.

RC- Na gravação da sentimental música "Mariana" você está sozinho e completamente exposto. O que é necessário para um guitarrista atuar com propriedade em obras musicais do tipo?
FL-
Eu estudei violão clássico durante 3 anos por conta própria, pegava algumas informações com amigos da área de violão erudito aqui em Tatuí. Na mesma época tocava também peças do Garoto, Dilermando, Guinga etc. Dedicar alguns anos para conhecer bem violão, as obras escritas para o instrumento e suas técnicas, é uma coisa que sempre recomendo para os guitarristas.

RC- É comum observar guitarristas darem muita atenção aos efeitos e equipamentos em geral pensando no timbre, no entanto, existe uma famosa tese que muito do timbre vem da mão do músico. Você concorda com isso?
FL-
Sim, e aprendi isso estudando violão, e também observando como estuda um pianista, saxofonista, baixista acústico etc. Esses instrumentos que acabei de citar são acústicos e muito difícil de conquistar um som refinado. Nos instrumentos acústicos tem que estudar nota por nota para conseguir um som refinado. Por ser um instrumento onde os parâmetros de timbre e intensidade são controlados por botões eletrônicos, a guitarra passa a falsa impressão de que tem um som pronto.

O som da guitarra não é pronto e precisa de um estudo de sonoridade como os instrumentos acústicos. Conseguir um som bonito com distorção é muito difícil também e não adianta só ter bons equipamentos. Como você mesmo disse: o som vem da mão do músico.

"O som da guitarra não é pronto e precisa de um estudo de sonoridade como os instrumentos acústicos."

Fábio Leal RC- Você tem uma longa atuação como docente do "Conservatório Dramático e Musical de Tatuí". Como observa a mudança no perfil do aluno que hoje tem acesso a muito mais informação com a internet?
FL-
Dos 22 anos que venho ministrando aulas de guitarra, 13 são em Tatuí. Comecei os estudos na década de 90, e também passei pela transição de um mundo onde o acesso à informação era mais difícil, para outro onde a informação está mais democratizada, e essa mudança ajudou muito na minha evolução como músico. Como eu soube usar toda essa informação em favor do meu crescimento, tento guiar meus alunos nesse mesmo caminho. Com certeza o perfil do aluno de hoje é bem diferente do de 20 anos atrás, mas isso afeta pouco minhas aulas. Os principais problemas que encontro na sala de aula não são consequências de pouca ou muita informação, e sim aspectos que muitos de nós temos dificuldades para se aprumar, independente da época em que vivemos.

RC- A improvisação seja no gênero que for é um tema de ensino bastante diversificado. Como entende que o estudante deve iniciar ao se aventurar por este tipo de criação?
FL-
É muito difícil dar uma resposta para essa pergunta por que há vários perfis de estudante, cada um com uma história diferente e isso deve ser levado em conta. Mas eu tenho algumas premissas que me guiam nos meus estudos e didaticamente nas minhas aulas:

- A arte é uma forma natural de expressividade humana, e está presente desde 30.000 anos atrás, ou seja, antes do conceito de civilização. Portanto o Homem é naturalmente criativo e expressivo.
- Música não se ensina, se desperta.
- O músico precisa desde cedo aguçar a sua sensibilidade para outras artes.
- A música está no âmbito intuitivo.
- Linguagem, timbre, interpretações, gêneros etc. são verdades históricas e não verdades absolutas.
- A destreza é fundamental para que nossa performance e ideias tenham fluência, ou seja, a dicotomia técnica/música não existe.
- A tricotomia: harmonia/melodia/ritmo é apenas uma abstração didática. Na prática temos que sentir o todo.

RC- Tem muita gente que se preocupa especificamente com as notas que toca nos improvisos. Outros somente com a linguagem, swing, ponto culminante, interação, etc. Fale o que pensa a este respeito.
FL-
A observação apenas de um aspecto e o esquecimento de outros, é bem recorrente nos principiantes e as vezes isso dura muitos anos! Isso acontece quando não conseguimos nos concentrar; o famoso "Virar a chave" quando pegamos o instrumento. O pensamento gosta de dividir as coisas por tópicos: harmonia, linguagem etc. A concentração nos traz o todo. Mas essa falta de concentração e o maçante pensamento por tópicos é uma consequência de uma vida musical baseada em dicotomias musicais. A mais famosa delas é harmonia, melodia e ritmo. Se observarmos grandes músicos tocando como: Miles Davis, Herbie Hancok Egberto Gismonti etc., notamos que a música chega como um todo para nós, e por isso nos toca!

Você já deve ter visto esses discursos, ou coisa parecida: "Durante os últimos anos estudei bastante Harmonia! Mas notei que estou ruim de rítmica! Vou me dedicar a isso agora". "Durante os últimos anos estudei bastante rítmica, preciso estudar percepção melódica agora!".

Quando nossa vida musical se alicerça em dicotomias estamos sempre incompletos, porque não sentimos o todo. As premissas que citei acima, são justamente para romper com essas divisões.

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