Entrevista com Fernando TRZ

Fernando TRZ, tecladista, compositor e sound designer fala sobre o seu trio instrumental e os EPs lançados, comenta sobre timbres, fala sobre gravações, arranjos, oficina de composição, trilhas para cinema, mídias digitais e muito mais.

Rodrigo Chenta- Os dois EPs instrumentais e gravados com o seu trio foram disponibilizados gratuitamente na internet. Porque decidiu não os comercializar, pelo menos por hora?
Fernando TRZ-
Na verdade pretendo ainda lançar e comercializar as faixas nesse ano de 2016, mas inicialmente quis lançar gratuitamente e somente em meu site e soundcloud, até para poder vender meu show e poder circular, para então ter condições de fazer outros investimentos, prensagem do disco, merchandising, etc. Vejo muitos artistas lançando discos dessa forma, não acho o ideal, mas é o jeito que rola fazer quando não se têm tanta grana para investir na produção/gravação de um disco. Dessa forma não é preciso fazer tudo de uma vez só, pensando em tudo (produto, venda, distribuição, etc), acredito que dá pra dividir por etapas esse processo, como em um campanha de crowdfunding por exemplo.

RC- Atualmente é comum os artistas preferirem lançarem os seus respectivos álbuns musicais no formato digital em vez da mídia física de CD. Fale sobre das vantagens deste formato.
TRZ-
Acho que no meio digital tudo acontece em um time mais rápido, e sua música chega mais rápido nos ouvidos das pessoas, isso eu acho a principal vantagem em relação a mídia física. Mas também acho ruim que no mundo digital tudo se torna mais efêmero também, pois as pessoas nem sempre escutam discos dando a devida atenção, não conseguem escutar mais albuns inteiros e sim faixas em um modo shuffle desenfreado. Nesse ponto dou muito valor a volta da mídia física como o vinil, por exemplo, onde o ouvinte tem uma outra relação de apreciação com a música, um modo muito mais envolvente e inteirativo de apreciar a obra de um músico/artista.

RC- Como se deu a criação deste projeto com a formação instrumental de trio?
TRZ-
Há dois anos atrás, quando me mudei de São Paulo para São Carlos, estava com intuito de montar um projeto musical diferente, focado em desenvolver composições intrumentais próprias, na verdade já era um desejo antigo, mas eu ter voltado para São Carlos me ajudou nesse intuito, acabei reencontrando grandes amigos músicos e também conhecendo novos músicos como o Paulo Almeida e o Fabiano Nunes, que me incentivaram a montar o trio, começamos a fazer uns ensaios o vimos que o som fluiu solto, cheio de groove e improvisos, e já apontava para uma sonoridade própria, o que me estimulou ainda mais em trabalhar com essa formação.

"... cada música que componho já nasce muito ligada aos timbres ..."

Fernando TRZ Trio RC- No encarte de "Vol.2" consta que o EP foi gravado ao vivo, no entanto parece que algumas pistas foram inseridas posteriormente. Como foi o processo de gravação?
TRZ-
Sim o disco foi gravado ao vivo com o trio, em meu o estúdio, o Timbrão, em São Carlos, mas na pós-produção e mixagem inseri diversos overdubs, no primeiro EP já havia feito isso mas de forma mais sutil, com um teclado ou outro fazendo umas ambiências, mas nesse novo disco usei e abusei dos overdubs, preenchendo mais os espaços com climas de synth, grooves com clavinet, contra-cantos de synth e sopro, para enriquecer os arranjos. Isso sem falar nas percussões de Emílio Martins, que gravou os overdudbs de percussão em todas as faixas, o que valorizou ainda mais as músicas, pois trouxe muito mais molho, além de criar nuances e texturas no som.

RC- Cada música tem um clima muito diferente uma da outra e isso provoca interesse. Como esses arranjos para o trio são elaborados?
TRZ-
Antes de gravarmos em estúdio fiz umas prés de guia em casa, para mostrar os temas e os climas de cada músicas para o Paulo e Fabiano, e eu já tinha algumas ideias de arranjo para cada faixa e com essas guias facilitaram a compreensão do que eu tava querendo em cada música. Após essa etapa das guias partimos para os ensaios para levantar esse arranjos no formato de trio e abertos para novas ideias que pintassem, e foi o que rolou, nos ensaios surgiram mais ideias com todos pensando juntos e construimos os arranjos coletivamente, mas foi tudo bem rápido e natural, em três ensaios levantamos praticamente o repertório todo, e gravamos em seguida para pegar o clima e a vibe que rolaram nesses ensaios.

RC- O trabalho do trio possui alguma influência de grupos com proposta musical similar?
TRZ-
Sim, temos muitas influências em comum, desde o samba jazz e os trios de jazz dos anos 60, João Donato, Marcos Valle, Moacir Santos, Hermeto, Deodato, até coisas mais modernas, como o nu jazz, o hip hop e a música eletrônica atual. Robert Glasper, Flying Lotus, Thundercat, Marc de Clive Lowe, Cinematic Orquestra, Taylor Mcferrin, Hiatus Kaiyote, são alguns nomes da atual cena do novo jazz que admiramos muito e com certeza nos influenciaram e são referências fortes pra gente.

RC- É perceptível as mudanças de timbre e efeitos nas gravações que faz com teclados. É feita alguma pesquisa sobre o que será usado em cada música?
TRZ-
Na real o processo de composição já nasce ligado aos timbres, cada música que componho já nasce muito ligada aos timbres, normalmente já componho a partir de um banco de timbres que fui desenvolvendo com o tempo, ao longo dos anos. E tenho dois synths muito bons que eu gosto muito e resolvem minha vida nesse aspecto de timbres, pois pude desenvolver timbres que eu sempre busquei, o Nord Eletro e o Roland SH-201, o primeiro com os timbres mais vintage como os pianos elétricos, hammond, clavinet, timbres 70 que gosto muito, e o outro com timbres mais sintéticos, onde crio os pads analogicamente, com o mesmo princípio do moogie.

"Gosto muito de compor com o pensamento de construção da música eletrônica e minimalista ..."

Fernando TRZ Trio - EP Vol. 2
RC- A música "Limiar" e "Flanando" possuem conduções interessantes. Como é o teu processo criativo?
TRZ-
Gosto muito de compor com o pensamento de construção da música eletrônica e minimalista, gosto de pensar em loops, aplicando esse conceito para a música orgânica tocada. Nesse aspecto o baterista Paulo Almeida também foi essencial nessas músicas, pois ele soube aplicar esse mesmo pensamento só que nas levadas de batera, daí não tinha como dar errado. No sentido harmônico gosto muito das harmonias modais e também dos empréstimos modais, acho que essas harmonias trazem um sentido hipnótico estético que eu busco em meu trabalho, que vem muito da minha influência do jazz e da música eletrônica.

RC- Os álbuns "TRZ Remixes Vol. I" e "Vol. II" saíram licenciados pelo Creative Commons. O que te motivou na escolha desta licença?
TRZ-
Há muito tempo sou fã do Creative Commons, é um modo muito claro e fácil de licenciar uma obra artística e intelectual, e que qualquer pessoa pode o fazer. Essa licença visa o compartilhamento inteligente dessas obras, sempre creditando o artista/criador, é algo mais simples do que as pessoas imaginam. É que na verdade a questão dos direitos autorais e de uso de uma obra sempre foi uma questão tão complicada que as pessoas têm receio e dificuldade de entender o Creative Commons. Mas é bem mais simples do que parece, e acredito que esse entendimento é o futuro da arte no sentido jurídico. A música e a arte devem ser compartilhada e deve ser acessível ao público ouvinte e por outras pessoas que queiram usar essas obras (comercialmente ou não), e não ter seu acesso dificultado no aspecto fonográfico e jurídico, que tendem a comerciarlizar e burocratizar a obra artística e intelectual.

RC- Você e o DJ Tahira gravaram um EP intitulado "TAHIRA vs. TRZ" com quatro músicas. Fale sobre este trabalho e como surgiu esta parceria.
TRZ-
Tahira é um grande amigo e parceiro, conheci ele quando morava em São Paulo, discotecando em diversas festas bacanas que eu gostava de ir, o estilo de discotecar e repetório dele sempre me chamou muito atenção, o crossover de estilos que ele faz tem muito haver com o meu jeito de pensar música, visando sempre a fusão dos estilos mas sempre cadenciando com muito groove, sem deixar cair, e sempre aplicando novos conceitos a partir de muita pesquisa musical, ele é capaz de tocar um Jackson do Pandeiro, virando na sequência um Fela Kuti que vira um deep house do Onsulade, que vira um Edson Machado, tudo isso sem você perceber, e totalmente entregue a pista de dança, isso é fantástico e me identifico muito. Acho que ese conceito de crossover é muito comum entre a gente e nossa parceria musical se deu desde o momento que o conheci e começamos a conversar sobre música. Daí apresentei pra ele o trabalho da minha banda Lavoura, ele curtiu demais e nos ajudou muito a divulgar o som da banda na gringa, em suas compilações de música brasileira no EBS diggin, selo dele, onde sempre revela novos sons autorais feitos no Brasil, da música eletrônica à música popular/étnica, passando pelo hip hop, o jazz, a música instrumental, enfim, uma pesquisa muito valiosa que poucos fazem no Brasil.

RC- Eu gostaria que discorresse sobre o projeto de "Oficina de Composição Lúdica" realizado no SESC.
TRZ-
Essa oficina é bem interessante, ministro ao lado do parceiro musical Tatá Aeroplano, fazemos uma dinâmica de percepeção musical com os participantes, crianças e adultos, em uma vivência de composição e gravação de músicas, em um processo coletivo onde todos participam tocando instrumentos rústicos de percussão, brinquedos, e até sons do corpo. Gravamos uns sons e fazemos alguns loops, e voltamos a gravar overdubs em cima, demonstrando na prática uma forma mais experimental de criar e compor músicas. Já compusemos diversas músicas por cada unidade do sesc que passamos dando a oficina, elas podem ser ouvidas no soundcloud no link oficina composicao ludica.

"Há muito tempo sou fã do Creative Commons ..."

Fernando TRZ RC- A faixa "Ribeirinhos" saiu na coletânea "Sueños" do portal Sounds and Colour. Como isso acorreu?
TRZ-
Sim, essa faixa é uma das músicas compostas durante as oficinas que ministramos. Essa faixa foi escolhida para essa coletânea pelo soundcloud mesmo. Como eu sigo o porta Sounds and Colour por lá e eles também me seguem, ouviram a música e escolheram ela, fiquei bem feliz com isso, pois se deu de forma espontânea. A coletânea é bem interessante, diversas sonoridades estão presentes ali, e traçam um imaginário da américa latina de uma forma bem eclética e lúdica.

RC- Fale sobre a sua atuação como sound designer na realização de trilhas para cinema, teatro e vídeos institucionais.
TRZ-
Gosto muito de trabalhar com trilhas sonoras e sound design, acho que um campo bem rico de trabalhar pois cria-se uma relação mais profunda com demais linguagens de arte como o cinema, teatro, dança, artes plásticas, etc. Muita gente não sabe mas sou formado em Design em Bauru, durante a faculdade acabei desenvolvendo muito esse lado insterdisciplinar com as artes, fiz muita pesquisa nesse campo de sound design e criei diversas trilhas sonoras para grupos de teatro, dança, rádio, video, etc. Gosto muito de pensar minha música como um "desenho", criando paisagens sonoras, acho que por isso minhas composições trazem essa cara de triha sonora, muita gente comenta isso comigo quando ouve. Gosto de compor músicas cinemáticas que estimulam a criação de imagens e sensações.

RC- Quais são as dificuldades deste mercado de trabalho especificamente?
TRZ-
Creio que muita gente não dá o devido valor a esse trabalho de sound design, e o trilheiro acaba sendo a última opção de investimento. Acho que a publicidade também é bem responsável por isso, acabam optando por trilhas prontas, trilhas brancas, e indo muito na onda da moda e do hype. No cinema, no teatro e dança já é diferente, o compositor de trilhas é mais valorizado.

Saiba mais sobre Fernando TRZ
Saiba mais sobre Rodrigo Chenta