Entrevista com Heraldo do Monte

Heraldo do Monte, guitarrista e compositor fala sobre vários assuntos como o início do seu aprendizado, grupo quarteto novo, viola caipira, improvisação musical e muito mais.

Rodrigo Chenta- Sei que começou tocando clarineta em orquestras populares e blocos partindo posteriormente para os instrumentos de corda. Como foi o início de seu aprendizado nos instrumentos de sopro e cordas? Quem foram suas referências?
Heraldo do Monte -
No clarinete, ainda era muito novo. Na mesma escola que fazia o básico. Era mais leitura de dobrados militares e peças sinfônicas. Nessa época, não me lembro de ter ídolos. Na guitarra, foi pelas partituras de clarinete, sem professor. Quando comecei a trabalhar em boates, em Recife, comecei a pensar em improvisar. Na época, só tive acesso a discos de George Shering, que tinha no quinteto Chuck Waine na guitarra. Depois tive acesso a Tal Farlow.

RC- Comente a frase "Cada corda da guitarra é um instrumento de sopro separado" baseada na experiência que teve com estes universos.
HM-
Refiro-me à época que comecei na guitarra, estudando uma corda por vez, até ler alguns trechos de exercícios de clarinete em uma corda, até aprender a ler nesta corda e passar para outra.

RC- O grupo Quarteto Novo (Odeon, 1967) contribuiu significativamente para uma nova forma de executar música brasileira instrumental com improvisos. Conte como foi o processo criativo dos arranjos.
HM-
Os arranjos eram feitos por todos. A maioria de ouvido e toda vez que o Quarteto decorava um trecho, um de nós vinha com uma ideia melhor e o trabalho de decorar ia por água abaixo.

"Momentos relaxados com o instrumento às vezes levam a descobertas só suas!"

Heraldo do Monte RC- Qual era a recepção geral do público com esta nova concepção (filosofia) musical que vocês abordavam?
HM-
Tocamos muito nos festivais da Record. As torcidas de cada música vaiavam as outras e aplaudiam as preferidas. Era um inferno, para tocar e cantar. Quando Blota (apresentador) dizia "acompanhado do Quarteto Novo", todos silenciavam. Dava para ouvir uma mosca.

RC- Quando participou do programa "Ensaio" na TV Cultura, disse que a Música Síntese era de autoria de Hermeto Pascoal e que saiu como sua. Conte-me como foi este episódio.
HM-
Como eu não tinha composições no disco fizeram essa sacanagem. Não com o autor, Hermeto, mas comigo, que não queria música que não era minha. Perdi na votação, e ficou assim. Síntese é do Hermeto.

RC- Qual seria o melhor caminho para o improviso no segmento nordestino? Como obter este sotaque e a autenticidade desta linguagem?
HM-
Todo mundo sabe as escalas nordestinas. Se você tem talento para compor e improvisar, é só ouvir as fontes certas. E muito, para pegar os acentos, as manhas todas.

RC- Sua vídeoaula "Guitarra Brasileira" lançada pela MPO Vídeo, é considerada um grande material para a improvisação em música brasileira especialmente a nordestina. Como poderia diferenciar musicalmente o estudante autodidata e o acadêmico?
HM-
Uma pessoa com ouvido fora do comum é capaz de tocar tão bem quanto uma que estudou. Claro, de vez em quando sai uma nota fora da escala ou um acorde que não cabe na melodia. Aí, é bom saber escrever arranjos, contrapontos, e outras coisas que dão consciência. Há um tipo de ouvinte que nota as diferenças, quando escuta.

RC- Uma prática bastante difundida é "Tirar de ouvido" solos improvisados. Disse em outras entrevistas que nunca foi de fazer muito tal prática. Segundo sua experiência, qual seria o caminho para a improvisação?
HM-
Só deixei de roubar uma ou outra frase de outros quando resolvi tornar minha personalidade mais diferente dos outros. Agora ouço com medo e cuidado. Ouço para evitar as frases, não para copiar. Momentos relaxados com o instrumento às vezes levam a descobertas só suas!

"Estude muito, muito e depois de uns 5 anos não pergunte mais nada pra ninguém. Seja você mesmo."

RC- Fale sobre a relação dos repentistas mais antigos e bandas de pífanos com os modos Mixolídio, Mixolídio4# e Dórico.
HM-
Os repentistas antigos e os aboios dos vaqueiros mostram mais influência Moura, que é a raiz da música nordestina. Daí, o Mixo com quarta aumentada. Os "pifes" são uma coisa mais descompromissada, rítmica.

RC- É fato que tem muita experiência tocando ao lado de pianistas como Nelson Aires, Hermeto Pascoal, com o Zimbo trio, etc. Qual seria a dificuldade na execução de acompanhamentos juntos. Como não chocar harmonias?
HM-
Harmonias escritas, acordes de poucas notas, evitar a região que o pianista está tocando.

RC- Conte-me como foi a mudança de Recife para São Paulo. Descreva o cenário musical que vivenciou naquela época.
HM-
A coisa mais marcante, na noite de Recife e São Paulo, era um doce para os músicos: se tocasse alguma coisa que não fosse Jazz nem Bossa Nova, ia pra rua. Bom, né?

RC- Em seus trabalhos de estúdio pode gravar com Rogério Duprat, Elis Regina, Dominguinhos, e muitos outros. Quais dificuldades poderiam ser listadas neste campo de trabalho musical?
HM-
Só o cansaço. Trabalho demais.

RC- Nos últimos anos existe uma busca pelo resgate de ilustres de nossa música. Em 2005, Eduardo de Lima Visconti escreveu uma dissertação de mestrado o tendo como objeto de pesquisa. Qual sua opinião sobre este trabalho?
HM-
Foi um prazer. Eduardo é um cara legal, no mínimo.

"Há um tipo de ouvinte que nota as diferenças, quando escuta."

Heraldo do Monte RC- Percebi que utiliza a viola afinada de uma maneira não tão convencional para este instrumento. A afinação da viola ou de algum instrumento de forma geral pode ser considerada, depois de alguns anos, como pessoal?
HM-
Como leio e improviso pensando nas notas, não posso usar afinações diferentes do violão, só bandolim, quando eu tocava, porque a afinação é muito diferente, outro pensamento, não tem cilada.

RC- Conte sobre o episódio da cadeira vazia com seu nome escrito, na passeata que aconteceu no Rio de Janeiro, onde algumas pessoas eram contra o uso da guitarra.
HM-
Pois é. Nacionalismo extremo. E dirigido para um instrumento, coitado... O que vale é o jeito que você toca. Pode tocar Jazz numa viola caipira. Só sei que na reunião preparatória para a passeata, tinha meu nome numa cadeira vazia. E tem até o boato que eu participei... Tocando guitarra no Quarteto Novo e indo para o Rio participar dessa passeata?

RC- Como surgiu a ideia de construir uma viola caipira de 12 cordas? Qual a afinação de cada corda?
HM-
Estava lendo com uma viola de 10 ensaiando para um show no Rio e fiquei irritado de tanto oitavar quando a nota ia para o que seria o mizão do violão. A minha tem madeira e proporções de viola, som de viola e 12 cordas afinadas como violão, pra não me atrapalhar.

RC- Que recado deixaria para aqueles que pretendem adentrar para o mundo da viola e guitarra?
HM-
Estude muito, muito e depois de uns 5 anos não pergunte mais nada pra ninguém. Seja você mesmo.

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