Entrevista com Itamar Carneiro

Itamar Carneiro, guitarrista e compositor fala sobre a gravação do seu primeiro trabalho, "Muy Poquito", um CD em trio com muita improvisação e músicas próprias, fala sobre sonoridade, produção e muito mais.

Rodrigo Chenta- Como surgiu o Itamar Carneiro Trio?
Itamar Carneiro -
Surgiu da necessidade de continuar o que fazíamos nas aulas de Combo na Fundação das Artes, onde estudei e me formei. Aquela coisa toda de querer tocar, se exercitar musicalmente, intelectualmente, de manter a forma, de interagir e de inúmeros ganhos que é acrescentado a qualquer pessoa que quer tocar em grupo. Aprendemos um com o outro o tempo inteiro. O Shamuel e o Danilo são da mesma escola, dai ficou fácil porque um admira o som do outro.

RC- A primeira música do disco "Muy Poquito" é a faixa título do álbum. Qual foi o motivo da escolha desta composição para a referida função?
IT-
"Muy Poquito" tem no tema A apenas um motivo rítmico e outro motivo no tema B. Ele é pobre melódica e harmonicamente, isso vem do meu amor pela musica camponesa cubana, pelo meu amor pelo pouco, pelo meu amor pela simplicidade. No oposto, me realizei muito com essa composição, porque a melodia é muito bonita é obvia! É pequena como o povo cubano, mas é grande espiritualmente, é poderosa! Por isso eu a escolhi pra essa função. Eu gosto muito da atmosfera musical latina.

"Muy Poquito" é como o Blues, tem que tocá-la com a alma, ela tem esse ar Andaluz latino que pede a liberdade e a expressividade o tempo todo. Enfim, eu preciso de pouco para ser feliz e a escolha dessa faixa quer dizer isso, "Muito Pouco".

Queria que no disco eu pudesse transparecer minha humanidade e o tema simples assim foi minha escolha. Não me considero um grande compositor, mas consigo compor o que sinto. "Muy Poquito" é um convite a humanidade, a introspecção.

RC- Na história do jazz são comuns os discos com trio de guitarra, contrabaixo e bateria. Quais são os diferencias deste trabalho?
IT-
Liberdade e humanidade. São 5 first takes, pois a faixa "Martino blues" é o take 2. Gravamos 2 takes de cada faixa, mas prevaleceu todos os primeiros takes, sem edição ou cortes de nada. Tirei apenas uma nota onde errei, pois foi um erro que afetaria muito. Então temos um disco sem cortes, sem edição.

Decidi não mexer em nada porque quis preservar a humanidade, pois pra mim ela é mais importante do que a própria música.

Sabe, um humano erra, no disco algumas coisas não ficaram esteticamente como queríamos, mas faz parte do processo de gravar ao vivo, botando emoção em cima da técnica e tal.

"Não me considero um grande compositor, mas consigo compor o que sinto."

Itamar Carneiro
RC- O que você utilizou para chegar ao timbre de guitarra nesta gravação?
IT-
Uma guitarra Ibanez AF100 e um amplificador Fender Delux 112 made in USA. Apenas na faixa "O Trem de Cabedelo" gravei com uma guitarra "Aquiles" feita por um Luthier lá de Brasília, o Aquiles. Aliás, essa guitarra tem tudo para ser minha guitarra principal.

RC- Sérgio Leão e Shamuel Dias assinaram a produção do teu disco. Qual foi a maior contribuição destes dois para o resultado final do álbum?
IT-
O Shamuel cuidou da organização dos ensaios, datas, agenda de ensaios, parte administrativa. O Shamuel foi aquele cara que ficou sempre me pondo pra cima, fazendo com que eu acreditasse mais ainda em mim mesmo, e esse com certeza é o trabalho de um produtor.

O Sergio Leão foi o primeiro a ouvir minhas composições, ele é um grande amigo! Ele foi meu primeiro professor de musica no extinto Conservatório Padre Jose Mauricio em São Bernardo do Campo. Ele ficou na Sala Técnica comandando a captação do áudio (Estúdio Claudio Baeta) e também fez a mixagem e masterização no Estúdio Leão. Diz ele que só regulou os volumes e que o som já veio todo pronto! Mérito do time!

RC- Como foi o processo de pré-produção de "Muy Poquito"?
IT-
Os temas eu já tinha, sempre gostei de escrever melodias! Estavam escritos e eu deixei as parts mofando no papel, eu não acreditava nas minhas composições, nem no meu jeito de tocar, eu tinha vergonha de ser Eu. Começou assim.

O Contato de cinco meses de aula com o professor Heraldo do Monte foi o segundo passo, pois passei a acreditar no meu próprio sotaque e no meu traço melódico, que hoje, amo muito! O mestre Heraldo faz a gente pensar nisso! O processo de conquistas na área da música dura a vida inteira, mas me sinto muito feliz pelo pouco que consegui conquistar com 37 anos.

Já nascemos com o sotaque! Temos que desenvolver e acreditar nele! Eu botei meu sotaque nas melodias e nos solos e foi assim, compus tudo sozinho acreditando em mim mesmo. Os temas são standards, por isso foram mais fáceis de escrever, com exceção do "Baião de Assis Carneiro" e "O Trem de Cabedelo" onde rolaram alguns arranjos.

Fizemos cinco ensaios na minha casa mesmo, depois fomos para o estúdio e fizemos dois takes de cada faixa. Sem olhar pra traz e felizes do que tínhamos feitos, saímos dali tranquilos.

RC- Este trabalho juntamente com vários outros fomentam a cultura musical no Brasil e poucos possuem apoio seja financeiro ou não. Fale sobre este assunto.
IT-
Meu disco tem um orçamento muito baixo, é pobre mesmo, vocês podem notar pela capa. Eu sou um cara que valoriza o humano, isso no sentido maior dessa palavra. Quem ouvir meu disco esta ouvindo minhas mais profundas emoções, pois estou despido nas composições e solos.

Acho que esperar de alguém pra fazer algo é ruim, esperar que alguém me aplauda é ruim, esperar o reconhecimento dos outros é ruim e demostra uma baixa autoestima. É bom quando nos aplaudem ou elogiam, mas é ainda melhor quando nós mesmos nos aplaudimos e nos elogiamos, e isso tem a ver com se amar de verdade, com tudo o que um humano tem, defeitos e qualidades. Se algum órgão governamental me desse dinheiro pra fazer um disco provavelmente eles diriam para Eu não ser Eu, eles descaracterizam o humano e isso pra mim é inadmissível. Mas, pode ser que aconteça ao contrário, o que eu acho muito difícil.

Gravei porque acredito na cultura mundial e do meu país, coisa que os governantes não creem e cultivam.

"... é ainda melhor quando nós mesmos nos aplaudimos ..."

Itamar Carneiro - CD Muy Poquito RC- Muitas pessoas se perturbam com o processo burocrático da pós-produção em relação às afiliações das associações, geração de códigos ISRC, ECAD, etc. Como você entende estas questões?
IT-
Pagamos pra tudo, nesse caso não seria diferente. E continuamos sem proteção. Sou aluno do curso de filosofia, e como filósofo digo que eles nos roubam em tudo. A Arte não tem preço, ela é superior e vem de uma estância maior. Essa frase e filosofia de vida é de Carlos Drummond de Andrade e eu creio muito nisso e procuro tratar as coisas assim. Mas como disse Jesus, "Dê a Cesar o que é de Cesar, e a Deus o que é de Deus".

RC- Como você define as características principais da sonoridade deste disco?
IT-
Ao vivo e vintage. Eu me baseei nas gravações do Wes Montgomery. O disco tem meu traço melódico! E essa é sua principal característica. Componho melodias carregadas que seguem sua própria trajetória, o mesmo acontece com os improvisos. Se uma melodia começa, ela tem que seguir seu próprio caminho, eu não me atrevo a impedir isso.

RC- O álbum todo possui solos improvisados e relativamente longos. Quais foram os procedimentos que você tomou para que o ouvinte não fique com a sensação de monotonia?
IT-
Combinamos, eu, Danilo e Shamuel de cada um ir onde o outro não foi. No "Baião de Assis Carneiro" por exemplo, eu fiz citações da musica nordestina e poucas notas rápidas, do contrário o Shamuel percebendo isso ousou mais em notas rápidas, etc. Então temos solos longos no disco, mas empolgantes! Ressalto que essa é mais uma das lições do Miles Davis.

RC- As músicas de "Muy Poquito" foram criadas pensando na formação de trio? Fale sobre a criação e os arranjos das tuas composições.
IT-
Eu crio quando sinto, embora pratique o exercício de compor, a criação verdadeira vem de uma estância maior, quando não esperamos ela acontece. Mas temos que estar nos exercitando sempre para que assim ocorra.

Ser grato a Deus e a vida é vital para compor algo! Começo criando melodias, depois harmonizo e depois arranjo. Gosto quando a melodia vem do nada! É algo divino, não humano, o humano é o exercitar, e o divino é o inspirar. Pra mim a composição é um presente dado por Deus pela nossa busca através do exercício de compor, da nossa entrega. Então quando componho não penso em trio ou em outra formação, eu não penso em nada, apenas penso em parir alguma coisa parecida comigo mesmo.

"Ser grato a Deus e a vida é vital para compor algo!"

Itamar Carneiro RC- Quais são as tuas referências auditivas para a formação instrumental que usou nesta gravação? Isso tem alguma importância para a tua sonoridade?
IT-
Já ouvi de tudo, mas minha referência foi o que o Miles Davis fez, uma música viva e humana. Minha referência foi tentar ser eu mesmo, buscar meu próprio espaço, me apropriar dele. Pra mim essa busca é psicológica, não auditiva.

É bom ser a gente mesmo! Com todas as nossas feiurinhas! É de fato maravilhoso!

Tenho o privilegio de ser amigo do Michel Leme, ele me encorajou muito a gravar, devo muito a ele. O Michel Leme mudou minha cabeça para melhor e os únicos discos que ouvi pra ter referencia de gravação foram os dele, pois o tempo todo ele diz na sua musica para sermos originais e livres.

RC- Tocar de maneira solo é bastante difícil. Quais são os cuidados necessários ao gravar apenas desta maneira como na música “O trem de cabedelo” onde somente a guitarra aparece?
IT-
Estudar bastante. Os músicos eruditos fazem isso à vida toda e esse é um bom exemplo. Estudar violão clássico ajuda muito, tenho feito isso para poder melhorar minha técnica na guitarra.

RC- Como você organiza o teu pensamento na construção das partes com solos improvisados?
IT-
Fui aluno do Jorge Hervolini na Fundação das Artes, ele pegou muito no meu pé em relação a isso. O Jorge é um professor fantástico e faz um desorganizado como eu me organizar.

Durante meus estudos de improvisação nos temas fiz pesquisas sobre os estilos, tirei solos, apurei técnicas com a palheta, mergulhei fundo. Mas ao sair desse mergulho trouxe pra fora o meu jeito de ser, a minha visão sobre determinado estilo. Esse foi um trabalho de anos de estudo, é um trabalho que faço constantemente e foi isso que fiz nos meus temas. Procurei fazer o que meus professores me ensinaram.

Saiba mais sobre Rodrigo Chenta