Entrevista com João Braga

"João Braga, compositor e pianista fala nesta entrevista sobre os CDs que já gravou, sua carreira musical, influências, direitos autorais, composições, sua respectiva forma de acompanhar cantores e muito mais".

Rodrigo Chenta- Você tem uma formação na área do piano clássico. O que ela te ajudou na hora de atuar com linguagens musicais que usam improvisação como o jazz e a bossa nova, por exemplo??
João Braga-
Eu comecei os estudos de piano com 5, 6 anos de idade, sempre com professora particular. Se não me engano só tive 2 professoras e a segunda, Cirene Dias Barrozo, foi a mesma da Escola de Música da UFRJ, onde estudei até faltar 1 ano para me formar quando abandonei para desespero da minha mãe... (rs). Acho que o clássico me ajudou principalmente na leitura à primeira vista e na técnica pianística.

RC- É grande a sua experiência no acompanhamento de cantores brasileiros da MPB como Lenine, Emilio Santiago entre outros. Quais são as qualidades que um pianista precisar ter para trabalhar com este repertório especificamente?
JB-
Foi basicamente nas décadas de 80 e 90 que trabalhei com a grande maioria desses cantores. Lenine só fiz uma pequena turnê, tipo em 1987, por aí. Fomos de avião até Maceió, e o resto foi de ônibus. Ele ainda não era conhecido nacionalmente e me lembro que os ensaios foram na sala da casa da minha mãe. (rs) Emílio fiz uma grande turnê nacional, substituindo o pianista Tito Freitas, isso foi de Novembro de 2000 até agosto de 2001. Acompanhar cantores é uma arte e o pianista tem que saber jogar os acordes, dinâmica, respiração (se for em duo), etc.

"... o clássico me ajudou principalmente na leitura à primeira vista e na técnica pianística."

João Braga RC- Nos períodos que morou na Europa foi possível perceber alguma diferença marcante em relação ao trabalhar com música lá e aqui no Brasil?
JB-
Claro, na Europa, salvo alguns festivais de jazz que eu participava, no geral tocava muito em casas noturnas e festas, trabalhando com música comercial brasileira para gringo dançar mesmo. (rs) O que não deixa de ser uma arte.

RC- Eu gostaria que falasse sobre o título da tua música "Conversa a mil, Dr. Maurice (What Is It Brazilian jazz?!?!)" e qual o critério que utiliza para nomear as tuas obras?
JB-
Conversa a mil é dedicada pra um saudoso amigo chamado Mauricio Capelli, um grande jazzófilo, amante do jazz e da música instrumental brasileira, que era muito meu fã. Daí a homenagem. E esse negócio de dar nome para a composição é complicado (rs). Por exemplo, "A Pedra e o Mar" foi pra pedra aqui em frente de casa, em Copacabana e Copacabana é banhada pelo oceano atlântico, né? (rs). Arraial Dájuda, do primeiro disco é para o meu querido arraial no sul da Bahia. E têm as musas, que são sempre importantes para inspirar compor belos temas...

RC- No disco "Sambopeando" é bastante interessante o seu entrosamento com o bandolinista Carlinhos Patriolino. Como surgiu esta parceria?
JB-
Sim, conheci Carlinhos nos ensaios para a turnê com Emílio, e ficamos logo amigos e colegas de quarto na turnê. Daí nasceu a ideia de gravar o Sambopeando, disco esse que nos deu o troféu Catavento do programa do Solano Ribeiro, na rádio Cultura de S.P..

RC- É fato que já gravou mais de duas vezes pelos teus álbuns obras de autores como Djavan, João Bosco e Chick Corea. Qual a importância destes músicos para a sua carreira musical?
JB-
Adoro os 3, mas Chick Corea, como pianista é um dos meus ídolos máximos, ao lado do Egberto Gismonti, Keith Jarret, Cesar Camargo Mariano.

RC- Como funciona o trâmite em relação aos direitos autorais das obras que grava de outros autores?
JB-
Como eu produzo meus discos, é bem trabalhoso, nesse último caso então, com 5 músicas de outros autores, foi mais ainda. (rs) A Tratore conseguiu as autorizações das editoras, tem que gerar e inserir códigos de ISRC, preencher cadastros de fonogramas, etc. Essa fase final do "Desenho" durou uns 3 meses e foi bem cansativa.

"Acompanhar cantores é uma arte e o pianista tem que saber jogar os acordes, dinâmica, respiração ..."

João Braga - CD Desenho
RC- No álbum "Desenho" regravou a música "Dendê", no entanto com o título de "Desenho" e com letra. Fale sobre esta composição.
JB-
"Desenho" é a versão com letra de "Dendê". Minha querida Cacala Carvalho fez a letra e a Marcela Mangabeira cantou lindamente. Já "Dendê" foi gravada no disco anterior "O Tempo de Tudo", com os grandes Augusto Mattoso, no baixo acústico e Rafael Barata, na bateria.

RC- É bastante perceptível a mudança de formação instrumental nas tuas gravações. Isso contribui muito para os climas diversos de cada peça. Como você define a instrumentação de cada música a ser gravada?
JB-
Aí vai na minha cabeça, de ficar deitado no meu Puff e "tocando" as músicas no meu cérebro. Puro instinto. (rs). Acho que nos 2 primeiros discos, o trio ou quarteto predominam. Mas nos 2 últimos, comecei a variar mais.

RC- Comparando os CDs que gravou percebi a existência de um hiato de tempo relativamente grande entre eles. Como você se organiza em relação à quando lançar um trabalho novo?
JB-
É complicado você se auto produzir, demanda tempo, dinheiro, inspiração para compor, para arranjar, conciliar agendas de todos com agenda do estúdio, músicos, etc. Muita coisa envolvida. Realmente estou com 53 anos e 5 discos autoproduzidos (estou contando também o meu só de músicas do Gil, gravado com a cantora Cacala Carvalho, e lançado pela Mills Records em 2012, que enviarei pra vocês). Se eu conseguir gravar mais discos meus de 5 em 5 anos agora até os 70 e poucos anos, gravarei mais 4... (rs).

RC- Existem músicos que gravam os instrumentos separadamente. Outros gravam tudo junto e ao vivo. O que pensa sobre estas maneiras de captação do áudio?
JB-
Tudo é válido para o melhor resultado possível, mas na música instrumental, o ao vivo é sempre mais interessante, na minha opinião.

"É complicado você se auto produzir, demanda tempo, dinheiro, inspiração para compor, para arranjar ..."

João Braga RC- O maestro Edu Morelembau e você atuam com corais em várias empresas. Fale mais sobre estes projetos.
JB-
O Edu é um pioneiro nesse trabalho de Coral de Empresa, trabalha há mais de 20 anos com isso. E é bem generoso, pois na equipe dele trabalham 5 músicos, 1 pianista e 4 cantores profissionais, os monitores das vozes femininas de soprano e contralto e masculina de tenor e baixo. Fora percussão e baixo que são chamados nas apresentações. Em 2000 e 2001 eu já fazia subs para pianista Maria Teresa Madeira e quando voltei de Roma em 2006, ela me passou vários corais, e foram 10 anos de muito trabalho com corais de empresa. Infelizmente, com essa forte recessão, a maioria das empresas abortou esse projeto, O Inmetro, Vale, Ipiranga, Neo Energia, e outras acabaram com seus corais.

RC- Em relação à parte gráfica, fale sobre as capas dos CDs que lançou.
JB-
Minha querida Luciana Araujo fez a capa do primeiro e desse último. O "Sambopeando" foi um artista da Delira Musica que fez e "O Tempo de Tudo" foi uma artista da Multifoco. Eu não me meto muito. Dou uma ideia no inicio e deixo eles à vontade e geralmente fico satisfeito com o resultado final.

RC- Como funciona o seu processo criativo na questão das composições musicais?
JB-
Aí é difícil falar, pois tem músicas que saem rápido e outras que demoram muito.(rs). Eu começo e empaco, aí daqui uns dias desempaco, e por aí vai. Não é nada definido previamente, é tipo algo que te empurra para o banco do piano e você começa a rascunhar frases e por aí vai.

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