Entrevista com Jorge Ervolini

Jorge Ervolini, guitarrista e compositor fala sobre seu CD solo intitulado "Canção de Outono" com músicas autorais e arranjos muito peculiares em um trabalho repleto de canções sentimentais com formações instrumentais distintas.

Rodrigo Chenta- No CD "Canção de outono" é evidente o não uso do formato standard nas formas das composições. Isso deixa a escuta não previsível e cria interesse. Fale sobre o assunto?
Jorge Ervolini-
Isso era um exercício que tinha como objetivo aplicar o aprendizado acadêmico nas composições populares. No entanto, mais que isso, era fruto da observação de outros gêneros que se caracterizavam por essa abordagem como o choro, bigs e orquestras de jazz (Na época estava começando a ouvir o Vince Mendoza) e, é claro, a música erudita.

RC- É interessante a inserção dos textos no encarte deste trabalho, demonstrando assim, um outro lado do artista músico que muitas vezes é escondido. Como surgiu esta ideia?
JE-
Eu sempre gostei muito de escrever; tinha alguns textos escritos na gaveta. E achei que alguns deles e de outros autores como Mario Quintana, Fernando Pessoa e até o Ruben Alves, que não consta no encarte, mas, é sempre uma inspiração, poderiam me ajudar no conceito do CD. A canção Jardim nasceu da leitura de Retratos de Amor do Ruben Alves.

"Eu sempre gostei muito de escrever ..."

Jorge Ervolini RC- O disco todo parece ter uma proposta bastante sentimental e que lembra as canções mineiras. Existe esta influência?
JE-
Existe. Eu ouvi muito o Toninho Horta, Milton Nascimento, a turma do Clube da Esquina. Ouvi muito o Pat Metheny que ouviu muito essa turma incrível, e ouvi muita musica barroca que, influencia diretamente a arte em geral de Minas Gerais. Não tinha como escapar... (risos).

RC- Há um equilíbrio entre temas e improvisos, onde um tem o mesmo peso que o outro, diferentemente de alguns projetos que privilegiam o improviso muito mais que os temas. Fale sobre esta prática nas tuas composições.
JE-
Têm as duas coisas no CD. Temas, seguidos de improvisos sobre a forma e, composições onde os improvisos são novas partes dentro delas. Canção de Outono é um bom exemplo; Uma Sonata com duas partes destinadas aos improvisos. Na primeira o incrível solo de clarinete do Proveta é uma grande ponte para o tema B. Na segunda o solo de guitarra é o tema C, (o desenvolvimento). Acho as duas abordagens ricas igualmente.

RC- Eu gostaria que você discorresse sobre a música "Stela by Starlight" na introdução da composição "Balada pra ela".
JE-
É só uma citação de um trecho pequeno da musica durante a introdução. Eu sempre curti isso na improvisação e como a introdução foi de improviso ... Penso como se fosse um discurso, onde o orador cita um escritor, um trecho de música, ou algo do tipo.

RC- A direção musical do álbum "Canção de outono" foi dividida com Ogair Júnior e Robertinho Carvalho. Qual foi a maior contribuição de cada um?
JE-
Fazer um CD sozinho é muito complicado. Embora estivesse dirigindo o projeto todo era fundamental ter opiniões durante a pré-produção, gravação e mixagem. A gravação foi feita ao vivo exceto, as participações do João Alexandre e a faixa da Big Band. O João por morar longe e a big por conta do tamanho do estúdio. As demais foram 3 takes e, escolhemos o melhor deles. Essa escolha foi feita em conjunto, inclusive com o Ale Damasceno. A mixagem foi feita primorosamente pelo Gil Assis que já havia selecionado comigo referências de como eu queria o som. Os ajustes foram feitos por nós 4, eu, Gil, Robertinho e Ogair. Escolhas de estúdio, músicos, também decidimos juntos.

RC- Fale sobre o arranjo da composição "Raabe".
JE-
Foi um dos primeiros arranjos que escrevi para Big Band. Eu estudava na época com o Maestro Antônio Carlos Neves Pinto quando ele regia a Big Band da Fundação. Compus esse tema já para Big Band e tive o prazer de tocá-la com meus amigos de Big na época. Quando surgiu a oportunidade de gravar o CD não pensei duas vezes em incluir Raabe no repertório.

"Eu comecei a cantar as melodias como uma forma de me fiscalizar."

Jorge Ervolini - CD Canção de Outono
RC- Como você descreveria o teu disco?
JE-
Um registro das primeiras composições e arranjos que fiz. As primeiras que eu gostei na verdade.

RC- Ao improvisar você tem o hábito de cantar as melodias que cria. Isso é bastante usado por guitarristas como George Benson e John Pizzarelli, por exemplo. O que é necessário para tocar desta forma?
JE-
Eu comecei a cantar as melodias como uma forma de me fiscalizar. Não queria tocar o que "estava na mão", mas na minha cabeça. No final das contas acabou virando um hábito. Hoje em dia estou tentando cantar só quando eu quero... Mas, às vezes acabo cantando sem querer (risos). Mas, respondendo a pergunta... Acho que é uma reunião de fatores. Conhecer bem o braço do instrumento e ter uma percepção razoável é fundamental para começar esse exercício, mas não existe uma fórmula. Existem músicos que não cantam e indiscutivelmente estão ouvindo tudo que estão tocando (principalmente os de sopro! (risos)).

RC- É comum a busca de um timbre próprio para a guitarra. Como foi a tua pesquisa para chegar ao som que usa ao tocar este instrumento?
JE-
Se o assunto for músico e instrumento essa pesquisa já é muito complexa. Se envolver equipamento não tem fim...
A primeira coisa que fiz foi definir os gêneros musicais que eu não iria tocar. A partir dai busco aproximar tecnicamente a execução das características dos gêneros musicais que me proponho a tocar. Minha busca não é pelo jeito mais fácil, mas pelo que aproxima mais meu som da origem.

RC- Você atua como docente na Fundação das Artes de São Caetano do Sul, importante escola que formou muito músico excelente. O que diria para quem pretende se tornar um guitarrista profissional?
JE-
Qualquer escolha profissional traz com ela responsabilidades e riscos. O cenário profissional atual é preocupante e qualquer conselho beira "jogo de bingo". Sou a favor de uma pesquisa profunda em busca de uma ampla consciência dessas responsabilidades e riscos que essa escolha trará antes de uma definição.

RC- A grade curricular tanto dos cursos de bacharelados em guitarra como em escolas livres normalmente abordam como repertório a Bossa Nova e o Jazz. Muita gente discorda da ausência de gêneros como Rock, Country, Música Brasileira Regional, etc. Eu gostaria que comentasse este assunto.
JE-
Se tivéssemos todos esses gêneros em um curso quantos anos ele levaria? Um curso de Musica Brasileira Regional, por exemplo, (Frevo?, Xote?, Guarania?, Carimbó? ... ) seria possível em 4 anos?

Entendo a relevância de cada um desses gêneros, mas, acho que essa escolha não está dentro da academia. A faculdade tem como objetivo informar para pesquisas mais acertadas e ampliar as fronteiras do pensamento (em tese). Depois disso as escolhas e pesquisas são individuais. Aliás, fato que devemos encarar; um guitarrista não irá encontrar preparo para o mercado de trabalho em boa parte das universidades brasileiras. Acho esse questionamento importantíssimo, mas, antes dele vejo lacunas sérias nos cursos como a falta de disciplinas que envolvam noções básicas de Direito, elaboração de projetos, mídias sociais, entre outras lacunas.

"Minha busca não é pelo jeito mais fácil, mas pelo que aproxima mais meu som da origem."

Jorge Ervolini RC- Qual seria o caminho para aquele que almeja atuar no âmbito da improvisação musical seja em qual gênero for?
JE-
Acredito que cada um encontre o seu caminho, seja para compor, acompanhar, arranjar e improvisar. Existem pessoas que não cabem nas regras da academia, outros tem nelas um bom direcionamento. Para essas pessoas um bom conhecimento harmônico, um profundo conhecimento dos arpejos e da relação escala/acorde somados a um trabalho de pesquisa sério sobre as características do gênero que se vai improvisar, a meu ver, embasam bem o começo do estudo de improvisação.

RC- Muitos afirmam que uma improvisação musical não existe de fato. O que você pensa a este respeito?
JE-
Acho que tudo depende de como se entende a improvisação. Não gosto de cristalizações, de verdades absolutas. Acho que vários músicos inventivos ao extremo têm em seus trabalhos de improvisação "peças prontas" debaixo da manga, seus truques, mas, sobretudo o seu vocabulário. Tudo isso, entre características de timbre e estilo, me faz reconhecê-los sem ler a ficha técnica. Quando os ouço tocando o mesmo tema várias vezes e nunca é igual concluo, que devo chamar isso de improvisação sim.

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