Entrevista com Leandro Cabral

Leandro Cabral, pianista e compositor fala sobre o seu EP denominado "tradição", arranjos, improvisação, a webserie "Arsis Piano Sessions apresenta Leandro Cabral Trio-Standards", O primeiro disco solo chamado "Alfa" e muito mais.

Rodrigo Chenta- A música sacra da igreja evangélica fez parte da sua adolescência. Ela te ajudou de alguma forma em sua formação musical?
Leandro Cabral-
Os cânticos dos hinários da tradição protestante fazem parte de meu primeiro contato com a música. Lembro-me de estar no colo de minha mãe durante o culto ouvindo esse repertório para coro e órgão (ou piano). Até hoje me trazem paz e conforto.

As várias vozes que compõem o repertório de coral me influenciam até hoje. Sempre estou a procura desse movimentos horizontais em tudo que ouço.

RC- Eu gostaria que falasse sobre o nome do EP "Sobre tradição".
LC-
É uma homenagem, um agradecimento à tradição da canção brasileira e estadunidense. E também, como diz André Mehmari: "moderno é tradição". A maneira com que tocamos esses standards no álbum remete uma estética de jazz contemporâneo, então o título também faz menção à tradição do eterno renovar-se. Sintetiza dois fenômenos opostos na ideia de serem apenas duas faces da mesma moeda, ou seja, se refere à tradição do cânone em relação à tradição do remodelar o passado em busca do novo.

RC- Existem trabalhos que soam monótonos. O que fez, muito pelo contrário, é bastante díspar e merece destaque a grande variedade na formação instrumental com quarteto, trio, duo e piano solo. Fale sobre o assunto.
LC-
Fico muito feliz em ouvir isso. Gerar e manter o interesse musical é uma preocupação que tenho em vários níveis, desde a escolha do repertório, a ordem com que ele é colocado no álbum ou no show, a instrumentação utilizada, o arranjo e performance de cada música, etc. Na maioria das músicas optamos por uma performance mais líquida, fluida, contemporânea, com apenas citações da melodia original e com diálogo de todos os componentes do grupo. Isso gera muito movimento e frescor na interpretação dessas conhecidas canções. Nas duas faixas de piano solo esse critério é mantido e reduzido ao contexto de duas mãos. Em oposição, temos as duas faixas com saxofone onde a melodia é tocada explicitamente, e no caso de ‘Minha saudade’, nossa maneira de tocar remete aos grupos de samba jazz da década de 60, ou seja, soa mais vintage.

Sem dúvida, alguns dos fatores decisivos para um grupo musical jazzístico soar interessante é a competência de cada instrumentista individualmente e a generosidade de cada um no tocar (e no ouvir!) para que o resultado soe uma unidade. Não posso deixar de pontuar que essas características sobejam em Sidiel Vieira (baixo acústico), Vitor Cabral (bateria) e Cássio Ferreira (saxofones).

"As várias vozes que compõem o repertório de coral me influenciam até hoje."

Leandro Cabral Trio RC- Como funcionou o processo de escolha do repertório que foi gravado?
LC-
Fiz uma pré seleção no dia anterior e no dia da gravação alguns poucos ajustes foram feitos. Como todos os músicos envolvidos no disco tem muita afinidade e bastante repertório em comum essa abordagem foi possível. De uma certa forma, nosso relacionamento musical constante e duradouro na noite paulistana gerou esse trabalho.

RC- Este EP soa muito conciso, contemporâneo e repleto de nuances elegantes. Esta foi a proposta desde o início?
LC-
A personalidade musical de cada um dos participantes passa por um modo de tocar contemporâneo e ao mesmo tempo gentil. As nuances em vários níveis fazem o resultado final soar musical. Isso é uma busca individual de todos os músicos envolvidos.

RC- "Sobre tradição" foi lançado digitalmente e não no formato físico. Esta é uma tendência que não para de crescer. Comente sobre o porquê deste formato?
LC-
Alguns especialistas de mercado dizem que esse é o futuro do comércio das obras musicais. Espero que eles estejam errados, pois eu particularmente adoro comprar e ouvir CD’s (rs), apesar de também estar bastante inserido no consumo de download e streaming. No caso do EP Sobre tradição, a opção de lançar exclusivamente no mercado digital foi escolhida pelo custo menor. Mas muita gente me cobra o CD físico. Por isso, em meu próximo trabalho, que será meu primeiro full album, chamado Alfa, manterei os modelos de mercado digital mas também vou lançá-lo em CD.

RC- A webserie "Arsis Piano Sessions apresenta Leandro Cabral Trio-Standards", veiculada no canal do YouTube é um trabalho muito interessante. Conte como surgiu este projeto e fale sobre a produção deste trabalho.
LC-
Na verdade o EP é decorrência da ideia de se gravar uma websérie. Em fevereiro de 2015 entramos em estúdio e gravamos as seis músicas com a idéia original desse projeto audio visual que é um formato novo no Brasil, principalmente no circuito de música instrumental, em parceria com o grande engenheiro de som e proprietário do estúdio Arsis, Adonias Souza Jr. Em março do mesmo ano inauguramos no Youtube "Arsis Piano Sessions apresenta Leandro Cabral Trio - Standards" com a peça piano solo Someday my prince will come. Gostei tanto do resultado sonoro dessas seis músicas que resolvi juntá-las todas em um EP meses depois.

Independente do EP, cada mês eu lanço um vídeo novo em meu canal do Youtube. Já tivemos alguns convidados de grandes representantes do jazz brasileiro da nova geração como Sidmar Vieira (trompete) e Jorginho Neto (trombone).

RC- Outra tendência é que os CD’s gravados recentemente vêm acompanhados de vídeos com as respectivas performances. No álbum "Alfa", ainda a ser lançado, terá algo parecido?
LC-
O álbum Alfa foi gravado no teatro Alfa em São Paulo e está em fase de pós produção. As imagens estão incríveis pois esse teatro é grandioso e lindo. A iluminação ficou maravilhosa. Foram três dias gravando no teatro vazio em uma das mais sutis e profundas experiências que já tive na vida. Toquei no Steinway D Hamburgo do teatro e o resultado do áudio está me agradando muitíssimo. Teremos cinco vídeos dessas gravações, o que equivale a metade do repertório do disco, além de making off.

"Gerar e manter o interesse musical é uma preocupação que tenho em vários níveis ..."

Leandro Cabral EP Sobre tradição
RC- Este full álbum novo se relacionará de alguma forma com o EP já lançado?
LC-
Sim. Esse novo álbum tem formação de trio quase que totalmente. Mantive meus amigos e grandes músicos Sidiel Vieira no baixo acústico e Vitor Cabral na bateria. Depois de tantos anos tocando juntos, nós três temos achado uma identidade de grupo que já está impressa no EP, e que, ao meu ver, amadureceu no ‘Alfa’. Das dez músicas gravadas, três são standards, que é a base de nosso aprendizado da noite, além de sete composições minhas. Uma delas é um canção que tem participação da cantora Vanessa Moreno e do saxofonista Cássio Ferreira. Uma novidade interessante é a modulação que o Vitor fez em sua bateria inserindo tambores oriundos da cultura do candomblé para tocar algumas músicas que compus inspirado nas aulas que tive de percussão baiana com o amigo e professor Letieres Leite. Um ijexá e dois vassis apresentam essa instrumentação diferenciada e inédita nessa formação.

RC- As faixas "Moon river" e "Someday my prince will come" são executadas somente com o piano, algo muito interessante e que necessita de grande conhecimento. Quais cuidados são necessários para atuar de maneira solo?
LC-
Nessas músicas de piano solo eu gravei dois takes de cada e o arranjos saíram bem diferente um do outro. A proposta foi de se desafiar a fazer algo novo em cada performance. Então, a concentração e abertura interior para a inventividade e o inesperado são peças fundamentais. Sempre que posso, repito esse processo em meus estudos para adquirir liberdade em fazer a chamada música do momento na performance do show ou da gravação em estúdio. Tento utilizar técnicas variadas de harmonização, variações na melodia e dinâmicas e articulações diversas. Oscilação de andamento também é algo que gosto muito de fazer quando estou sozinho. A combinação equilibrada desses fatores parece gerar uma narrativa interessante. Contudo, acredito que a abertura interior e o relaxamento consciente são os elementos mais sutis e difíceis de se alcançar nesse tipo de técnica. A meditação e o yoga me ajudam bastante nesse sentido.

RC- Normalmente um EP possue menos faixas gravadas. Algumas pessoas ousariam dizer que "Sobre tradição" por ter 6 músicas seria um full álbum, no entanto, pequeno. Como você entende este assunto?
LC-
Essa leitura é possível também. Mas optei por chamá-lo de EP por conta da duração total ser menor que trinta minutos.

RC- Fale sobre o show "Leandro Cabral Grupo celebra Moacir Santos e Letieres Leite"?
LC-
Este é um show que estreei em janeiro de 2015 em São Paulo com a formação de quinteto para poder estudar, celebrar e divulgar parte da obra desses dois grandes gênios da música brasileira. Nesse projeto a ideia é unir a improvisação do jazz moderno com alguns ritmos brasileiros menos difundidos no meio instrumental como o vassi e o ijexá.

Com esse projeto gravei dois vídeos para o documentário francês Echoes project além de duas entrevistas. Em breve gravaremos um primeiro disco.

"... todas as propostas musicais nos exigem singularidade."

Leandro Cabral RC- Você já atuou com vários cantores brasileiros como Maria Rita, Wilson Simoninha, Paula Lima e outros mais. Alguns pianistas da cena instrumental como o jazz e afins possuem dificuldades em atuar com cantores. Como o pianista deve se portar para respeitar a proposta musical e o repertório da música vocal?
LC-
Acho que todas as propostas musicais nos exigem singularidade. No caso da canção é preciso estar atento à narrativa literária e em como você irá construir o discurso musical em consonância ou dissonância à ela. Em geral é preciso tocar de maneira mais simples, econômica. Claro que tocar um piano rítmico em um samba jazz vocal é bem diferente de fazer um comp de rhodes em um neo soul ou ainda acompanhar uma balada pop fm, por isso é preciso atentar também às características histórico estéticas de cada gênero. O timbre e efeitos escolhidos, o uso (ou ausência) do pedal de sustain, a intenção mais agressiva ou romântica do tocar, etc.

RC- Comente a sua participação no documentário francês Echoes.
LC-
É um projeto de um coletivo de jovens de Paris que amam música contemporânea em suas diversas vertentes. Uma das pessoas da liderança é a grega Sofia Lambrou que veio ao Brasil em 2015 e registrou alguns grupos do Brasil, entre eles o famoso Azymuth. Além da gravação de dois vídeos de meu projeto em homenagem a Moacir e Letieres, eu também participei deste documentário gravando com o grupo de jazz funk que ajudei a fundar há 7 anos atrás, o Deep Funk Session. Gravamos três vídeos sendo que uma das músicas é de minha autoria.

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