Entrevista com Lulu Martin

Lulu Martin, pianista e compositor fala sobre o seu recente livro "O som dos acordes: exercícios de acordes para piano jazz" e temas como notas evitadas, escalas para improvisação, educação musical, jazz, trilhas e muito mais.

Rodrigo Chenta- Como surgiu a ideia de escrever o livro "O som dos acordes: exercícios de acordes para piano de jazz" e qual o diferencial dele?
Lulu Martin-
A ideia de fazer um livro de acordes de piano surgiu, primeiramente, de querer organizar meus estudos antigos que estavam nos cadernos antigos. Pensei em preservar o que estava ficando velho nas folhas amareladas pelo tempo, e também para poder organizar material didático para as aulas particulares de piano que tenho dado ao longo da vida. O diferencial dele, é que ele é um trabalho que eu não inventei muito, não. O livro é de ensinamentos que meus professores de piano, da escola que fiz formação de músico, a Berklee College of Music, me passaram. Outras coisas que aprendi com os professores dos meus amigos pianistas, alguns outros estudos dos amigos músicos e mais algumas intuições próprias.

Rodrigo Chenta- O livro parece caminhar com um caráter de resumo, no entanto, possui 38 exercícios que abordam diversos assuntos sobre harmonia jazzística. Como foi o processo de criação dos exercícios?
LM-
Os exercícios já existiam assim essa não foi a parte mais difícil do trabalho. O difícil neste livro foi poder organizar os exercícios de forma que a dificuldade fosse progressiva. Fazer a editoração foi muito difícil. Agora, com as facilidades dos programas de editoração musical tudo fica mais fácil, se você sabe mexer nos programas. O livro é para ser estudado em todos os tons pelo aluno. Esta foi também uma dificuldade de organização, o que dar ao aluno, o trabalho já transposto para os outros tons ou deixar isso para ser o trabalho dele.

Rodrigo Chenta- Na introdução do livro, você diz "Musicalmente podemos nos organizar de três formas diferentes: melódica, rítmica e harmonicamente.". Em termos de organização musical, porque não pensar também em timbre, forma e interpretação, por exemplo, como alguns fazem?
LM-
Eu escrevi isso pensando nos e elementos fundamentais da música, melodia, ritmo e harmonia, porque fui educado assim. Timbre tem mais a ver com harmonia, porque timbre é explorado em arranjo. Não é um elemento estruturante do som entendido como música. Forma tem a ver com composição musical. Interpretação tem mais a ver com o instrumento que executa uma composição. O 3 elementos estruturantes fundamentais da música são a melodia, o ritmo e a harmonia. Interpretação é a execução de uma música pronta, forma é um aspecto que varia nos diferentes estilos musicais. O jazz tem uma forma, o blues tem outra forma, a canção comum tem outra forma. A forma da música não é um elemento estruturante do som.

"O difícil neste livro foi poder organizar os exercícios de forma que a dificuldade fosse progressiva."

Lulu Martin Rodrigo Chenta- Na mesma página diz "O piano facilita a visualização dos acordes, e por isso deve ser o segundo instrumento de qualquer músico.". Atualmente existem um perfil de músico que discorda de tal afirmação e que usa softwares como Finale e outros para ouvir os acordes, isso em celulares, tablets, notebook, etc. O que pensa deste formato?
LM-
Meu mundo ainda é o do instrumento musical convencional. O finale é um programa, mas que só funciona para quem sabe os rudimentos da escrita e da leitura musical. É uma tecnologia facilitadora. Ele só tomou o lugar do papel e do lápis. O mundo inteiro toca um pouco de piano porque quando você estuda para fazer arranjos, seu trabalho é facilitado porque você pode ir ao piano e desenvolver as suas ideias, antes de escrever, seja no papel de arranjo, seja no finale, que é um papel digital. O pentagrama é igual. Os saxofonistas, trompetistas, violinistas, flautistas, podem escutar acordes e visualizar suas experimentações no piano. O piano é um bom instrumento auxiliar. Até tem reduções de música de orquestra para ser tocada no piano.

Rodrigo Chenta- Você dedicou um momento no livro para as "notas evitadas". Tem pessoas que confundem esta expressão com "notas proibidas" e outras que literalmente condenam o conceito de "evitadas". Isso seria uma questão relacionada com estética ou uma determinada escola específica do jazz?
LM-
Esta tabela de notas a serem evitadas nas escalas modais são notas que os americanos ensinam que destroem a consonância das outras notas da escala. Supostamente elas soam mal. Eu aprendi isso numa escola de música que a tradição era o jazz, não estudei harmonia tradicional para poder comparar. Mas acredito que como o americano é muito pragmático, orientado para o que dá resultados, acredito nesta tabela. São pequenas organizações conceituais que foram atravessando o tempo e se firmando porque funcionam. Acho que nos falta, e muito mesmo, conceitos que possam guiar nossa prática. A nossa cultura musical não é padronizada, é mais individualista, menos técnica, mais baseada na intuição do que na teoria. A teoria vem da prática que dá certo, ela assim é organizada e transmitida para outras pessoas em forma de conhecimento organizado, para quem desejar usar. O americano é um povo que elevou o nível técnico de tudo o que você possa imaginar, então, este conceito de notas a serem evitadas é uma prática que provou ser funcional atravessando gerações musicais e assim foi fixado como conhecimento importante.

Rodrigo Chenta- Ainda neste mesmo ponto do livro a sexta maior do modo dórico é considerada evitada quando muitos autores a consideram como "nota evitada condicional". Fale um pouco sobre o assunto.
LM-
Olha, tem músicos que não concordam com esta nota específica que você mencionou. Mas você se esqueceu de que estamos falando de acordes, notas simultâneas. Acordes são construídos em intervalos de terças dentro da escala. Nas aulas, o professor tocava a escala de forma simultânea, como se fosse um bloco só de notas. E quando ele adicionava a nota que seria a ser evitada, de fato ela soava mal. Mas esse modo dórico, se você montar o acorde de D-7(9,11,13), com as notas da escala, a nota si é a décima terceira do acorde. Lembro que o professor disse que para ele não havia choque sonoro, não. Eu concordo com ele.

Rodrigo Chenta- Esta publicação tem um capítulo sobre escalas usadas em improvisação. Muitos métodos e livros abordam o uso de arpejos como ferramentas iniciais e posteriormente as escalas e modos. Porque optou por não falar sobre os isso?
LM-
O livro não é sobre improvisação. O livro é sobre acordes e inversões. Acordes são extraídos das escalas, apenas por isso usei uma tabela de escalas no livro. Esta tabela me foi ensinada por um amigo guitarrista na época, no dia que o professor dele passou para ele, ele me passou. Veja nada é aleatório neste tipo de música. Esta tabela não foi inventada por apenas uma pessoa de lá. Ela era algo comum a todos que passavam por lá, uma cultura comum de todos, incluído os grandes nomes da música instrumental do mundo.

Rodrigo Chenta- No capítulo intitulado "Harmonia" foram citadas definições de autores como Tomas Borba e Fernando Lopes Graça, Arnold Schoenberg e Fernanda Negreiros. Como você define o conceito de Harmonia?
LM-
Estes textos sobre harmonia são textos que li em livros, gostei, guardei e um dia resolvi citá-los para outros amigos da música através do livro. Não tenho nada de genial, mas vejo que tenho certo talento para guardar por anos pequenas coisas assim. Tomas Borba e Fernando Lopes Negreiros são dois livros, um dicionário de música em dois livros que era de uma ex-namorada, Fernanda Negreiros escreveu um livro sobre música que achei muito bom. Ela não é da música, é de outra área de estudos. O texto de Schoenberg é de um livro que tenho. Minha entrada na música foi através do piano, meu pai era pianista amador de jazz, e eu tentava aprender uns acordes que ele tocava. Assim, meu interesse básico, meu estímulo inicial, sempre foi sobre acordes, não foi ritmos e nem melodias, e nem as músicas. Aprendi a fazer acordes antes de me sentir um instrumentista, porque demorei a colocar na prática as teorias musicais que sei. É ainda o que faço, descubro uns acordes diferentes, os escrevo para guardar, e espero para poder tocar eles numa situação musical no futuro.

"... descubro uns acordes diferentes, os escrevo para guardar ..."

Lulu Martin - Livro O som dos acordes:exercícios de acordes para piano jazz
Rodrigo Chenta- A maioria dos livros voltados para harmonia e improvisação no jazz diz o que usar, mas não como usar determinada técnica. O que pensa a este respeito?
LM-
O que vejo muito é que os livros normalmente mandam você estudar algo, mas não mostram como aquele algo se formou, qual foi a ideia condutora para ter se chegado naquele ponto de estudo. Se você pegar e olhar a tal "Técnica Drop", do meu livro, que é uma técnica de arranjo, vai ver que é uma forma de distribuição das notas dos acordes. Acordes estão em suas posições fundamentais ou em suas inversões. Podemos aplicar a técnica Drop nos acordes nas posições fundamentais e nas inversões e assim ampliamos as possibilidades de mistura de sons do acordes. Criamos riqueza sonora assim. Sinto que livros normalmente não falam a origem do conhecimento que ensinam. Desta forma, tendemos a decorar e não a compreender.

Rodrigo Chenta- Você também atuou muito com gravações para campanhas publicitárias e eleitorais. O que é necessário para um músico atuar neste nicho do mercado musical?
LM-
Já não estou mais neste mercado. Tudo mudou muito. Na minha época, trabalhava-se mais como compositor, instrumentista, e tinha-se o técnico de som para gravar. Hoje, espera-se que você seja o homem multi talento, que faça a criação, que toque todas as partes musicais e que finalize o trabalho. Quando eu entrei no meio da propaganda, entrei com o uso do computador. Virei homem orquestra. Mas você era homem orquestra dentro de um estúdio. Hoje com a invenção do estúdio virtual, tudo ficou mais banalizado pela parte dos que compram o nosso trabalho. Acho que eles pensam que se faz uma edição rápida e sem custos. Mas trabalhar nesta área de criação, não se pode ter um estilo determinado. Você acaba pensando automaticamente em termos de 30 segundos, o estilo musical é o da imitação de um estilo ou de algum artista mais famoso, tem que ser rápido demais porque os prazos sumiram não se tem mais prazos para grandes produções.

Rodrigo Chenta- Fale sobre a criação das trilhas sonoras songbirds e das trilhas musicais infantis.
LM-
As trilhas da SongBirdTracks foram um trabalho que fui refinando ao longo dos anos. Eu sempre fui trilheiro, porque sempre estudei arranjo a harmonia. A minha vantagem nestes trabalhos é que com o estúdio virtual, vieram os teclados virtuais com milhares de sons maravilhosos, que me seduziram de verdade. Então, o forte nos meus trabalhos é que criei um som com identidade minha, que tem a mão do pianista que gosta de acordes e que tem a mão do tecladista que gosta de sons. Basicamente minhas criações têm sons misturados, mais do que melodias marcantes ou ritmos dançantes. As trilhas musicais infantis são como as outras trilhas, são músicas para audiovisual. Como músico instrumentista eu toco para a música, e como compositor de trilhas musicais, tento fazer a música para a cena. No caso das produções da SongBirdtracks, elas foram feitas apenas tendo como referência uma ambientação genérica, cena triste, cena alegre, cena de tensão, cena de amor. Então, são criações mais livres. Tendo mais liberdade de criação pode-se ter mais originalidade musical.

Rodrigo Chenta- Cada formação instrumental como duo, trio, quarteto, big band, etc, requer seus devidos cuidados em relação a como o músico deve se portar. Como você entende a interação musical nos momentos de improviso e execução de partes escritas?
LM-
Tudo depende inicialmente do arranjo musical. As partes que o músico deve apenas acompanhar, ele deve apenas acompanhar. As partes que ele tiver para improvisar, ele deve improvisar, e deve sempre improvisar dentro das regras dos acordes de base. O trabalho do instrumentista em qualquer contexto musical é basicamente de acompanhar e de improvisar. Eu fui doutrinado para aprender a tocar para a música. Não toco apenas para mim, toco para o contexto musical antes de qualquer coisa. Esta é a diferença entre amadores e profissionais. Tocar para o contexto te obriga a escutar os outros e a escutar você ao mesmo tempo. O pior músico é aquele que toca desafinado e não percebe que está desafinado, ou aquele que está fora do ritmo e não sente que está fora do ritmo, e aquele que está tocando o acorde errado e não percebe que está fora da harmonia. Ele não sabe interagir musicalmente falando.

"... a academia de música no Brasil é muito afastada da vida prática da música."

Lulu Martin Rodrigo Chenta- O perfil do aluno parece mudar de tempos em tempos ainda mais com o uso das novas tecnologias. Como você verifica isso em relação aos teus alunos?
LM-
Nosso aluno comum é de um nível mais para elementar do que excelente. A minha vida toda ensinei amadores de todas as idades em aulas particulares. Quase todos não estudavam em casa, por um motivo ou por outro qualquer. A pessoa mais nova tinha outras tarefas, os mais velhos outras prioridades. Todos pareciam adorar o piano, mas parece que queriam algo de imediato e sem muito esforço próprio. Acho que esta tendência tem muitas causas. Na música, a educação ainda exige a habilidade específica. Acho que a pessoa que gosta parece gostar muito, mas não sabe ainda como consumir a música e se organizar em torno deste gosto. Eu andei assistindo uma aula de mestrado em educação musical e me disseram que não existe a figura do professor de música, existe o de educador artístico, que pode usar a música como educação artística. Para poder ser professor em escolas públicas através de concursos, deve-se cursar licenciatura em música. Senti que a academia de música no Brasil é muito afastada da vida prática da música. Não somos práticos. Não ensinamos aos alunos o que eles iriam precisar usar nas possibilidades de trabalhos musicais em suas vidas de trabalho. Frequentei num semestre uma aula de leitura de orquestra de jazz. Depois me dei conta de que não existe mais orquestras de jazz, ou qualquer outro tipo de orquestra, para que aquele nível de leitura a primeira vista fosse exigido. Achei isso incoerente. É um pouco como a cidade das artes.

Rodrigo Chenta- Quais os caminhos que um pianista deve seguir para tocar com maestria o gênero musical jazz?
LM-
O jazz sempre foi um estilo de música que exige expressividade e técnica do instrumentista. Acredito que ele deva escutar muitos artistas de jazz para conhecer e sentir o que mais lhe agrada. Eu tive uma iniciação através dos discos do meu pai. Inicialmente eu conheci o que ele gostava. Depois quando fui estudar na Berklee College of Music, conheci outros artistas do jazz com seus estilos. Amigos apresentavam discos novos. Assisti a concertos de música em teatros, festivais, bares. Depois ao voltar para o Brasil, o acesso se tornou mais difícil. Agora existem as rádios de jazz da internet, que permitem você conhecer muito de tudo o que desejar. Então, o bom caminho deveria ser escutar para se identificar, treinar o ouvido e a percepção transcrevendo os acordes das músicas, os solos das músicas. Treinar técnica no instrumento. Aprender os conceitos do estilo que possam guiar as construções dos acordes jazzísticos e as construções melódicas do estilo. Dentro do jazz existem as vertentes que foram se formando no tempo. É importante saber a história do jazz. Pianistas bons estudaram certos estilos do jazz, apenas para desenvolverem seus estilos próprios. No jazz tem de tudo em termos de instrumentistas. Alguns pianistas foram autodidatas, outros tiveram estudos formais, alguns se desenvolveram mais como intérpretes, outros com compositores. Mas todos fizeram de tudo para elevarem seus níveis ao máximo possível. Ter técnica sempre é um objetivo. Quanto mais destreza puder ter no instrumento, melhor. Quando mais tiver sua audição desenvolvida, melhor. Quanto mais tiver sua capacidade de memória desenvolvida, melhor, para formar repertório. Ter capacidade de leitura desenvolvida é bom, se tiver uma boa leitura a primeira vista é melhor ainda.

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