Entrevista com Marcelo Gomes

Marcelo Gomes, professor, guitarrista e compositor fala sobre os arranjos e composições do seu disco intitulado "Preto", de assuntos ligados a bossa nova, samba jazz, rítmo, timbre, docência musical e muito mais.

Rodrigo Chenta- Após cinco álbuns lançados com o grupo "Terra Brasil" você gravou o seu primeiro trabalho solo intitulado "Preto". Explique a razão deste nome.
Marcelo Gomes-
PRETO é meu apelido no círculo familiar mais íntimo. Foi para mim uma forma de associar meu nome real e artístico, Marcelo Gomes, com uma alcunha carinhosa e que diz muito de minha trajetória.

RC- Logo na abertura com a música "Sambinha pro Antunes", ouve-se um motivo melódico simples, rítmico com repetições muito swingadas. A simplicidade e o conceito de "menos é mais" tem qual papel em sua atividade como compositor?
MG-
O conceito tem um papel importante para mim na medida em que vivemos numa era de excessos em vários níveis. Tenho muito mais vontade de valorizar o sutil, o delicado e o silencioso, o que deixa um espaço até mesmo para o ouvinte participar de maneira ativa no transcorrer do discurso sonoro.

RC- Nas músicas "Depois da Chuva" e "Salsa Brava" ouvem-se solos na guitarra com o uso de leves efeitos. Houve alguma pesquisa sobre os timbres usados na gravação?
MG-
Eu não gosto de falar sobre equipamentos pois tenho uma postura crítica em relação a isso. Acho triste que pessoas frequentem os centros de compras e/ou feiras de instrumentos com a certeza de que o pedal X, o amplificador Y ou a guitarra Z vão fazê-las tocar melhor. O que faz alguém progredir em seu instrumento é a prática. Por isso sempre optei por ter uma boa guitarra, um bom amplificador e efeitos que servem apenas para enfeitar ou encorpar levemente seu timbre original. Muitos guitarristas pensam que nosso instrumento é apenas um "acionador de efeitos".

"Tenho muito mais vontade de valorizar o sutil, o delicado e o silencioso ..."

Marcelo Gomes RC- Na composição "Pra nós dois" não existe o tradicional momento de solos improvisados o que não fez falta. Fale sobre o teu processo criativo.
MG-
Meu processo se baseia em toda minha trajetória acadêmica e em minha experiência, principalmente com relação ao repertório. Como é possível que tantos bons compositores na área de música popular não tenham educação musical formal? Porque eles têm um repertório enorme. Quanto mais músicas você souber, mais terá aprendido sobre cadências, melodias, ritmos, possibilidades métricas, enfim, tudo que se refere a compor. A peça "Pra nós dois" compus para minha filha mais velha, Renata, e busquei transformar em música o enorme amor que tenho por ela.

RC- Como surgiu a parceria com a gravadora CPC-UMES?
MG-
Essa parceria começou com o terceiro CD do Terra Brasil, intitulado "Mestiço". A desvantagem é que o retorno financeiro é muito baixo, mas gosto de ver meu trabalho bem distribuído, sendo que é possível encontrar o "Preto" e o "Mestiço" nas boas casas do ramo.

RC- Fale sobre a inserção dos textos no encarte do CD.
MG-
Na verdade não há muitos textos, apenas uma citação generosa do Roberto Menescal, ícone da Bossa Nova, sobre o trabalho. Gosto de me associar a artistas em quem confio e deixá-los trabalhar. Não compartilho dessa ideia de que todos devem fazer tudo, prefiro que cada um entre com sua especialidade, desde que seja dado o devido breefing a cada um dos atores envolvidos no projeto.

RC- A música "Falando de Amor" de Tom Jobim teve uma roupagem do tango. Ouve um momento onde somente a guitarra improvisou de maneira solo. Fale sobre o arranjo desta obra e sobre a dificuldade que alguns guitarristas têm de tocarem sozinhos.
MG-
Mudar o ritmo/gênero de algo é bastante complicado, e muitas vezes as soluções alcançadas são muito ruins. Mas algumas peças sugerem, como entendo ser o caso dessa, outro gênero como pano de fundo. O caso do tango é paradigmático no Brasil, afinal era assim que Ernesto Nazaré disfarçava seus maxixes. E é bom lembrar que a parte B é executada como um choro, coisa que até mesmo o Jobim se refere na própria letra da canção quando diz: "vem ouvir este segredo, escondido num choro canção". Sobre tocar sozinho, acho que é natural da guitarra tocar em grupo. De certa forma, ela foi feita para isso.

RC- Você tem uma longa atuação como docente em escolas importantes como a FASCS e FAAM. Qual a tua percepção em relação à geração atual dos alunos que hoje possuem muitos recursos como métodos, gravações, softwares, etc?
MG-
A 15 anos atrás li um livro chamado Cibercultura, Editora 34, de um educador francês chamado Pierre Levy. Dizia ele que os professores passariam de alguém que disponibiliza informação para o papel de quem seleciona a informação. Acho que ele anteviu muito bem o quadro que vivemos hoje. Não adianta nada você ter tudo à disposição se não sabe o que deve fazer primeiro, segundo, terceiro e assim sucessivamente. Há muitos recursos, mas o processo não mudou muito, volto ao início da entrevista: há que praticar.

"... acho que é natural da guitarra tocar em grupo."

Marcelo Gomes - CD Preto RC- A grade curricular tanto dos cursos de bacharelados em guitarra como em escolas livres normalmente abordam como repertório a Bossa Nova e o Jazz. Muita gente discorda da ausência de gêneros como o Rock Instrumental, Country, etc. Eu gostaria que comentasse este assunto.
MG-
Primeiro, acho que existe uma fantasia de que algum lugar, escola, curso, título ou algo assim pode dar conta de toda a sua formação. Meu raciocínio sempre foi pensar aonde posso arrecadar, recolher, somar informações a minha trajetória, que deve estar centrada em mim, não em uma instituição, e menos ainda em apenas uma pessoa. Segundo, meu papel no ensino superior é de formar guitarristas profissionais. Nesse sentido, o jazz é uma escola. Eu nunca gravei nem gravaria um standard ou um tema de jazz (que não são a mesma coisa), mas por ser centrado na improvisação, no desenvolvimento do instrumentista, trata-se de muito mais que um gênero. E se você for tocar com um artista no Brasil, terá de saber se colocar numa gama bastante extensa de gêneros e/ou estilos. Por outro lado, se você tem certeza de que só quer tocar Rock, por exemplo, com o dinheiro de quatro anos de curso, te garanto que dá para passar seis meses ou um ano nos EUA, participar e assistir master-classes, workshops e shows com os melhores guitarristas de Rock do mundo. Nesse caso, por que alguém iria preferir fazer uma faculdade aqui?

RC- Em sua dissertação de mestrado afirmou que "... escrita musical é, até certo ponto, inadequada para os ritmos africanos, inclusive porque os entende como contramétricos, ou seja, contra uma suposta métrica padrão." Fale sobre isso aplicado à escrita do samba.
MG-
Nosso sistema de "divisão rítmica" é mais adequado a escrita da música de origem europeia. Muito da rítmica tida como de origem africana é mais fácil de reproduzir de forma aural (de ouvido) do que através da racionalização. Para executar duas síncopas ligadas, o raciocínio seria: divida dois tempos em quatro, toque essa quarta parte do primeiro, junte a segunda com a terceira, daí toque a quarta e última parte. Então ligue com o primeiro tempo da próxima pulsação, e assim sucessivamente. Nem terminei e já ficou complicadíssimo.

RC- 11- Neste mesmo trabalho disse que "Não é possível inventar um ritmo ...". Em que sentido isso se aplica?
MG-
No sentido do gênero. As células de um determinado ritmo (gênero) são, por assim dizer, sagradas. Ninguém as inventou, mas elas parecem ter efeitos sobre a psique humana. E quando alguém diz que inventou, está se aproveitando de algo pré-existente e enfatizando uma ou outra coisa. E isso não é criar.

"... ao menos no nível de uma dada execução, o arranjador pode ser visto como coautor."

Marcelo Gomes RC- Existem pessoas que consideram o Samba-Jazz um braço da Bossa Nova. Lendo sua tese de doutorado é possível afirmar que não ...
MG-
Já discorri 200 páginas sobre o assunto e é possível encontrar a tese na biblioteca digital da Unicamp (samba-jazz além e aquém da bossa nova). Mas posso te dizer que cometi um erro acadêmico. Sendo o problema investigar se samba-jazz é ou não bossa nova, eu não deveria partir de uma ideia pronta, a de que não é. Mas de fato, a despeito de todos os fenômenos, gravações e contextos em que eles se encontram imbricados, samba-jazz não é bossa nova e vice-versa.

RC- Como se poderia diferenciar o Samba-Jazz da Bossa Nova executada de forma instrumental com improvisos e tal?
MG-
Posso fazê-lo só com adjetivos: se a bossa nova trata de economia, concisão, postura cool, até mesmo certa aversão pela improvisação, no samba-jazz você pode notar estridência, excessos, e uma postura hard-bop, com os solos tendo papel bastante relevante. O próprio Menescal me relatou uma situação nas boates do Rio de Janeiro em meados dos anos sessenta onde, na mesma apresentação, um cantor interpretava o tema, e os músicos se policiavam para garantir aquela atmosfera contida da bossa. Porém, assim que acabava o tema e se iniciavam os solos, os músicos saiam tocando como loucos, mudando sua posição estética para o famoso contexto "vamos quebrar tudo".

RC- Como você entende a ideia de que o arranjador é um coautor de uma obra musical?
MG-
Simples. As composições em música popular não estão prontas para serem executadas. As mínimas decisões como montar o acorde cifrado ou quantas vezes repetir a peça já são atividades de arranjo. E mais, se você der a mesma peça a dois arranjadores diferentes, o resultado sonoro pode vir a ser bastante distintos. Então, ao menos no nível de uma dada execução, o arranjador pode ser visto como coautor.

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