Entrevista com Mauricio Cailet

Mauricio Cailet, guitarrista e compositor fala sobre o seu CD "Time's up" e o processo de gravação e arranjo, comenta sobre a "Mostra de guitarras do Brasil", quarteto Quadrivium, revisões que fez em livros e muito mais.

Rodrigo Chenta- O CD "Time’s up" além do trio de bateria, contrabaixo e guitarra possui percussão, teclados e outros overdubs. Pensando nisso como você se organiza em relação aos concertos?
Mauricio Cailet-
Nos shows utilizo as trilhas gravadas para o disco como playback de apoio. Piano, sintetizadores e algumas guitarras (base e dobras) são disparados pelo Johnny Moreira (baterista) via iPad, com o metrônomo apenas para ele e estes elementos complementares para o P.A. e monitores. Para meu próximo disco - com lançamento previsto para o final de 2016 - pretendo enxugar os arranjos, de modo que possamos executá-los ao vivo apenas com o trio de guitarra, contrabaixo e bateria. Adoraria executar os arranjos mais complexos do "Time's Up" com músicos reais no palco, mas minha atual realidade só permite o trio... rsrs.

RC- É curioso a inserção da música "Father and Mother", de Edson Barreto onde somente o contrabaixo é executado. Fale sobre esta ideia.
MC-
Eu tinha apenas 8 músicas compostas e já mixadas para este disco, porém achei o trabalho curto, mesmo para o gênero instrumental. Já estava me preparando para compor mais uma ou duas músicas para complementar o álbum, eis que o Edson comenta que havia composto uma música para os pais. Fiquei curioso e pedi para ouvir. Ele gravou e me enviou junto com a partitura. Gostei da atmosfera erudita, da escolha das notas e do que realmente significava aquela composição. O Edson imaginou que eu faria um arranjo completo com guitarra e bateria, porém apenas tratei alguns detalhes daquela mesma gravação que ele enviou e decidi que a colocaria no disco. Apesar de ser um álbum de um guitarrista, composto por um guitarrista e com temas onde a guitarra "comanda", para mim a música está acima destes rótulos e sempre procuro deixar os instrumentistas que tocam comigo mostrarem o seu melhor. Outro exemplo é a música "Time's Up" - que dá nome ao disco. Ela tem um excelente solo de bateria do Johnny Moreira!

RC- De uma forma geral o CD possui um caráter melodioso e sentimental. Esta é uma característica proposital deste trabalho?
MC-
Sim. Eu até arrisco considerar que é um álbum conceitual, já que procurei passar em cada composição algumas experiências de vida - algumas boas, outras nem tanto - como forma de expressão. Na música instrumental isso é uma tarefa muito mais difícil, pois não tenho letras para expressar esses sentimentos. Procurei criar uma atmosfera diferente para cada música, além de riffs, melodias, cadências harmônicas, andamentos e timbres que combinados pudessem transportar o ouvinte ao mais próximo possível das emoções que senti quando compus as músicas. Obviamente o título de cada música acaba sugestionando o ouvinte ao caminho que quero atingir, mas a interpretação de cada um é livre dentro do meu "universo" musical proposto no disco.

"... procurei passar em cada composição algumas experiências de vida ..."

Mostra Guitarras do Brasil RC- Fale como funciona o teu processo criativo em relação aos arranjos e composições.
MC-
Sempre penso em riffs e melodias que traduzam o sentimento ou o estado de espírito que eu quero expressar naquela música. O que soa belo me agrada, independente de análises teóricas ou técnicas e geralmente este é o ponto de partida das minhas composições. Vou utilizar a teoria e a técnica no desenvolvimento da composição e nos arranjos como ferramentas para atingir meu objetivo, não como o assunto principal. Não é meu lance ficar despejando frases técnicas e rápidas sobre uma backing track, colocar um título e ter mais uma música pronta. Trato minha música como se estivesse contando uma história, com começo, meio e fim bem definidos. Nos arranjos procuro colocar cada elemento no seu lugar, já que cada instrumento complementa as linhas de outro, sem invadir o espaço do tema, por exemplo, o que explica o destaque que dou a bateria e contrabaixo. Não quero cansar o ouvinte com solos intermináveis e nem desviar a atenção do assunto principal. É uma abordagem pouco usual da música instrumental orientada para a guitarra, mas é a forma como prefiro me expressar. E tem funcionado! Muitas pessoas pegam estrada ouvindo meu disco, fazem reuniões familiares com meu CD tocando ao fundo, estudam e até analisam harmonicamente e estruturalmente minhas músicas. Tenho atingido um público que não é apenas de estudantes de música ou aficionados em guitarra, o que me deixa muito satisfeito.

RC- Você mixou e masterizou o álbum "Time’s up" em seu home estúdio. Alguns entendem que o músico que grava deve ter um certo distanciamento deste processo. Como você entende este assunto?
MC-
Neste caso dois fatores foram preponderantes para que eu decidisse mixar e masterizar meu próprio disco. O primeiro foi o tempo de maturação deste trabalho, já que as músicas foram compostas entre 1997 e 2001 e alguns arranjos das guitarras foram refeitos entre 2009 e 2012, portanto eu já sabia exatamente como queria ouvir o resultado final. Faz parte da questão conceitual deste trabalho. O segundo foi uma limitação financeira na época para contratar alguém para a masterização... rsrs.

RC- João Paulo de Almeida dirigiu e co-produziu este CD. Fale sobre essa interação com ele.
MC-
Quem me apresentou ao João Paulo foi o Luiz Leme (engenheiro de áudio), que já havia trabalhado com o Johnny Moreira em outras gravações e na época estava gravando direto no Studio 11, de propriedade do João Paulo. Criamos laços pessoais e profissionais muito rapidamente, cheguei a gravar algumas trilhas em outras produções do Studio 11 e num determinado momento apresentei minhas músicas a ele. João curtiu muito o meu trabalho e disse que gostaria de produzi-lo. Fiquei muito feliz com a proposta pois ele tem uma tremenda visão musical e ótimas referências. Obviamente, topei na hora! Como se não bastasse, ele me cedeu as horas de estúdio e resolveu alguns trechos de algumas músicas que estavam soando um pouco "over". João Paulo de Almeida foi o responsável por lapidar o meu trabalho, principalmente nas linhas de contrabaixo e bateria, já que fizemos pouquíssimas alterações nas linhas de guitarra naquele momento.

RC- No encarte consta que a bateria foi gravada em 2004 e o álbum finalizado em 2013. O que ocasionou este grande hiato de tempo no encerramento do projeto?
MC-
Alguns fatores contribuíram para esta longa pausa. Luiz Leme foi o técnico na gravação da bateria e na maior parte do contrabaixo e o Edu Garcia operou em duas faixas na gravação do Edson Barreto. O João Paulo calculou que gastaríamos um certo número de períodos no estúdio, mas apesar de termos feito uma pré-produção, dedicamos muito tempo para captar o melhor da performance de contrabaixo e bateria. Johnny Moreira e o Edson são excelentes músicos e todos os "takes" saiam praticamente perfeitos, assim como a captação feita pelo Luiz e Edu, mas tanto eu como o João Paulo queríamos captar "aquele" momento mágico... Realmente conseguimos, mas ficamos tão envolvidos que as semanas foram passando e fugimos muito do prazo previsto. Quando estávamos reprogramando o cronograma, o dono do imóvel não renovou o aluguel e o Studio 11 teve que sair de São Paulo. Eu teria apenas 2 semanas para gravar todas as guitarras, dobras, solos e detalhes de 8 músicas, portanto, resolvi deixar o trabalho em standby naquele momento. Prefiro fazer com calma e bem feito do que rápido e mais ou menos... rsrs.

Na mesma época eu tocava no circuito de Country Music e entrei numa banda que tinha uma agenda boa, com 18 shows por mês e ainda tocava com minha banda de cover dos hits dos comerciais de um cigarro famoso nos anos 80 e 90, a banda HHITS. Tive que deixar outros projetos de lado naquele momento, inclusive parei de dar aulas. Mais dois anos se passaram e eu ainda nem havia começado a gravar as guitarras! Pouco tempo depois os shows com a banda country começaram a diminuir e eu fui convidado a ser gerente e programador artístico de um tradicional bar de Blues e Jazz aqui em São Paulo, o Mr. Blues Bar. Simplesmente eu não tinha tempo para gravar meu próprio trabalho autoral. Com o fim do bar em 2007 - o proprietário do imóvel vendeu o quarteirão para uma construtora e o bar estava no meio deste quarteirão - finalmente teria tempo para me dedicar ao meu disco, mas apareceram algumas bandas de Classic e Pop Rock (covers) e lá se foi meu tempo novamente. Em 2009 fui convidado a produzir a Mostra Guitarras do Brasil e a realizei em 2010. A Mostra foi um sucesso e já comecei a elaborar a segunda edição em 2011, a ser realizada em 2012. Foi justamente neste ano que tomei vergonha e comecei a rearranjar e a gravar parte das guitarras definitivas do meu trabalho!

"Trato minha música como se estivesse contando uma história, com começo, meio e fim bem definidos."

Mauricio Cailet - CD 'Time's up'
RC- Como você descreve o CD "Times up"?
MC-
O resumo de 16 anos da minha vida profissional e pessoal, pois tenho composições de 1997 (quando eu tinha 25 anos de idade) e um registro de como tocava e me expressava artisticamente em 2013 (já com 41 anos).

O ser humano está em amadurecimento constante e esses 16 anos fizeram uma tremenda diferença. Como músico mudei a forma de pensar, tocar, compor e timbrar. Atualmente já componho de outra forma, vou direto ao ponto, mas mantenho a essência da música acima do instrumento que toco. Não é pelo fato de eu ser um guitarrista que só a guitarra vai se destacar nos trabalhos que faço. O álbum está disponível nas plataformas digitais (Spotify, Deezer, iTunes, etc.) e em formato físico. Eu diria que a audição do "Time's Up" é uma boa forma das pessoas saberem como penso musicalmente e talvez se emocionarem com alguns dos meus temas com assuntos mais pessoais, como "My Light" e "In Memoriam", que homenageiam minha mãe e meu pai (falecido em 1998).

RC- Como surgiu o projeto "Mostra Guitarras do Brasil"?
MC-
O embrião do projeto foi idealizado pelo Luis Feijão, que era proprietário do Mr. Blues Bar na época que fui gerente e programador artístico. Ele sempre foi um cara muito ligado a música, já teve diversas bandas atuando como cantor e admira os grandes guitarristas. Ele se sentia muito incomodado com o fato de grandes nomes da guitarra no Brasil no passado e alguns nomes relevantes na atualidade estarem fora dos meios de comunicação, raramente se apresentando aqui em São Paulo e queria reverter este quadro. Só não sabia como, já que alguns destes nomes moravam em ouros estados e um festival nestes moldes tem um alto custo operacional. Ele foi se informar sobre projetos de Fomento à Cultura nas esferas municipais e estaduais e achou o ProAc (Programa de Ação Cultural) da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo como algo que se encaixava no que procurava. É um programa que prevê a renúncia fiscal do ICMS das empresas privadas que invistam nos projetos culturais. Com esta questão resolvida, ele precisava de alguém que tivesse conhecimento no meio musical, especificamente da guitarra. Foi ai que eu entrei no projeto como Produtor Executivo. Foi gratificante ter contato direto com ídolos nacionais na minha carreira como guitarrista, tais como Pepeu Gomes, Armandinho Macêdo, Heraldo do Monte, dentre muitos outros. Sugeri algumas adequações ao projeto, o Luis Feijão abriu uma produtora (Rhadar Cultural) e já realizamos 3 edições da Mostra Guitarras do Brasil (2010, 2012 e 2014), além da Mostra de Blues, Mostra de Jazz, Mostra Cultural Brasil-Cuba, Festival Novos Sons, Mostra de Choro, dentre outros projetos musicais no portfólio da produtora.

Até as duas primeiras edições, alguns nomes não estavam com uma grande atividade aqui em São Paulo e após a realização da Mostra, até foram capas de revistas especializadas e reativaram alguns trabalhos lendários! Guitarristas que participaram: Pepeu Gomes, Armandinho Macêdo, Heraldo do Monte, Luiz Carlini, Olmir Stocker, Michel Leme, Edu Ardanuy, Celso Salim, Faiska, Mozart Mello, Sandro Haick, Edu Letti, Hard Alexandre, Ricardo Vignini, Marcinho Eiras, Quarteto Kroma e Victor Biglione. Inclusive o SESC e outras produtoras de outros estados elaboraram projetos parecidos e com os mesmos artistas depois do nosso "start". Ao menos os grandes nomes da guitarra brasileira voltaram a ser assunto!

RC- Quais foram as dificuldades e desafios enfrentados na realização deste trabalho?
MC-
A elaboração e aprovação do projeto é algo complexo, pois se não for consistente culturalmente e não tiver as contrapartidas exigidas pela Secretaria de Cultura, nada feito. Além de promovermos 1 show de cada artista com ingresso gratuito, elaboramos um livreto com a história do desenvolvimento do instrumento, suas técnicas e áreas de atuação no Brasil, além do histórico (e histórias) de cada artista. Rodamos 5 mil unidades de cada livreto e distribuímos gratuitamente nas escolas, conservatórios e faculdades de música em todo o Estado de São Paulo. Resolver o operacional para as apresentações também é complicado, principalmente para os artistas que vem de outros estados, já que isso inclui passagens aéreas, hospedagem e deslocamento dentro das cidades onde os shows foram realizados. A questão do show em si também apresenta algumas dificuldades, como locação de palco, backline, cumprimento do rider técnico de cada grupo (todos se apresentaram com suas respectivas bandas), camarins, equipe técnica, etc.

A parte burocrática é outro desafio, já que a prestação de contas não perdoa 1 centavo sem nota e comprovação de utilização dentro do projeto, mas neste caso temos uma equipe que cuida destas questões na produtora. Agora o mais difícil mesmo é a captação de recursos para a realização junto às empresas privadas. Temos uma equipe de captadores que apresentam os projetos aprovados e pesquisam quais empresas tem interesse e reúnem todos os requisitos para o aporte de verba contra desconto no ICMS devido ao Estado. Muitas pessoas tem uma impressão errônea sobre ProAc ou qualquer outro programa de Fomento à Cultura, achando que o governo simplesmente dá dinheiro para o proponente dos projetos. É muito mais complexo do que se imagina e o período de elaboração e pré-produção pode chegar a 10 meses, muitas vezes sem verba e sem a certeza de aprovação do projeto.

RC- A Music Maker Custom Guitars possui uma guitarra signature tua. Fale sobre o projeto do instrumento e como ocorreu esta parceria com eles?
MC-
Conheci o Ivan Freitas entre 1989/90 na oficina do luthier Tiguez. Na época fui trabalhar lá para aprender os macetes de regulagem e construção dos instrumentos, porém o Ivan já estava num estágio muito avançado, praticamente equilibrado ao Tiguez, inclusive construindo, pintando e finalizando diversos instrumentos. Em 1991 o Ivan saiu da oficina e começou a fazer regulagens, reparos e a fabricar instrumentos num quartinho na casa da mãe. Em pouco tempo o espaço ficou muito pequeno para a grande quantidade de serviços que diversos músicos de São Paulo requisitavam e em 1992 ele alugou um imóvel comercial e fundou a Music Maker Custom Guitars. Fui da turma dos primeiros a encomendar uma guitarra Music Maker pois gosto muito do Ivan como pessoa e como luthier. Poucos anos depois vendi este instrumento e parti para os importados, já que as opções e o acesso a este tipo de equipamento estavam muito mais fáceis do que na década de 80 e para comprar uma guitarra importada, teria que me desfazer da que tinha. Não que eu não estivesse satisfeito com o instrumento do Ivan, mas era a oportunidade de testar diversos instrumentos que eu só via em revistas importadas. Fiquei muitos anos sem ter contato direto com ele, já que as regulagens básicas na minha guitarra eu mesmo fazia e nunca precisei de reparos mais extensos. Um belo dia, o instrumento que eu usava desde 1999 precisou de uma troca de trastes e resolvi procurar o Ivan para este serviço. A empresa tinha crescido bastante e os instrumentos que ele fabricava atingiram um nível bem alto de qualidade. Comecei a ir na oficina dele com frequência e vi diversos músicos renomados encomendando suas guitarras, mas ainda não era o momento de eu encomendar um instrumento Custom novamente. Eu sabia muito bem qual guitarra queria e estava juntando minhas economias para comprar uma Ernie Ball Music Man Steve Morse Model, pois havia tocado em uma anos atrás e me senti muito confortável com o instrumento no rápido contato que tive. Lembro que comentei com o Ivan: deixa eu comprar minha Steve Morse e depois conversaremos... rsrs.

No início de 2012, fui até lá e durante uma conversa com ele, contei que finalmente havia comprado os dois modelos da EBMM Steve Morse (Standard e Y2D) que eu tanto queria, porém estava parcialmente satisfeito, já que alguns detalhes nessas guitarras me incomodavam um pouco após ter tocado um tempo com elas, principalmente o comprimento da escala, a definição dos bordões e o material dos trastes. Sentia falta de algo, apesar de serem excelentes instrumentos. Após este papo recebi um convite dele para desenvolvermos um modelo de guitarra Custom sob minhas especificações. Assim começava a nascer o modelo "M2C" dentro da linha LTD Special da Music Maker. Minhas EBMM Steve Morse serviram como referência do que eu procurava numa guitarra e mudamos o que me incomodava. Partindo deste instrumento, eu e Ivan desenvolvemos o que eu considero minha guitarra definitiva. O corpo de Strat sem os contornos de conforto (sem rebaixos, tal e qual uma Telecaster), o braço em Birdseye Maple sem verniz, o baixo peso do instrumento, a captação e o conforto do "shape" do braço eram itens que eu sempre procurei numa guitarra. Estas características me agradavam e queria mantê-las. As maiores alterações foram feitas no comprimento da escala e na madeira utilizada (escala em Birdseye Maple com 25” de comprimento na Music Maker M2C contra escala em Rosewood com 25 ½” na Steve Morse), tipo de trastes utilizados (médio-jumbo em aço inox na M2C, trastes médio-jumbo convencionais na Steve Morse), trêmolo Gotoh 510 na M2C (ponte fixa na Steve Morse) e a utilização de apenas 2 humbuckers (DiMarzio Steve Morse Model) na M2C, contra os 4 captadores da guitarra que serviu de base ao projeto. No corpo do instrumento utilizamos Basswood com topo em Quilted Maple, que em conjunto com a escala em Birdseye Maple garantiu ao instrumento um timbre equilibrado, com frequências bem definidas, ótimo sustain e baixo peso físico. A madeira do topo é bem figurada e a cor escolhida (Bengal Burst) realçou a beleza natural da peça. A combinação dos captadores e sua refinada ligação elétrica numa megaswitch de 5 posições, tornaram a guitarra muito versátil, mesmo com apenas 2 humbuckers, já que toco variados estilos musicais e prefiro levar apenas um instrumento aos shows e gravações. Lançamos este modelo oficialmente na Expomusic 2013 (apesar de eu ter gravado algumas faixas do disco com ela na condição de protótipo ainda em 2012) e logo em seguida começamos a desenvolver o segundo modelo da linha, a M2C Classic Tone. Mantém as mesmas medidas e hardware da Bengal Burst, porém com corpo em Mogno com topo em Quilted Maple, escala em Rosewood e um par de captadores Gibson mini-humbucker. Este segundo modelo tem uma sonoridade mais "vintage", lembrado a Les Paul Deluxe, mas com o conforto e desenho básico da guitarra em que nos inspiramos. Já temos uma terceira variação do modelo, desta vez com braço em Flamed Maple, escala em Rosewood e captação Suhr SSV e SSH+. O resultado ficou tão satisfatório que vendi uma das minhas Steve Morse e a outra que ficou comigo raramente sai do case. Tenho utilizado minhas Music Makers M2C com bastante frequência e curiosamente, apesar das 3 terem trêmolo, só as utilizo como ponte fixa de uns tempos para cá. Foram muitos anos tocando em guitarras sem Floyd Rose e afins e acabei adequando minha técnica e fraseado a ponte fixa.

"... a audição do 'Time's Up' é uma boa forma das pessoas saberem como penso musicalmente e talvez se emocionarem com alguns dos meus temas com assuntos mais pessoais ..."

Mauricio Cailet RC- Em 1997 formou juntamente com Márcio Alves, Ciro Visconti e Heraldo Paarman o grupo Quadrivium. Quais eram as dificuldades de quatro guitarras tocando em quarteto?
MC-
A maior dificuldade foi a disciplina, já que guitarristas que vieram do rock tem uma certa rebeldia natural, sempre querem tocar mais alto que seus companheiros de banda e toda aquela questão infantil que envolve o ego... rsrs. Resolvemos esta questão muito rapidamente, mesmo executando as obras com guitarras distorcidas, já que nossa intenção era que os arranjos soassem sinfônicos e os "overtones" gerados por 4 guitarras tocadas com disciplina (e distorção) e a dinâmica que as partituras originais pediam, cumpriam bem este papel. Outra dificuldade era ter acesso as partituras para quartetos de cordas, principalmente de obras conhecidas do grande público, como obras de Mozart e Vivaldi por exemplo. Essa questão das partituras nossa coordenadora musical Marisa Ramires e os amigos do Quaternaglia (quarteto de violões), resolveram em pouco tempo. Tivemos que fazer algumas adaptações técnicas relacionadas as digitações e principalmente ao equipamento, já que logo de cara percebemos que os registros mais graves do violoncelo não existiam numa guitarra de 6 cordas com afinação padrão, idem para os registros mais altos do violino, mesmo em guitarras com 24 trastes. Trabalhar dinâmica em 4 guitarras distorcidas só foi possível com a utilização de pedal de volume e sempre tínhamos cada um um pedal oitavador, já que nos revezávamos em cada obra. Numa obra eu tocava as linhas de viola, na outra, primeiro violino, em mais outra violoncelo, etc. O oitavador servia para dar mais corpo nas linhas de violoncelo, já que apenas neste caso usávamos menos distorção.

RC- Como faziam com as partituras, já que obras escritas especificamente para esta formação instrumental é coisa rara?
MC-
Utilizávamos as partituras originalmente escritas para quartetos de cordas. Obviamente isto limitou um pouco o repertório na época e nos obrigou a desenvolver junto ao luthier Tiguez a guitarra Piccolo - para alcançar a tessitura do violino - e a utilizar uma guitarra barítono para as vozes do violoncelo. Alguns arranjos foram refeitos para quarteto pela Marisa Ramires (Mestre em música pela UNESP e Bacharel em Composição e Regência pela FAAM), mas não lembro no momento quais foram.

RC- Na editora Globo fez a revisão técnica dos livros "Queen: História ilustrada da maior banda de rock de todos os tempos" e "Luz e Sombra: conversas com Jimmy Page". Como foi a realização destes projetos?
MC-
Quem me indicou para a revisão técnica destes livros foi o amigo Ricardo Batalha (editor da revista Roadie Crew e assessor de imprensa pela ASE Press Music). O primeiro livro foi o do Queen e fiquei responsável pela tradução dos termos técnicos relacionados a música e mais especificamente ao equipamento do Brian May. A tradução do original em inglês para o português estava ótima, mas os termos técnicos utilizados no universo da guitarra foram traduzidos ao pé da letra, o que tirava o sentido dos textos. Revisei e utilizei os termos corretos e a editora ficou satisfeita com meu trabalho. Meses depois me procuraram para realizar o mesmo trabalho no livro sobre o Jimmy Page. Este foi mais complexo, já que o livro todo trata da história de um guitarrista, não só alguns capítulos como no livro do Queen. Foram ótimas experiências, pois além de ter a oportunidade de ler os originais sobre a história de dois guitarristas que admiro muito, recebi os livros em inglês e posteriormente as edições finalizadas para o mercado nacional, tive uma boa remuneração e fiz parte desta história - apesar de um pequeno erro da editora em não creditar minha revisão na ficha técnica da edição brasileira do livro sobre o Queen.

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