Entrevista com Michel Leme

Michel Leme, guitarrista e compositor fala sobre as faixas de seu álbum intitulado "5", assuntos relacionados com a improvisação musical, citações melódicas, os títulos de suas composições e muito mais.

Rodrigo Chenta- Algo curioso e de certa forma engraçado, é o fato de você usar uma Gibson 175 modelo (1979) com uma fita colada no headstock tampando o logo. Quais dificuldades existem no processo para obter o apoio do fabricante e representante no Brasil?
Michel Leme-
Eu adquiri essa guitarra fabricada em 1979 na Krocodille Pop, na Teodoro Sampaio, em 2000. Em 2005, depois de ter gravado alguns discos com o instrumento, eu enviei um email para o representante da marca no Brasil dizendo que já usava a guitarra há anos e que gostaria de saber se eles não gostariam de desenvolver algum tipo de parceria. Até hoje não recebi sequer uma resposta. Aprendi muito com esse meu ato de ingenuidade e com a escrotidão (perdoem meu francês) que significa alguém simplesmente ignorar o contato de outro alguém.

E eu cubro a marca não só por esta razão: a guitarra está paga e a tal empresa não precisa de mais um divulgador, já que eles estão na "grande mídia" (o alto-falante do sistema) direto. Então, eles não precisam de mais um divulgador, e eu não preciso exibir no meu instrumento a tal marca. Estou feliz e tranquilo quanto a isso.

RC- Após analisar seus solos em apresentações, constatei que você utiliza muitas citações melódicas como, por exemplo, a parte 'B' de "Garota de Ipanema" e outras mais. Diga-me qual é a importância dessa "forma de improvisação"?
ML-
Isso é uma coisa comum na música improvisada. E a grande graça é a citação surgir instintivamente e você testemunhar uma música se sobrepondo à outra. E isso não se estuda - e tampouco é um objetivo no momento de tocar, o que se estuda são as músicas, os temas, e não essa "forma de improvisação". Isso é algo que acontece naturalmente, como você citar uma frase de outra pessoa numa conversa pra reforçar um argumento ou mesmo fazer um trocadilho com a frase para simples diversão.

RC- Certa vez um aluno de um renomado professor da FASCS disse que não queria que ele lhe ensinasse arpejos, escalas, etc; pois assim sendo, acabaria com sua inspiração. O que você diz sobre este cenário?
ML-
Isso é apenas um equívoco de um garoto ingênuo e acometido por uma alta dose de pretensão. Arpejos e escalas fazem parte do básico pra improvisar; são ferramentas que, caso o músico seja dotado de talento e disciplina, se tornam música. O menino que disse isso tem que falar menos e estudar mais.

"... Música não tem pátria."

Michel Leme RC- Sobre o seu livro "150 Frases de Jazz e Fusion", que aborda a aplicação das mesmas, vê-se um vasto material fraseológico. Existem guitarristas como Olmir Stocker (Alemão), por exemplo, que caminham no sentido oposto a esta proposta. A seu ver, como o estudante de improvisação pode tirar um bom proveito das frases dos grandes mestres?
ML-
Bem, esse livro foi lançado em 1996, está esgotado e o senhor responsável por essa editora não me pagou o que deve ainda, só pra constar e para os músicos iniciantes que lêem isso saberem como funcionam as coisas. Infelizmente, pessoas de má fé desfilam alegremente por aí.

Em relação a estudar frases de outros caras, acredito que se deve fazê-lo quando existe uma real necessidade. Por exemplo, se você ouve uma frase que te deixa maluco e que te traz uma incontrolável vontade de saber do que ela é feita, você tem mais é que tirar, entender e assimilar - esquecer depois é legal também, pra não ficar querendo tocar frases prontas pra impressionar, por exemplo. Então, ao meu ver, tirar frases serve como parte do aprendizado, principalmente no começo.
O que não dá pra aceitar são besteiras como impor para alunos a transcrição de solos inteiros como uma rotina, como fazem algumas empresas da "educação musical". Pergunto: por qual razão eu tenho que escrever partes de um solo que já canto junto, por exemplo? E se eu posso cantar essas partes, pra quê transcrevê-las? Pra ter mais um papel provando que eu estudei? Seria muito mais proveitoso se fosse pedido aos alunos de música que querem improvisar que aprendam e toquem de cor vários standarts de jazz e da música brasileira, por exemplo. Isso sim, é algo realista e musical. Mas deve-se ter o cuidado e o bom senso de fazê-lo com parcimônia, pois a historinha de pedir para um aluno tirar 6 ou 8 temas "para a semana que vem" é, no mínimo, prejudicial. Mas isso é uma prática comum; alunos e ex-alunos dessas empresas – e não se esqueça de que uma empresa tem como objetivo o lucro - me contam coisas do gênero frequentemente quando me procuram com o intuito de voltar a tocar e/ou de voltar a ter prazer com a música.

Na minha experiência com aulas, constatei que o aluno deve ter tempo de assimilar um tema, e cabe ao professor mostrar os benefícios de tocar esse mesmo tema em outros tons e andamentos. Neste processo, é importantíssimo tocar muito cada tema junto com o aluno e, se possível, gravando. Isso serve para que sejam discutidos os pontos importantes que ocorreram na execução, o que norteará os próximos passos num curso realmente sério.

Mas a mediocridade é o que manda hoje e ninguém questiona os métodos ilógicos e anti-musicais que possuem "grife", não é? É o lamentável mundinho das aparências. E o mais engraçado de tudo isso é que, na hora de tocar, que é a hora da verdade, não rola música com esses enganadores e o engodo fica claríssimo! Só não vê quem não quer... Estão fazendo os estudantes acreditarem que o modo de aprender está dentro de um único sistema, desprezando, por exemplo, importantes processos como a "tradição oral" - fazendo uma alusão a como é passada a sabedoria à frente em vários grupos humanos ao longo da história -, que é tocar junto, conversar sobre e ouvir música sem a neurose de querer respostas rápidas ou fórmulas diante de tudo - isso só para citar um exemplo, é a manifestação da perigosíssima "visão única" – o verdadeiro "Truman Show" no qual vivemos – na música.

RC- Você é um guitarrista que constrói frases muito rápidas e rítmicas. Como professor do instrumento, qual seria o caminho para o aluno trilhar por este modelo de produção de improvisos?
ML-
Cada pessoa tem suas características únicas e isso deveria se refletir nas escolhas musicais de cada um. Certa vez, uma queridíssima amiga ouviu uma gravação minha e disse: -"É você tocando! Você toca do jeito que fala." De minha parte, não tomei isso como elogio; ela me conhece há tempos e simplesmente relacionou o que ouviu ao que ela conhece de minha pessoa. Só que, infelizmente, isso é raro. Guitarristas preferem imitar o Pat Metheny, baixistas preferem imitar o Jaco etc. Esses meninos se escondem atrás de outras "personas" e ficam felizes se ouvem "cara, você lembra muito o Pat tocando!" ... Ser clone é um triste objetivo; melhor acordar enquanto é tempo.
Não sei se o mais lógico seja eu tentar dizer qual o "caminho para o aluno trilhar por este modelo". Não creio que "trilhar por um modelo" seja uma solução. Acredito que o mais lógico seja dizer para os caras se aprofundarem na música. Esse aprofundamento significará, ao mesmo tempo, uma longa jornada de autoconhecimento.

"A música criada ou recriada no momento, é impactante..."

Michel Leme - CD 5
RC- Você teve a oportunidade de tocar com nomes como Gary Willis, Joe Lovano, Michael Brecker, Lee Konitz, além de outros. Qual a diferença na interação (improvisar) dos brasileiros com estes mestres pertencentes de certa forma, à história da improvisação norte americana?
ML-
Todos esses caras que você cita chegaram mostrando igualdade, tranquilidade e humildade no momento de tocar, em primeiro lugar. Acredito que seja importante dizer isso para colaborar para o abandono da arrogância por parte de alguns garotos mal-informados.

Estes músicos cumprimentaram a mim e aos outros músicos presentes e, em seguida, sugeriram um tema ou outro e/ou pediram sugestões, gentilmente. A partir desse momento, apenas rolou música e um ouvindo o outro ao máximo. A questão de ser norte americano ou não para mim não influi, porque música não tem pátria. A diferença é a musicalidade, o compromisso com a música e a experiência de cada um – e isso a gente sente antes mesmo que a pessoa comece a tocar. É enriquecedor tocar com quem fala "a língua" (musical) de outra forma, sem dúvida, mas é sempre bom tocar com quem tem as mínimas condições para tocar junto, que são: musicalidade, um tempo bom, senso de forma e um certo repertório. Esses pré-requisitos possibilitam acontecer muita música.

RC- Certa vez você disse: "Muitos donos de bar querem que os músicos façam fundo musical para gente mal educada conversar". Esta é uma realidade triste e comprovada. Quais seriam seus pensamentos sobre isso?
ML-
É preciso que o músico crie novos espaços pra tocar ou que apenas continue tocando onde exista respeito e uma relação justa em relação à grana. Se a maioria dos lugares tem gerências torpes, busquemos alternativas.

RC- A cada disco gravado você trabalha com instrumentistas diferentes. Qual é o critério de escolha dos músicos para a gravação de seus álbuns?
ML-
Em cada época a gente toca com pessoas diferentes, então cada disco acompanha esse processo. Se gravo com um grupo é porque tocamos muito e criamos uma conexão, e esse processo pode culminar em um disco. Então, no meu caso, os discos acompanham a vida, mas, importante dizer, não são "o" objetivo como muitos podem pensar... Eles são uma vertente importante de nossas atividades, sem dúvida, mas, usando a frase do grande contrabaixista Ray Brown, o objetivo é tocar.

RC- Músicos como Thelonious Monk e John Coltrane não ensaiavam para a maioria de suas gravações. Isso se perdeu um pouco com o tempo e você de certa forma resgata esta prática. O que você diria sobre este assunto?
ML-
Se a graça dessa música - Jazz, música instrumental brasileira ou quaisquer outros rótulos que designem a música sobre a qual se improvisa - é improvisar, então por que ensaiar? Ensaiar pra conhecer os temas, talvez? Hum... Será que cada músico não pode fazer isso sozinho, ou seja, fazer a lição de casa e chegar com a música na mente para tocar? E ensaiar pra combinar dinâmicas, ordem de solistas, introduções e finais? Socorro! Essas premeditações significam a morte dessa música, e só quem está afim de apresentar algo infalível, ou seja, quem não quer (ou não pode) correr riscos é que parte pra isso, fazendo tudo se tornar um mero produto, mera mercadoria.

O ensaio sob o pretexto de fazer um som e tentar coisas diferentes tocando é OK, mas "armar" o som, "definindo" como as coisas vão acontecer com combinados e mais combinados, é algo que engessa as possibilidades de captar o momento e testemunhar o que acontece de diferente a cada vez que se toca uma música. Estar atento ao que acontece no momento e ter o desprendimento e a clareza de que uma música jamais vai ser tocada de forma igual (ou mesmo parecida) a cada vez são condições que propiciam acontecer o inexplicável, o divino.

A música criada ou recriada no momento é impactante, uma experiência indizível. Eu prefiro e recomendo muitíssimo esse caminho; é o mais vivo, verdadeiro e prazeroso.

RC- Ed Motta em seu álbum "Dwitza" utilizou uma sonoridade bastante limpa, crua sem efeitos e overdubs. Em seu novo CD "5", constatei esta mesma característica muito mais que nos anteriores. O que te levou a buscar este caminho de sonoridades?
ML-
Não faço overdubs nos meus discos - com exceção de uma ou outra percussão nos discos "Trocando Ideias" e "Quarteto". Refazer solos, então, nem pensar! E não procedo assim por alguma "razão moral" ou patrulha; é porque não tem a ver com o espírito dessa música, não fica legal mesmo.
Quanto à "crueza", simplesmente foi captado o que rolou nas salas nas quais gravamos sem criar nenhuma ambiência artificial. Não houve correções ou simulações quaisquer. O que se ouve no disco é o mais próximo do que ouvimos tocando juntos no momento da gravação.

RC- Na música "3 notas", você articula três notas rápidas no motivo do tema. Em alguns momentos "Deixa o Coltrane em paz" lembra "Afro Blue" na interpretação do mesmo. Diga-me o porquê dos títulos das composições do álbum "5º"?
ML-
O papel dos títulos das composições é secundário, embora eu preze por colocar algum sentido neles. Por exemplo, se eu componho algo com alguém ou alguma situação em mente, isso vai para o título, que serve pra registrar as músicas e também pra criar uma imagem ou colocar uma questão a mais na cabeça de quem ouve.

"Deixem o Coltrane em Paz" é um título que pode servir pra alguns músicos falarem menos de um cara como o Coltrane e passarem a fazer a sua própria história, parando de se esconder atrás de ícones e passando a encarar o grande processo que é tocar música de uma forma cada vez mais realista. "Ananda Moy Ma" eu fiz para a santa da índia que aparece no livro "Autobriografia de um Iogue" de Paramahansa Yogananda. A história é muito bonita e compus essa música numa transmissão da extinta Cia da Música, em frente às câmeras e ao vivo. Foi uma experiência inesquecível. "3 Notas" tem a ver com as três notas do tema que simplesmente tem a forma do "So What", mas cuja parte B vai para Fm e não Ebm. "Samba dos Excluídos" pode levar alguém a pensar no porquê de termos tantos excluídos na nossa sociedade, além de poder provocar o pensamento de que as pessoas honestas, por fazer o que amam, também são excluídas em vários âmbitos. "Chica Hermosa" é a minha vertente "latina" e quase que calhorda. Eu curto tocar uns cha-cha-chas e quando apresento esse tipo de tema para os caras que tocam comigo rola muita diversão. "Blues de Ocasião", a faixa extra em vídeo, tem esse nome porque esse blues não tem um tema, tem apenas a introdução em 7/4 (que fiz há uns seis anos) e uma outra intro com uns ciclos de quartas. O tema do blues depende da ocasião, daí o título.

RC- Não são muito comuns dois bateristas tocando simultaneamente. Qual o objetivo desta sonoridade peculiar e como surgiu esta necessidade?
ML-
Eu queria uma certa bagunça em relação à parte percussiva nesse disco. Eu senti a necessidade de algo além da sonoridade de um trio – baixo, guitarra, bateria - que estava rolando no processo de tocar esse repertório ao vivo. Então, numa sexta-feira em outubro de 2009, deu certo de reunir o Wagner Vasconcelos e o Bruno Tessele numa mesma sala, cada um com sua bateria e, importante dizer, sem nenhum combinado prévio. Os dois se conheceram no dia da gravação e, depois de almoçar, nós simplesmente começamos a tocar e gravamos cada música em 1 ou 2 takes - não há take 3 nesse disco.

RC- No início das músicas "Samba dos Excluídos" e "Ananda Moy Ma", onde é trabalhado somente bateria e guitarra na Introdução, não existe uma harmonia de acompanhamento apesar de ela estar implícita. O que você crê necessário para construir climas deste tipo?
ML-
Essas introduções costumam acontecer com o Bruno Migotto tocando junto com a gente no baixo. O grupo parte de algo que é tocado no momento e começa a construir em cima até chegar em algum lugar que possibilite entrar em um dos temas que a gente toca. Nessas duas faixas, especificamente, foi uma opção do Migotto não tocar; ele simplesmente esperou. E, mais uma vez, não foi combinado previamente. E o interessante é que isso trouxe mais uma combinação diferente para esse disco, ou seja, são dois momentos em que a guitarra conversa com as duas baterias sem a mediação do baixo. Isso acontece no momento e, respondendo à pergunta, pra construir climas deste tipo é preciso estar bem atento.

"Eu queria uma certa bagunça na percussão deste disco"

Michel Leme RC- Você costuma tocar de maneira ácida como diz frequentemente. Como você definiria essa forma tão presente no último CD e qual a relação com a influência do Rock na intensidade dos contextos?
ML-
Eu não resumo o que toco como "ácido", obviamente; isso seria rotular o que faço e restringir tudo a apenas um tipo de sensação. Cito esse termo às vezes porque a tal acidez está ausente hoje em dia, com tanta gente apresentando trabalhos "redondos", "bem ensaiados", ou seja, tudo para gerar aceitação em nichos que geram grana e prestígio. De minha parte, não preciso ser aceito, só preciso tocar e, caso alguém esteja presente, que se permita viajar na música - acredito mais nessa relação simples e clara entre quem toca e quem ouve.

O que está presente nesse CD é o que rolou em duas sessões de gravação no ano de 2009 comigo, Bruno Migotto, Bruno Tessele e Wagner Vasconcelos. Cada um terá uma leitura diferente disso. Se você destaca a tal "acidez" é porque isso se destacou dentro do que você sentiu ouvindo. De fato, não houve a mínima preocupação em agredir ou não agredir; nós tocamos o que acreditamos que tínhamos que tocar no momento, e só.

A relação disso com a intensidade do Rock talvez tenha a ver com minha formação, já que ouço Rock desde a infância – junto a outros estilos como a música brasileira em suas várias vertentes e a música dita clássica (o Jazz veio depois). E toco Rock até hoje, como um desafio mesmo; fazer algo acontecer num outro contexto é algo que me ensina muito. Quanto à intensidade em si, eu nunca gostei de coisas mornas, então talvez isso se manifeste no som que toco.

RC- Neste álbum ouvem-se muitos picos. Ele foge daquele estereótipo de som redondinho, pré-combinado e mais. A seu ver, o que a música instrumental improvisada deve ter para fugir da sonoridade "morna" ?
ML-
O que os músicos devem ter para fugir do que é morno é não serem mornos, em primeiro lugar. E se realmente forem pessoas mais tranquilas, passivas e neutras e conseguirem passar essas características para a música, OK! Acredito que isso soe honesto. O problema é segurar as rédeas na hora de tocar, e jamais em prol da música, mas em prol de passar uma imagem "cool" ou "madura", usando táticas que tenham como objetivo estar no grupinho que tem mais trabalhos bem pagos por tocar a música que faz com que as pessoas continuem dormindo; a música alegremente inofensiva, por vezes nacionalista e/ou saudosista, mas sempre sem arestas ou riscos; a música que não gera quaisquer questionamentos ou incômodos. Isso é, muito antes de simplesmente ser "morno", prostituir-se ao capital.

Volto à resposta da pergunta número 4: cada um toca o que é, mas o que é perverso é se moldar para se dar bem no sistema (ou, simplesmente, vender-se). Não se preocupar com a opinião dos outros ou em inserir-se é coisa pra poucos, infelizmente.

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