Entrevista com Michel Leme

Michel Leme, guitarrista e compositor fala sobre o seu álbum musical intitulado "Alma", assuntos como o sistema de endorsement, pré-produção, timbre na guitarra acústica, liberdade na execução das músicas e muito mais.

Rodrigo Chenta- É interessante o fato de você ter desenhado a ilustração da capa do CD. Fale sobre o título "Alma" e a concepção da arte deste álbum.
Michel Leme-
Obrigado por mais esta oportunidade, Rodrigo. É sempre um prazer falar para o Informação Musical, que vem prestando serviço importante aos que cultivam música, e sempre com coerência, seriedade e continuidade.

"Alma" é o nome de uma das músicas do álbum e foi inevitável batizá-la assim - até tentei outros títulos, mas esse era o único que tinha a ver. E, como não havia batizado um trabalho com o nome de uma das faixas até então, resolvi fazê-lo desta vez. Acredito que "Alma" combina com todos os elementos deste trabalho, onde todos os envolvidos e cada detalhe estiveram em sintonia para que a música fosse prioridade. A ilustração da capa é um desenho meu no qual tentei representar "Ânima", que, entre outros significados, também quer dizer alma. Eu costumo desenhar, digamos, terapeuticamente, para "desopilar" o inconsciente. Tem pessoas falando para eu fazer uma exposição com meus desenhos e tal. Não sei ainda. Ando desenhando com caneta grossa preta sobre papel e "Ânima" foi feito assim, em 25 de janeiro deste ano.

RC- Flávio Tsutsumi tem uma grande atuação nas tuas gravações e demais trabalhos relacionados com a tua carreira musical. Como surgiu esta parceria?
ML-
Conheci o Flávio através do Bento Araújo, jornalista que, entre várias atividades ligadas à música, tem uma publicação muito legal chamada poeiraZine. O Bento era o baixista da banda Born Again, na qual tocávamos Black Sabbath, e ele me apresentou o Tsunami – apelido do Flávio - em 2005. Aí fizemos amizade, começamos a trocar figurinhas e em 2008 ele começou a dedicar-se a gravar. Eu dei total abertura para ele usar minhas apresentações como cobaia e em 2010 ele já gravou, mixou e masterizou meu álbum "5º". A partir daí formamos uma equipe e ele é importantíssimo nestes trabalhos.

RC- No encarte do CD consta que "não ouve segundo take e nem correções, edições ou truques de qualquer natureza". Isso agrega algo de orgânico na sonoridade e performance gravada. Fale mais sobre o assunto.
ML-
Neste tipo de som é vital passar para o álbum o espírito do momento em que tocamos. Por isso, gravar ao vivo, sem a possibilidade de correções posteriores, já que um instrumento vaza no canal do outro e, de preferência, sem fones, ou seja, exatamente como a gente toca por aí, é inegociável. Desta forma, o que se ouve no álbum é muito mais vivo e real, porque é o que nós somos, e é isso que eu gosto de ouvir num disco - e, pelo visto, ainda tem gente que gosta disso também.

"... a música só acontece em decorrência da honestidade dos músicos e de sua genuína vontade de colaborar coletivamente."

Michel Leme RC- Sobre os climas produzidos nas execuções das faixas de "Alma", verifica-se o diálogo e o respeito entre os músicos. É possível afirmar que parece faltar isso atualmente?
ML-
Não só é possível como é preciso afirmar que falta isso atualmente, e mesmo neste tipo de som onde o diálogo e o respeito entre os músicos significam o ar que a música precisa para existir. Estamos vivendo um momento em que a doença da sociedade alcança um pico muito perigoso e sufocante, e isto está refletindo na classe musical, vide toda competição e marketing bizarro. O que observo é que a música só acontece em decorrência da honestidade dos músicos e de sua genuína vontade de colaborar coletivamente. Toda a ideologia que vem junto com esta nova onda de "gerenciamento de carreira" e cursos de music business só ajuda a destruir potenciais, porque a música vai sendo cada vez mais colocada em segundo plano. Se, por exemplo, alguém sai de casa para tocar com a mente concentrada no conceito de "carreira", desculpe-me, mas isso não pode resultar em música. Sou mais o conceito do mestre Sonny Rollins, conhecido pela sua prática incessante, mas que afirma tentar chegar para tocar "com a mente em branco". A música manda, e é aí que está a realização verdadeira do músico.

RC- Como funciona o teu processo criativo relacionado com os temas de tuas composições musicais?
ML-
Meus temas surgem tanto quando estou praticando quanto longe do instrumento. Fico atento e registro cada frase, cada ideia, seja escrevendo ou gravando no celular. Às vezes a motivação também pode vir de uma situação ou de uma pessoa, e aí o trabalho é tentar simbolizar este sentimento musicalmente, o que é bem difícil, mas um convite ao aprofundamento. Minhas composições são simples, porque tento não deixar elementos desnecessários, já que é preciso haver equilíbrio entre uma melodia memorável, uma sequência de acordes interessante e uma forma intuitiva para improvisar. Enfim, não é fácil chegar nisso, mas é muito prazeroso quando acontece. E não há fórmulas, porque cada composição exige um trabalho diferente. Observar isso é atestar a riqueza e a diversidade da vida se manifestando.

RC- Este é o segundo CD com a mesma formação instrumental e músicos integrantes, no entanto, gravado em local diferente. Qual o critério que usa para escolher onde cada CD terá a captação realizada?
ML-
Depois do disco "Michel Leme & A Firma", de 2007, eu não gravei mais em estúdios. E não por ter havido qualquer problema. A questão é que preferimos locações e, quanto mais inusitadas, inspiradoras e favoráveis para o som, melhor. Gravei o "5º" no auditório da EM&T, o DVD "Na Montanha" foi gravado metade numa sala e metade ao ar livre em São Francisco Xavier, o CD "Na Hora" foi gravado em três lugares diferentes em três dias seguidos, o "9" foi gravado na sala gigante onde ficava a igreja Betesda, do Miguel Garcia e sua esposa Fátima Nascimento.

Para o "Alma" a decisão sobre onde gravar foi curiosa: nós fomos gravar um som com o quarteto para a série "Táta Sessions", no "Táta Estúdio", a sala no subsolo da casa do Bruno Tessele. Antes de gravar eu perguntei para os caras na cozinha: "sabem de alguma sala grande pra gente gravar o próximo?". Ninguém sabia. Aí descemos para gravar. Quando terminamos ficou óbvio que a solução estava, literalmente, embaixo dos nossos narizes, e na menor sala onde já gravamos. Agendamos a sessão e, na tarde do dia 18 de dezembro de 2015, nós gravamos o "Alma".

RC- Como foi a parte da pré-produção deste CD?
ML-
Eu fui enviando os temas por email para os caras e tocamos cinco datas antes da gravação, o que foi bem legal para relaxar com os temas e experimentar coisas. Outro fator que considero como parte da pré-produção é o fato de eu não falar nada sobre como fazer ou não fazer para os caras. Simplesmente confiamos uns nos outros, conhecemos os temas e tocamos.

"... nunca combinamos coisa alguma sobre o que tocamos."

Michel Leme - CD Alma
RC- Muitas pessoas debatem sobre a ordem e qual músico deve improvisar em cada música. Alguns deixam isso pré-definido e outros decidem no momento da execução conforme o que acontece. Qual é a maneira que você atuou no álbum "Alma" neste sentido?
ML-
Fomos decidindo no momento da execução conforme as coisas iam acontecendo. Na primeira música, "Nave", deixei o primeiro solo para o Felipe. Não faço sinal algum, apenas deixo uma frase no ar e abaixo a dinâmica do que estiver fazendo e ele já sabe que o solo será dele. Na segunda faixa, “Joaquim”, como o Felipe solou primeiro na anterior, eu fiz o tema e já iniciei o meu solo em seguida. Na terceira, “Os biltres”, o Migotto começou solando e sem combinado prévio, apenas deixamos o acorde final do tema soar e ele começou. Nas faixas "Alma" e "Celso Childs Jr", eu fiz a mesma coisa que fiz em "Nave" e o Felipe solou primeiro.

RC- A composição "Celso Childs Jr." possui um tema facilmente memorizável. Fale especificamente sobre esta música.
ML-
Este tema surgiu tocando ao vivo com o Abner Paul e o Bruno Migotto, na Luthieria do Heron, onde toco um sábado por mês desde 2010. E isso foi exatamente em 20 de abril de 2013 - tenho o cuidado de anotar estas coisas na partitura. Lembro que, ao terminar um standard, eu senti que seria legal tocar algo neste clima, aí eu tive a boa sorte da melodia e toda estrutura já saírem prontas, na hora. Talvez por ter saído tão espontaneamente ela tenha essa característica que você destaca. Acho importante ter espaço para arriscar coisas assim ao vivo.

RC- Escutando o CD "Alma" é perceptível a liberdade que os músicos do quarteto possuem tanto nas interpretações como nos solos improvisados. Existem grupos de música instrumental que engessam muitos elementos o que não é o caso deste quarteto. Fale sobre o assunto.
ML-
Nós conversamos sobre a vida, música, o cenário musical etc; mas nunca combinamos coisa alguma sobre o que tocamos. Esta, para mim, é a lição de Miles Davis. Quem leu a autobiografia dele deve saber do que estou falando, além dos depoimentos de caras que tocaram com ele. É uma lição valiosa, que tem a ver com chamar pessoas que você admira musicalmente e nas quais você também confia, caso contrário já se cai no lugar comum do "dono do gig" que dita regras. E eu nunca gostei disso, porque simplesmente não funciona, já que um maestro num grupo que improvisa mais de 95% do tempo serviria para apenas matar a música e criar atritos – como já observei várias vezes em outros grupos. Além disso, nós realmente gostamos de ouvir o que o outro toca. Então, este conjunto de condições faz com que cada um tenha o seu tempo, sem pressões quaisquer, para dizer o que é preciso ser dito. E não há censuras, patrulhas ou imposições, o que ajuda tudo a fluir naturalmente.

RC- Você tem o apoio das cordas D’Addario e amplificadores Rotstage. Comente sobre as dificuldades de se conseguir patrocínios e o sistema de endorsers no Brasil.
ML-
Minha parceria com a D’Addario/Musical Express iniciou-se em 2005, e com a Rotstage começou em 2007. Minhas parcerias acontecem com pessoas que olham nos olhos e que sustentam os combinados. Tem sido legal e importante na minha trajetória, e é com gente assim que eu prefiro trabalhar. Teve algumas parcerias e tentativas neste mesmo período, mas o fim foi sempre pelos motivos inclusos no que escrevo a seguir.

O sistema de endorsement no Brasil, no que se refere a instrumentos e acessórios musicais é, no mínimo, limitado. E digo isso pela própria falta de visão das empresas e dos próprios músicos, que, por sua vez, matam a arte ao adequar-se às exigências deste mercado. A regra de ouro é reproduzir a máxima "mais-do-mesmo", que é apenas um veneno. No caso deste "nosso mercado", só tem três ou quatro guitarristas que conseguem bons contratos, e o restante fica com menos do que sobras. É uma reprodução clara e lamentável num âmbito micro do que acontece no macro: 1% da população mundial detém a mesma grana que os outros 99%. Além disso, que já é tenebroso, este mercado, incluindo, claro, sua mídia especializada, parece ter como alvo um consumidor cada vez mais boçal: "toque como o fulano" ou "seja um cover do milionário americano ou inglês e compre tudo o que ele usa como equipamento", e aí tudo vai se nivelando por baixo, porque, desta forma, não se valoriza a individualidade e o potencial de cada pessoa que ama tocar música. E, quanto aos artistas daqui, e refiro-me aos que têm uma produção real, aí é desprezo e "dar como inexistente" como regra. E veja que estupidez: ao invés de levantar a cena daqui e apoiar quem precisa de verdade, apenas se veicula e se gera mais grana para os que já são milionários na gringa! E, como se não bastasse o culto aos ícones já mortos ou já milionários, eles tentar forjar novos incessantemente, e que, na grande maioria das vezes não passam de embustes que só tem por base imagem, "atitude" e/ou o "sucesso" de vendas, como se tudo isso chegasse perto do que realmente significa música. E temos a nova grande tendência: os números que uma pessoa tem nas redes sociais são "o" critério de contratação. Preciso dizer mais alguma coisa? É um misto pernicioso de "complexo de vira-lata", "jogar no certo" e oportunismo dos mais reles, e as exceções são raríssimas. Se estamos numa crise, este tipo de mentalidade do mercado da música no Brasil só piora tudo.

RC- Em relação aos concertos musicais você tem a característica de atuar por um longo tempo em lugares fixos como na Luthieria.net, Espaço Sagrada Beleza, Canjas no EM&T, etc. O que falta para que mais pessoas proporcionem espaços como os que você percorre em São Paulo?
ML-
Falta educação e cultura em geral, obviamente. E parece que o músico honesto e consciente apenas vive de exceções, tendo que estar sempre atento para desviar da lama geral. Tem algum movimento de resistência acontecendo, com espaços surgindo aqui e ali, e com muitos deles almejando equivocadamente ser "mainstream" e já se queimando logo na largada; outros, mais honestos e dignos, se mantêm aos trancos e barrancos. Minha agenda, por exemplo, vive dos caras que gostam do som e que abrem seus espaços para que ele aconteça. Já tem gente tomando como modelo, por exemplo, o Sagrada Música, que rola desde março de 2010. Isso é legal, porque você percebe que algumas pessoas procuram saber do que acontece e enxergam um modelo viável. Que surjam mais espaços, então, mas com consciência e visão para não reproduzir a ideologia do "mainstream", que apenas quer formar consumidores passivos e, de preferência, imbecis.

"A música ainda está aí, disponível; quem tem ouvidos que ouça e quem a ama que faça por merecê-la."

Michel Leme Quarteto RC- Atualmente a moda na internet sobre aulas de guitarra são as famosas receitas de "Como atingir a super técnica em 3 meses ...", "5 maneiras de ...", etc. O que pensa a este respeito?
ML-
É triste ver o quanto as pessoas estão desesperadas. E refiro-me aos dois lados: tanto o que quer fórmulas mágicas ou atalhos, quanto o que acredita não haver problema em oferecer estas mentiras. Claro que isso é decorrência do que falamos até aqui sobre o mercado e sobre o marketing acima da música. E as pessoas não tem limites, não é? Quando você diz "não é possível" ao ver uma idiotice, vem outro – ou o mesmo - e faz algo mais bizarro. Por outro lado, os valores que são reais no que diz respeito à edificação do ser humano, por mais que a propaganda diga o contrário, ainda são os mesmos. Então, seria legal começar com questionamentos para desinfectar-se de ideologia dominante. Uma pergunta básica, pra começar: "o que um músico faz?". Se alguém aí respondeu "Música", prepare-se, porque está indo totalmente contra a maré.

RC- Com o passar do tempo tanto nas apresentações como gravações você utilizou guitarras de fabricantes diversos como Gibson, Cassias e Dean. No entanto, o timbre é sempre muito parecido e isso no bom sentido. Você concorda que a maior parte do som da guitarra acústica vem da mão do músico?
ML-
Concordo. E vem também, claro, de como o músico imagina o seu som. Troquei de guitarras por algumas vezes e os caras que tocam comigo comentam "é, não mudou muito". Reconheço isso como algo bom, ao mesmo tempo em que acho engraçado de minha parte achar que mudou alguma coisa, porque sou o mesmo tocando a guitarra que for. E isso não é nada demais, para mim é apenas um pré-requisito. As pessoas falam sobre o objetivo de "ter uma assinatura", "ter um estilo único", mas elas se esquecem de que já nasceram com isso – e, claro, as ideologias comentadas acima, ajudam, e muito, para este esquecimento. Então, como vi o baixista Ray Brown dizer num programa de TV, "o objetivo sempre foi tocar". E eu concordo absolutamente com isso. E continuar tocando, aprendendo, tendo o indizível prazer de conviver com a música, que só tem elevação a nos oferecer. Precisamos olhar mais para dentro e realmente procurar saber quem realmente somos, o que nos motiva, o que não queremos, o que queremos, o que nos faz bem, o que nos faz mal, enfim, chega de dar moral pra raposas que só querem que sejamos consumidores de coisas das quais não precisamos, nos afastando do que amamos e da nossa essência. Então, por favor, tenhamos um tempo reservado todos os dias para conhecer a nós mesmos e, junto com este enorme e importantíssimo processo, também olhar o todo, nos vários níveis possíveis - é como tocar: você mergulha em você mesmo, ao mesmo tempo em que "é" o grupo; você pode ser o fazedor e o observador, ao mesmo tempo. E mais consciência e menos zona de conforto também, porque é na zona de conforto que somos pegos pela ideologia da estupidez, a pandemia que está aniquilando o Espírito. A música ainda está aí, disponível; quem tem ouvidos que ouça e quem a ama que faça por merecê-la.

Abraços,
Michel Leme

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