Entrevista com Nelton Essi

Nelton Essi, baterista e percussionista fala sobre a vídeo-aula "Vassourinhas brasileiras" lançada em DVD, comenta sobre assuntos relacionados ao trio de baterias "Trincadicabum", fala sobre gravações, estudos e muito mais.

Rodrigo Chenta- Como surgiu a ideia de gravar o DVD "Vassourinhas Brasileiras"?
Nelton Essi-
A ideia de gravar o DVD tem dois fatores. Primeiro que sempre tive curiosidade de saber como se tocava com elas e nunca achava material que falasse sobre isso claramente. Nas minhas procuras, achei muitos livros e vídeos abordando o Jazz e quando procurei algo sobre música brasileira, achei pouquíssimas coisas, as quais falavam sempre de Bossa Nova. Em segundo lugar, a ideia inicial era escrever um livro, mas optei pelo vídeo porque quem assistisse teria a ideia do movimento mais completa do que se usasse apenas escrita musical em páginas de papel.

RC- Sobre as vassourinhas, existe a tese de que foram criadas com o objetivo de diminuir a massa sonora da bateria para que não encobrisse os demais instrumentos. Existe outra de que era usada para matar moscas. Fale sobre o assunto.
NE-
A tese é correta. Principalmente por causa da era da gravação na década de 1920. Bateristas tinham de usar baquetas leves e instrumentos pequenos para equilibrar seu som ao resto da banda que era captada por um cone (na época não existia microfone como conhecemos hoje) num canto da sala de gravação. Nesta época, os instrumentos mais fortes ficavam mais longe deste cone e os mais fracos mais próximos. Os bateristas não gostavam muito disso na época, porque normalmente eram os band leaders que os praticamente os obrigavam a usar essas "vassourinhas" que normalmente eram os tais dos mata-moscas (fly-killers, como chamados comercialmente).

RC- Muitos bateristas já disseram se influenciar no sapateado norte americano ao tocar com vassourinhas na caixa. Em que sentido seria esta influência?
NE-
Música e dança sempre andaram juntas, mesmo na música erudita europeia que é a que chamamos de música clássica. Nas manifestações populares isso é muito evidente quando falamos de Samba, Frevo, Maracatu, etc. No Jazz não foi diferente. Os Dixielands, New Orleans sempre foram acompanhados de dança nas ruas e nos bares. O Tap Dancing, ou sapateado, surgiu assim também. Essa dança consiste em aliar os movimentos do corpo ao bater dos pés no chão ou tablado formando ritmos incríveis. Sammy Davis Jr. é um grande expoente dessa arte e muitos bateristas que acompanhavam os bailarinos, dialogavam ritmicamente com eles, quando não largavam as baquetas e também iam para a pista. Desse diálogo nascem as influências e as trocas de informações musicais.

"... muitos bateristas que acompanhavam os bailarinos, dialogavam ritmicamente com eles, quando não largavam as baquetas e também iam para a pista."

Nelton Essi
RC- É fato que nos estudos da bateria, geralmente as vassouras são deixadas de lado comparadas com a baqueta. Você como professor, enxerga isso de que forma?
NE-
Eu sempre tento inserir desde cedo as vassourinhas no aprendizado de qualquer aluno. Faço isso pra desmistifica-las mesmo. Elas sempre são encaradas como muito difíceis ou exclusivas do Jazz e da Bossa Nova. Acho um erro deixar as vassourinhas de lado, pois elas abrem um universo imenso de sonoridades que muita gente nem imagina que se possa fazer com tambores, mesmo que você toque música pop. Normalmente, tocar forte e rápido dá mais status ao baterista pois impressiona mais pela pressão sonora. Mas ninguém fala que sutileza e outras agilidades que as vassouras proporcionam também desperta o interesse nas pessoas.

RC- Os norte-americanos foram os primeiros a usarem esta ferramenta na bateria. Como utilizá-la na música brasileira sem parecer jazz?
NE-
Bom, acho que será impossível não lembrar Jazz porque é uma sonoridade bem presente nos nossos ouvidos. Uma reflexão que proponho é: "Você toca samba com baqueta sem parecer rock?". Arrisco dizer que a resposta é sim. Isso acontece porque a pronúncia dos ritmos e as frases criadas são bem diferentes de um estilo para outro. Fazemos o mesmo com as vassouras. Estamos usando o mesmo instrumento, as mesmas ferramentas, mas a cultura musical é outra, o pano de fundo na mente do músico é outro, a divisão do tempo é muito diferente.

RC- No encarte do DVD disse que "as vassouras nos permitem conseguir novas texturas e não apenas transpor toques de baquetas". Discorra mais sobre isso.
NE-
Sim. Muita gente pega as vassourinhas e toca da mesma forma que com baquetas, ou seja, sempre toques verticais. Isso não é errado, mas é limitado. Usando assim, só mudamos o tipo de som que sai dos tom-tons ou dos pratos e é por isso que pensamos que só usamos as vassourinhas pra deixar o som da batera mais "baixo". As vassourinhas precisam ser esfregadas na pele, e quando se combina a esfregação (sweep) e os toques verticais (tap) você entende o que estou falando. Sente a magia das vassourinhas. Falando em esfregar, ou arrastar, como alguns bateristas falam, é preciso também ter consciência de que precisamos de peles especiais. São as peles porosas, que tem uma cobertura branca e grossa, diferentes das peles transparentes. Elas são mais ásperas e enfatizam o som produzido pelas vassouras.

RC- Você tem grande experiência ao atuar tanto com formações grandes como a "Orquestra Jazz Sinfônica" como com grupos menores como trios e quartetos. Como o baterista deve se organizar em relação aos diferentes tipos de formação instrumental?
NE-
O baterista que toca em grupos pequenos está mais exposto musicalmente, quanto menor a formação, maior a exposição. Neste caso, ele precisa estar preparado para fazer solos e preencher mais espaços com mais frequência. É uma tarefa difícil para todos os músicos envolvidos. Agora, tocar em grupos grandes como Big Band e Orquestra exige um pouco menos em termos de preencher espaços, mas, além disso, tem de estar com os ouvidos e olhos bem atentos para a defasagem de som por causa da distância dos instrumentos. Na Jazz Sinfônica, por exemplo, se você esperar o som dos violinos chegar pra tocar, você já está tocando fora. Para se ter uma ideia, o Spalla fica há uns 8 metros do baterista. Para isso existe o maestro. Ele ameniza o efeito da distância com o movimento que faz com os braços, mas em contrapartida você tem às vezes a sensação de estar tocando um pouco defasado em relação aos outros instrumentos. Sabe aquela aula de Física em que o professor falou que a velocidade da luz é maior que a velocidade do som? Então, o maestro ouve todos os sons combinados lá na frente e mostra com os braços o que ele está ouvindo. O baterista nesse contexto deve saber o que significa cada gesto do maestro.

"... quanto menos pessoas tocando, mais lacunas a preencher."

Nelton Essi - DVD Vassourinhas Brasileiras
RC- Fale sobre o projeto "Trincadicabum" em que atuava juntamente com Alexandre Damasceno e Leandro Lui.
NE-
O Trinca não existe mais há alguns anos. Foi um projeto de composição para baterias e uma oportunidade de estudarmos juntos toda semana. O Lui e eu ainda continuamos a nos encontrar de vez em quando e estamos trabalhando para finalizar um livro com estudos para duas baterias em que o aluno vai se familiarizar com leitura, técnica e linguagens musicais.

RC- Como vocês faziam com a afinação das três baterias?
NE-
Sempre pensávamos em distinguir uma batera mais aguda, outra grave e uma terceira no meio. Eram nove tambores com afinações diferentes, sem falar dos bumbos, então as frases que saiam daí eram muito ricas. Usávamos pratos distintos, blocos e tínhamos outros instrumentos de percussão para dar mais colorido às peças.

RC- Percebe-se que cada baterista toca comumente com dinâmicas bem díspares em outros projetos. O Leandro parece ser mais forte, o Damasceno mais fraco e você no meio termo. Como isso interfere na execução das peças?
NE-
Essa era uma das nossas grandes questões enquanto grupo, e em nossos ensaios buscávamos equilibrar. O mesmo acontecia com a intenção ao tocar. O Lui toca mais pra frente do tempo, eu sobre o tempo e o Damasceno mais relaxado. Com isso em mente e respeitando a personalidade de cada um, tocávamos cem vezes até deixar intenções e dinâmicas mais próximas.

RC- Em relação às composições e arranjos como o grupo os gerenciavam?
NE-
Era muito aberto, porém a maior parte das composições e adaptações eram do Lui. Eu compus algumas e o Damasceno entrava mais com a execução e contribuía com ideias de interpretação.

RC- Ao gravar a música "Requebre que eu dou um doce" de Dorival Caymmi com somente bateria e voz, no caso a de Simone Essi, a sonoridade ficou no mínimo inusitada. Fale sobre este trabalho.
NE-
Sempre quisemos fazer um trabalho juntos e nossas afinidades musicais são muitas. Decidimos fazer alguns arranjos juntos, tocando e cantando sem muito papel envolvido. O "Requebre que eu dou um doce" foi uma de nossas primeiras experimentações. É onde estamos cada um em sua melhor especialidade, ou seja, canto e bateria. O resultado é uma música nua, melodia e ritmo, sem harmonia (acordes) mesmo. Muita gente não consegue desassociar esses elementos e acha que está faltando alguma coisa. Mas fazemos um contraponto entre tambores e voz, um complementando o outro. Eu uso a voz como minha base para tocar o que toco, não é exatamente um acompanhamento porque não seguro apenas um padrão de levada, mas costuro. É o que falamos de formações pequenas acima, quanto menos pessoas tocando, mais lacunas a preencher.

"... muitos não sabem escolher a informação certa e ainda estudam superficialmente um conteúdo que muitas vezes já é superficial."

Nelton Essi RC- É fato que você já gravou muitos CDs com ritmos e formações das mais variadas. Quais são os cuidados necessários para alguém que almeja se tornar um bom baterista que atue com gravações em estúdio?
NE-
Conhecer vários estilos musicais e ter um tempo firme. Não só aquele tempo dependente de metrônomo, mas um bom tempo interno. Claro que tocar junto com ele é imprescindível. Outra coisa é ter uma boa relação profissional, o que inclui networking (rede de contatos), responsabilidade com horários e bons equipamentos.

RC- Desde 2006 participa do corpo docente da famosa FASCS. Como você descreve o aluno de hoje que tem muito mais acesso à informação (métodos, artigos, vídeos, internet, etc.) do que antes?
NE-
Internet é uma dádiva! Ela nos dá a possibilidade de comprar métodos de qualquer parte do mundo, ver os músicos que mais gostamos em vídeo, escutar milhares de músicas com apenas um clique. Porém, enquanto um aluno antes dessa era pegava um livro ou um vídeo para estudar, ia a fundo e simplesmente devorava aquela informação que mudava a vida dele. Hoje, muitos não sabem escolher a informação certa e ainda estudam superficialmente um conteúdo que muitas vezes já é superficial. Há muito vídeo com conteúdo pobre na internet formando instrumentistas pobres e viciados. Muitos alunos estão confusos com tanta coisa disponível e meu papel como professor é direcionar quem estiver interessado a tirar o melhor proveito dos bons conteúdos.

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