Entrevista com Olmir Stocker (Alemão)

Olmir Stocker (Alemão), guitarrista e compositor fala sobre o seu "Método de composição popular: diferentes formas de harmonizar", discorre sobre improvisação musical, UMB, Brasilian Octopus, música brasileira e muito mais.

Rodrigo Chenta- Certa vez disse que a melodia era como uma linda mulher e que a harmonia era a sua roupa, sendo que ela poderia estar bem ou má vestida. Fale mais sobre o assunto.
Olmir Stocker-
A harmonia não só na música, ela sintetiza bem o conjunto de concordância e paz. Um lar que não tem harmonia e pessoas que não se harmonizam não tem felicidade. Na música ela tem esta mesma função. Uma mera melodia é uma pessoa só falando. O ritmo é o ritmo da vida e o que se faz. Se não tiver harmonia, para mim não é música, como acontece com os rapper's que não tem nem se quer melodia. Eu até brinco que no livro que estou escrevendo chamado "Ideias Rimadas", eu tanto sou a favor da harmonia que digo: "Rapper é o que não canta. Rapper é o que só fala. Mas o melhor rapper do mundo é aquele que se cala." (Risos). Você entendeu não é? Não é uma boa? Então eu tenho um monte de ideias neste livro que eu vou publicar.

RC- Quando ele será lançado?
OS-
Eu não sei ainda. Tenho que organizar tudo isso aqui porque tenho muita coisa e ainda faço música todos os dias. Devo ter mais de 1500 músicas.

RC- Existem muitos professores que orientam os alunos a utilizarem liks no solo. Qual a sua opinião em relação àqueles que utilizam frases prontas no meio do improviso?
OS-
Tem um guitarrista americano chamado Jim Hall que é o primeiro que eu ouvi falar sobre isso quando o conheci aqui em São Paulo. Ele veio com a saudosa Julie London e deu uma canja onde eu trabalhava que era lá na Baiúca. Teve uma pessoa que não vale nem a pena falar o nome e já é falecido que se meteu a dar uma canja. Jim Hall estava fazendo um chorus de improvisação e quando ele deu uma parada, o pianista já falecido entrou em cima no meio do chorus. O Jim Hall disse: "- Ei! O chorus é meu! Eu toco quando vem uma ideia na cabeça e se ela não me vem não toco". Ou seja, ele quis dizer com isso que era contra estas frases previamente elaboradas. Na verdade é uma coisa muito chata isso e por teoria você tem que ter não frases, mas um caminho harmônico porque se você esperar que a intuição, a inspiração venha pra você fazer a frase na... Os caras vão dizer que você está... Então você tem que ter alguns recursos também. Mas o ideal seria exatamente isso, só tocar quando você tem a inspiração de fazer. Mas é difícil. Tem alguns que são teóricos. Tem um escritor que disse que "não há lugar para o teórico em arte". É engraçado isso. A teoria em arte não vale nada porque arte é uma coisa de criatividade e inspiração. Não dá pra teorizá-la. Eu tenho um monte de músicas não terminadas e quando a inspiração me vem eu dou continuidade. Isso é uma coisa normal. O ideal é não fazer música por elaboração mais por inspiração. Ando com um gravador pequeno e quando estou na rua e vem uma frase musical, uma melodia, eu gravo.

"O ideal é não fazer música por elaboração mais por inspiração"

Olmir Stocker (Alemão) RC- Existe uma velha estória de que o guitarrista George Benson não foi feliz em uma canja na França, pois não improvisava em sua fase "pop" e sim que tocava somente solos prontos, isso na época em que seu duo com Zezo Ribeiro se apresentou lá. O que diria sobre este episódio?
OS-
Isso foi em um clube de Jazz na França. Eu fiz um concerto em uma escola de música de lá e saiu no meu disco a gravação de "Wave". Toquei neste clube de jazz no dia seguinte ao de George Benson. O técnico de som do lugar disse para mim: "- Ouve e vê se você conhece este guitarrista" e botou uma gravação onde o pianista puxou "Body and Soul" e o guitarrista não acertava uma. Eu também fiquei decepcionado porque eu acreditava que ele fosse um jazzista. Ele mesmo confessou quando veio a São Paulo no Free Jazz que não era um jazzman e fazia aquelas frases prontas. Quando ele vai tocar em um show, perceba que as "pseudo-improvisações" são as mesmas. Na verdade ele não está improvisando, é uma coisa previamente preparada. Agora ele tem méritos, canta bem, tem um baita swing e eu não tiro o mérito dele principalmente de ter a nobreza de reconhecer que não é um improvisador. Ele confessou isso e não deixou de ser um super artista.

RC- Em seu "Método de composição popular: Diferentes formas de harmonizar" li a seguinte frase tua: "Arte não é uma questão de gosto". Eu gostaria que a comentasse.
OS-
O gosto é uma coisa desenvolvida e depende do teu grau de sensibilidade. Nós temos cinco sentidos naturais e o sexto seria a inspiração e intuição que não dá para explicar. Se você não desenvolve a capacidade de ouvir, acaba não percebendo e não evoluindo sua sensibilidade artística. Uma criança que ouvi uma música boa no ambiente familiar vai desenvolver a capacidade de ouvir aquilo e se for música ruim, ouvirá música ruim quando crescer. Pode-se desenvolver o mental através da escola com matemática em somas, raiz quadrada e coisas mais complexas com devidas explicações. Na música não tem isso. Você desenvolve sozinho ou ouvindo pessoas que tocam melhor. A escola de música é boa por isso, pois mesmo que as pessoas não se tornem musicistas terão sua sensibilidade musical desenvolvida onde cotidianamente ouvirão coisas melhores. Isso que é cultura musical. O que está acontecendo atualmente é cultivo musical e não cultura musical. A música não é uma questão de gosto. É questão de desenvolvimento. Não podemos esquecer que "os desafinados também tem um coração". O fato de uma pessoa não ter sensibilidade musical não quer dizer que é uma pessoa ruim.

RC- Sua obra composicional conta com mais de 1.500 músicas como "O caderninho", por exemplo, que já atingiu mais de 36 interpretações de músicos renomados.
OS-
O pior de tudo são aquelas pessoas querendo sucesso. Esta música foi em uma época em que eu estava no meio de produtores. Modéstia parte eu tenho tantas músicas boas e tem pessoa que me fala que tenho que fazer outro caderninho. Dá pra acreditar? O Brasil continua musicalmente 30 anos atrasado. A mídia domina todas, todas, todas, todas as rádios e canais de televisão que encaram a música como produto de uma juventude consumidora. É um engano de a gente exigir que a televisão toque música boa. Como o nome a diz é Tele – Visão e não Tele - Audição. Hoje a coisa está tão ruim que eles preferem pegar uma atriz bonita, colocá-la em uma escola de música onde ela canta um pouquinho. Hoje ela não precisa estar afinada, pois eles ficam mimicando na televisão e fazem shows com efeitos que corrigem a voz e afinação. Acabou. A máquina superou a arte. Este é o grande problema dos artistas que tem sensibilidade. Os músicos que tocam melhor são os que estão passando necessidades. Quem sabe a nossa nova ministra da cultura não dê uma melhorada nas coisas.

RC- O que é primordial a seu ver para aquele que almeja compor e que conselho daria para atingir a eficácia?
OS-
Primeiro ele tem que ter inspiração e evitar a elaboração. Eu discordo plenamente da frase "20% de inspiração e 80% de transpiração". A música tem que ter amor e não ser artificial. A máquina está fazendo não música, mas efeitos sonoros como estes bate-estacas da vida que viraram modismo. O ruim é o que está sendo usado. A bijuteria em matéria de música está custando mais caro que a jóia. Isto é uma ingratidão.

RC- Hoje existem muitos métodos de ensino para guitarra, harmonia, disciplinas afins, partituras, etc. Como era o estudo em seu tempo e o acesso a partituras e como surgiu o Alemão guitarrista, compositor e professor?
OS-
Eu nasci em um circo. Minha família era circense com trapezistas, equilibristas e ninguém lidavam com música a não ser minha mãe que fazia um "Sol maior" e meu pai que tocava um pouco de flauta. Eu era o caçula e nunca dei muita importãncia porque eu gostava muito de música. O meu pai comprou um violão para meu irmão e eu o pegava escondido e com sete anos já tocava. Tem aquele que escolhe a música e tem aquele que a música escolhe. Eu toquei de ouvido sem conhecer música por não ter oportunidade. No circo a gente viaja muito e eu não fui se quer à escola. Eu sou autodidata também em matéria de educação. Aprendi tudo só, por dedução e perguntando. Eu estive na escola em uma noite e fui expulso no outro dia porque eu achava a professora muito bonita e estava paquerando ela e tal. (Risos). Isso foi quando eu tinha meus 14 anos. Quando cheguei a São Paulo, toquei em um conjunto de vanguarda do Breno Sauer onde todos tocavam de ouvido. Foi quando eu conheci o Ângelo Apolônio que era um guitarrista de nome e bom leitor de partituras. Ele gostou do meu jeito de tocar e fizemos amizade. Em 1962, ele me deu alguns livros e mais algumas explicações e daí eu estudei sozinho mesmo. Ele queria me encaixar em gravações. Tem uma história interessante sobre minha primeira gravação. Me deram um vilão sem fundo (tampo) para gravar e disseram: "- Pega esse mesmo. É uma valsinha e ninguém vai ouvir os violões mesmo. Grava ai pra faturar teu dinheirinho" (Risos). E essa música depois se transformou no maior sucesso que foi a "Baile da Saudade" e eu gravando com o violão sem fundo (Risos). E ninguém sabe destes particulares. Quanto à guitarra e improvisação, foi um amigo meu em Porto Alegre. Minha primeira guitarra eu ganhei dele que era coronel quando eu servia. Ele me mostrou muita música americana e quintetos de jazz. Ele me disse para assistir o filme "Sabes o que quero" e me aparece a Julie London com o Barney Kessel na guitarra. Foi a coisa que mais me impressionou e eu disse que queria tocar daquele jeito.

"A música não é uma questão de gosto. é questão de desenvolvimento"

Olmir Stocker (Alemão) RC- O envolvimento com a "Associação Internacional de Guitarras" surgiu em quais circunstãncias?
OS-
Isso foi em um festival na Europa que eu fiz com o Zezo onde tocamos em muitos países. E o presidente Juan que já viveu no Brasil e tocava muito bem me fez o convite. A partir daí eu passei a ser o único autorizado a realizar o Festival Internacional de Guitarras no Brasil. Na época eu não procurei fazer porque tinha que estar vinculado e oficializado às prefeituras e o Maluf era o prefeito. Na Argentina, Chile e Espanha acontecem todos os anos.

RC- Fale sobre a associação UBM (União Brasileira de Música).
OS-
Ela foi fundada junto com a ASIM (Associação de Intérpretes e Músicos) que estava na mão da Elis Regina. Era sobre os direitos de gravação que os músicos tinham e que nunca havia sido pago aos músicos. Baseado na ASIM e nas próprias leis e estatutos da Fundação da Ordem dos Músicos tinha-se que se fazer cumprir o nosso estatuto. E não se cumpria nada. Lá dizia que todo cachê de músico estrangeiro deveria ser pago igualmente aos músicos brasileiros. Até na Colômbia funcionava na época. O presidente da OMB disse que isso era uma utopia. Nós tínhamos a intensão de transformar os músicos em verdadeiros colegas. O que ocasionou o final da UBM além da falta de apoio é que os músicos não são colegas e sim concorrentes. Um toca mais barato que o outro para pegar o lugar e sobreviver. A tabela basicamente nunca existiu na prática. O Sandro foi praticamente um ditador na OMB.

RC- Muita gente o odeia...
OS-
A maioria. Ele foi posto pelo regime militar. Naquela época, você precisava de concessão que ele tinha para abrir uma rádio. Quando tentamos abrir uma para os músicos terem espaço, ele nem ligou pra nada. Eu passei a ser um cara não muito bem aceito na Ordem. Ele fazia muita coisa ruim, cobrava do sindicato e não repassava para os músicos benefícios como esporte, odontológico, saúde, bolsa de estudo e que os músicos tinham direito. Tudo isso supostamente porque é difícil provar. Ainda bem que ele saiu depois.

RC- É fato a sua fama de ser conhecido por ser um dos principais difusores de gêneros brasileiros na guitarra em todo mundo.
OS-
Uma vez eu fui tachado de que só gostava de música brasileira, mas eu gosto de música bonita, jazz, salsa, chorinho. Eu não tenho preconceito contra estilos. Tem a música boa e a ruim. Naturalmente eu toco mais música brasileira porque eu sou brasileiro. É a minha cultura. Quando toco lá fora toco música brasileira e não jazz.

RC- Um aluno teu disse "Alemão é uma biblioteca ambulante devido a tua experiência e conhecimento". A seu ver, os ritmos regionais brasileiros tendem a ser esquecidos com o tempo?
OS-
Ai vem a questão da cultura. Não podemos confundir cultivo com cultura. A cultura tem que pegar certos ritmos e evoluir sempre. Vou te dar um exemplo. O Hermeto Pascoal nunca estudou e veio de Alagoas. A música dele por mais complexa que seja tem um fundo nordestino, brasileiro. Isso é cultura. Ele evoluiu com a música sem perder a autenticidade daquelas coisas. Veja o Spok, a Mantiqueira, isso tem que ser valorizado e eles não ganham um tostão do governo. Isso é uma grande injustiça. Já demonstramos através do Jobim e outros que a capacidade criativa do brasileiro é fantástica.

RC- Luiz Gonzaga o apelidou de "O mais nordestino dos gaúchos". Como aconteceu este envolvimento com a música nordestina?
OS-
(Risos) Eu gravava muitos jingles quando trabalhava no Som da gente e o Luiz Gonzaga gravava muito. Inclusive ele gravou música minha. Eu gravava de viola e de 12 cordas com ele que gostava muito. Eu gostei muito dele porque era uma pessoa pura, simples, de coração. No fim da carreira quando ele já não estava com tanto dinheiro assim, chegava na dona Tereza que era a dona do estúdio e dizia "- Você está precisando de algum dinheiro?" (Risos). Ele tinha aquela coisa de querer ajudar.

RC- Como poderíamos comparar a música do Sul com a nordestina?
OS-
As influências. A música nordestina harmonicamente e melodicamente abre um espaço muito maior para se desenvolver. A música do Sul em princípio é muito ligada à colonização portuguesa. De uns tempos pra cá teve muita influência da música argentina. São ritmos que vão penetrando e às vezes você não sabe nem como veio. A técnica acordeonística dos gaúchos é muito boa. A música harmonicamente é muito simples e alegre como o vanerão. Nos dois locais têm coisas muito boas.

RC- Quando veio morar em São Paulo como era a cena de música instrumental?
OS-
Tinha muito mais espaço na década de cinquenta. Era um momento contra a imposição do mercado inglês. Hoje é tudo dominado pelas gravadoras que compram tudo. A música virou produto sem falar no famoso Jabá. Se a mídia falar que é bom o povo acredita. Acabou a censura e não existem mais as vaias (Risos) onde as pessoas sabiam discernir o que era bom do que não é.

RC- O "Brasilian Octopus" já em 1969 estava muito à frente de seu tempo e possuía um time excelente contando com Gordin, Hermeto Pascoal dentre outros. Como considera a repercussão do grupo na época?
OS-
Isso aconteceu na época da Gang Produções que pertencia a um saudoso e fantástico italiano que tinha ideias maravilhosas. Ela tinha o patrocínio da firma francesa Rhodia pela standard propaganda e organizavam grandes eventos com desfiles de moda. Na época era rara esta sonoridade. No primeiro ano foi com o Sergio Mendes que depois foi para os EUA. No segundo, foi com a gente. Este octeto acompanhava muita gente em shows e nos cobraram para fazer uma gravação que deveria ter algumas coisas comerciais. Só que os músicos eram bons (Risos). A maioria dos arranjos foi o Hermeto quem fez. Este conjunto só existiu durante os eventos da Rhodia em dois ou três anos. O problema é que dentro do grupo Octopus não havia uma harmonia muito grande onde cada um tinha uma opinião e a coisa era mal dirigida.

"A bijuteria em matéria de música está custando mais caro que a jóia"

Olmir Stocker (Alemão) RC- Quais seriam os pecados mais cometidos pelos guitarristas segundo sua experiência?
OS-
Isso depende dos estilos de guitarristas. Agora eu fui homenageado lá na IGT pelos professores com diversos convidados. Eu toquei com todos eles. Foi feita uma homenagem também no SESC da Consolação. Eu discordo daqueles moleques que se auto-intitulam guitarristas e tocam com a alça lá em baixo usando somente quartas. Eles não são músicos. Outro problema é o barulho e não só na guitarra, mas também os cantores que gritam. Quase não tem mais expressão, suavidade, qualidade. Às vezes penso que essa música boa acabou. Existe um paradoxo em tudo isso.

RC- Em 1989, você e teu grupo foram à atração mais aplaudida em Nova York no Town Hall. Comente em sua visão, como os norte-americanos recebem a música brasileira instrumental.
OS-
O único que falou a verdade e foi muito decente sobre esse evento é o Calado que escrevia para a Folha de São Paulo e escreveu o livro "Jazz ao vivo". Teve muitos jornalistas que foram patrocinados pelo Bamerindus para fazer as matérias e ficaram no hotel 5 estrelas e nem apareceram no festival. Teve um que fechou uma matéria e mandou para um jornal brasileiro antes da coisa acontecer. Disse que a Elba Ramalho subiu no palco e ela nem foi lá. A recepção foi muito boa e o único que não se deu bem foi o grupo Cama de Gato que tocou fusion. Eles queriam ouvir música brasileira e sem me vangloriar, o grupo que mais atraiu foi o meu, pois tinha uma surpresa. Não tinha baixo, piano e nem bateria. Os arranjos eram muito bem elaborados. Nós ensaiávamos muito. Que nem no festival de jazz do Canadá onde éramos aplaudidos por cinquenta mil pessoas na rua e fomos o único grupo que voltou mais duas vezes. E o grupo acabou porque no Brasil quem ia pagar para a gente tocar?

RC- Fale como era quando tocava com o Zezo nas embaixadas.
OS-
Passei a tocar com o Zezo pelo mundo todo. Tínhamos o subsídio do Ministério das Relações Exteriores para tocar nos consulados e embaixadas brasileiras aos sábados. Eles pagavam as passagens, estadia e alimentação para uma semana. Durante a semana era livre e aproveitávamos para tocar em clubes de jazz por nossa conta e empresários de lá. O Fernando Henrique Cardoso cortou todas as passagens que tínhamos e todas as demais verbas. Havia 18 clubes de jazz na Alemanha para nos apresentar e tiveram que ser cancelados. Acharam que estávamos desprezando eles e ficamos com os nomes sujos. Tocávamos a pedido dos consulados. Os embaixadores gostavam de nossas apresentações. Fomos para Santiago, Itália, Marrocos, Espanha, etc. O FHC só queria saber da OSESP e MPB para ele é somente o Caetano Veloso.

RC- Sua produção musical foi objeto de pesquisa na dissertação de mestrado de José Fernando Presta pela UNICAMP. O resultado da pesquisa foi satisfatório?
OS-
O Fernando é um cara muito dedicado, mas ali tem muitas falhas...

RC- Eu percebi quando a li.
OS-
Primeiro que ele não entende nada de improvisação, não improvisa dois compassos e o cara é um teórico...

RC- Sobre a relação das cores com as notas e acordes, o que pensa a respeito?
OS-
O cérebro não lê vibrações e sim cores. Isso é cientificamente comprovado. Veja este fenômeno que as pessoas desconhecem. Quando uma música é feita com muita inspiração, uma música maravilhosa, ela tem uma combinação de cores que devem ser gravadas e tocadas naquela tonalidade. Ao se fazer uma transcrição, uma modulação para um monte de tons, ela vai perder alguma coisa.

RC- Que nem quando tentaram tocar a 9 Sinfonia de Beethoven com meio tom de diferencia e não soava afinado de jeito nenhum...
OS-
Isso mesmo, pois perdeu as cores daquela tonalidade. Esta é uma prova disto. Agora quando a música é ruim, as coisas podem até ficarem melhores com a mudança de cores (Risos). Na hora que você tem a inspiração, deve escrever criteriosamente na tonalidade em que veio a melodia, caso contrário não ficará igual. Não se deve mudar a tonalidade para facilitar a execução. Isso é terrível e perde a naturalidade na hora de tocar. A música é uma coisa muito mais complexa do que as pessoas pensam.

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