Entrevista com Paulo Almeida

Paulo Almeida, baterista e compositor discorre sobre o seu CD intitulado "Constatações", um trabalho instrumental com música brasileira, fala sobre o processo de criação e gravação, influêcias musicais, parcerias e muito mais.

Rodrigo Chenta- Nas tuas origens musicais você tocou na Igreja. Qual foi a importância deste ambiente na tua formação musical?
Paulo Almeida -
Eu cresci na igreja por forte influência da família, meus pais, avós, tias e primos. Sempre tive esse contato mais forte com a música por causa de meu pai que também é músico e tocava na igreja. Cantava no coral das crianças, depois já comecei tocar bateria e sempre tive esse lance do ouvido. Adorava ficar criando nos meios dos hinos da harpa cristã. (risos). Acho que também por estar tocando e ter essa energia forte que tem em uma igreja, desde sempre toquei muito “dentro do som” no sentido espiritual e isso me ajudou muito posteriormente.

RC- Você começou primeiramente na bateria e posteriormente acrescentou o piano. Em que este instrumento te ajudou na hora de tocar a bateria?
PL-
O piano, eu nunca estudei de fato como um pianista e sim estudei para me ajudar na minha sensibilidade harmônica e melódica para tocar meu instrumento e compor. Sou um músico que gosta de tocar em favor da música e não do instrumento, e a harmonia ajuda muito nesse sentido. Por exemplo, quando tem um improvisador solando você consegue enxergar por onde ele passa dentro do acorde, isso traz uma sensação. Através disso a criação vai encima do solista e você consegue causar constastes por ouvir o caminho melódico e harmônico que ele está fazendo.

RC- Além de instrumentista você é um grande compositor. Como funciona o teu processo criativo na hora de compor as tuas músicas e arranjos?
PL-
Muitas vezes faço minhas composições inspirado em coisas que vivi e estou vivendo. Acho que a sensibilidade é a palavra-chave para tudo isso! Quando comecei compor era totalmente de teimoso, eu não sabia os nomes dos acordes e então eu cifrava nota por nota para tentar chegar no som que eu queria, ou chamava algum amigo pianista para me ajudar. Meus amigos André Grella e o André Marques me ajudaram muito nisso. Mas tudo isso é um processo, treinei muito isso em grupo e dei oficinas de música que me forçavam a compor já arranjando na hora, seria a composição de corpo presente. Hoje estou me rendendo aos programas para escrever partitura, na época o pessoal dos grupos tinham tempo para a gente poder criar as composições nos ensaios, agora está tudo muito corrido para todos e tento chegar já com o que eu quero pronto.

"Quanto mais desbloqueado você tiver o som vai fluir e sair naturalmente."

Paulo Almeida RC- São muito claras nas tuas composições e forma de tocar, as influências de multi-instrumentistas como Hermeto Pascoal e Arismar do Espirito Santo. Qual seria a importância destes na tua personalidade como músico?
PL-
Adoro a música do campeão Hermeto Pascoal, escuto desde meus 15 anos de idade e até minha mãe canta as melodias dele por eu ficar escutando e tirando as composições dele feito um louco. Logo depois em Tatuí, tive um contato mais próximo ainda com essa escola da música universal. Lá conheci o André Marques, Fabio Leal, Cleber Almeida e o Rodrigo Braz que são discípulos do campeão assim como eu sou. O Hermeto traz com ele muito esse lance da música regional em que sou fissurado, é algo muito brasileiro! Posteriormente tive um contato mais próximo com ele por tocar na Vintena Brasileira. Tocamos juntos 3 vezes e garanto que foi um aprendizado gigantesco, a pessoa mais sensível para música que conheço é o Hermeto. Já o Arismar é um ser de luz. Ele é aquele paizão moleque cheio de energia, uma pessoa super sensível a tudo. Eu sempre tive um carinho enorme pela música dele, acho esse cara um suinguero da peste, ele toca tudo muito bem. A música está dentro dele e sai de uma forma muito natural, como se tivesse respirando com um fluxo muito calmo. Hoje sou amigo de frequentar a casa dele e ele escreveu o texto de abertura do meu disco. É o padrinho musical. Tenho muita influência desses dois mestres sim e agradeço muito a oportunidade de ter conhecido eles pessoalmente.

RC- Muitas gravações fazem parte de teu currículo como as com o grupo Vintena Brasileira, Fabio Leal quarteto, Trio Jabour e outros. Como você diferenciaria a interação tocando em uma gravação em estúdio comparando com a de uma apresentação, se é que existe esta diferença?
PL-
Quanto mais desbloqueado você tiver o som vai fluir e sair naturalmente. Para mim não tem diferença na forma de tocar um show e uma gravação, a única coisa diferente é que no show normalmente quem vê e ouvi é quem está lá sentado e a gravação fica para eternidade. Mas isso é muito relativo, eu gosto por exemplo de ficar com a sensação do show e nunca mais ouvi-lo, como se tivesse nascido, morrido e guardado no peito, ali mesmo. O lance do estúdio dá um frio na barriga diferente, mas a entrega para a música tem que ser a mesma. Lembro de uma situação gravando o disco “Labirinto” da Vintena Brasileira em que estávamos tocando uma música do Hermeto que se chama “Haja Coração”, imagine uma massa sonora com 24 músicos tocando ao mesmo tempo dentro de uma sala. Aquilo foi tão forte pra mim que eu passei mal logo depois que acabou o take. Sai da sala chorando e não sabia o porquê, era algo muito belo que tinha acontecido ali. Acho que naquele dia eu pude entender realmente o sentido da palavra Deus em minha vida. Esse foi o take que foi para o disco e que logo depois o Hermeto gravou uma participação linda encima dessa faixa.

RC- Você é natural de Bauru e atualmente reside em São Carlos. Por que não São Paulo já que a cena é bastante grande na capital?
PL-
Adoro viver no interior, gosto desse lance calmo, de que dá para fazer muitas coisas a pé, ter um quintalzinho com plantas e uma qualidade de vida boa. Todo artista tem uma missão, a minha é fomentar a cultura musical por onde eu passar, acho que não devemos centralizar as coisas como estão e sim disseminar. Penso que muitas pessoas tem que conhecer a música sincera, feita de coração e sair dessa visão de comércio musical. Aqui em São Carlos tento fazer minha parte dando oficinas de prática de grupo, percussão brasileira, bateria e trazendo músicos que são referências para quem está começando. Vou plantando uma semente em cada lugar que eu passo e tentando ajudar as pessoas que estão afim de tocar. Mas mesmo indo para São Paulo quase toda semana sinto que estou nessa fase de transição e logo quero sair do interior e enfrentar a grande capital ou outro país.

RC- Como surgiu a parceria com a Istanbul Mehmet?
PL-
Surgiu através de meu amigo Mario Gaioto, um super batera e um dos representantes da marca aqui no Brasil. Eu sempre adorei esse pratos, acho o timbre da Istanbul Mehmet o som que eu ouço antes de tocar e encaixa perfeitamente no meu ouvido. Recentemente firmei uma parceria com a Tora Tambores que ai já vai para outro lado. Sinto a mesma coisa com essa marca e tenho a liberdade de opinar no som do instrumento além de que o compadre Chico Simões usa só a madeira brasileira e faz o tambor com muito amor e carinho.

"... não enxergo a bateria como 1 instrumento e sim como vários instrumentos."

Paulo Almeida - CD Constatações
RC- De onde veio o título "Constatações" que foi utilizado em teu primeiro trabalho solo?
PL-
Esse título vem porque já penso nesse disco desde 2010, cheguei montar o gig com uma galera mas na hora eu senti que não estava pronto para gravar um disco meu e tinha que viver mais, tocando com gente diferente antes para saber realmente o que eu queria como compositor e músico. Sempre toquei com bastante gente porque eu vivo de tocar, meu ganha pão é tocar e por isso dou poucas aulas. Eu não gosto desse lance de tocar em que rola o “siga o mestre”, acho que a partir do momento que você se junta para tocar com alguém seja ele quem for, você está tocando para a MÚSICA e não para alguém. Isso rolou uma vez comigo e estava em uma fase de transição na vida, saindo do plano estudante para enfrentar a vida sozinho. Sai desse som com apenas uma palavra: “Constatações”. Constatei naquele dia que eu já tinha o meu som dentro de mim e que isso tinha que sair de algum jeito. No mês seguinte gravei meu disco com um ensaio e em um dia. Foi realmente algo muito forte para mim.

RC- Você gravou a música "Cincando" de autoria de Vinicius Dorin. Por que não um álbum todo composto por você? O que está composição tem que lhe chamou a atenção para gravá-la?
PL-
Se eu pudesse gravaria um disco só de músicas do Vinicius, eu conheço quase todas dele e tenho todas as partes. Sou fã desse cara faz muito tempo também e quase furei o disco dele de tanto ouvir. Essa música sempre ficou em minha cabeça, eu sempre pensava se eu fosse gravar um disco um dia essa música teria que estar no repertorio. Por ter essa amizade com ele e ele ter ido gravar meu disco de coração eu aproveitei e pedi para ele com um certo medo (risos). Ele ficou muito feliz e ainda me deu o arranjo de presente. Essa música foi o último take da gravação do CD e foi o primeiro que foi pro disco. Lembro que a gente não aguentava mais e ainda faltava essa música que por incrível que pareça era a música que tinha um solo de batera. Foi ali que eu lancei o ultimo gás de energia que restava e sai daquele take até meio zonzo com a sensação de que acabou.

RC- O teu CD teve partes gravadas em muitos estúdios diferentes. Quais os critérios que você utilizou na escolha destes e dos músicos que atuaram o álbum?
PL-
Na verdade o que foi gravado em estúdios diferentes foram as participações e 95% do disco gravamos na Gargolãndia em Itapetininga/SP. Escolhi pessoas que passaram na minha vida e que tinham que estar ali comigo, o Jota P é meu amigo faz muito tempo e me ajudou muito como músico, aprendi muito com ele só de ouvir ele falar e todo lugar em que vamos juntos todo mundo pergunta: João é o seu irmão? (risos). O Fábio Leal eu diria que é meu pai dentro da música, ele me deu muitas aulas em Tatuí e sou muito grato de ter gravado o primeiro disco autoral dele. O Marcos Moraes é um ser muito lindo, cheio de bondade no peito e convivi muito com ele na Vintena, amigão eterno. A Vanessa é uma moça com o peito cheio de música transbordando uma energia linda e boa, esposa do meu grande irmão Fi Maróstica que também gravou no meu disco.

"... não gosto muito dessa palavra rótulo, minha música se chama Paulo Almeida."

Paulo Almeida RC- Em alguns momentos a tua bateria soa como a chamada "percuteria". Você utiliza a linha de raciocínio de um percussionista quando toca bateria? Fale sobre esta forma de abordagem.
PL-
Sim, uso e adoro percussão. Tudo o que está ligado a ritmo está ligado a percussão. A bateria mesmo só diferente pelo nome, não enxergo a bateria como 1 instrumento e sim como vários instrumentos. Quando toco tento dar o devido valor para cada peça que estou tocando além de ser um pesquisador apaixonado por música regional como o Coco, Maracatu, Samba de Roda, Tambor de Crioula, Boi do Maranhão, Samba Rural, Samba regional dentre outros tantos ritmos que temos aqui no Brasil por forte influência africana. Tudo que tem tambor no meio eu fico encantado, é que nem dar um doce na mão de uma criança.

RC- Você considera as tuas composições e gravações como pertencente ao rótulo de "Música Universal" pregado por Hermeto Pascoal?
PL-
Não considero e não gosto muito dessa palavra rótulo, minha música se chama Paulo Almeida. Tenho fortes influencias da Música Universal sim, como todo mundo tem de algum lugar. Mas não gosto nem um pouco dessa colocação. Acho que quando a gente separa a música por ondinhas ela perde o sentido de arte. Cada músico tem que achar o seu som, independente de onde veio e com quem tocou, isso que é rico.

RC- Fale um pouco sobre improvisação, interação e intuição.
PL-
A gente improvisa o tempo todo na vida, desde quando se acorda de manhã. Acontece que quando isso é algo natural a gente está sem bloqueios, observe uma criança, ela sim é uma improvisadora nata porque não tem bloqueios e está descobrindo tudo. A interação vai muito de você tocar ouvindo compenetrado dentro do som e respeitando a música de cada um que está ali com você. A intuição já acho uma coisa mais espiritual. Você programa um show por exemplo e na hora H você senti uma intuição de mudar tudo, o Hermeto faz muito isso. Cito aqui outros nomes como o Michel Leme e o próprio Arismar, os caras são feras e super sensíveis a isso.

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