Entrevista com Ricardo Carneiro

Ricardo Carneiro, compositor e violonista fala sobre a gravação do seu primeiro CD intitulado "NY 7577", comenta sobre arranjos e a forma de captação no estúio, campanha de crowdfunding, trilha sonora do app History Kids e muito mais.

Rodrigo Chenta- Fale do teu contato com a música na infância. O que ouvia, lembranças, etc.
Ricardo Carneiro-
Meu disco NY 7577 trata desse tema! Morei em Nova York de 1973 a 1975 (2 a 4 anos de idade), porque minha mãe ganhou uma bolsa de estudos. Meu pai não podia trabalhar, e ficava comigo... e ele ama música! Como estávamos lá, ele aproveitou para comprar LPs que gostava: coleções de gravações de campo de blues, fiddle, banjo... muito Bob Dylan, Joan Baez, Phil Ochs. E entre todos, o que mais me marcou foi Pete Seeger, que produzia discos lindos para crianças com músicas tradicionais. Até hoje adoro ouvir sua voz. De volta ao Brasil conheci e me apaixonei por todo tipo de música, mas ficou um afeto especial por aquele primeiro contato com o folk.

RC- Discorra sobre o título e o conceito da arte da capa do CD "NY 7577".
RC-
O título se refere aos anos de 1975 a 1977. Sei que ficou meio enigmático dessa maneira ‘7577’, mas não quis mesmo ser muito didático, e gosto dessa maneira. A arte da capa (e o interior, a contra capa e o encarte) foram todos feitos usando slides dessa época, tirados por minha mãe! Como é um disco pessoal que conta a história da minha família e desse tempo, nada poderia ser mais adequado... E minha mãe tira fotos lindas, apesar de não ser uma profissional.

RC- É interessante a riqueza de timbres explorados neste trabalho, pois usou tanto violão com cordas de aço e nylon como viola dinâmica e machete. Como você define qual instrumento usar em cada música?
RC-
Na maioria dos casos a música foi composta no instrumento que gravei. Para mim o instrumento me leva a compor... a maneira que ele responde aos graves, ou a um ataque, ou como ele toca uma melodia... tudo isso me encaminha para decisões que seriam diferentes em outro instrumento. Agora, tiveram sim duas músicas que tomei a decisão consciente de usar outros instrumentos para dar essa variedade de timbres que você falou. Foi o caso das duas músicas que toquei no violão nylon. Achava importante ter o nylon no disco, porque os outros 3 instrumentos são de cordas de aço, e escolhi quais músicas encaixavam melhor nele. Eu queria que o disco fosse agradável de ouvir para quem não é músico, e achava que variar os timbres me ajudaria nisso.

"Eu queria que o disco fosse agradável de ouvir para quem não é músico ..."

Ricardo Carneiro RC- Comente sobre os vídeos que gravou demonstrando estes instrumentos.
RC-
Esses vídeos são parte do esforço de divulgação do disco e da campanha de crowdfunding. Estudei um bocado esses assuntos, e todo mundo que ensina isso é unânime em dizer: ‘precisa fazer vídeos!’. Então fui atrás de fazer vídeos... Por sorte um grande amigo que trabalha com isso tinha um dia livre e se ofereceu para me ajudar, então eles ficaram com uma boa qualidade. São 4 vídeos: viola dinâmica / viola machete / violão aço ‘parlor’ ‘/ a técnica clawhammer (uma técnica de banjo que adaptei para o violão).

RC- Fale sobre o arranjo que fez da música "Asa branca" de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira.
RC-
Esse arranjo ficou bem livre! Usei a técnica clawhammer que falei acima. Essa é a técnica antiga do banjo norte-americano, e trata-se de uma técnica de origem africana (sim, o banjo tem origem africana), bem percussiva. Não sou nem de longe o primeiro a usar essa técnica no violão, vale ressaltar. Quis tentar usá-la em alguma música brasileira para ver no que dava, e achei que na música nordestina (que eu amo) daria certo. Acho que pensei isso por causa do baixo pedal... enfim, testei com esse hino chamado Asa Branca e gostei do resultado. O arranjo é tão livre que queria ter dado o nome: ‘Fantasia sobre o tema de Asa Branca’. Mas teria que ter pedido uma autorização especial e não sabia disso... pena. Uma última coisa sobre esse arranjo: minha maior honra é que o grande percussionista Eder ‘ O’ Rocha disse que sentiu algo de Jimmy Page... quem dera!

RC- Como se deu a parceria com Chico Saraiva para a produção deste álbum?
RC-
Originalmente eu sou guitarrista. Quando comecei a compor para violão fui tentar gravar e soava bastante cru. Sem saber o porquê, fui falar com o Chico Saraiva, e foi para mim um momento inesquecível: com toda sua experiência e sensibilidade, ele entendeu exatamente onde eu queria chegar e o que me faltava para chegar nesse lugar - e isso em poucos minutos! Virei seu aluno, e passamos um ano nesse processo, onde o material das aulas eram minhas composições, e não o repertório violonístico tradicional. O talento dele como professor e produtor do disco foi fabuloso, até porque toco estilos que não são a praia dele. Acabamos ficando bastante amigos, e sem essa produção do Chico Saraiva eu nunca teria conseguido fazer esse disco.

RC- A qualidade da gravação é inegável e em relação aos instrumentos usados destaco os harmônicos que soam o tempo todo no CD. Como foi o processo de captação no estúdio?
RC-
Obrigado! Realmente eu fui atrás disso, pesquisei bastante, testei várias salas, pessoas, microfones, até achar o que queria. Quem me deu a captação dos meus sonhos foi o Carlos ‘Cacá’ Lima da YB. Ele usou 5 microfones, sendo um na ponte, um no braço, dois centralizados e um pegando a sala. E tem uns microfones bem raros aí no meio. Na mix escolhia 3 desses 5 mics. Tem uma música, ou duas, que ficou com 4 mics soando. O crédito do som desse disco não é só da captação, a mixagem do Gustavo Lenza foi primorosa, e a masterização do Maurício Gargel também. Cada passo teve igual importância no resultado, dava para ver claramente o som tomando forma quando passava na mão de cada um deles.

"... gosto bastante do ad libtum, é um perigo, se vacilar eu caio nele!"

Ricardo Carneiro - CD NY 7577
RC- É possível afirmar que as faixas de número par possuem um caráter mais alegre enquanto as de número ímpar são mais melancólicas.
RC-
Sim. Talvez tenha ficado um pouco óbvio para você, eu tive essa dúvida mesmo. Conversamos bastante disso na masterização, tentamos outras sequencias, mas essa parecia sempre voltar, daí resolvemos que era isso mesmo, que o disco pedia isso. Enfim, foi mais uma coisa que fiz para tentar deixar o disco gostoso de ouvir, fluído, especialmente para quem não é violonista/músico. E de fato ouvi bastante esse elogio vindo de não-músicos, que a dinâmica forte/fraco torna o disco agradável a eles.

RC- Comente o fato da tua composição "Voo 7577" se tornar trilha sonora do aplicativo History Kids.
RC-
Essa trilha é a origem desse disco. Esse app mostra a história e cultura dos EUA de uma maneira leve para crianças. Sabendo que eu gosto muito de música folk, os criadores do app me chamaram para fazer a trilha. A primeira coisa que fiz foi ir buscar no meu baú de ideias, e achei esse tema, que tinha tudo a ver. De fato toda a equipe do app é apaixonada pelo tema! No processo de pesquisa e trabalho no app foram surgindo outras músicas, sem relação com ele, e percebi que tinha um disco para fazer. Aliás a primeira e segunda música do disco são a primeira e segunda que compus.

RC- As músicas "Paisagens americanas" e "Uma folha para Nena" possuem o andamento lento e ad libtum em alguns momentos. Como você organiza estas variações na hora de interpretar suas músicas?
RC-
Pois é, gosto bastante do ad libtum, é um perigo, se vacilar eu caio nele! Esse e todos os aspectos de interpretação foram muito estudados, sob a orientação do Chico Saraiva. Claro, tenho minhas limitações, mas realmente olhei bastante para isso. O Chico não me deixava tocar nada que fosse sem uma intenção!

RC- Como você descreve o CD "NY 7577"?
RC-
Como o grande sonho da minha vida. Sempre quis, desde novo, fazer um trabalho autoral. Fiz dois discos com a banda pop Quasímodo, mas eram discos coletivos, e com quase nenhuma participação minha na composição. Depois tentei compor canções, montar bandas, mas não consegui chegar num registro. Ter feito isso agora, ainda mais num disco que me deixou muito satisfeito, que chegou onde eu queria, me deu uma felicidade imensa. Musicalmente tenho dificuldade de descrevê-lo, e aceito sugestões! Ele é claramente inspirado no folk e no blues, mas não acho que é um disco ‘de’ folk e blues... e alguns músicos americanos que ouviram confirmaram isso. Então diria que é um disco muito inspirado no folk e no blues, mas com marcas do rock, da música do nordeste (estilos que adoro), e de certos aspectos do violão clássico, vindos do processo com o Chico Saraiva.

RC- Em algumas músicas se utilizou afinações com o bordão mais grave e isso contribuiu consideravelmente para o timbre. Este procedimento é pensado junto com o arranjo das composições?
RC-
O violão solo é um desafio enorme, toda hora você tem que resolver um problema. Faltam dedos para melodia mais o acorde que você queria fazer... falta uma nota na região que você precisava dessa nota... O bordão mais grave parte dessa necessidade de acomodar a composição.

"O violão solo é um desafio enorme, toda hora você tem que resolver um problema."

Ricardo Carneiro RC- É interessante a inserção dos pequenos textos sobre as músicas no encarte do CD. Como surgiu esta ideia?
RC-
Isso surgiu do amor que tenho pela canção. Adoro acompanhar os discos conceituais, ou aqueles que sabemos o que o artista estava passando na época. Gosto demais da capacidade da canção de comentar fatos, pontos de vista, falar de experiências. Apesar de ser igualmente fã da música ‘puramente musica’ - e me vem a mente o gigante Moacir Santos e suas Coisas - eu queria contar minha história.

RC- Atualmente é comum a realização de campanhas no formato crowdfunding e você fez uma no Kickante. Muitos músicos não conseguem os valores previstos, por mais planejados que estejam. Como você entende este assunto?
RC-
Ainda não tenho a resposta final, porque minha campanha ainda está acontecendo e não sei se vou conseguir ou não. O que sei é que dá MUITO trabalho, e só criar a campanha e jogar na rede não dá em nada mesmo. É preciso separar muitas horas do seu dia, todos os dias, para ter algum resultado. Criar muitos vídeos, promoções, novidades, responder as pessoas muito rápido, etc. Percebo que há uma relação direta: quando as pessoas sentem que estou em cima da campanha, dando o sangue, elas respondem. E o contrário, claro. Por sorte eu tinha uma economia e estava trabalhando bastante, então investi no disco e agora estou retomando esse investimento. Por isso escolhi uma campanha ‘flexível’, onde eu recebo o valor mesmo se não atingir a meta. Estou com quase 50% do valor e confio que vou chegar bem mais longe que isso. Mas se não atingir o total, uns 80% por ex. já me permitem realizar o próximo disco, que é meu objetivo. E sempre posso vender mais CDs e outros produtos por bem mais tempo que a campanha, para fechar o valor necessário. Agora, vejo bastante o contrário, as referências que tenho são positivas, tenho amigos músicos que fizeram crowdfunding e conseguiram sim atingir a meta!

Obrigado pela entrevista e pela oportunidade ao meu trabalho.
Abraço,
Ricardo Carneiro

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