Entrevista com Rodrigo 'Digão' Bráz

Rodrigo Digão Braz, baterista e professor fala nesta entrevista sobre música cubana e brasileira, festivais de música, Grupo Mente Clara, ensino musical, harmonia, improvisação canjas e muito mais.

Rodrigo Chenta- Você foi um dos ganhadores das bolsas para o 20ª Edição do "Festival Jazz Plaza" realizado em Cuba. Conte-me como surgiu esta oportunidade.
Rodrigo 'Digão' Braz-
Este é um festival que acontece todo ano e a cada dois anos um órgão espanhol fornece bolsas. Ele é como se fosse o ECAD nosso. Em 2002, chegaram quatro bolsas aqui no Brasil que foram distribuídas em cinco instituiçôes musicais que foram FAAM, Santa Marcelina, UNICAMP, USP e o Conservatório de Tatuí. Houve uma eliminatória entre elas e a final foi no teatro São Pedro. Eu fui para lá com o Fabio Leal, Chico Pinheiro e Danilo Penteado. A única restrição que tinha era tocar em duo. E foi bem legal porque neste festival esteve o Chick Corea, Danilo Peres, fora o pessoal de Cuba mesmo, o Horacio, etc. Nós ficamos quinze dias lá. Tinham noites especiais como a Noite do Brasil, Noite do Peru, sons da América do Sul inteira e Latina também.

RC- O que te chamou à atenção sobre o estudo dos músicos cubanos?
RDB-
Lá é totalmente diferente. A dedicação do músico cubano em cima da música é um negócio quase divino. Tem uma história muito engraçada. Eu acabei conhecendo muita gente lá e falei para um dos pianistas: - Irei na sua dia tal às 20:00 horas. Como eu estava perto da casa dele no dia, passei lá e cheguei por volta das 19:30 horas onde ele me recebeu e disse que já voltava em um minuto. Às 20:00 horas cravado, ele saiu do quarto porque ele estava estudando e me atendeu a partir das 20:00 horas (risos). A metodologia deles é russa e os caras são muito eruditos disciplinarmente falando e como todos já sabem, possuem uma rítmica muito forte.

RC- Quais são as dificuldades e diferenças básicas rítmicas na execução de gêneros cubanos, nordestinos e norte americanos segundo sua experiência?
RDB-
- Musicalmente Falando, isso é um dado histórico devido a colonização que foi feita tanto na América do Norte como na América do Sul. Vou primeiro diferenciar os EUA do Brasil que aí fica mais fácil falar de Cuba. Os escravos que foram para o norte, eram do norte da áfrica onde predomina os ritmos com subdivisão ternária. Ao contrário disso, os que vieram para o Brasil viviam em regiôes onde há uma predominância da subdivisão binária. O que é o ritmo em si? É uma série de acentuaçôes previamente determinadas em cima das células rítmicas. No meio disso literalmente está Cuba quem teve influência dos EUA com a mistura dos ritmos latinos. Ele tem esta malemolência (risos) e parece que está aqui e não está. A mistura destas duas subdivisôes é que vai fazer este molejo do ritmo cubano. É uma síntese destas duas culturas.

"Se os músicos não tiverem a mãe que é a harmonia, tudo vai por 'água a baixo'."

Rodrigo 'Digão' Bráz RC- Eu gostaria que você discorresse sobre as diferenças nas conduções na bateria, percussão e "percuteria".
RDB-
Para mim o que diferencia um baterista, percussionista ou percubaterista é o modo que ele encara a música, como ele consegue ouvir e que contato harmônico ele tem com ela. Nós sabemos que a música está baseada em três elementos que são melodia, harmonia e ritmo. Se os músicos não tiverem a mãe que é a harmonia, tudo vai por "água a baixo". Antes destas divisôes nestes instrumentos o cara tem que ser músico e conhecer de harmonia. Se ele tocar um instrumento harmônico melhor ainda. Se não for possível, deve pelo menos entendê-la para se dar melhor no próprio instrumento. Eu brinco com meus alunos que bateria ou é 100% ou não é nada (risos). Ou você toca com a certeza daquele som que você quer refletir e entende o sentido real daquele momento e sonoridade ou tudo vai por "água a baixo" porque vai virar barulho. O pianista tem 50% de chance de acertar porque poder errar o ritmo, mas não o acorde. Com um baterista não. Se ele não tocar direito aquilo pensando na harmonia já era... E acho que as três coisas são muito juntas. A bateria é um amontoado de percussão. O percussionista tem que ter a noção da bateria, porque ele sabendo quais são os caminhos que o baterista vai percorrer e peças tocar, pode preencher outros "buracos" principalmente na música brasileira, onde os três têm que andar muito juntos. Eu procuro não separar muito estes três mundos e acho que eles têm que percorrerem juntos.

RC- Muitos bateristas tem bons conhecimentos em outros instrumentos como ALex Buck, Nenê ou Dave Weckl por exemplo. A seu ver, quais são os benefícios com esta agregação?
RDB-
Hoje em dia é muito mais comum as pessoas tocarem outros instrumentos. Você pega, por exemplo, o Chris Potter que é um saxofonista muito bom e tem vídeos tocando piano mesmo, tocando muito que nem o próprio Alex Buck, Dorin e o Nenê que é a minha maior referência musical. Quando ele toca bateria, você ouve a harmonia da música. É fundamental tocar outros instrumentos.

RC- Você resgata diversos ritmos regionais principalmente nordestinos. Qual é a característica marcante sobre estes gêneros em relação à técnica utilizada na bateria e o que você acha primordial para trilhar este caminho?
RDB-
Esta pergunta é interessante porque ela extrapola o universo musical. Quando falamos de música regional, falamos de cultura. Para vivenciar esta cultura, não significa que precisamos estar morando no interior de Pernambuco para entender de Maracatu. É preciso entender as tendências linguísticas e cotidianas. Isso vai refletir na música. É preciso estudar as festas, crenças e sotaque. Porque será que um Baião, na maioria das vezes é mais rápido que um samba? Semicolcheias ou melhor dizendo, quartinas são iguais para todos os ritmos. Se você pegar um nordestino falando, a dicção dele é muito mais rápida do que, por exemplo, um carioca. O sotaque da música e do som tem muito a ver com isso. Agora tu pegas um samba que é carioca. Meu, eu vou para Copacabana e está tudo certo... (risos) e essa diferença cultural é muito legal. Dentro de tudo isso, se você não sentar com o cara do interior de Pernambuco e não conversar e fizer um som com ele, não tem jeito. Senão o cara vai virar musicólogo, o que não tem nada de mal, só que você não será um instrumentista praticante.

RC- Nós não temos identidade ao mesmo tempo em que temos identidade. Isso tem o lado bom e ruim...
RDB-
Eu vou frisar que aqui em São Paulo (capital) nós não vivemos a realidade que é a do Estado culturalmente, que resulta também na música. Talvez a música que representasse essa região central fosse a dodecafônica (risos) devido à loucura que vivemos. Nossa cidade é cosmopolita, portanto ultrapassa os limites culturais ainda mantidos no interior e também não podemos esquecer, no litoral paulista. Isso também acontece em outras capitais mundiais como Nova York. Este é o nosso cotidiano e o que devemos fazer e tentar entendê-lo. Existe também certo tipo, estilizado de Maracatu, Samba, Jazz que é tocado na capital como em toda parte do Brasil.

RC- Você foi professor no Festival de Música de Ourinhos-SP em 2001, 2002 e 2004. Muita gente comparece principalmente para tocar nas famosas "canjas" do evento que dura a semana toda. A seu ver, qual é a importância destas e as interaçôes referentes às improvisaçôes?
RDB-
Eu acho que a canja é a maior interação do músico. A gente não pode esquecer que a carreira acadêmica musical é um fato novo no Brasil. Antes disso, os músicos só se confraternizavam nas canjas e bares. Isso era a verdadeira escola do músico. Não se pode perder isso de maneira nenhuma. Eu acho que é muito louvável que o cara sair daqui (capital) para viajar 450 quilômetros só para tocar na canja de Ourinhos (interior do Estado). Está ótimo.

"A música é um diálogo. Precisamos conversar e esta conversa é retratada em notas, harmonias e ritmos."

Rodrigo 'Digão' Bráz RC- Eu fiz isso em 2006...
RDB-
As melhores coisas estão ali e não tem como fugir. A gente tem que partir da premissa de tocar sempre. Se o cara está estudando dentro dos moldes acadêmicos está ótimo, mas tem que tocar sempre. É ali que você vai poder aplicar o seu estudo. É na hora, que terá que resolver qualquer pendência rítmica, harmônica ou melódica não podendo parar de maneira nenhuma. Situaçôes muito engraçadas são geradas dentro de uma canja. A música é um diálogo. Precisamos conversar e esta conversa é retratada em notas, harmonias e ritmos. Pra mim tem que ir mesmo à canja. Em todas, todas, todo dia, toda hora.

RC- Quando se utiliza o formato standard para improvisaçôes é comum vermos pessoas da área mais rítmica como a bateria se perderem na forma. O que poderia facilitar na execução deste formato de interação?
RDB-
É muito engraçado um professor não fazer este tipo de questionamento com um aluno. Desde a primeira aula, eu falo para o aluno que a forma é uma questão primordial para o seu instrumento e sem ela você não tem parâmetros. Nós não tocamos as notas, melodias e harmonias. A forma é um parâmetro, uma lei, uma regra. Existem meios de quebrar a forma sem sair dela. Se não tiver forma não tem como trabalhar. Não tem como falar de música se não estiver falando de forma especificamente na bateria. Para facilitar a execução o baterista deve entender como ele pode se portar neste espaço seja em 4 compassos, 8, 12, 16, etc. Deve criar um mecanismo dentro dele... O professor em si não passa nada. Ele extrai do aluno o que ele pode tirar de resultado para que ele mesmo se entenda. Os modos de se fazer isso são muito diferentes e variam de pessoa pra pessoa.

RC- O Grupo Mente Clara apesar de possuir muita influência de Hermeto Pascoal e alguns compositores clássicos como Piazzola ("Piazzolando"), tem particularidades que criam bastante interesse se ouvidas com atenção. Como funciona o processo criativo das composiçôes e arranjos?
RDB-
Dentro de todo grupo existe uma hierarquia. Um gosta da parte burocrática, organizacional e administrativa e outros compôem mais. No Mente Clara, o compositor principal é o Fábio Leal. Ele chega com a música pronta. Quando falo de música pronta é difícil ainda mais em um grupo que se tem uma intimidade. É diferente de uma Big em que a coisa é mais taxativa. O processo de composição do Mente foi mudando com o tempo devido a "n" situaçôes. Antes tínhamos mais tempo para ensaiar, compor e criar. Hoje o processo de criação é mais rápido porque o grupo já se entendeu. O compositor já escreve da maneira que o outro toca. Sabe o jeito de tocar de cada um do grupo. No meu caso, o Fábio nunca escreveu nada para bateria. Ele fala para eu ouvir e criar algo conforme a sonoridade. Sou privilegiado porque o conheço a muito tempo e temos essa liberdade de saber como lidar um com o outro e isso reflete no som.

RC- De fato, o Mente Clara é um grande difusor da música contemporânea brasileira. Em quais circunstâncias formou-se a banda?
RDB-
Ele foi formado em Junho de 2000. A ideia era de se juntar para estudar coisas que estávamos vivenciando naquele momento. No princípio, era um quarteto e depois de um mês, chegamos até a ser um sexteto, e nessa formação ficamos por cerca de três anos até chegarmos no quinteto. Passaram dois pianistas, um percussionista e um contrabaixista pela banda antes de chegarmos a esta formação com esses músicos.

RC- Como funcionam os workshops ministrados junto com os outros integrantes quanto à linguagem, pulso coletivo, ensaio, etc., que são abordados nas palestras?
RDB-
Sobre o ensaio, o que a gente prega para o aluno é saber ouvir e extrair o que realmente precisa ser ouvido naquele momento. Para ter melhor absorção daquela música é importante ter metas, diretrizes e pontos a serem traçados nos ensaios. É necessário pesquisar o que será tocado. Sobre o pulso, a ideia é criar a interação entre os integrantes para terem a mesma pulsação. A pulsação é como se fosse um mantra que fica rodando e rodando precisando ser passado à todos os executantes, chegamos também aos ouvintes (plateia). O objetivo é direcionar o processo de produção do grupo.

"O professor em si não passa nada. Ele extrai do aluno o que ele pode tirar de resultado para que ele mesmo se entenda."

Rodrigo 'Digão' Bráz
RC- Sobre a UnwrittenMusic, como surgiu esta parceria para a gravação do segundo álbum do Mente Clara?
RDB-
O Rodrigo Pinheiro, que é um baixista que mora em Botucatu (grupo Amanajé), teve a ideia de divulgar a música que é produzida em Tatuí especificamente. Ela que tem muita força no Brasil e fora, mas não tem representatividade nem meios para se produzir em áudio e vídeo. Não tem metodologia ainda. É uma música nova que não está pautada com métodos e não tem um sistema organizacional da escrita. Em Tatuí, existem cerca de cinquenta grupos. É muita coisa. O Mente Clara é o segundo grupo a ser lançado pelo selo.

RC- Em meio a apresentaçôes, aulas, gravaçôes, workshops, etc; como você faz para se organizar em relação a seus estudos tanto no instrumento como outras disciplinas correlacionadas?
RDB-
O estudo deve ser uma pesquisa. Tem muita gente que acha que está estudando e na verdade está é tocando em casa. Está praticando e exercitando, mas não está estudando. Devem-se estudar as características do ritmo e harmonia em questão. O "estudar" muitas vezes não está ligado a ficar em cima do instrumento. Por exemplo, nós estamos conversando aqui e isto é uma forma de estudo também. Dentro de tudo isso eu ressalto que o músico deve ter a concepção para que ele não se torne um mero executante. Deve ser um ser pensante.

RC- No início dos estudos musicais existe em alguns uma ansiedade para aprender a tocar um instrumento. Que conselho você daria aos jovens e futuros bateristas?
RDB-
Nunca perder o foco de maneira alguma. Não perder o amor, a dedicação pela arte e por este seguimento de vida. Uma vez, o Bob White estava dando um workshop em Tatuí e disse: - Você tem que encarar isso aqui (música) como se fosse à melhor coisa do mundo... Amar o seu instrumento. Ele tem 72 anos de idade e faz parte da história da música no Brasil, fora do país e fala ainda com uma vontade sobre o assunto. Não podemos perder este foco.

RC- Ainda existe uma grande escassez de espaços para a música instrumental brasileira ser executada e apreciada. Como você encara esta situação?
RDB-
Eu penso que se não há lugar para tocar, devemos criá-los. Não dá para criar os locais para tocar, tudo bem. Não devemos parar de tocar e produzir nossa música por causa disso. Acredito que deveria ser muito legal ter vivido em outras épocas onde existia mais espaço, mas eu não sou saudosista e tenho que viver a minha época.

RC- Em relação à dinâmica e intensidade, existem bateristas que tocam em volume bem reduzido e outros bem fortes. Acredito que o ideal seja uma mistura deles. Eu gostaria que comentasse o assunto.
RDB-
Para todas as instituiçôes ou qualquer pessoa que pregue este tipo de conduta "agora é baixinho, agora é alto" eu digo que eles estão totalmente equivocados. A música é maior do que qualquer coisa. Maior do que qualquer texto e do que qualquer imposição. Se o baterista não estiver escutando a banda, ele está "ferrado". Se estiver tocando "baixinho" e escutando a banda, beleza. Se estiver tocando "alto" e escutando a banda, beleza também. O importante é que ele esteja escutando a banda. Por exemplo, em uma canção, a principal arma é a letra. Se a pessoa não estiver entendo a dicção e a letra da música, não valeu nada aquela canção. Na música instrumental a principal característica é a melodia do tema ou do improviso. Se você não entendê-la, não escutar o improvisador, perde-se tudo. O cara pode estar "quebrando tudo" que é um termo que muito utilizamos, que vai perder todo o sentido e nesse instrumento perde-se a função primária que é conduzir. É muito problemático para os bateristas principalmente. Eles acabam exagerando em volume e quantidade de notas. Não é tocar forte ou fraco que vai dizer se o som está bom. Tem hora que tem que "descer o braço" mesmo.

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