Entrevista com Rodrigo 'Digão' Bráz

Rodrigo Digão Braz, baterista e compositor fala sobre seu CD solo intitulado "Carvão" com músicas autorais e de outros compositores onde pode explorar arranjos ousados que mostram musicalidade e muito mais.

Rodrigo Chenta- Logo no "Cortejo de Abertura" se tem uma ideia do que acontecerá no CD: harmonias sofisticadas, rítmicas ousadas e texturas díspares. Estas afirmações conferem?
Rodrigo 'Digão' Braz-
Olá Rodrigo Chenta, a todos os amigos e leitores do "Informação Musical". Primeiramente, fico feliz em poder compartilhar deste álbum que fala muito da minha trajetória como músico acompanhante, solista e, dessa vez, como compositor e arranjador. Partindo desse princípio, meu foco foi à exploração de harmonias que eu tinha na cabeça, depois de 12 anos ininterruptos de práticas com o grupo Mente Clara, entre tantos outros grupos, parceiras, gigs, gravações em diferentes estilos e gêneros musicais, de formações diversas. Claro que minha tendência é para o campo da música brasileira, daí vem a forte característica rítmica dos mais variados elementos do vasto universo de rítmicas, texturas e culturas tupiniquins.

Rodrigo Chenta- Como surgiu a ideia de convidar Marcos Alma para arranjar esta composição?
Rodrigo 'Digão' Braz-
Marcos Alma é um parceiro que conheci em 2012, para uma gravação de um maravilhoso disco dele, chamado Joia Criola. Desde então, já sabia que iríamos fazer muitas coisas juntos, pois sua concepção e dedicação com a música seja ela vocal ou instrumental sendo assim e volto a dizer, com a música, sem distinção, me impressionou. Quando fui gravar essa faixa, tinha as linhas vocais em mente, mas, ao entrar no estúdio para a gravação (nessa faixa contamos com Manuella Cavalaro, Vanessa Moreno e Eu nos vocais) deixei Marcos comandar e esse arranjo foi nascendo de uma maneira muito natural, totalmente na hora. Felicidade imensa em ter esse caboclo que considero o quarto elemento do trio.

Rodrigo Chenta- Fale sobre a letra das músicas "Cortejo de Abertura" e "Cortejo de Encerramento".
Rodrigo 'Digão' Braz-
Essa música tem muito do meu contexto infanto/juvenil e de meus estudos sobre o folclore regional de dentro e fora do Brasil. Sou filho de uma ministra da Eucaristia, Dna Lourders Braz, que foi coordenadora de cantos por 30 anos na igreja que congrega. Essa música foi realmente um cortejo no meu casamento, onde meus padrinhos, madrinhas e Eu entramos para a cerimônia. Essa veio na abertura do disco justamente para abençoar e agradecer a esse trabalho.

"Claro que minha tendência é para o campo da música brasileira ..."

Rodrigo 'Digão' Bráz Rodrigo Chenta- Ao que ou a quem se refere o título "Carvão" usado neste trabalho?
Rodrigo 'Digão' Braz-
Nessa entrevista veremos o quanto esse disco sintetiza um momento da minha vida profissional e pessoal. Carvão é uma música dedicada a minha mulher, Fabiana Pereira Xavier. Carvão é um apelido que temos em comum, o que está escrito em nossas alianças e tem tudo a ver com a ideia do carvão: rústico, matéria prima, base para muitas coisas, assim como pensamos nos ritmos que são bases para as nossas interpretações em cima das composições propostas.

Rodrigo Chenta- Explique a arte da capa e o projeto gráfico deste CD.
Rodrigo 'Digão' Braz-
Esse foi um encontro muito bom. Henrique Martins é um design gráfico de ideias lindas, totalmente coerentes e alinhando com quaisquer trabalhos que vai a sua assinatura, de cuidados impressionantes para a resultante que, nesse caso foi um álbum de música autoral instrumental/vocal, cheio de homenagens e significados pra cada música. Pra termos ideia da seriedade desse artista, ele escutou o disco durante uma semana, elaborou 4 artes diferentes levando em consideração todas as histórias de faixa a faixa, de homenagens e contextos que marcam cada composição, e somente após reuniões fechou a ideia de cor, design e arte de capa. Pra quem quiser conferir mais desse singular artista, confira seu site www.lacuna.com.br em capas de álbuns, animações, logomarcas e tudo que um design gráfico possa oferecer.

Rodrigo Chenta- Em "Solo Sagrado", faixa que dedicou às escolas de samba de São Paulo você gravou todos os instrumentos da música. Fale sobre a concepção desta peça.
Rodrigo 'Digão' Braz-
Tive o prazer de ser convidado em 2013 para fazer parte do corpo de jurados (quesito Bateria) das escolas de samba de São Paulo, julgando os grupos de Acesso e Especial comandados pela liga das Escolas de Samba de São Paulo, sendo assim, 22 das melhores escolas da capital, imaginando que temos 66 escolas divididas em 7 grupos (Especial e Acesso – liga das escolas de Samba de São Paulo e grupos 1, 2, 3 e 4 comandados pela UESP), 14 suspensas e 207 já extintas... Ufa, é muita tradição e responsabilidade, que mexe com tantas pessoas ao mesmo tempo. Se minha dedicação às batucadas já era grande, a partir de 2013 ficou ainda mais acalorada por ver ali, na minha frente, tantas tendências, culturas, externadas em surdos, caixas, repiniques, chocalhos, tamborins, ganzás, xequeres, frigideiras, pandeiros, cuícas, entre outros. Ao fazer uma composição totalmente pensada em melodias que poderiam ser retratadas na bateria (instrumento basicamente rítmico) não pude deixar de complementar essa com os instrumentos básicos de uma agremiação carnavalesca. Foram três alturas diferentes na Zabumba – o samba paulistano tem uma característica diferente do restante do país por ser denominado "Samba Rural" ou "Samba Caipira" e a zabumba é o ícone deste movimento – mineiro, repinique, tamborim e agogô. A ideia e o que envolve essa faixa são enormes. Poderíamos abrir uma nova entrevista só pra falar desse breve e intenso período. Sempre digo que ganho uma bolsa de mestrado para trabalhar nessa festividade onde faço analises, acompanho, dialogo com mestres e diretores de bateria, aprendo, contribuo para o crescimento profissional desta festa onde hoje sou coordenador do quesito. Grato demais por essa experiência!

Rodrigo Chenta- Você fez um arranjo para a música "Tune Up" do Miles Davis que desperta bastante interesse em relação às mudanças de andamento, métricas, tempos, etc. Fale sobre esta releitura.
Rodrigo 'Digão' Braz-
Uma das coisas que realmente gosto de trabalhar na minha maneira de expressar a música que eu estou executando é a elasticidade que um determinado espaço pode gerar, optando por várias outras formas de agrupamentos de tempos, contrapondo o numero de tempos incialmente proposto. Em música, damos o nome desse processo de "modulação Rítmica". Isso não é novidade, temos muitos bons exemplos de muitos músicos bateristas ou não e, acredito que esse desafio é meta para muitos profissionais dessa arte. A liberdade é algo almejado por todos e fazer essas colocações é uma forma de chegar a esse intuito. Pois bem, aliado a essa amálgama de mudanças rítmicas com a harmonia proposta (essas modulações mereciam uma nova "cor") que desenvolvo no violão – meu instrumento harmônico – nasce esse arranjo, muito bem absorvido pelo Salomão Soares e Fi Maróstica. Feliz pelo resultado.

"Uma das coisas que realmente gosto de trabalhar na minha maneira de expressar a música que eu estou executando é a elasticidade que um determinado espaço pode gerar."


Rodrigo 'Digão' Bráz - CD Carvão
Rodrigo Chenta- A música "De peito aberto" dispensou o momento tradicional de improvisos que neste caso não fizeram falta. Como se deu a criação desta composição e seu respectivo arranjo?
Rodrigo 'Digão' Braz-
Essa faixa traz todo o sentimento que o título representa: A fluidez de entrega a algo, alguém, de forma simples, leve, serena e profunda. Essa é a entrada da Fabiana para a nossa cerimônia de matrimônio, lindamente executada por Vinicius Dorin, Diego Garbin + o Trio e como notou, dispensa improvisos, pelo menos foi assim no registro desse álbum.

Rodrigo Chenta- Discorra sobre o título da música "Fiz, mas não consigo tocar!".
Rodrigo 'Digão' Braz-
Da série "curiosidades do disco"... Essa faixa nasceu por uma necessidade que eu tinha de compor uma música na forma "blues", juntamente com a prática de escrita sem possíveis erros de ortografia musical, esquecimento de acidentes, henarmonizações que não fizessem jus a sonoridade. Chegamos para um show do trio e coloco em cada estante a música com a afirmação verbal: Dessa vez, não tem nenhum erro! É só tocar o que está escrito! Assim fizeram Salomão e Maróstica e, pra minha surpresa e de todos no palco, eu não sabia tocar o que eu mesmo havia pensando, organizado e exposto ao grupo. Como essa ainda não tinha nome, o título veio da naturalidade do momento.

Rodrigo Chenta- De que maneira foi a pesquisa dos timbres para a gravação de "Carvão"?
Rodrigo 'Digão' Braz-
Como havia falado pouco acima, gostaria de ouvir minhas composições no piano, já que no violão elas soam de maneira diferente e na minha prática com meu instrumento harmônico, sempre toco a harmonia e canto as melodias. O piano é um "faz tudo" por ter a possibilidade, de maneira mais intensa e constante, a junção da harmonia com a melodia, fora o timbre que eu gosto muito. Nessa, poderia ter uma nova cor, optando por pianos elétricos, teclados, assim como os baixos acústico e elétrico. Os convidados foram por necessidade timbrística e afinidade musical/pessoal. Alio esses timbres a bela capitação e mixagem de Bruno Cardozo, masterização de André Dias e auxilio técnico de Marcos Alma.

Rodrigo Chenta- Como foi o processo de escolha do repertório que entraria para o CD?
Rodrigo 'Digão' Braz-
Uma das coisas que confesso nessa entrevista e que está retratado na arte e parte sonora do álbum é a minha dificuldade em "fechar ciclos", em concluir algumas coisas que me disponho a fazer. Os motivos são os mais variados. Assim que vi um numero suficiente de composições, logo me desafiei a encarar o desfecho dessas em um registro áudio/visual. O engraçado é que quando essas foram definidas, novas composições foram surgindo, já na ideia de um novo trabalho, mas, como disse, essas vieram pra representar um momento na minha vida musical e pessoal, não podendo ser diferente do que conhecemos nessas 12 faixas.

Rodrigo Chenta- Atualmente é comum não se lançar mais uma gravação deste porte no formato físico de uma mídia em CD. Porque você optou por mantê-lo neste trabalho?
Rodrigo 'Digão' Braz-
Apesar de não ser uma prática tão corriqueira como tempos atrás, é verdade (não condenando nem desmerecendo as novas condutas de produtores e consumidores de música) me senti na necessidade pessoal e histórica de datar esse momento. Um disco físico ainda (e acredito que por muito tempo) é uma forma de materialização de um trabalho, assim como o livro impresso, como o teatro para uma encenação (pensando em animações e cinema para plataformas digitais), como a escultura, em relação a foto. São artes de resultantes diferente, diversas e complementares entre si. Viva a modernidade e formas de datar toda manifestação humana.

"Viva a modernidade e formas de datar toda manifestação humana."

Rodrigo 'Digão' Bráz Trio
Rodrigo Chenta- No encarte deste álbum você menciona a "música Universal". Como a definiria? Suas composições se encaixam nela?
Rodrigo 'Digão' Braz-
A música Universal é uma denominação intitulada por Hermeto Pascoal, em que me identifico plenamente. Como essa segue o título, não poderia ser restrita a estilos e/ou tendências fixas. Claro que todo conceito tem seus preceitos e esse também acontece a esse movimento, mas, se pegarmos suas premissas, veremos que a busca da liberdade rítmica, harmônica e melódica, aliada ao momento da improvisação coletiva + a audição ininterrupta de todos os envolvidos se encaixa a esse caldeirão de propósitos artísticos de manifestação cultural.
Hermeto enfatiza em seus dizeres musicas ou textuais que "Tudo é música"! Sendo assim, qualquer melodia pode ser harmonizada, ritmada, músicos, sejam esses de quaisquer nacionalidade, podem se comunicar como uma língua mãe. É só estar aberto aos diálogos e ai acontece a magia de se sonorizar algo momentâneo, espontâneo, de pré-requisitos ou não, das mais diversas combinações das 12 notas temperadas em exercício no mundo ocidental, que pode ser extendidas aos comas explorados em culturas orientais, as formas de organizações rítmicas indianas, aos mantras budistas, aos melismas do oriente médio, aos tambores africanos, ao swing latino-americano...

Rodrigo Chenta- Como se deu a parceria com a Canopus Drums e Bosphorus Cymbals?
Rodrigo 'Digão' Braz-
Hernan Gustavo Voyzuk foi a ponte para essas parcerias. Hernan é um baterista argentino, que mora na Bahia e representa essas marcas no Brasil. Depois de algumas conversas, veio o convite para utilizar os pratos Bosphorus. Uma marca diferenciada no mercado e de timbres peculiares. Na sequência, ele fez o convite para representar também uma marca de baterias que me faz muito feliz por conseguir pensar em diversos timbres e esses serem reproduzidos a cada toque nos tambores. Bosphorus Cymbals e Canopus Drums são instrumentos que me alicerçam da melhor maneira e fazem do meu som uma resultante característica, de ponto marcante, de felicidade geral pra quem executa com esses. Obrigado Hernan, Bosphorus e Canopus por essa parceria.

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