Entrevista com Rubem Farias

Rubem Farias, multiinstrumentista e compositor fala sobre seus projetos e a gravação do seu primeiro trabalho solo intitulado "Resposta", um CD produzido pelo Filó Machado com arranjos interessantes e muito mais.

Rodrigo Chenta- Quando criança você tocava na igreja juntamente com o seu pai que atuava na guitarra. Você acredita que essa experiência inicial, de fato, te ajudou em alguma coisa? Fale sobre o teu início na música.
Rubem Farias-
Com toda certeza. Tive uma infância muito musical onde fiz contato com músicos mais velhos do que eu. Como eu acompanhava o meu pai tocando baixo e ele guitarra, sempre estava com grupos de jovens. Então eu era visto como um homenzinho sempre falando de assuntos sérios. Muitas vezes eu dava aula para adultos. Lembro uma vez, isso com 6 ou 7 anos de idade, em uma convenção das igrejas Assembleia de Deus em Salvador, isso na sede, minha mãe estava trabalhando na cozinha da igreja e tinha um culto bem cedo por volta das 8 horas da manhã e não tinha nenhum músico para tocar. Minha mãe falava de mim na cozinha quando chegou a notícia que não tinha músico para começar o evento. Ela disse para eles que podiam confiar que eu conseguiria dar conta. Me levaram para uma salinha e cantaram 3 músicas e eu prontamente sai tocando. Então eles me levaram para tocar nesse evento. Não consigo dizer a quantidade de pessoas mas mantendo as devidas proporções, pois era uma criança, até hoje tenho a sensação que toquei para mais de 15.000 pessoas. Foi muito bom e eu fui desenvolvendo. Assim, a igreja me ajudou muito porque na minha época era tudo de ouvido, o ritual era assim: cantava 3 músicas de um livro que é como se fosse o real book da igreja com quase 600 músicas sagradas. Essas melodias são incrivelmente lindas onde consegui absorver muita coisa melódica e acredite se quiser, na igreja o povo cantava quase todas as músicas que tem nesse livro. Depois das três primeiras músicas uma média de três pessoas tinham a oportunidade de cantar a música que quisessem e eu tinha que me virar para entrar no tom delas. Tinha o grupo de crianças, adolescentes, jovens e senhores e senhoras. Eu acompanhava todos, então isso para mim era o equivalente a uma prática em grupo. O meu pai também era técnico em eletrônica e consertava todo equipamento da igreja, mas ele também fazia o contrário, por exemplo: nós estávamos na igreja pra tocar quando a gente percebia que tinha alguém que ia cantar com um playback, uma espécie de play along vocal. Meu pai colocava não sei o que no tape deck e quando a pessoa colocava a fita o tape deck mastigava a fita todinha e cuspia a fita toda mastigada. Assim, as pessoas acostumavam a cantar com música ao vivo porque meu pai dizia que Deus gosta da verdade e cantar com playback era como oferecer uma maçã linda mas de plástico pra alguém comer. Realmente a igreja era tudo que eu tinha para trabalhar minha musicalidade e minha paixão pela música. Sou muito grato por isso.

RC- A maior parte da sua atuação é no contrabaixo. Como surgiu o Rubem Farias multi-instrumentista?
RB-
Eu sempre toquei vários instrumentos porque na minha infância o meu pai guardava todos os instrumentos da igreja na minha casa, então eu ficava brincando com todos eles, teclado, bateria, guitarra, violão e depois quando mudei pra SP fui morar no fundo de uma igreja onde continuava tendo acesso a vários instrumentos. Tive aulas de trompete e o meu tio fabricava Harpa. Eu cheguei a tocar um pouco de Harpa. Ele me deu uma mas me pediu pra entregar para um cliente porque ele precisava de dinheiro com a promessa de me fazer outra mas ele morreu em seguida. Comecei a aprimorar a minha técnica em vários instrumentos com minhas composições. Muitas vezes chegava pra ensaiar e entregava a partitura e um e outro músico com um pouco de preguiça falava “poxa mas aqui tem muito movimento harmônico, esse salto aqui não rola e essa abertura não da” então eu comecei a estudar as minhas composições e quando chegava para um ensaio eu primeiro tocava no piano, na guitarra, no baixo, na bateria e quando necessário no trombone. Mas eu tenho muita sorte porque isso não aconteceu muitas vezes. Sempre trabalhei com músicos incríveis mas um e outro me dava esse trabalhinho e agradeço também a eles porque se não fosse por isso, talvez não tivesse desenvolvido da forma que desenvolvi outros instrumentos e fora isso, acredito que me auxilia muito conhecer outros instrumentos porque o instrumento também influencia no resultado da composição.

"... o instrumento também influencia no resultado da composição."

Rubem Farias RC- O que mais te marcou nos teus estudos na antiga ULM (Universidade Livre de Música), hoje EMESP?
DP-
Com toda certeza o meu mestre Gabriel Bahlis. Ele para mim foi um pai musical. Eu levava o instrumento para escola e praticava no intervalo. Saia da escola e ia encontrar o Gabriel. Fazia a primeira aula com ele e ficava assistindo ele dar aula para os outros alunos. Não saia da sala ai ele me levava todos os dias pra comer pipoca. Um dia ele me chamou novamente para comer pipoca e eu pedi um cachorro quente, eu saia de casa cedo e chegava em casa mais de 00:00 horas. Gabriel me ensinou tudo, inclusive generosidade e respeito. O Gabriel Bahlis é simplesmente a maior autoridade do contrabaixo brasileiro e quem quiser confirmar pergunte isso por ai.

Também tive outras experiências que foram muito importantes como poder praticar na Big Band do Roberto Sion, a prática em grupo com a Cris Machado e o Paulo Braga. Os dois adoravam levar encrencas para gente tocar. A Cris com um repertorio ultra moderno como Tribal Teck, Paquito de Rivera entre outros e o real book de ponta a ponta, sem falar da maratona Coltrane com Giant Steps. O Paulo Braga com um repertorio brasileiro como Hermeto Pascoal, Nelson Aires, choros, diversas composições nossas e isso realmente me marcou muito.

Fiquei amigo do Roberto Bomilcar. Ele dava aula de história da música e prática em grupo também. O lance dele era bossa nova, tocava tudo de Jobim com ele, Jonny Alph, Carlos Lira, Dorival Cayme. Então a minha vida era assim na ULM. Eu passava um dia todo todos os dias estudando fora do meu programa e isso me marcou muito.

RC- No projeto "Rubinamismo Quântico" você juntamente com Cássio Ferreira e Vitor Cabral exploraram sonoridades com criações espontâneas e mais soltas. É possível afirmar que a improvisação livre realmente exista?
DP-
Esse projeto foi gravado em 02/02/2012 no estúdio Soulshine. Eu estava muito inquieto e coincidiu do Cássio e o Vitor estarem livres. Liguei para o meu amigo Othon Ribeiro, um grande engenheiro de som e chamei ele pra gravar. Era um Domingo, 19 horas e ele topou. Chegamos no estúdio e montamos tudo rapidamente sem muita conversa. O Othon deu uma primeira passada no som e pediu pra dar uma segunda passada gravando e de forma mágica começamos a tocar. Ele abriu a porta do estúdio, sinalizei pra ele sair pois já havia começado a gravação. Ele assustado saiu e tocamos por 87 minutos sem parar. O Othon começou a pular na sala técnica pedindo pra gente parar e finalizarmos a música. Ele entrou na sala e nos disse que a máquina estava programada pra parar a gravação em 90 minutos. Ele não imaginava que ele poderia precisar de mais e assim foi essa session. Eu estava realmente explorando as possibilidades.

Falando sobre a liberdade, vamos refletir no seguinte, somos livres para escolher o que a gente quiser. Você é livre pra escolher a nota ou o silencio. Você pode escolher poucas ou várias notas. Você é livre para escolher o que quiser. Mas se você tem que fazer uma escolha logo você não é livre. A liberdade musical eu acredito que ela exista como conceito. Estamos livres dentro de um conjunto não conjunto de regras, mas sim conjunto de possibilidades.

RC- Nos momentos de improvisação como você administra a interação do pensamento racional com o lado emocional?
DP-
A improvisação pode ser comparada à linguagem oral. Tudo vai depender do seu campo lexical e quanto maior o seu vocabulário musical maior a sua sensação de liberdade. As notas são escolhidas de forma natural como escolhemos as palavras na fala, mas eu quero fazer poesia com elas, então todas essas palavras, todas essas notas tem que pagar pedágio no coração.

RC- Porque você escolheu o músico Filó Machado para a produção do disco "Resposta"?
DP-
O Filó Machado sempre foi um sonho de infância tocar com ele. Quando finalmente realizei o meu sonho e estava bem próximo dele, ele se colocou à disposição para me ajudar na produção do meu primeiro disco. Ter ele nesse projeto realmente foi um presente divino e a realização de um sonho de infância.

RC- Eu gostaria que discorresse sobre o tema deste álbum: "a tradução de estímulos internos e externos em resposta sonora".
DP-
Para cada música do disco tem uma história muito pessoal. Eu escrevi todas elas em meio a um turbilhão de emoções e sensações em um período da minha vida de muitas descobertas. A música que é o tema do disco eu escrevi depois de refletir um problema que já é muito velho na nossa sociedade moderna, onde o artista vive à margem, onde a arte perde o valor e o consumo abraça as pessoas tornando-as ligeiras e sem muito tempo para refletir nas coisas. Entrei no meu quarto angustiado com tudo isso em meu momento de reflexão e escrevi a música "Resposta". Depois de uma noite de trabalho nessa composição eu estava feliz porque conseguia ver naquela canção uma resposta para tudo que estava sentindo. Eu me via naquela canção.

"A liberdade musical eu acredito que ela exista como conceito."

Rubem Farias - CD Resposta RC- Me diga como surgiu a ideia do teu songbook.
DP-
Eu tenho mais de 100 composições e espero que essas composições levem prazer e alegria para quem as escute. Sei que boa parte do meu público são músicos, então disponibilizei as partituras e a minha produção musical. Acredito que até o fim de 2015, terei mais de 200 composições.

RC- Fale sobre a única música com letra deste CD.
DP-
Esperança é a música que eu separei para o Filó cantar e ele me surpreendeu no estúdio, pois queria que eu cantasse com ele. Eu não podia falar nada porque ele era o meu diretor artístico (risos), então obedeci e escrevi a letra e a música. De fato, a letra da música é uma mensagem de esperança para todos os músicos sonhadores como eu!.

RC- Na fase de pré-produção como foram os preparativos para a gravação em relação ao estúdio, músicos e arranjos?
DP-
Eu fui na casa do Filó e mostrei as músicas. Ele amou e me disse “escreva os arranjos todos sem ritornelo e vamos para o estúdio”. Escrevi tudo a mão como eu sempre faço e levei para o meu amigo, grande pianista Fabio Leandro que passou tudo para o computador e fiz um encontro com o Vitor Cabral e um com o Cassio Ferreira.

RC- Em relação ao “Freedom Trio” gravado na Suécia e com a união de você com Steinar Aadnekvam (Noruega) e Deodato Siquir (Moçambique) é possível ouvir uma sonoridade bastante mista. Como foi gravar com músicos de cultura tão diferentes?
DP-
Esse é o poder do jazz e quando eu digo jazz não estou falando do jazz americano. Acredito que todo povo, toda cultura tem o seu jazz, a palavra jazz facilita a compreensão do que eu vou dizer, mas também posso chamar de espirito musical. É o mesmo espirito em qualquer lugar do mundo. Quando você encontra músicos generosos e dedicados que tocam com o coração, fica fácil. Estão todos com o mesmo espirito e somos de culturas diferentes, mais temos o mesmo espirito musical.

RC- Eu gostaria que falasse sobre o duo "Preto no Branco" que você tem com a cantora Lu Vitti. Diga se existe alguma dificuldade para se tocar com esta formação.
DP-
O duo "Preto no Branco" nasceu em um show da Lu Vitti onde tocamos "Stand By Me". O público foi à loucura e fiquei com isso na cabeça. Levei a Lu Vitti com a minha banda Funk Brasil para Áustria em um festival de jazz em Vilach. Fizemos o show e a banda voltou para o Brasil. Segui com a Lu Vitti para Amsterdan onde fizemos dois shows em dois festivais. Baixo e Voz, ali nasceu o projeto "Preto no Branco" e tocar nessa formação não tem dificuldade nenhuma. Na verdade é muito gostoso porque a sensação de liberdade é total.

"Acredito que todo povo, toda cultura tem o seu jazz ..."

Rubem Farias RC- Como surgiu projeto voltado para crianças carentes chamado Instituto Jazz in roots? Fale sobre a proposta e se existe algum tipo de apoio.
DP-
O projeto Jazz in Roots no início era de intervenções, onde eu convidava vários artistas para fazerem shows em comunidades carentes. Comecei a visitar escolas públicas fazendo uma aula musical. Eu via a empolgação dos alunos, todos querendo ser artistas e fazerem alguma coisa especial. Tive a ideia de montar o instituto Jazz in Roots que por enquanto é um espaço emprestado com os meus instrumentos à disposição das crianças, onde eu faço um trabalho de musicalização e identifico os alunos com uma vocação especial para arte, pois eu sei que existem muitos talentos na periferia para que se não tiver sorte ou não tiver uma atenção vai deixar esse talento morrer. Tenho plena certeza disso porque eu fui um garoto da periferia que tive sorte.

RC- Em relação ao teu próximo disco intitulado "Festa do Sol" e que ainda será lançado, o que se pode dizer de grandes diferenciais com o "Resposta"?
DP-
O disco "Festa do Sol" é um momento muito especial da minha carreira pois depois de muitas experiências, pesquisas depois de viajar o mundo e trabalhar em diversos trabalhos com diversos artistas, me sinto em um momento de maturidade musical. O disco "Festa do Sol" realmente está me trazendo muita alegria. Me inspirou a fazer também um projeto lindo que se chama "Compartilhando Conhecimento" onde eu junto com vários artistas de diferentes instrumentos e diferentes artes, fazemos um duo seguido de um diálogo. É um projeto que vou realizar por toda minha vida pois me sinto muito feliz compartilhando a minha visão musical e tudo que aprendi com meus mestres. Assim eu agradeço o universo e esse projeto explodiu muitos compartilhamentos. Em pouco tempo foi alcançado milhares de pessoas e recebi muitos novos fãs, amigos e muita gente querendo fazer aulas comigo. Recebi uma média de 30 mil e-mails entre fãs, admiradores e pedidos de aula. Isso me trouxe a necessidade de montar o Grupo de Estudos Rubem Farias onde eu disponibilizo um curso incrível e diferenciado passando todo meu conhecimento. Faço o acompanhamento online de todos os alunos durante um ano que é o período do curso. Realmente estou vivendo o momento que sempre sonhei.

28 de maio é o primeiro show da minha tour 2015 na Suécia com os meus amigos do Freedoms Trio e seguiremos assim com muito mais projetos e quem quiser acompanhar tudo isso é só ficar ligado na minha página no Facebook e no meu site www.rubemfarias.com. Também tenho um blog www.rubemagdalena.com onde posto informalidades, o dia a dia viagens e falo à vontade junto com Magdalena Strömgren, minha companheira e manager na Europa.

Saiba mais sobre Rubem Farias
Saiba mais sobre Rodrigo Chenta