Entrevista com Shirlei Escobar Tudissaki

Shirlei Escobar Tudissaki, pianista e pesquisadora fala nesta entrevista sobre assuntos que envolvem o livro que escreveu: "Ensino de música para pessoas com deficiência visual, metodologias e muito mais.

Rodrigo Chenta- Você escolheu especificamente a deficiência visual como objeto de pesquisa no contexto da educação musical. Por quê?
Shirlei Escobar Tudissaki-
Popularmente, acredita-se que as pessoas com deficiência visual possuem um ouvido extremamente sensível e que o ensino de música será sempre uma ótima ideia. Devido a esta crendice popular, enquanto educadora musical, notei que era bem alto o índice de alunos com deficiência visual (fossem cegos ou baixa visão) em aulas de música. Sempre acreditei ser possível realizar um bom trabalho musical com estes alunos e que deveríamos oferecer um ensino musical que compreendesse, além das questões auditivas, o ensino da notação musical, a fim de garantir a independência deste aluno. A partir destas problemáticas, fui em busca de cursos que poderiam me auxiliar a responder a estas questões e conhecer as ferramentas pedagógicas mais adequadas para este trabalho.

RC- Quais foram as dificuldades que surgiram durante o desenvolvimento da pesquisa?
SET-
A maior dificuldade foi encontrar material pedagógico especializado para o ensino de música para pessoas com deficiência visual. No caso das pesquisas acadêmicas, fiz um levantamento no Banco de Teses da Capes das pesquisas realizadas no Brasil, de 1987 a 2012 e constatei que haviam apenas duas teses de doutorado e sete dissertações de mestrado voltadas à temática. Para sanar este problema busquei materiais espanhóis e britânicos que abordam estas questões há décadas. Durante uma das entrevistas que realizei, pude ainda tomar contato com o trabalho desenvolvido pela Organización Nacional de Ciegos Espanholes – ONCE, que foi extremamente solícita em me receber e apresentar diversos materiais escritos pelos professores de música.

"O professor trabalharia com maior segurança se conhecesse o histórico do aluno, trazido pela família e/ou pelos profissionais da saúde."

Shirlei Escobar Tudissaki RC- Neste trabalho constata-se uma pesquisa qualitativa e o uso da observação participativa. O que justificou a utilização destas metodologias?
SET-
A escolha da abordagem qualitativa está respaldada pelos autores Bogdan e Biklen (1982), que afirmam que o objetivo dos investigadores qualitativos é o de melhor compreender o comportamento e experiência humana. Além disso, justifica-se a escolha desta metodologia visto que os pesquisadores qualitativos tentam compreender o processo mediante o qual as pessoas constroem significados, além de descrever em que consistem estes mesmos significados. Recorrem à observação empírica por considerarem que é em função de instâncias concretas do comportamento humano que se pode refletir com maior clareza e profundidade sobre a condição humana.

No que diz respeito à pesquisa de campo, tomei como referencial para a escolha da observação participante os escritos de Vanda Freire (2010) e Buford Junker (1971). Freire entende que a toda observação em pesquisas de natureza qualitativa não é neutra, portanto, o pesquisador é sempre participante no processo de investigação. Junker (1971), por sua vez, refere-se ao tipo de observação realizada na pesquisa como ‘observador como participante’, na qual a identidade do pesquisador e os objetivos do estudo são revelados ao grupo pesquisado desde o início. Nessa posição, o pesquisador pode ter acesso a várias informações com a colaboração do grupo.

RC- Como foi que a tua dissertação de mestrado defendida em 2014 desencadeou tão rapidamente no livro "Ensino de música para pessoas com deficiência visual"?
SET-
Na ocasião da defesa da dissertação, a banca recomendou fortemente a publicação da dissertação em formato de livro, a fim de divulgar o trabalho para um maior número de pessoas. Logo no primeiro semestre de 2015, houve o interesse por parte do Selo Cultura Acadêmica da Editora Unesp e o resultado foi a publicação deste livro.

RC- Como o ensino de música para este perfil de aluno é oferecido atualmente no contexto acadêmico do estado de São Paulo?
SET-
Em nosso estado, ainda há poucos casos de alunos com deficiência visual que conseguiram ingressar e encerrar o curso em uma faculdade de música, mas o cenário vem melhorando ano após ano. Temos iniciativas de cursos livres de musicografia braille que permitem que o aluno com deficiência visual tenha acesso à leitura e escrita musical em braille, de modo a ter uma maior autonomia para ler, transcrever e realizar a análise de suas partituras musicais. No Conservatório Dramático e Musical "Dr. Carlos de Campos", de Tatuí, onde atuo como coordenadora do setor de Educação Musical (ao qual o curso de musicografia braille está ligado) por exemplo, temos vários alunos do curso de musicografia braille que estão conseguindo ingressar no curso de Produção Fonográfica na Fatec em Tatuí.

RC- Quais são as mais corriqueiras adaptações utilizadas para o ensino da música para pessoas com deficiência visual?
SET-
Além das partituras em braille, para o caso de alunos com baixa visão, devemos apresentar as partituras ampliadas, de modo que o aluno consiga ter acesso ao material escrito. Além disso, existem jogos e atividades musicais em relevo, adaptadas para o braille para as pessoas cegas e com texturas e cores diferenciadas para o caso de pessoas com baixa visão. Iniciar o trabalho com relevo permite que o aluno desenvolva a praxia fina, para que, quando ingressar no estudo da musicografia braille, esteja familiarizado com esta habilidade.

RC- Ao conversar com professores de diversas áreas do conhecimento musical é fácil constatar a existência de certa repulsa em lidar com alunos com deficiência de maneira geral. Gostaria que discorresse sobre o assunto
SET-
Tudo o que é diferente causa estranheza. Os professores de música sentem, na realidade, medo de tratar deste assunto, pois, na maioria dos casos, tiveram pouco ou nenhum contato com pessoas com deficiência. O problema se agrava ao fato de que em sua formação, estes professores não tiveram disciplinas nas quais pudessem refletir ou experimentar estratégias docentes para este tipo de trabalho. Durante o mestrado, constatei que, das universidades públicas do Estado de São Paulo que oferecem a licenciatura em música/educação musical, apenas a UFSCar apresenta uma disciplina voltada para o ensino de música para pessoas com necessidades especiais – a qual, atualmente, sou a docente responsável pela disciplina – e a Unicamp , com uma disciplina voltada para o ensino de artes de maneira generalizada.

"... o ensino de música para pessoas com deficiência visual é uma questão relativamente simples."

Shirlei Escobar Tudissaki - Livro Ensino de música para pessoas com deficiência visual
RC- Quais seriam os maiores desafios do aprendizado da musicografia braile para o músico já experiente?
SET-
A musicografia braille é uma grafia musical, assim como a notação musical convencional: será necessário o estudo dos caracteres e o desenvolvimento do tato para a percepção destes códigos. Talvez este seja o maior desafio para o músico experiente que se depara, por exemplo, com uma doença ou acidente no qual perde parcialmente ou totalmente a visão, seja ter a disposição para aprender esta grafia musical nova.

Tratando agora do esquema para leitura e compreensão da musicografia braille, é o mesmo do braille: são seis pontos em relevo, dispostos em duas colunas verticais e paralelas de três pontos cada uma, que podem formar 63 caracteres diferentes. O sistema braille é polivalente, ou seja, os mesmos caracteres podem representar letras, símbolos matemáticos, símbolos musicais, símbolos de química, entre outros. Estas combinações são lidas da esquerda para a direita, assim como na leitura convencional.

RC- É possível ser otimista em relação à inserção deste método de escrita musical nos cursos superiores de música?
SET-
Sim, com certeza! Estou em contato com professores das universidades do norte e nordeste do país e há um grande interesse em trazer para as grades curriculares das licenciaturas em música/educação musical a disciplina musicografia braille, assim como a LIBRAS.

RC- Comente a famosa ideia de que "uma pessoa com deficiência visual escuta muito mais do que uma que não a tem".
SET-
Realmente, esta ideia é amplamente veiculada e é justamente em decorrência disso que temos grande procura de pessoas com deficiência visual pelos cursos de instrumentos musicais ou canto. Esta ideia vem do período marcado pelo Iluminismo, no qual, segundo Lev Vygotsky, afirmava-se que a carência de um órgão se compensaria com o funcionamento e o desenvolvimento acentuado de outros órgãos. Também neste período foram instauradas as lendas sobre o tato sobrenatural dos cegos e a crença de que qualquer cego poderia ser um músico, por ser dotado de um ouvido aguçado e excepcional.

RC- Quais são as competências que um professor de música necessita para desempenhar com propriedade as suas respectivas atividades em aula tendo o público com deficiência visual?
SET-
Acredito ser necessária a disponibilidade para o aluno e para rever sua prática docente, vontade de aprender e enfrentar problemáticas diferentes das quais está acostumado e considerar as especificidades do aluno e contexto social no qual está inserido.

RC- O teu livro possui três entrevistas com educadores musicais que atuam com alunos com deficiência visual. Quais foram os dados mais relevantes que conseguiu após obter o conteúdo das entrevistas?
SET-
Após o término das entrevistas, pude concluir que o ensino de música para pessoas com deficiência visual é uma questão relativamente simples. No entanto, é necessário que o educador musical esteja em conformidade com as competências necessárias para tal ação: tenha disponibilidade para rever sua prática docente, tenha vontade de aprender e considerar as especificidades de cada um dos alunos.

Todos os entrevistados foram unânimes em afirmar a importância da musicografia braille para o trabalho em sala de aula. A boa notícia é que, atualmente, temos softwares que transcrevem partituras musicais para a musicografia braille sem grande esforço do professor. Como exemplo, temos o software brasileiro Musibraille, disponibilizado gratuitamente para download, e que apresenta, inclusive, um dicionário, para o caso de professores que pouco conhecem da musicografia braille.

"A maior dificuldade foi encontrar material pedagógico especializado para o ensino de música para pessoas com deficiência visual."

Shirlei Escobar Tudissaki RC- O ideal para o aluno com deficiência visual seria uma interação entre professor de música, família e profissional de saúde?
SET-
Com certeza! O professor trabalharia com maior segurança se conhecesse o histórico do aluno, trazido pela família e/ou pelos profissionais da saúde. Por exemplo, há grande diferença em trabalhar com um aluno com deficiência visual congênita – que ocorre quando a criança ainda está no útero materno, na ocasião do nascimento ou imediatamente após seu nascimento – ou adquirida ao longo de sua vida, em decorrência de uma doença ou acidente. Também fará toda a diferença conhecer um pouco da história de vida deste aluno, bem como o contexto social no qual ele está inserido.

RC- Houve um momento no livro que você falou sobre "adesão, ação e autoconsciência por parte dos educadores musicais". Fale mais sobre o assunto.
SET-
Trouxe estes três AAA que sustentam o processo identitário apresentado pelo educador musical português António Nóvoa para ilustrar um pouco mais do trabalho a ser desenvolvido pelos educadores musicais em aulas de música para pessoas com deficiência visual, seja em um contexto inclusivo ou não.

A respeito do A de Adesão: para que os professores iniciem o trabalho de música com alunos com deficiência visual, em um primeiro momento, é necessário haver adesão e disposição para a realização deste trabalho. O A de Ação refere-se à marca pessoal de cada um dos educadores entrevistados, uma vez que os sucessos ou insucessos em sala de aula marcam nossa postura pedagógica. Finalizando, temos o A da Autoconsciência, no qual espera-se que o educador musical apresente reflexões e indagações constantes a respeito do trabalho desenvolvido em sala de aula. De acordo com Nóvoa, a mudança e a inovação pedagógica estão intimamente dependentes deste pensamento reflexivo do educador.

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