Entrevista com Viviane Louro

Viviane Louro, pianista, professora e pesquisadora de assuntos como educação musical, inclusão, psicomotricidade, fala sobre o seu livro "Fundamentos da aprendizagem musical da pessoa com deficiência" e muito mais.

Rodrigo Chenta- De que forma surgiu o teu interesse pela educação musical voltada para as pessoas com deficiência?
Viviane Louro -
A música surgiu quando eu ainda era bem pequena. Ganhei um pianinho de briquedo do meu pai quando eu tinha 1 ano e meio e daí em diante nunca mais sai de perto da música. Me formei em piano na Fundação das Artes de São Caetano, também tive aulas particulares com Claudio Tegg e Marisa Lacorte, depois fiz faculdade de música na FAAM. Até então minha ideia era somente ser pianista e trabalhar com piano de alguma forma, mas então entrei no mestrado em educação musical na UNESP e a partir daí comecei me interessar pela educação. Na verdade, de alguma forma, isso já estava no meu caminho, pois eu nasci com uma deficiência física e no decorrer dos meus estudos musicais me deparei com profissionais da música que não sabiam o que fazer com minha dificuldade inicial, que depois, com muito estudo da minha parte, foi sanada por completo. Mas, mesmo eu tendo uma história pessoal com isso, nunca passou pela minha cabeça militar pela causa ou virar especialista no assunto. Eu queria ser pianista e mais nada. Mas quando fui prestar o mestrado, um professor da faculdade levantou essa questão: “Vi, você teve uma história tão difícil de luta para ser inserida no mercado musical, porque você não pesquisa sobre inclusão?, ninguém melhor do que você para falar sobre isso”. Então resolvi dar uma pesquisada para ver o que já tinha sobre esse assunto no Brasil e me surpreendi quando percebi que não tinha absolutamente nada! O pouco que tinha era na área de musicoterapia. Por isso resolvi de fato pesquisar sobre o assunto, mas não imaginava que ele tomaria a dimensão que tomou, pensei que seria somente uma pesquisa e depois voltaria tocar piano... só sei, que estou nisso há 10 anos e nunca mais toquei piano.

RC- Em teus livros, você tem o hábito de convidar outros autores para redigirem capítulos específicos de suas respectivas áreas de atuação. Qual é a importância desta interdisciplinaridade?
VL-
Como esse assunto é espinhoso e lida com várias áreas, sempre acho interessante chamar pessoas dessas áreas para complementar minha fala. Considero o trabalho em grupo fundamental, pois ninguém sabe tudo sobre todos os assuntos. Também, fazendo isso, dou oportunidade para outros profissionais divulgarem seus trabalhos e isso dá mais credibilidade para o livro.

RC- Na maioria dos cursos de licenciatura em música no Brasil, ainda não existem em sua grade curricular, disciplinas voltadas para a educação musical inclusiva. O que se pode fazer para mudar esta realidade?
VL-
Pois bem, essa disciplina deveria ser obrigatória. Temos dois caminhos para implantação disso, em minha opinião. O primeiro seria uma conscientização da importância disso e mobilizações dentro da área de música para implementação dessa disciplina, mas acho difícil isso acontecer, pois a classe é desunida. O segundo caminho é esperar, pois, daqui a alguns anos (e não muitos) todos os professores de música se depararão em algum momento em suas carreiras com o público de inclusão, pois a inclusão é um caminho sem volta. Portanto, a hora que a “panela de pressão estourar”, os cursos vão correr atrás do prejuízo e implantarem essa disciplina. Como quase tudo no Brasil, só corremos atrás na hora da dificuldade. Dificilmente alguém se prepara de antemão para lidar com o desconhecido.

"Considero o trabalho em grupo fundamental ..."

Viviane Louro RC- Quais são os deslizes mais corriqueiros que você teve conhecimento em professores que lidam com alunos que possuam alguma deficiência?
VL-
Falta de conhecimento sobre a deficiência e apelo emocional exagerado nas atitudes em relação a alunos com deficiência. É comum atitudes de "pena" ou superproteção do aluno com deficiência por parte do professor e isso se dá justamente por falta de conhecimento sobre o assunto.

RC- Quais são os principais cuidados que um professor de música deve ter ao deparar-se com alunos que tenha uma das seguintes deficiências: auditivas, visuais e cognitivas?
VL-
Cada deficiência vai exigir estratégias e atitudes diferenciadas. No caso da auditiva, o primeiro fator é a comunicação. Depois disso, precisa lembrar que um aluno surdo percebe o som pela vibração, por isso precisa pensar nas atividades musicais sempre explorando ao máximo essa questão. No caso do aluno com deficiência visual, precisa saber se ele sabe a musicografia Braille, pois isso oferece autonomia ao aluno. Precisa também pensar que as atividades musicais que utilizam o corpo precisam ser adaptadas, feitas de forma que não vá colocar o aluno cego em perigo. No caso da deficiência cognitiva, a dificuldade é na absorção do conteúdo, então o professor precisa trabalhar com recursos concretos, comandas simples e flexibilidade de currículo e de tempo na aprendizagem.

RC- Quais são as vantagens e desvantagens das escolas classificadas em regulares e especialistas?
VL-
Ambas tem vantagens e desvantagens. A vantagem da escola especialista é que, em princípio, todas são, ou deveriam ser totalmente adaptadas ao público que atende e com profissionais altamente qualificados na área (o que na realidade nem sempre é o que ocorre). A desvantagem é que a pessoa com deficiência fica limitada somente ao convívio daquelas pessoas e muitas vezes, por não ter convívio com outros diferentes dele, deixa de aprender coisas importantes para seu dia a dia. A vantagem da escola regular é que justamente propicia esse convívio com todos e assim, todos podem, ou deveriam, aprender com as diferenças, sejam essas diferenças no comportamento, na aparência ou na aprendizagem. Assim, a sociedade trabalharia mais a tolerância e respeito ao próximo. A desvantagem é que as escolas não estão preparadas, na maioria das vezes, para receber esses alunos e não há um trabalho com os outros alunos para lidar com essa questão, o que pode propiciar a intolerância, o bullying, além do que, no aspecto aprendizagem mesmo, os professores não sabem o que fazer e por isso, o processo de aquisição do conhecimento fica comprometido.

RC- Existem professores que abominam a inclusão de pessoas com deficiências cognitivas em uma sala com alunos sem estas deficiências, pois acreditam que aprenderiam mais em uma escola especialista. Como você entende esta questão?
VL-
Eu sempre digo nos meus cursos: depende do caso e depende do contexto. Tem casos que sou a favor da inclusão e casos que sou contra. Por exemplo, na Fundação das Artes de São Caetano coordeno um programa de inclusão. Lá temos alunos com deficiência cognitiva e autismo totalmente inclusos... portanto, é possível sim, mas para tanto, é necessário muitas adaptações e alguns conhecimentos específicos. O trabalho de inclusão tem que ser sempre em equipe e essa equipe compreende a escola (sistema de ensino), o professor, a família, os terapeutas e o próprio aluno com deficiência. Se houver um trabalho eficaz em equipe a inclusão é possível sim. Agora, há casos gravíssimos de deficiência, nessa situação, talvez o melhor seja uma escola especialista. Mas cada caso é um caso, não existe receita nem padrão.

"... falar de música é falar de psicomotricidade."

Viviane Louro - Livro Fundamentos da aprendizagem musical da pessoa com deficiência
RC- Sabe-se que existem problemas em diferenciar a falta de interesse e a dificuldade de aprendizagem. Qual seria um bom caminho para facilitar este diagnóstico?
VL-
Se o professor tiver conhecimento básico sobre psicomotricidade, processo cognitivo e psicologia da aprendizagem, com certeza terá subsídio técnico para essa diferenciação. Além disso, se ele realmente amar o que faz, se preocupará sempre em tentar entender o caso dos alunos com dificuldade e nessa especulação conseguirá definir essas diferenças.

RC- Em teu livro “Fundamentos da aprendizagem musical da pessoa com deficiência” você usou muito da psicomotricidade. Qual é o benefício desta área para o educador musical?
VL-
O estudo da psicomotricidade mudou minha maneira de enxergar a educação e a música. Não consigo mais pensar em ensinar sem pensar em processo psicomotor. Os benefícios são imensos, pois a psicomotricidade trabalha com o diálogo constante entre o emocional, o cognitivo e a ação motora. O corpo é o resumo do que ocorre em nossa mente. Se soubermos observar e trabalhar com o corpo, automaticamente estamos compreendendo e trabalhando o nosso emocional e intelectual. A música é movimento (corpo), é conceito (cognição) e é interpretação (emoção). Portanto falar de música é falar de psicomotricidade.

RC- Eu gostaria que você comentasse a frase de teu livro “... uma aprendizagem padronizada é sinônimo de exclusão...”.
VL-
Uma aprendizagem padronizada, viciada, sem flexibilização beneficia somente àqueles que conseguem aprender dentro de certo padrão. Portanto, todos que saem do padrão, são automaticamente excluídos.

RC- Nesta área da educação, utiliza-se bastante o método experimental. Você acredita que cada caso deve ser conduzido de forma única?
VL-
Sim e não... vou explicar: sim, porque cada pessoa é única, com uma história de vida, contexto sociocultural, habilidades e dificuldades e gostos diferentes, por isso, cada caso é um caso. E não, pois, por mais diferente que sejamos, há alguns padrões de comportamento e processo de aquisição de conteúdos. Por exemplo, se vou trabalhar com deficiência cognitiva, automaticamente, sei que vou trabalhar com alguém que tem certas dificuldades nas funções executivas e no processo simbólico. Sendo assim, há recursos e estratégias comuns a fazer com essas pessoas. Então, apesar de cada caso ser um caso e ser conduzido de forma diferente, essas diferenças não são tão grandes assim e é possível fazer coisas em comum em várias situações.

RC- Muitas pessoas fazem confusão sobre a musicoterapia e a educação musical. Como você conceitua essas duas áreas?
VL-
Educação musical pertence à área da educação e a musicoterapia pertence à área da saúde. Educação musical visa processo ensino-aprendizagem, aquisição de conhecimentos e habilidades musicais; musicoterapia visa reabilitar algum aspecto da saúde através da utilização de elementos musicais, sem se preocupar com aprendizagem musical. Educação musical é feita por professores de música; musicoterapia é feita por terapeutas. Educação musical é feito em escolas; musicoterapia é feita em clínicas. Educação musical é processo contínuo; musicoterapia é galgada em objetivos muito específicos, no qual, quando alcançados, a pessoa recebe alta. Educação musical é aprendizagem; musicoterapia é tratamento.

"Cada deficiência vai exigir estratégias e atitudes diferenciadas."

Viviane Louro RC- Caso o professor não tenha os devidos cuidados ao lecionar para um aluno com deficiência, esta aula de música pode acabar transformando-se em algo próximo a uma sessão de musicoterapia?
VL-
Não exatamente. Pois a musicoterapia legítima precisa ser feita por um especialista da área. Mas, uma aula de música, sem um direcionamento específico pode sim se tornar outra coisa: uma diversão coletiva; um passatempo; um momento de convívio bom para todos, etc. Não é porque a música ajuda em alguma questão de sua vida que ela se torna musicoterapia. Para ser musicoterapia é necessária aplicação sistemática, baseada em técnicas específicas feitas por um musicoterapeuta. Não podemos confundir nunca uma aula de música com um processo musicoterapeutico.

RC- Antes de suas pesquisas já haviam outras sobre música e inclusão e atualmente verifica-se um pequeno aumento das mesmas. Porém, elas ficam no âmbito da academia e em revistas científicas. Você com seus escritos os publica em formato de livro. Quais dificuldades existem na publicação destas pesquisas em livro?
VL-
A minha jornada foi muito individual. Fiz quase tudo por conta, bancando os custos com recursos próprios. Tentei várias editoras no começo de minha carreira e ouvi de todas que, apesar de muito bem escrito e ser um assunto interessante, não valia a pena para elas por ser algo restrito, resumindo: não daria lucro. Por isso, resolvi ir atrás sozinha. Portanto, a maior dificuldade é a falta de incentivo e vontade das editoras em querer publicar algo que para eles não vai gerar lucros.

RC- Qual seria, segundo suas vivências, a importância e a função da música na vida de uma pessoa seja ela com deficiência ou não?
VL-
É importante neurologicamente, pois trabalha praticamente todo aparato da aprendizagem: raciocínio, concentração, atenção, memória, coordenação motora, etc. É importante psicomotoramente, pois une os aspectos emocionais, cognitivos e motores. É importante culturalmente, pois desde que o mundo é mundo existe música como manifestação dos povos. Em suma é importante para nosso desenvolvimento global, como seres humanos, independente de deficiência ou não.

RC- Que recado você deixaria para o futuro professor de música que bem provavelmente encontrará pela sua vida profissional alunos com deficiências?
VL-
Vá estudar sobre o assunto! A inclusão é possível sim, mas é um árduo caminho, pois exige o diálogo entra muitas áreas: música, pedagógica, legislação, medicina, psicomotricidade e psicologia. Portanto, para dar uma boa aula para esse público é necessário saber um pouco sobre todos esses assuntos, além de ter muita paciência, um espírito investigativo, estar sempre atento e muita criatividade para lidar com a diversidade. Mas é algo compensador, pois aprendendo a lidar com o diferente, aprendemos a ser mais respeitosos e solidários com o mundo e com nós mesmos.

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