IMPRESSÕES DE RODRIGO VETTORAZZO

Esta coluna não objetiva apresentar análises técnicas sobre as músicas do álbum, mas sim impressões particulares do autor a partir da escuta do próprio, colaborando com a divulgação e a valorização da música independente no Brasil.

Total de impressões: 15.

Decrescente

Crescente

Alexandre Silvério

Alexandre Silvério

Título: Entre mundos
Ano: 2015
Impressão:

Admiráveis mundos novos e velhos estão nas altitudes e latitudes deste álbum do quinteto de Alexandre Silvério. O título "Entre mundos" pode ser interpretado como o pedaço de chão de onde se avistam diversos campos particulares da música. O fagote, do alto de seus dois metros e meio de altura, é quem conduz tamanho giro, apresentando em um álbum duas ocorrências quase tidas como impossíveis: o uso de tal instrumento erudito no jazz e sendo o principal solista.

"Saudade" abre o disco e portas para impressões e interpretações. Um fagote melancólico dá a primeira nota e chama os demais instrumentos que chegam e se apresentam corteses. Pequeno silêncio e inicia-se pra valer uma execução simpática e de alegria triste. O fagote transitando entre o grave e o agudo, o samba ambientalizando um lugar que se assemelha com a Lapa do Rio de Janeiro. No encarte tal faixa é ilustrada com uma poesia de Almir Amarante inspirada na própria composição, onde é mencionada uma imagem cotidiana bastante vigorosa: a Lua já visível no céu azulado de um final de tarde. A saudade, palavra que é lembrada em nota no encarte do CD só existir na língua portuguesa, por mais que tenha esse poder de mexer com nossa alegria e tristeza, não tem o poder de alterar o mundo exterior - ele continua esbanjando beleza, indiferente à nossa falta!

"Tarde em Berlim" e "Meu fagote chorou", respectivas faixas 4 e 9, dialogam bastante com a de abertura. A quarta é uma bossa que, como "Saudade", também rendeu uma poesia que infelizmente não teve tempo de vir no encarte por este já estar finalizado. O título é bastante imagético - muito improvável não imaginar uma cidade abaixo de um céu avermelhado - com a música cumprindo um passeio turístico por Berlim de quatro paradas guiado pelos instrumentos. Inicialmente todos unidos, até o piano assumir o posto de guia com improviso agitado e livre, chamando depois o fagote para a frente junto dele, e deixando a bateria finalizar a incursão. Já "Meu fagote chorou", título que desperta alta curiosidade pela raridade de ouvir um choro com fagote, leva de volta ao bairro carioca de "Saudade" e à alegria triste citada. Tem andamento livre, leve e solto, que se modifica quando bem entende e mesmo assim não descarrilha.

Transitando mais ainda pelo espectro mundial, há a regravação de "My Funny Valentine", já cantada e tocada por tantos e que aqui recebe tratamento peculiar. Certa sensualidade é sugerida e despida, com o fagote na voz principal e os demais instrumentos começando tímidos, até ganharem seu momento e bradarem suas próprias exclamações! Destaque ao improviso das teclas, determinante divisor de águas entre os dois momentos notáveis de acanhamento e desembaraço.

"Valsa para Bill", composição de Vinícius Gomes (guitarras e violão do disco), tem introdução que me remeteu ao fascínio de contos infantis. O piano então muda o clima, acelerando e apresentando outras propostas. Há um interessante trecho em que a bateria se retira e permite um diálogo contemplativo entre fagote, guitarra e piano. É como se fosse um momento de pausa na dança para admirar o salão. O retorno da bateria valoriza a mesma, e o final da faixa é alongado e triunfal, recordando realeza, trazendo novamente a recordação de algum conto de fadas com castelos.

Também pode ser reconhecida como dramatúrgica a faixa "Ballad for Klaus". Um piano desalegre dedica-se à sua introdução, como uma espécie de trilha de abertura indicando que iniciará uma história. O 1º ato se dá tranquilo pelos primeiros dois minutos, até o instante em que os sons parecem requerer maior independência uns dos outros. O 2º ato é feito dos instrumentos entregando algo aos poucos, dando amostras, sugerindo haver algo mais completo escondido, enquanto o fagote bastante deslumbrado improvisa sem interrupções. Então entra a guitarra improvisando bastante contida, se mesclando com o piano em alguns momentos, parecendo todos estarem escondidos observando pelas frestas. Aos seis minutos de música vem o 3º ato, um reencontro com o ambiente do primeiro, a saída do esconderijo. O ato final é como aqueles filmes cheios de "falsos finais", nos quais hão várias cenas que sugerem serem as últimas mas, após o fade out, tem outra cena, indicando ter mais. O fagote chama diversas vezes os demais instrumentos nos três minutos finais, num epílogo extenso e bonito.

A qual considerei mais diferenciada das demais, "Gordus Power", indica pressa. Apresenta piano, baixo e bateria notavelmente apressados. É como se o piano improvisando livremente fosse a trilha, o baixo o personagem a correr, e a bateria os passos do mesmo. Até que fagote e guitarra assumem a corrida, com o fagote apossando-se da trilha e a guitarra sendo o novo persona corredor. Nesta faixa a bateria tem seu local de maior peso do disco, solando e ouvindo-se por inteira, explorando andamentos e ataques.

"Cromática", título da faixa composta por Fábio Leandro (piano e Rhodes), provavelmente se refere à escala musical cromática, mas também recordou-me a escala das cores. A "cor" do fagote parece bem distinta das "cores" dos demais instrumentos nesta, gerando certa tensão. Inicia-se o violão e um fagote que trará frases sutilmente ansiosas, dialogando e discordando. Com a bateria a postos, seguem os dois instrumentos numa direção com os demais. O violão repete as frases marcantes do fagote em um momento, chamando-o para a mesma discussão de novo. Tal ambientação resulta em um interessante final no qual violão e fagote vão revezando nas frases porém de modo mais alegre, como se estivessem rindo da própria polêmica.

O encerramento do álbum se dá com "Un Tango Para El Chico", música de Igor Pimenta (contrabaixo). É a faixa que mais se arrisca, mais apresenta modificações durante a execução sem receio do desconhecido. Vai do tenso ao ameno, da sensualidade à aversão. Entre tantos ambientes diferentes é permitido escutar todos os instrumentos tendo seu local de fala, um tomando o território do outro, permitindo despedir-se de cada um.

Apesar de conter faixas com títulos em inglês e espanhol, bem como uma faixa com a capital alemã no título, todo o som do disco é facilmente reconhecido como brasileiro. A água viva em meio ao oceano na arte da capa e contracapa pode servir de metáfora para esse território comum entre nacionalidades/mundos, cujo mar pode arrastar de uma região a outra sem maiores dificuldades.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Breno Ruiz

Breno Ruiz

Título: Cantilenas brasileiras
Ano: 2016
Impressão:

"Esse disco vai levar um tempo pra escrever a respeito. É bem espesso".

Foram as primeiras conclusões diante do disco Cantilenas Brasileiras do pianista e cantor Breno Ruiz. A capa simples e vintage embrulha tamanha riqueza de conteúdo e detalhes que faz o ouvinte, seja este quem for, sentir-se valorizado. Breno se declara a serviço da Música, mas penso que com este disco a grande consideração dele foi, na verdade, com você. É como se o disco reconhecesse que todo ouvinte, independente de qualquer característica, é um ser apto e gabaritado ao que exige a escuta. Parece complexa de longe, mas de perto é bem direta a partir da entrega. Liberta das amarras cotidianas, do establishment que tão bem motorizou nossas cabeças, a escuta é uma experiência singular. Exige disposição de imergir num universo que dispensa adjetivos - adjetivar também é limitar.

Uma das definições "cantilena" é "canção monótona". Monótono, no senso comum, nos remete ao enfadonho. Mas no canto de Breno o que se percebe é, na verdade, ausência de pressa. A serenidade do cantor que respeita o tempo da música. Aí já se identifica um dos contrastes do universo do disco com o mundo real em aceleração viciosa, no qual estamos automaticamente e integralmente afoitos como se o futuro não fosse chegar nunca e precisássemos correr até ele.

Surpreende saber que o disco foi gravado em 2011, ou seja, quando Breno tinha 28 anos, e já possuía notável maturidade na voz. Maturidade não no sentido clichê a-lá jurado-de-reality-show, mas sim da voz parecer pertencer a alguém que carrega muitas experiências mesmo, como se já tivesse vivido no mínimo uns 20 anos a mais do que tinha ao gravar. Torna mais interessante ainda saber que o próprio já relatou em entrevista sobre seu "pé no ancestral", contando que na infância queria usar paletó e gravata, e que aos 10 anos animava bailes da terceira idade tocando piano junto ao tio sanfoneiro.

No disco, para este que vos escreve, a ancestralidade natural de Breno foi reconhecida em duas faixas: "Donana" e "Caçada de Onça", as respectivas 7 e 8. "Donana" muito recorda histórias de avô e avó, o spin-off das lendas urbanas, aqueles típicos relatos interioranos sobre ataques de bichos selvagens e aparições folclóricas. E a seguinte, "Caçada de Onça", também caberia perfeitamente na narrativa de um avô. A sonoplastia da música é perfeita, graças aos efeitos sonoros de Renato Braz que "responde" com instrumentos de percussão e flauta a cada frase da saga cantada por Breno. Há adrenalina misturada com ingenuidade no canto, como se partisse da preocupação de um sujeito mais velho em entreter uma criança com tal aventura. Porém, ao contrário do termo "monótono" que define "cantilena", a faixa surpreende e revela que o narrador foi engolido pela onça!

Outras faixas que dialogam entre si são as 1 e 2. "Marinheiro do Mar", a primeira, abre o disco com bastante avidez: um piano tenso, pratos de bateria que lembram ondas, uma vastidão sonora possível mesmo com poucos instrumentos. A letra de Paulo César Pinheiro - que compôs todas do disco junto ao Breno - faz uma releitura da tradição das canções de despedida, sendo que nesta o marinheiro não se despede da amada e nem da mãe, mas sim da irmã. Caberia bem como abertura de um musical pois é facilmente reconhecível o personagem principal, com versos que nos aproximam e nos fazem conhecê-lo melhor, como "De tanto olhar pra costeira / Vendo cargueiro atracar / Eu quis de toda maneira / Um dia me alistar".

Já a faixa 2, "Estrela Branca", sugere continuidade à narrativa do marinheiro. O instrumental se inicia semelhante ao anterior, porém, o canto está mais ameno, como se na primeira faixa o marinheiro precisasse ser "durão" na despedida, mas nesta segunda está admirado com as estrelas em alto mar. Aplausos para a poesia da letra, pois a acústica das palavras escolhidas é muito rica ("olerê, olará"). Se fossem apenas declamadas, sem cantar, já seriam musicais!

Se as primeiras faixas parecem feitas para um musical, outras parecem feitas para animarem festas. "Roxina", cuja viola caipira se ouve de cara, revela a disparidade do disco que passeia por diversos estilos e cenários. Sob um andamento dançante e acompanhamento categórico do piano, a letra é a mais ousada do disco: tem erotismo, ritualismo, quebra de tabus e a descortinada de um lado mais selvático. Breno mostra que não tem receio de entregar a interpretação que a composição pede. Outra dançante é "Choro Bordado". Já ouvi de um professor de música que "todo som organizado, por pessoas ou não, é música" - e os assovios e água caindo na introdução de 1 minuto são 1 minuto de "pura" música. "Pura" em qualquer sentido que se queira, não corrompível, completa em absoluto. Piano, baixo e percussão tão bem harmonizados aos sons naturais renderiam, por si só, um belo instrumental! Até que entra a bonita voz de Mônica Salmaso e o que já estava bom fica melhor. São poucos os choros que possuem letra, porém, se o choro "falasse", teria a voz de Mônica, tão bem colocada está, e provavelmente falaria do que esta letra fala.

Outra faixa cuja letra parece fazer uma espécie de tradução simultânea ao que o instrumento está querendo dizer é "Modinha Triste". O canto e a melodia no piano estão tão bem casados que fazem a poesia parecer tentativa das notas do piano em falar com palavras. Curiosamente, como a faixa comentada anteriormente, esta também não é cantada por Breno e sim um convidado - no caso, Renato Braz. Há uma rouquidão interessante em pequenos trechos na voz de Renato que fazem jus à letra e melodia desoladas. Renato também canta em "Viola do Bem Querer", curiosa pelo fato da letra ser declaração de amor à viola, mas não haver uma na gravação. Torna-se então um depoimento, onde piano e baixo emprestam sua sonoridade para que o violeiro declare-se ao instrumento adorado e, como a letra mostra, necessário. Já em "Cantilena Sertaneja" não falta violão! Apesar de sutil, a melodia faz com que nosso ouvido busque ele, se esforce para destacá-lo entre os demais instrumentos, visto a temática de sertão.

Breno distribuiu pelo disco três faixas de apenas piano e voz.

Na primeira delas, "Flor Lilás", o piano da introdução, logo que tocado, é familiar. Está em algum lugar do subconsciente do brasileiro, talvez nos desenhos animados que crescemos assistindo cujos quais eram musicados por pianos, ou alguma outra referência. O tico-tico, pássaro bem brazuca, cujo nome até declamado já é melódico, é citado em uma estrofe que se repete três vezes. Um pássaro ciumento e urbano, tanto que é citado na letra o ninho que fez na cancela. "Dança de Mucama", a segunda piano e voz, também visita nosso memorial inconsciente e de lá traz o tal do Samba-lelê. Por fim, a última piano e voz e também última do disco, "Roseira", conta as diferentes relações de diferentes seres com uma roseira - as relações de uma abelha, um joão de barro, uma borboleta e um louva-a-deus, mostrando como a roseira é traiçoeira com eles.

Há uma certa mística no disco, não sei se intencional ou não, no tanto de imagens que trazem à mente. No quanto nos desliga e religa com nossas origens. No quanto de versos impactantes cuja vontade é anotar para que não sejam esquecidos. Em instrumentos que não estão listados no encarte mas juro ter escutado-os em algum momento.

Evitei adjetivar o universo do disco no primeiro parágrafo, porém, penso que agora, sem jamais querer limitá-lo, "intrigante" talvez seja um bom adjetivo. É pena que "intrigante" tem, popularmente, uma interpretação pejorativa. Mas basta buscar pelos significados completos do termo que, entre os que caberão bem ao disco, estará: "que incita a curiosidade; que consegue surpreender". Creio que é isso mesmo! Lembrando que uma das definições de cantilena é "canção monótona", veja só que beleza: intrigante é justamente o contrário de maçante!


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Cássio Ferreira e Rodrigo Chenta

Cássio Ferreira e Rodrigo Chenta

Título: 3136
Ano: 2017
Impressão:

Concluir uma obra, artística ou não, é passar da intenção à realização. Quando pensa-se nisso logo é imaginado um demorado caminho entre estes dois polos que inclui ideia, planejamento, decisões, recusas, esforços, por vezes aborrecimentos e aguardadas satisfações. O processo de compor costuma integrar todos estes estados e, comumente, leva tempo. No caso de "3136", por se tratar de música espontânea, todas as fases citadas ocorreram simultâneas e instantâneas. Intenção teve duração muito curta pois na fração seguinte já era realização, devidamente gravada e com vaga garantida na posteridade.

Um teatro moderno, confortável e primoroso, e um bar de jazz soturno típico daqueles que se vê em séries norte americanas: em ambos os ambientes, bem distintos e provavelmente longínquos, caberia a performance deste disco. É música erudita e excêntrica conjuntamente. Forma convencional e não convencional conviventes e convenientes uma com a outra.

No título as idades dos dois instrumentistas na época da gravação e, curiosamente, idades que representam o "day after" de períodos determinantes da vida. Mesmo em 2017 os 30 anos ainda são (e certamente continuarão a ser) vistos como idade taxativa e cada qual encara a sua própria maneira, tênue ou não, a chegada - porém, aos 31 nota-se o óbvio de que a vida não para nos 30, na idade que tanto alarde se faz ao redor. Os 35, embora menos discutidos, tem lá seus subtítulos como "o fim da adolescência moderna" ou outros contraditórios entre si como "o auge da satisfação" ou "auge da solidão", fazendo dos 36 o capítulo seguinte de tal pico enigmático. Se estas idades, encaradas com bom humor, podem simbolizar desprendimento e supervivência após a crise dos 30 e o sobressalto dos 35, o disco nomeado com tais números assim o é também desprendido e despojado. Quem aos 29 ou até aos 34 ainda sofre com pautas de uma constituição comportamental invisível, os 31 e os 36 são boa pedida para simplesmente "ser", como as três longas faixas simplesmente "são".

Ao iniciar a escuta da primeira, "31", com poucos segundos já se nota a desconvicção: o sax soprano de Cássio Ferreira com notas que conseguem ser sutis e agressivas unidamente, enquanto Rodrigo Chenta batuca no corpo da guitarra acústica. Não só na madeira mas também nas cordas, causando timbres agudos e aflitivos. Só aos 1:20 de música que a guitarra entra dedilhada, cheia de propostas variadas, em litígio com um sax sem medo de ir ao extremo. Por mais que estejam ambos instrumentistas tomando decisões o tempo todo, em alguns pontos esta ação fica muito clara - como por volta dos 4:28 em que pausas e minúcias entregam as decisões e indecisões.

"Quem está conduzindo agora?" é uma pergunta frequente na audição. Nem sempre é possível definir pois rapidamente um dos dois pode desviar da proposta. Vide aos 5:36 em que o sax sugere um trilho, desenha-se então um cenário alegre, mas logo ambos ficam tortos indo cada um a um lado. Até que a guitarra insiste na mesma região por desmedido tempo e o sax se debruça sob a base formada, fraseando e podendo concluir a proposta apresentada. Já quando se chega aos 7:40 o ambiente é completamente outro e há duvida se os instrumentos não se tornaram, na verdade, uma flauta e um violão, tamanha suavidade e cautela. É a preparação para a parte final e mais curiosa, onde Rodrigo volta a atacar as cordas gerando sonoridade que lembra chuva. Os timbres do batuque se intensificam e a chuva vira chuva de pedra - se a faixa fosse ter outro título ou um subtítulo talvez "Chuva de Pedra" cairia bem. O sax emite ventania e causa o momento mais imagético da faixa. Se música é todo som organizado, espontâneo ou não, aí está o testemunho.

Na segunda faixa, "36", a guitarra acústica da peça anterior dá lugar à maciça e inicia sozinha, propondo uma sonância mais popular e familiar aos ouvidos. O sax entra bastante areado, dando corpo à expectativa que o ouvinte já criou a estas alturas à sequência rotatória de 3 notas que a guitarra vem apresentando, que logo se transformam em 4, depois 5, assim crescente. Logo são ouvidos timbres bastante difíceis de identificar a origem, que lembram água escorrendo pelo ralo após o mesmo ficar entupido - teria sido causado pela chuva de pedra que caiu no disco a pouco? Chega a ser sombrio, incitando muita atenção. Os sons parecem presos dentro de algum lugar da guitarra e agonizam como uma ave presa dentro de uma gaiola, enquanto o sax regojiza-se de liberdade do lado de fora. Só aos 4:30 é que os zumbidos parecem ter encontrado uma frestinha de luz na madeira e podem sair, manifestando-se nas cordas ainda com a visão fragilizada pela claridade repentina.

A ausência de um comandante continua sendo atestada: em torno dos 7 minutos, após audível titubeação, ambos instrumentos se decidem por uma levada mais dançante, mas não demora para que a guitarra mude completamente e soe angustiosa enquanto o sax fica ainda mais funkeado. Mais adiante, aos 9, a guitarra opta por uma região bastante inusitada abusando do grave, causando sons longos que recordam tambores orientais gigantes. Talvez inspirado por isso ou não, o sax opta por uma linha que recorda tal cultura. Logo o sax queda-se nervoso, bastante nervoso, e a guitarra vai na onda, destruindo a serenidade oriental ambientada parindo sons, imagens e sensações tudo junto. Até o final da faixa o desconforto vai do grave ao agudo e ao grave de novo, passeando pelas alturas, amenizando pra depois agredir mais, sugerindo que ambos instrumentos foram rebentados a exaustão e abandonados.

Se a primeira faixa já começava quebrando as expectativas do que um ouvinte poderia esperar de um disco de sax e guitarra, a última, "3136", entrega o esperado pelo senso comum a um duo destes dois instrumentos: iniciam juntos, melodia bonita, sax agitado e guitarra amena, as devidas inversões de intensidade, o que se repete em alguns momentos ao longo da faixa. Há acordes da música "Giant Steps" do saxofonista John Coltrane e trechos do jazz "All The Things You Are" composto por Jerome Kern, jazz este que breve completará centenário.

Alguns momentos merecem destaque, como o raro coro aos 2:38 em que ambos instrumentos vão e param juntos algumas vezes. Já perto dos 4 minutos vem a aflição e, enquanto a guitarra vai pra uma levada mais rock, o sax emite longas notas que lembram distorção de guitarra. Há breve citação de Metallica e interessantíssimo momento em que o sax sola sob a base da guitarra com tamanha altura e vivacidade de modo que caberia muito bem em qualquer metal, bastante criativo e arrojado. Mas neste disco os cenários duram pouco e logo adiante, em meio aos 6 minutos, outro momento é proposto, bem confortável e contemplativo. Segue-se um longo tempo com o que, conforme dito mais acima, talvez seja o que boa parte dos ouvidos espera de um dueto instrumental desses.

Se aproximando dos já 13 minutos de peça, após dedilhados e dedilhados de guitarra, o sax também a passa ser utilizado fisicamente como percussão gerando timbres inéditos e curiosos. A guitarra aprecia a ideia e ouve-se então um excepcional solo de batucadas feito por guitarra e saxofone - curto, mas muito significativo. Em seguida Rodrigo permanece na percussão enquanto Cássio fraseia, e é impressionante pensar que tais batidas são feitas apenas por duas mãos e um instrumento, tamanha variedade e disparidade. A sequência final é de suspense, em que a essência do disco vem a tona com tantas notas pouco usuais. Ambos, neste encerramento, conseguem soar tão sutis e tão presentes que é de se admirar. As notas vão parando aos poucos e então as vozes de quem as produziam são ouvidas.

Música independente é assim chamada quando não depende de investimento institucional, dependendo exclusivamente da força de vontade de seus realizadores. "3136" é uma obra duplamente independente: não só nos termos burocráticos de mercado, mas certamente tão inquietante e misteriosa aos seus próprios criadores que é quase uma criatura independente.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Cézar Roversi

Cézar Roversi

Título: Entre linhas
Ano: 2014
Impressão:

Anos atrás, ao adquirir um celular que, mesmo para a época, já não era considerado tão moderno, notei que entre as opções de câmera havia o tal do modo panorâmico. Estava na moda registrar imagens de paisagens utilizando esse modo, com visão ampla e girando em torno do próprio eixo. Pela inexperiência, ao tentar tirar a primeira imagem panorâmica - um jardim onde haviam alguns indivíduos sentados em um deck - notei a dificuldade de manter o eixo e as falhas que isso gerava com algumas pessoas saindo com movimentos cortados e figuras perdidas no meio do cenário. Mas artisticamente ficava legal, tinha lá seu charme. Recordei-me desta involuntária obra imagética ao escutar a faixa de abertura do disco "Entre Linhas" do saxofonista César Roversi, faixa que leva o título "Panorâmico". Isso porque aos 1 minuto e 10 segundos de música a mesma, que corria muito bem obrigado, tem uma curiosa diminuída de volume e uma brevíssima confusão instrumental, coisa de segundos, que assim como na imagem panorâmica citada teve resultado atrativo.

Colocar este álbum para tocar é sentir o poder de rapidamente modificar o ambiente ao teu redor. Do conforto da tua residência, és levado a outro local realmente, pois diversas são as cidades presentes nas faixas e na sonoridade.

"Panorâmico" e "Corredeira do Rio Pequeno", as duas primeiras, são choros que levam o ouvinte ao arrimo dos bairros boêmios do Rio de Janeiro. Curiosamente César Roversi é de uma cidade paulista cujo nome é o mesmo de um bairro da zona sul carioca, Leme, e estudou no grande empório musical do interior de São Paulo, Tatuí. Na primeira faixa tocando sax tenor e na segunda sax soprando, César traz interessantes diálogos com a flauta de Rodrigo Y Castro, sendo tais instrumentos os protagonistas do álbum. Se na primeira o som dos dois sopros é mais uniforme, na segunda mais dialogam do que fazem coro, perguntando e respondendo, concordando e discordando. Destaque ao ritmo bastante acelerado de correnteza da segunda faixa, com um episódico solo do violão de 7 cordas próximo ao final.

A terceira faixa, "Misto Quente", já tinha me despertado curiosidade de ouvir ao saber que não haveria flauta e sim mais um sax tenor assumido por Nailor Proveta (também compositor da faixa). Como ficarão dois sax iguais na mesma música? Bem, o clima é de amizade, mesa farta, com os dois sax dialogando de modo imprevisível, em frases de pequenas quebras. Violão, cavaquinho, pandeiro e percussão tem todos teus momentos próprios, com a última tendo um timbre bem curioso em certo trecho.

Após três faixas animadas abrindo o disco, chega um momento melancólico com "Saudades de Belo Horizonte" - e mais uma cidade aparece!

Existe certo encargo ao colocar "saudades" no título de uma música. Imagino ser difícil ficar indiferente, já que é uma palavra que muito rapidamente remete ao teu significado e se faz sentir. A própria fonética da palavra já tem esse poder, com o ditongo "au" num "á" que sobe a voz pra descê-la imediatamente com o "u". Sensação boa e ruim juntas, ou então ruim e boa, assim invertido, a depender da preferência e do próprio objeto ou ser de saudade.

Assim, a faixa que exprime a falta de Bê-Agá começa com um sax tenor triste, entrando posteriormente a flauta de Toninho Carrasqueira também a lamentar, mas de forma mais espantada. Este é um feito muito interessante de se observar, os dois modos diferentes dos instrumentos sentirem saudades: o sax mais calmo, mais contido, numa saudade jururu, e a flauta angustiada, gritando mais. O cavaquinho também pranteia a teu modo, com todos os diferentes sentires bem inequívocos, em especial ao final da música.

A melancolia tem continuidade na faixa seguinte, "Doce mente", que chama a atenção de diversas maneiras. Primeiramente por ter o sax acompanhado somente pelo violão e cavaquinho. O compasso então se dá pelas cordas, o que fica bem claro nos dois momentos de mudança de andamento. Posteriormente, o fato de "doce" e "mente" estarem separados no título intriga - doce remete à infância, mas também ao amor e à sensualidade. Enquanto o cavaquinho desta faixa me lembrou uma música de ninar (infância), as duas aceleradas mui breves mudam bruscamente os ares para um tom sensual e adulto, gerando contradição. Seria portanto esse o doce que mente? Vale destacar por fim o quanto é possível escutar o fôlego saindo dos pulmões de César para dar som ao sax tenor nesta gravação. A ausência de tantos instrumentos despiu o sopro.

Na faixa 6, "Jabutunga", o ouvinte que se permitiu viajar pelo Brasil pela escuta será transportado ao Nordeste. O pandeiro dá lugar ao triângulo e forma-se um baião bastante divertido. É significativo como a música não ficou presa apenas dentro deste estilo, evidenciada pelos diferenciados solos de flauta e sax, e também seu final apoteótico onde até exclamações são ouvidas.

Nas seguintes "Coquinho" e "A César o que não é de César" o clima do início do disco é retomado. De volta ao choro mais tradicional, uma clarineta divide as vezes com o sax tenor na faixa 7, enquanto um sax soprano é o único sopro na 8. Bastante espirituoso o título da oitava composição, uma vez que a mesma é de Zé Barbeiro, responsável pela direção do álbum. O sax soprano toca nesta de modo bem enérgico, quase furioso, acompanhado na mesma inquietação pelos demais instrumentos, sem medo de entregarem ao maestro o que lhes exige.

Se em todo este álbum o tradicional e o moderno estão juntos, mesclados e adstritos, no Brasil há alguns anos é possível notar uma prática tradicional retornar às ruas nos primeiros meses do ano após muito tempo esquecida, transfigurando-a numa tradição moderna: os blocos de rua! Na faixa 9, "No Fio da Navalha", o que se escuta é uma deleitosa marchinha de carnaval, que graças ao retorno da tradição dos blocos não precisa ser vista apenas no Rio ou na Bahia, mas também em São Paulo e diversas outras cidades. Esta composição que é parceria de César com Zé Barbeiro lembra confetes, máscaras, baile a fantasia, e faz pensar como equivocado é quem acredita que apenas a música erudita exige esforço e a popular não. Aqui o popular prova ser também dificil, de arranjo bem sofisticado e trabalhoso. E divertido.

A décima e última faixa é "Valsa para Edi", composição de Toninho Carrasqueira na qual o terceiro e último tipo de sax (sax alto) aparece. Nesta, muito audível é o afinco dos pulmões de Toninho trazendo ares para a flauta. O tom é de ternura com sax e flauta dando espaço um pro outro, fraseando de modo próximos. A valsa mais tradicional se manifesta aos 2:50, sem perder a referência do que vinha sendo apresentado antes. Um minuto depois há um curioso e discreto silenciamento dos instrumentos, para uma espécie de bis breve de encerramento. Assim termina o disco, ainda nos últimos segundos sendo possível escutar o som de sopro humano citado. Literalmente o último suspiro após esta experiência que além de sonora também é turística e viajante no tempo.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Ivan Barasnevicius Trio

Ivan Barasnevicius Trio

Título: Continuum
Ano: 2014
Impressão:

A capa do primeiro álbum do Ivan Barasnevicius Trio é bastante simples, porém efetiva no que se intenciona: o nome do trio mais o nome do álbum com fundo amarelo, "Ivan" e "Trio" grandes, "Barasnevicius" e "Síntese" menores. A ideia era apresentar o grupo e tal capa bem servia o cartão de visitas, franca e reta. Já o segundo, lançado em 2014, traz na capa uma pintura vistosa e colorida, cheia de detalhes a apurar. Após o "oi, muito prazer", o segundo disco é a oportunidade para conhecer melhor e relacionar-se com a sonoridade e essência do trio.

Um elemento curioso é que as composições deste álbum já existiam anos antes do lançamento - algumas, inclusive, antes do primeiro -, o que mostra que chegaram ao ponto que estão graças à continuidade que Ivan, Dé Bermudez e Thiago Costa dedicaram às mesmas. Do nascimento até a gravação foram tocadas várias vezes, experimentadas, recebendo ingredientes novos e reinvenções resultadas de dedicação contínua. Assim, "Continuum" é título certeiro.

O CD abre com a homenagem de Ivan para tua esposa e baixista do trio em "Groove pra Dé": o prato é atacado e então a bateria inicia sozinha e ansiosa, apesar dos toques bem centrados e reincidentes deste início. O baixo da homenageada surge, a exemplo da bateria primeiro atacando agressivamente uma das cordas anunciando tua chegada para em seguida instaurar a melodia. Por último a guitarra de Ivan, declarando a própria chegada com notas aflitivas e rápidas, então ingressando o tema principal. Não demora para que a música pire, sobressaindo-se o momento perto dos 3 minutos quando guitarra e bateria enlouquecem juntas, exigindo fôlego até de quem escuta. Não há pausa para uma água, apenas mais desatino, guitarra ganhando distorção, bateria estrondando fúria. Aos 4:30 silenciam-se todos e o baixo os reconduz, em linha diferente à inicial, a um pequeno flashback dos ambientes apresentados na primeira parte, numa espécie de "melhores momentos", breves, impactantes.

"Hipnose" já merece de cara felicitação por começar atipicamente com um fade in: revela-se então que a música já começou em algum lugar, silenciosa aos nossos ouvidos, e agora vem se aproximando, o volume aumentando, gerando um cativante mistério de como será que é teu início, de onde está vindo, há quanto tempo começou. O efeito de atenção e curiosidade que pode causar no ouvinte este fade in é comparável ao efeito hipnótico, já que a hipnose traz o hipnotizado integralmente aos comandos da voz do hipnotizador. Cheia de frases cantáveis, mudanças no compasso e no timbre da guitarra que só aprazeiam, improvisos vívidos no baixo e bom espaço para a bateria perto do final sem que os demais instrumentos se silenciem e interrompam a harmonia.

Esta segunda faixa é composição de Luciano Nobre e revela uma das ligações do álbum com o programa Venegas Music TV apresentado por Ivan Barasnevicius, visto ser possível encontrar nos arquivos antigos do programa no YouTube a versão original desta faixa com apenas Ivan e Nobre a tocando. "Pé de Bode", a próxima, também é de um Luciano e também tem ligação com o programa citado: Luciano Magno a apresentou ao Ivan para que tocassem-na juntos no programa. No vídeo em que a tocam no agora longínquo ano de 2011 já é perceptível o tanto que Ivan havia gostado da música. O timbre distorcido e enérgico da guitarra ficou bastante bonito com a linguagem do baião, funcionando habilmente a mistura deste com rock.

Tive de buscar a definição de "Bizuca", título da quarta faixa, pois até então só conhecia tal palavra como nome de um bar de uma cidade interiorana na qual morei anos atrás. Encontrei diversos significados, desde nome de um doce mineiro até "pessoa tapada". A guitarra começa caustrofóbica, aprisionada num repeat, cujos demais instrumentos buscam puxá-la pra fora e até conseguem. O timbre do baixo está bastante bonito e diferentão nesta, e as harmonias que forma junto à guitarra são realmente graciosas de ouvir.

Fácil é ouvir o CD e ter a impressão de não estar escutando um trio e sim uma banda lotada. E, pra entregar a verdade, o "Continuum" não se trata mesmo de um CD gravado por três pessoas em estúdio mas sim quatro - Pietra, filha de Ivan e Dé, participou também das gravações diretamente do conforto da barriga da mãe. A palavra "acalanto", que nomeia a faixa 5 e é composição de Dé, vem do ato de ninar uma criança, cantar para que ela se acalme e durma. O violão, presente também no álbum anterior, reaparece nesta fazendo a base para que o baixo possa frasear e gerir o aconchego que a faixa proporciona. A sonoridade resultante é bastante rica e incomum. Há espaço também para que o pai se manifeste, saindo o violão e entrando uma guitarra, e em outros momentos ambos agregados. Como se o violão, aqui quarto elemento em uma música de trio, representasse a pequena que logo mais chegaria.

Se no primeiro disco o aceno ao passado (e presente e futuro também) no metal de todos os integrantes se dava com "Machine", neste disco se dá com a última faixa, "Granizo". O tema principal pesado caberia bem em qualquer hit do metal, mas aqui se junta no melhor estilo mestiçador - nessas alturas já típico e reconhecido - do trio com um samba, sem a guitarra precisar esconder a distorção nem bateria e baixo perderem a fúria para que o samba role. As encurraladas nas quais o tema principal se coloca são muitas, como um pedestre a buscar um toldo para se proteger de uma chuva de granizo.

Vale mencionar a faixa bônus lançada separadamente em 2015, "Minuano", arranjo de Ivan Barasnevicius para composição de Pat Metheny. Infelizmente há - e provavelmente não são poucos - quem enxergue o termo "abrasileirar" como pejorativo, às vezes nem por crença própria mas por costume adquirido. Ivan afirmou em entrevista que, com o trio, não teve preocupação de criar solos mirabolantes, e sim realizar a mescla de estilos distintos que se ouve nos dois álbuns. E isso foi possível, sem que perdesse a a concordância do conjunto. Logo, pode-se dizer que Ivan requintadamente abrasileirou a composição de Metheny. Destaque a um vilão de nylon de 1998 do próprio Ivan utilizado na gravação, cujo qual não sei se traz ligação fraterna, mas é a sutil impressão que ficou nas entrelinhas do que se escuta.

A sensação ao concluir a audição do disco é a mesma que se tem ao conhecer alguém, ter uma primeira boa impressão e não se decepcionar conforme dá continuidade ao contato.

Continuar pode ser, em boa parte das vezes, bem mais complicado do que recomeçar ou mudar completamente. Pra continuar é preciso manter o vínculo. É preciso ir em frente com o que já se tem. Continuar é preciso.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Ivan Barasnevicius Trio

Ivan Barasnevicius Trio

Título: Síntese
Ano: 2012
Impressão:

Um dia qualquer de 2012. Deparo-me com um meme daqueles de "coisas que farão você se sentir velho". Uma das "coisas": a constatação de que 2007 já tinha sido há meia década. Caramba! Em 2007 eu fazia parte de uma banda cujo estilo definíamos debochadamente como "hardcore universitário" chamada LøF (é, com o "ø" cortado, esses jovens...) e aquele meme me fez cair a ficha de que já fazia meia década do fim dela! Esse tempo que só voa... tanto voa que atualmente faz meia década não do fim da LøF, mas sim QUE EU VI AQUELE MEME! Taca-le mais cinco anos na conta. Qual o espanto, não?

Tais anos se ligam com o primeiro álbum do Ivan Barasnevicius Trio: 2007 foi o ano de início das atividades do trio e 2012 o lançamento do disco. Esta meia década que se passou do lançamento até hoje nos permite observar uma característica de Ivan, iniciada com este álbum "Síntese" e repetida nos demais discos lançados pelo guitarrista ao longo destes cinco anos: intitular os álbuns com a descrição do momento pontual que representavam!

"Novos Caminhos" (2015), título do primeiro disco de Ivan em duo com Rodrigo Chenta, indicaria novos caminhos para ambos - tocando com esta formação de duas guitarras - e também para a música brasileira; "Continuum" (2014), segundo álbum do trio, indicaria continuidade da sonoridade do primeiro; e "Síntese", o pioneiro, era portanto o mesclar de estilos que os levaram até ali, a juntura das diversas influências e referências dos três integrantes em uma unidade, a apresentação da banda.

"Tatuí" é o abre alas, atiçando os ouvidos ao entrechoque de estilos musicais: na primeira parte da faixa o rock domina o maracatu, com a guitarra alvoroçada de Ivan narrando o tema; já na segunda parte, chegando aos 4 minutos, o maracatu se sobrepõe através da bateria engenhosa de Thiago Costa e o baixo bastante exposto de Dé Bermudez que é quem dita o tema agora. Ainda assim, a distorção da guitarra e a rala microfonia conservam o rock junto ao ritmo pernambucano, num diálogo denso e completivo. Tatuí, além de nomear a capital da música do interior de São Paulo, também é o nome de um dos crustáceos mais inteligentes já que consegue produzir diversas respostas a situações diferentes - assim como os instrumentos desta música conseguem fazê-lo com dois ritmos tão díspares.

"Valsa para Ana" já indica, desde o título, um novo estilo posto na mesa. O baixo bem vigoroso prepara e decora todo o terreno, revezando graciosamente com a guitarra o lugar de fala, sem pressa nem fobia. A bateria é o mais agitado dos instrumentos nesta, mas em momento nenhum perde a itinerância. Me veio a mente uma cena do livro "O Apanhador no Campo de Centeio", na qual o protagonista observa um casal a conversar caminhando pela rua em ritmo normal enquanto o filho pequeno deles caminha pulando, se divertindo, cantarolando, bem mais agitado que os pais mas sem ninguém ultrapassar ninguém. É inclusive a cena que justifica o título do livro, já que na visão do personagem principal o pequeno está atravessando o campo de centeio.

A terceira faixa, "Machine", são várias em uma - e não contraditoriamente e sim justamente por isso, a mais singular do disco. O pesado tema principal? Provável reverência e saudação às auroras musicais de Ivan, Dé e Thiago, todos com passagem significativa pelo metal. São diversos ambientes intercalados por este tema colérico. Tem jazz, tem funk, tem desdobramento do metal à uma linha mais melódica e menos tensa, provando o quanto as referências musicais podem se encontrar e se entender.

Não é de meu conhecimento se a Elis homenageada na faixa 4 trata-se da cantora apelidada de Pimentinha por Vinicius de Moraes cuja mera menção ao primeiro nome já traz automaticamente tua imagem e segundo nome à mente, ou se estão homenageando a carismática vira lata de Ivan e Dé que é xará da cantora. Optei por não confirmar diretamente e sim considerar que a música é para ambas pimentinhas. Começa no melhor estilo "cada um com seu cada qual", com cada instrumento executando uma ação diferente na introdução de 40 segundos, até entrar o tema. Cantável, espaçoso, colorido. O timbre diferenciado do baixo prende bastante a atenção em seus momentos de destaque, também merecendo menção o modo bem visível com que o tema principal se encerra a cada execução conduzido pela bateria. No desenredo, aos mesmos moldes da introdução, por um bom tempo os instrumentos se deleitam cada um cada um, quase independentes entre si sem pecar harmonicamente.

"Novos Ares" redesperta o ouvido até daquele que colocou o CD para ouvir e se distraiu rolando a timeline do Facebook por motivos de: um violão! Após o ouvido já estar íntimo da guitarra, um violão muito bem posto traz, como o título assume, novos ares. Faixa animada e serena mutuamente. Destaque para uma espécie de interlúdio que ocorre ao centro da música no qual o compasso muda, ficando mais plácido e insinuando o recolhimento.

A última, "Girando Lâmpada", releitura de Ivan Barasnevicius para a música de mesmo nome d'O Terço, faz jus ao estilo rock progressivo apontado em boa parte das resenhas a respeito deste álbum. Apesar de não ser a mais pesada, é a mais estrondosa do disco, numa espécie de caos/tumulto organizado. Há espaços para solos da bateria, eco e uma curiosa distorção acentuada da guitarra ao final da execução dos temas: a eletricidade chegando e acendendo repentinamente a lâmpada que se girou e girou para encaixá-la. Nos 40 segundos finais a bateria, que iniciou o disco em ritmo nordestino festivo, assume um breve andamento de marcha militar conduzindo os demais ao encerramento. Desfecho classudo e clássico do rock, pratos soando, baquetas por toda a cozinha, distorção e a última nota das cordas alta e seca!

E está entregue a síntese, do simples ao composto. Das causas às consequências. De meia década atrás a uma contemporaneidade atemporal. Dos estilos com nome a uma junção que não necessita de novo nome.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Leandro Cabral

Leandro Cabral

Título: Sobre tradição
Ano: 2015
Impressão:

A tradição não existe por si só, independente e sozinha. Para que exista é preciso que haja transmissão. Vem do latim tradítio, significando "passar adiante" - implica ação nos dias atuais, movimento, o não esquecimento. Vida, vivida e vívida. Muito se debate atualmente sobre família tradicional, arquitetura moderna, "na nossa época era melhor", "não sei como eu vivia sem isso antes", manter ou abandonar tradições. E, em meio a discursos apaixonados e de desapego, a música: uma tradição em si própria e ponto importante em inúmeras outras tradições.

De cara no título de seu primeiro EP solo lançado em 2015 o pianista Leandro Cabral compromete-se a fazer jus a esta condicional da tradição: trazê-la ao agora, reconhecível, e mesclá-la com o moderno sem que se perca aquilo que nossos ouvidos reconhecem como tradicional. Nostalgia da contemporaneidade. Os músicos que o acompanham são conhecidos dele de anos tocando juntos na noite paulistana (tradição) e as composições tomaram forma durante a feitura de uma série musical ao YouTube (patrono da modernidade).

São seis faixas, mas também pode-se dizer que são três pares, visto que cada uma delas tem parentesco com outra.

No encarte, Leandro Cabral diz que buscou trazer "melodias gravadas no inconsciente coletivo". É interessantíssimo confirmar isso logo que se põe a tocar a primeira faixa, "Corcovado": todo brasileiro que se preze terá a sensação de estar em casa, de reconhecer de algum local aqueles sons, a melodia ensolarada do piano. O Cristo Redentor, situado no morro que nomeia a composição, estampa algum local da nossa mente e civilismo, mesmo a quem nunca o viu de perto. Bastante curioso é o primeiro momento protagonizado pelo baixo acústico de Sidiel Vieira: um tanto agoniado, uma aparente falta de folego proposital em cordas que sugerem se esforçar para soarem, abatendo o clima há pouco ensolarado com nuvens escuras chegando sem informe. Com a posterior retomada do piano e o destaque da bateria mais adiante, a faixa se revela um verdadeiro sobe e desce de tensões: do ensolarado ao melancólico ao festivo e ao tristonho de novo. Condizente com a capital que abriga o Corcovado: bela, que sofre.

Próximo ao final, quando os instrumentos estão próximos de se estabilizarem, um novo entra: a voz de Leandro Cabral! É um instrumento intruso e convidado ao mesmo tempo. Ao ouvido atento é possível ouvir Leandro cantando a melodia junto ao piano, recordando como faz o pianista estaduniense Keith Jarrett. É um fenômeno bastante interessante de assistir em vídeo a tamanha entrega corpórea-musical de Jarrett, performático involuntário, um pianista cujas câmeras não focam apenas nas mãos mas também dão closes nos pés, na coluna, fazendo do próprio corpo um instrumento participante. Ao permitir que ouçamos tua voz, Leandro deixa, como Jarrett, a música ainda mais humana, braçal e maciça.

"Stella by starlight" é a faixa que faz par com "Corcovado", não apenas pela mesma formação de piano, baixo e bateria, mas também pela forma desobrigada: sai para caminhar sem destino esclarecido e no andar que bem quiser, explorando as vielas sem critério pré definido. Os solos de baixo e bateria colaboram com a imprevisibilidade e mudanças de direção, sendo o de baixo bastante independente do rumo que o piano vinha traçando até ali, e o de bateria materializando através dos sons a auto desconstrução constante da faixa. Ainda assim, passa longe de ser confusa e tem encerramento clássico.

"Minha saudade" e "Eu e a brisa" formam o segundo par de faixas, sendo assim parentes graças ao sax de Cássio Ferreira e ao fato de serem mais diretas, lineares, inclusive na duração mais correspondente à média.

"Minha saudade", como Leandro explicara em entrevista, é um samba jazz sessentista, uma tradição palpável e, ao pé do nome, saudosa. As pausas do sax são bem valorizadas e em primorosa medida, com o piano nunca deixando a peteca ir ao chão. Já em "Eu e a brisa" há apenas piano e sax sem os demais parças, fundamentando o título que sugere só o autor e outro elemento. O sax soprano calmo, que aparenta querer dar forma a uma coisa bonita, emite poucas e longas notas enquanto o piano emite muitas e breves, aglomeradas, gizando juntos uma paisagem sonora. E o sax vai sem medo até as notas mais altas, sem perder a sobriedade que a composição propôs. É brazuca, gringa, familiar mundo a fora. Encerra-se com o sax sugerindo querer repousar, mas recusando-se a fazê-lo para deixar propositalmente inconcluso, como a brisa do título que também vai embora sem interesse num gran finale.

As duas últimas do EP são faixas solo, nas quais Leandro sonorizará tua mente pelas teclas. Cada uma de suas mãos é um componente convidado a manter o diálogo com o ouvinte e o movimento que cada composição inicia a partir da primeira nota.

Ambas tem títulos lúdicos: "Someday my prince will come" seria relacionado a contos de fadas? Paternidade? As notas graves estão bem presentes e carregadas, em polifonia com as mais agudas, colocando tensão e bonança a ajustarem-se. Não é triste, prevalecendo ares esperançosos sugeridos pelo título. Esperança vem de espera, tal qual o personagem do título espera teu príncipe, com esperança.

"Moon River", diferente da anterior em que o personagem está fisicamente presente mas com a cabeça em outro local, é mais contemplativa e paisagística. Consegue ser bastante imprevisível mesmo sendo faixa de um instrumento só, com destaque aos 2:15 em que o piano corre com notas em disparado, causando deslumbre certeiro no ouvinte. Se aproximando do fim as notas se apresentam mais lentamente, parecendo espécimes vivas a buscar o silêncio. E o encontram.

A escuta é rápida, mas evidencia: enquanto houverem composições apaixonadas como estas, e ouvintes, a tradição está garantida. Já dissera o espirituoso e saudoso cabeleireiro do meu bairro chamado Adão, falecido em 2013, quando uma cliente reclamou por ele ouvir no salão músicas que ela achava "muito velhas": "Que bobeira, menina, música é a arte que nunca fica velha, vai pra sempre se reinventar".


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Manu Cavalaro

Manu Cavalaro

Título: Cantora não
Ano: 2016
Impressão:

"A gente canta a nossa saúde", escutei certa vez de um professor de canto. "Ao observar um pianista ou violonista em ação, piano ou violão são os instrumentos, e pianista ou violonista os instrumentistas. Já no cantor, o instrumento está dentro do instrumentista, então é inevitável a saúde dele aparecer no resultado", completou. Alguns podem discordar no que compete à influência da saúde do cantor no canto. Talvez seja mesmo algo a se discutir. Porém, o que mais pode causar polêmica - e é bem pouco discutido - é que provavelmente há quem estranhe o modo cujo qual o profesor se referiu ao cantor: como um instrumentista.

Ao receber para escutar o disco de estreia de Manu Cavalaro das mãos do meu xará Rodrigo Chenta, as exatas palavras dele foram: "Trata-se de uma cantora que não precisa de letras. Usa a voz como instrumento". As letras aparecem em algumas composições, porém, Manu dedica-se antes de qualquer pré etiquetagem ou sofisticação à função primordial e vital do cantor: cantar a melodia. Daí o título "Cantora não", em provocação ao senso comum de que cantores só cantam canções. Assim, apesar de poder ser considerado como um disco de música vocal, é antes um disco instrumental.

Apertando o play da primeira faixa, "Era pra ser maior", uma manada instrumental atropela o ouvinte que abria uma frestinha na porta para espiar: uma brevíssima virada na bateria e todos os instrumentos entram juntos, dispensando propositalmente as tradicionais introduções do ameno ao crescente feitas para o ouvido se ambientar. O bonde andando apanha de imediato o ouvinte do local onde sua mente e ouvidos estavam a pouco direto à música. O andamento acelera logo, revelando que os trilhos pelos quais caminhará a composição - e, conforme as próximas faixas mostrarão, o próprio disco - estão mais para uma montanha russa cuja surpresa está sempre ali do que uma linha reta de trem. Curiosamente esta é, segundo Manu, a primeira composição que ela teve coragem de mostrar às pessoas, condizendo não só ser a primeira do disco, como também a este "chegar chegando" da faixa.

Todas estas informações surgindo duma vez, ordenadas pela bonita voz de Manu, correspondem ao colorido do encarte: assim como a música, consegue ter muitos informes nas diversas cores e formas sem que disperse ou dê a impressão de bagunça. Há uma ordenação respeitável nas muitas notas cantadas, nos demais instrumentos todos muito presentes, e no encarte multicor e urbano.

Esta primeira faixa tem letra da própria Manu, e o que é muito notável é que o instrumento Voz - com letra maiúscula, em primeira pessoa, nome próprio - se confunde com o eu lírico. Versos como "Senti a sensação de um ré maior e assim, fiquei por aqui" podem ser interpretados como uma alegria, e em outros como um pranto, da protagonista Voz. É esta o personagem a nos relatar experiências pessoais, reconhecíveis até mesmo no verso em que cita músicos que a influenciaram: se Manu assume influência deles, tua Voz assume também.

A segunda faixa, "Saudade Federal", tem um clima bastante diferente da primeira, com piano e canto tristes na introdução. O fato de não possuir letra, com exceção de uma única frase ("Que saudade, federal"), confere à própria indefinição do que é saudade. Aí está sublime representação desta palavra no canto de lamento de Manu, que a compôs em memória de um federal citado no encarte.

"A Lua", faixa 3, inicia-se com piano entusiasmado favorável ao ambiente de fantasia infantil que se dará. Com versos que graciosamente caberiam na boca de uma criança, como "Quem que fez a Lua e botou ela lá?", recordou-me de uma mulher com quem convivi na infância chamada Gessina. Ela afirmava convicta: "Pode vir qualquer cientista falar pra mim que o homem pisou na Lua, eu não acredito de jeito nenhum". O motivo: São Jorge, também lembrado na composição de Manu no verso "Será que São Jorge mora lá?". Gessina, ao contrário, não tinha dúvidas disso e afirmava (com uma segurança difícil de descrer) conseguir enxergar, daqui, São Jorge espetando o dragão na Lua! "Até parece que o homem foi até a Lua e não filmou São Jorge".

Outra menção sobre esta faixa é o modo como a letra cantada por Manu está perfeitamente encaixada aos demais instrumentos. É comum na música vocal uma certa independência, mas neste caso a voz caminha nos mesmos passos, fazendo raro jus ao que se pode chamar de "todos uma coisa só".

A quarta, "Pra me visitar", tem no arranjo o conforto caseiro, aconchego, café na mesa, roupa de cama, sugeridos não só pela letra mas também por todo o instrumental. Há diálogo da voz de Manu com o clavinet, cujo qual responde com notas a cada frase por ela cantada, com interpretação que muito bem convence tratar-se de alguém na cama sem vontade de abandonar tal conforto e tentando convencer o/a visitante ficar. Ao final, após a última frase com letra, Manu entrega notas mais altas - "entrega" em todos os sentidos do termo, como quem entrega um presente, quem denuncia algo, quem se rende. Cantar é se expor e aqui talvez seja um dos momentos do disco em que Manu mais se expõe.

Na metade do disco, em "Olha Iemanjá" são ouvidas diversas Manus a cantar com um piano. As várias vozes colaboram com a aura mística que envolve tal entidade. Ao dizer que uma coisa é ritualístico é comum pensarmos em religiões, porém, já não seria o próprio fazer música, de qualquer tipo, individual ou coletiva, um ritual?

A faixa 6, "Funk com tudo", dialoga com a faixa 8, "Cantora não", por não possuírem nenhuma letra, nenhuma palavra. São faixas com diversos atos, separados por mudanças no andamento que ambientam cada novo rito. Manu contou em entrevista que "Funk com tudo" nasceu como um funk, mas se transformou em baião e depois jazz. Isto muito recorda escritores revelando como, em certo ponto, seus personagens começam a "falar sozinhos" e guiam a história para um rumo diferente do planejado a princípio. Assim o é com música também: adquire autonomia, decide sozinha onde ir e, de acordo com Manu, "a gente ouve e obedece ao que ela pede".

"Diminuta", sétima faixa, tem parentesco com a primeira: na primeira, a Voz pode ser interpretada como eu lírico da composição; já nesta, a Música, aqui também como substantivo próprio, é o assunto de si mesma. A opção, ou falta de opção, por viver financeiramente dela. A letra é um "Justifique sua resposta" pronto aos que costumam perguntar para músicos se estes trabalham "só" com música. A voz de Rinah Souto, cantora que participa da faixa, é um verdadeiro achado, caprichando na interpretação/dramatização, algo tão cobrado dos cancioneiros.

Se aproximando do final, "Frevendo" tem ritmo festivo, alegre, carnavalesco. Há considerável espaço para os demais instrumentos além da voz solarem, e um espaço apertado próximo ao final onde entram algumas frases velozes não só no andamento mas no próprio conteúdo da letra, sugerindo muita pressa.

A última, "Gratidão", composta pelo baixista Itiberê Zwarg, diferente da faixa de abertura (que, como dito, começa com o bonde já andando), tem uma introdução solene, como se estivesse preparando o público a um pronunciamento importante. E o é realmente. Os agradecimentos finais em áudio e musicados. Mesmo quando o andamento dá lugar a outro mais animado, não perde o tom de celebração. "Dividir com vocês, é tudo que sonhei". Manu dividiu e agora agradece. Gratidão é um rito bastante importante nas religiões tradicionais. Religião, antes de qualquer pré conceito da moda, é religação. Agradecer nesta última faixa é se religar com o que motivou e motiva tudo isso que acabou-se de escutar.

Se o professor citado ao início estiver certo (e, pessoalmente, creio que está) e nós, realmente, "cantamos nossa saúde", solicito que a cada aniversário de Manu Cavalaro teus afetos não esqueçam do voto de "muita saúde".


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Mauricio Cailet

Mauricio Cailet

Título: Time's up
Ano: 2013
Impressão:

Um dos mais comuns pré conceitos em relação à música instrumental é a crença de que este tipo de música é som de gente cult, intelectual, elitizada. Que necessariamente precisará ter instrumentos refinados e eruditos, executando coisas complexas, que somente um gosto que despreza o popular se agradará ao ouvir. Levando em conta isso, o álbum "Time's up" do guitarrista Mauricio Cailet pode ser uma convidativa porta de entrada ao universo do instrumental para os ouvidos que creem nessa lenda urbana.

É um álbum essencialmente de rock, embora alguns outros estilos manifestem-se em certas faixas. Os instrumentos em cena - guitarra, baixo, bateria, percussão e teclado - são conhecidos do grande público e facilmente reconhecíveis na audição.

Mauricio Cailet assumidamente não se interessa em apresentar no disco frases de alta complexidade e difícil absorção, mas sim composições que cheguem em locais do ouvinte que só a música tem eficiência de chegar. O resultado é um álbum de melodias muito bonitas, em que Mauricio se entrega e expõe bastante de si. O rock tem várias facetas e uma delas é justamente a faceta emotiva, muitas vezes auto biográfica, que faz o fã de rock se identificar com a experiência pessoal retratada, a alegria ou a tristeza do compositor. Tal faceta está nesse disco que, sem nenhuma voz audível, consegue relatar muitas inspirações, implícitas e explicitas.

Foi dito em entrevista pelo próprio Mauricio que muitos contam-lhe pegar estrada ouvindo o álbum. As primeiras faixas, "Cadillac" e "Return", dão a atmosfera de road album. Retornar tem a ver com estrada, estradas tem a ver com rock, carros antigos como Cadillacs tem a ver com os chavões de rock. Já nessas primeiras se tem um panorama do que será ouvido: faixas enérgicas, guitarra de timbre muito bonito, bateria bastante presente e forte, pausas valorizadas. Os riffs poderiam facilmente estar presentes em hits de bandas roqueiras com vocal, daquelas quais ovacionam guitarristas ímpares que levantam a plateia. "Cadillac" termina com um solo de bateria, modo bem clássico do rock, e "Return" curiosamente com um fade out, algo que se tornou raro nos dias atuais e, portanto, remete também ao clássico.

"Sleepless city" me fez pensar, pelo título, se estaria falando de São Paulo, que empresta de New York o subtítulo de "cidade que não dorme". A faixa possui diversas pontes, assim como São Paulo de várias pontes e viadutos. Penso todas as contradições da cidade terem sido retratadas pelas mudanças da música: algumas mais agressivas e aceleradas, outras mais calmas e contemplativas com auxílio das teclas, chamando a atenção o fato de serem um tanto breves, como as paisagens na cidade grande, tantas e tão variadas que cada uma parece pequena e rápida de se observar pois logo ao lado tem outra bastante diferente pra ver.

A de número 4, "Only this", é a primeira que mais se diferencia das anteriores. Percussão na introdução, teclado bem vistoso e um tanto vintage, oitentista. Os instrumentos vão chamando um por vez, se unindo em trechos dançantes que se contradizem legal ao tema principal mais tenso.

"Smiles" tem título sugestivo. Mauricio deixou claro que pretende, através das composições, contar histórias, e o título acaba direcionando bastante a esta dramaturgia. Não é preciso manjar de linguagem corporal para perceber que o ato de sorrir para outra pessoa é o ato de baixar a defensiva, abrir as portas, romper alguns tijolos da parede invisível do nosso espaço particular. Nesta faixa os instrumentos parecem bradar frases uns aos outros, se comunicando, como se dessem permissão uns aos outros para avançarem e fraternizarem. Há muita vida expressa na harmonia da composição. O final, onde guitarra e bateria se manifestam rapidamente entre algumas pausas, me lembrou um brinde coletivo, em que se escutam várias batidas de copos espalhadas.

Mesmo o álbum em questão sendo de um guitarrista, a faixa 6 é apenas do contrabaixo de Edson Barreto. Tal ato, quando realizado em um show, tem bastante virtude: auxilia na dinâmica do espetáculo, afinal, por mais que o nome no letreiro seja o do músico considerado principal, o outro também faz parte daquilo e tem então o canhão de luz direcionado a si. Permitir esta mudança de "cara" em um álbum é muito relevante, silenciando todos os instrumentos que até então muito presentes e altos estavam, para que o contrabaixo conte uma história sozinho. "Father and Mother" é esse momento de calma, conseguindo com apenas um instrumento uma breve peça de pequenos atos, com notas que definem bem o final austero. Achei esta uma faixa bastante visualizável, pois parecia conseguir "enxergar", imageticamente, os dedos atacando as cordas. Curiosamente uma mãe está presente no título e, graças aos ares eruditos, acabei associando com a minha, cuja qual tocava violão erudito há anos atrás e uma das primeiras vezes que a vi tocar uma peça fiquei impressionado com o dedilhar rápido e colado um no outro, cena bastante parecida com a imagem citada que me veio à cabeça nesta composição.

"Time's up" é faixa título e imagino que leve este nome por conta do próprio elemento tempo, muito presente na criação e concretização do álbum. Pensar que as composições começaram no final dos anos 90, quando termos como Wifi e Facebook nem existiam, quando celular ainda era coisa de granfino, indo iniciar as gravações na década de 2000, pra tudo estar pronto e ser lançado somente em 2013! Quem presenciou um bebê nascendo em 1997 o viu em 2013 se preparando para logo tirar carta de motorista. A faixa possui diversos ambientes diferentes um do outro, mesclados em uma das passagens por um solo do baterista Johnny Moreira, retratando o passar do tempo e seus intercalares, suas veredas e encantamentos.

Além de "Father and Mother", outras figuras paternais aparecem no final.

"My Light" é dedicada à mãe de Mauricio, Yvonne F. Cailet. Celeste poderia adjetivar a composição, que se inicia e permanece emotiva, não perdendo o tom sensível mesmo com a entrada de uma guitarra de mais peso e das aceleradas no andamento. Possui cor una, é forte e engrandece. Já o pai de Mauricio, Oglai Cailet, tem em dedicatória a última faixa "In Memorian". Interessante o fato de que a mesma começou a ser composta enquanto o homenageado ainda estava vivo, e foi continuada e finalizada após tua partida. O momento da partida é o momento em que o elemento tempo, citado e dignificado no disco, termina para quem partiu, mas ainda assim continua a passar - assim como esta música, que continuou sendo escrita após a partida. É repetido algumas vezes um trecho compassado levemente tenso cujos dedos começam a acompanhar sozinhos após a terceira ou quarta vez que é tocado na música. A temática de falar de alguém que já partiu poderia sugerir tristeza, mas esta acaba sendo, na verdade, uma composição para celebrar uma vida.

O encarte possui arte simples e direta, assim como o é o álbum: o tempo ilustrado na capa através de um relógio com números romanos no qual Mauricio e guitarra estão ao centro. Clássico e novidade estão aqui intrínsecos, se completando, sendo tempo e passar do tempo conjuntamente.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Pedro Pimentel

Pedro Pimentel

Título: Pedro Pimentel
Ano: 2012
Impressão:

Vários estereótipos do que se imagina a respeito de música instrumental caem por terra com esse álbum.

Capa abstrata, requintada e poética? Sim, de todos esses adjetivos, mas de um modo completamente independente ao esperado. Anúncios cheios de pontos de exclamação em balõezinhos coloridos, um televisor daqueles que víamos na casa de nossos avós, um formato de videogame cujo qual estudantes colegiais contemporâneos nunca viram mais gordo na frente. Pedro Pimentel optou por uma arte que lembra os anos nos quais se assoprava fitas de videogame para que essas funcionassem, cujas embalagens vinham cheias de informações e de cores. Assim, Pedro entrega a seu modo uma capa abstrata, poética e requintada - abstrata pelo nó na cabeça proposital, requintada pelo estilo retrô e poética por tudo que significa.

Uma das definições que Pedro Pimentel deu ao CD foi "uma documentação da época", e isso está - não nas entrelinhas, e sim bem exposto - na capa e nas composições. O retrato de alguém que nasceu na segunda metade dos anos 80, foi criança nos anos 90 e adolescente nos anos 2000. Curiosamente o álbum não tem nenhum título além do nome próprio de seu criador, o que torna tal retrato mais personalizado e direcionado ainda.

Apesar de todos os instrumentos terem sido tocados por um único Pedro, não soa como um álbum solitário. Não saberia dizer se é pelos instrumentos estarem tocando conjuntamente em formato de banda, mas creio ir além disso e ter a ver com os 7 anos que o mesmo passou compondo, provavelmente conhecendo e se despedindo de bastante gente no período.

Assim como no álbum "Time's Up" de Mauricio Cailet, quem tem preguiça de discos instrumentais por achar que escutará um som de intelectual irrisório com monóculo nos olhos vai se surpreender com os caminhos possíveis. O disco de Pedro Pimentel vai do agressivo ao emotivo, e faz referências nostálgicas à cultura pop de quem viveu nas épocas abordadas.

"Fechou o Tempo", faixa de abertura, desenha todo o plano de fundo de onde e quando se passa o álbum: Pedro a compôs após fugir de assaltantes, ou seja, adrenalina e perigo são reconhecidos na sonoridade. A bateria programada e o baixo dão a velocidade, enquanto a guitarra parece querer gritar. Há atmosfera de game, soando como algo que já fora moderno e se tornou vintage em poucos anos.

A seguinte "Cavalo de Pau", apesar do andamento diferente, preserva o clima de adolescente de cidade grande de duas décadas atrás jogando dentro de um quarto. As notas furiosas da guitarra e o prato enérgico da bateria passam a ideia de muita energia contida, e até de caustrofobia - joga-se um game e com isso vive-se várias emoções inquietas e pulsantes dentro de um cômodo limitado. Os bends batem e rebatem nas paredes do quarto, buscando com ansiedade se expandirem para além dali.

Dois apontamentos se fazem necessários:

O primeiro é o título desta segunda faixa. Não lembro a última vez que vi pessoalmente um cabo de madeira com uma cabeça de cavalo na ponta. Para alguns, da época do Pedro ou de antes ou depois, apenas um cabo velho de vassoura sem nada nas pontas já servia como cavalo de brinquedo. Notável como Pedro Pimentel referencia games, que foram e ainda são itens modernos - como na faixa 6, "Strider", referência assumida a um jogo lançado em 1990 de mesmo nome - como também traz ao álbum este brinquedo de madeira que é mais simples e antigo, porém mais orgânico e palpável, que também permite boas aventuranças ao miúdo que souber criá-las.

O segundo apontamento é o fato de que Pedro gravou as músicas em seu próprio quarto de dormir, contrariando aquela balela de que atividades criativas não devem ser feitas no ambiente em que se dorme. A vivacidade e intensidade enclausuradas despontaram no som.

A terceira faixa, "O Som do Vidro", me fez questionar se não seria justamente o vidro da janela do quarto a vibrar diante de tanta carga. Porém, essa é uma composição mais calma que as anteriores, que após os curiosos e enigmáticos sons de introdução já se mostra bem distante das supostas trilhas de games. Destaque para os dois timbres de guitarras colocados para um dueto esbelto perto dos 3 minutos.

"No Veneno" e "Tarja Preta" parecem faixas parentes. Os títulos fazem pensar no sangue no zóio que pra muitos é necessário num jogo, e na contenção brusca e química a esse mesmo sangue. Ambas começam marrentas, entregando após o primeiro minuto a música para uma guitarra solar - a primeira com frases mais sensíveis, já a segunda mais colérica. Os estados se mesclam, numa com notas altas e longas, noutra com mais agilidade e menos altura.

Estamos falando de um disco instrumental cujo uma das músicas se chama "O Grito Mudo", ou seja, se já não se espera ouvir vozes aqui, não se esperará especialmente numa faixa com "mudo" no título. Mas, ao ouvido entregue e aberto, essa faixa traz vozes sim! O arranjo um tanto sombrio monta o cenário para que uma espécie de suspiro instrumental se manifeste em escala de tempo muito próxima da respiração do ouvinte. Hão suspiros herméticos ao início, ao solo de baixo, e mesmo quando a guitarra ganha completamente a composição o ouvido ainda busca por eles. Um falso final entrega silêncio de alguns segundos antes da conclusão, sendo talvez uma ilustração à referida mudez do título.

"O Beco", apesar do nome que sugere riscos, é uma composição mais descontraída, do tipo que faz dançar morosamente na cadeira, surpreendente pela imprevisibilidade. Tem um longo solo de teclado, revelando um lado mais tranquilo do disco, embora a faixa termine com o mesmo teclado tenso junto a uma guitarra angustiada.

É de se supor que esteve presente durante todo o disco uma certa nostalgia com as épocas e referências que levaram o Pedro a ser quem era no ano em que lançou o disco (2012), mas na faixa "Um Grande Amigo" o tom emotivo assume o lugar de fala com maior maestria. Antes da bateria entrar já é possível sentir colher determinadas áreas internas nossas sem nome as quais apenas a música consegue descortinar. Frases cantáveis, variações muito interessantes delas, e mesmo nos trechos em que há acelaração o tinido emotivo continua ali.

A última faixa, "Nova Era", é a mais diferentona de todas. Talvez arriscasse afirmar que nem parece ser do mesmo álbum que as demais, sem que isso jamais insinue incoerência - a guitarra forte de todas elas continua aqui, o tom comovente da faixa anterior também. A introdução com cordas acústicas suscita o ouvido, a percussão que lembra chocalho - mais um item de brincar, ao lado do cavalo de pau e dos games - muito bem aproveitada ativa a curiosidade e um sorrir interno. A faixa cresce na medida certa, chegando a seu ápice com as mesmas guitarras nervosas da primeira faixa agora mais enlevadas. Apesar de, conforme Pedro contou, o título ter sido gerado um tanto depois da própria composição, este encaixou-se jeitosamente com a missão de encerrar o álbum: após tantos itens de suas memórias serem postos na mesa, a porta já encontra-se aberta para o novo.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Total de impressões: 15.

Decrescente

Crescente

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