IMPRESSÕES DE RODRIGO VETTORAZZO

Esta coluna não objetiva apresentar análises técnicas sobre as músicas do álbum, mas sim impressões particulares do autor a partir da escuta do próprio, colaborando com a divulgação e a valorização da música independente no Brasil.

Total de impressões: 23.

Decrescente

Crescente

Alexandre Silvério

Alexandre Silvério

Título: Entre mundos
Ano: 2015
Impressão:

Admiráveis mundos novos e velhos estão nas altitudes e latitudes deste álbum do quinteto de Alexandre Silvério. O título "Entre mundos" pode ser interpretado como o pedaço de chão de onde se avistam diversos campos particulares da música. O fagote, do alto de seus dois metros e meio de altura, é quem conduz tamanho giro, apresentando em um álbum duas ocorrências quase tidas como impossíveis: o uso de tal instrumento erudito no jazz e sendo o principal solista.

"Saudade" abre o disco e portas para impressões e interpretações. Um fagote melancólico dá a primeira nota e chama os demais instrumentos que chegam e se apresentam corteses. Pequeno silêncio e inicia-se pra valer uma execução simpática e de alegria triste. O fagote transitando entre o grave e o agudo, o samba ambientalizando um lugar que se assemelha com a Lapa do Rio de Janeiro. No encarte tal faixa é ilustrada com uma poesia de Almir Amarante inspirada na própria composição, onde é mencionada uma imagem cotidiana bastante vigorosa: a Lua já visível no céu azulado de um final de tarde. A saudade, palavra que é lembrada em nota no encarte do CD só existir na língua portuguesa, por mais que tenha esse poder de mexer com nossa alegria e tristeza, não tem o poder de alterar o mundo exterior - ele continua esbanjando beleza, indiferente à nossa falta!

"Tarde em Berlim" e "Meu fagote chorou", respectivas faixas 4 e 9, dialogam bastante com a de abertura. A quarta é uma bossa que, como "Saudade", também rendeu uma poesia que infelizmente não teve tempo de vir no encarte por este já estar finalizado. O título é bastante imagético - muito improvável não imaginar uma cidade abaixo de um céu avermelhado - com a música cumprindo um passeio turístico por Berlim de quatro paradas guiado pelos instrumentos. Inicialmente todos unidos, até o piano assumir o posto de guia com improviso agitado e livre, chamando depois o fagote para a frente junto dele, e deixando a bateria finalizar a incursão. Já "Meu fagote chorou", título que desperta alta curiosidade pela raridade de ouvir um choro com fagote, leva de volta ao bairro carioca de "Saudade" e à alegria triste citada. Tem andamento livre, leve e solto, que se modifica quando bem entende e mesmo assim não descarrilha.

Transitando mais ainda pelo espectro mundial, há a regravação de "My Funny Valentine", já cantada e tocada por tantos e que aqui recebe tratamento peculiar. Certa sensualidade é sugerida e despida, com o fagote na voz principal e os demais instrumentos começando tímidos, até ganharem seu momento e bradarem suas próprias exclamações! Destaque ao improviso das teclas, determinante divisor de águas entre os dois momentos notáveis de acanhamento e desembaraço.

"Valsa para Bill", composição de Vinícius Gomes (guitarras e violão do disco), tem introdução que me remeteu ao fascínio de contos infantis. O piano então muda o clima, acelerando e apresentando outras propostas. Há um interessante trecho em que a bateria se retira e permite um diálogo contemplativo entre fagote, guitarra e piano. É como se fosse um momento de pausa na dança para admirar o salão. O retorno da bateria valoriza a mesma, e o final da faixa é alongado e triunfal, recordando realeza, trazendo novamente a recordação de algum conto de fadas com castelos.

Também pode ser reconhecida como dramatúrgica a faixa "Ballad for Klaus". Um piano desalegre dedica-se à sua introdução, como uma espécie de trilha de abertura indicando que iniciará uma história. O 1º ato se dá tranquilo pelos primeiros dois minutos, até o instante em que os sons parecem requerer maior independência uns dos outros. O 2º ato é feito dos instrumentos entregando algo aos poucos, dando amostras, sugerindo haver algo mais completo escondido, enquanto o fagote bastante deslumbrado improvisa sem interrupções. Então entra a guitarra improvisando bastante contida, se mesclando com o piano em alguns momentos, parecendo todos estarem escondidos observando pelas frestas. Aos seis minutos de música vem o 3º ato, um reencontro com o ambiente do primeiro, a saída do esconderijo. O ato final é como aqueles filmes cheios de "falsos finais", nos quais hão várias cenas que sugerem serem as últimas mas, após o fade out, tem outra cena, indicando ter mais. O fagote chama diversas vezes os demais instrumentos nos três minutos finais, num epílogo extenso e bonito.

A qual considerei mais diferenciada das demais, "Gordus Power", indica pressa. Apresenta piano, baixo e bateria notavelmente apressados. É como se o piano improvisando livremente fosse a trilha, o baixo o personagem a correr, e a bateria os passos do mesmo. Até que fagote e guitarra assumem a corrida, com o fagote apossando-se da trilha e a guitarra sendo o novo persona corredor. Nesta faixa a bateria tem seu local de maior peso do disco, solando e ouvindo-se por inteira, explorando andamentos e ataques.

"Cromática", título da faixa composta por Fábio Leandro (piano e Rhodes), provavelmente se refere à escala musical cromática, mas também recordou-me a escala das cores. A "cor" do fagote parece bem distinta das "cores" dos demais instrumentos nesta, gerando certa tensão. Inicia-se o violão e um fagote que trará frases sutilmente ansiosas, dialogando e discordando. Com a bateria a postos, seguem os dois instrumentos numa direção com os demais. O violão repete as frases marcantes do fagote em um momento, chamando-o para a mesma discussão de novo. Tal ambientação resulta em um interessante final no qual violão e fagote vão revezando nas frases porém de modo mais alegre, como se estivessem rindo da própria polêmica.

O encerramento do álbum se dá com "Un Tango Para El Chico", música de Igor Pimenta (contrabaixo). É a faixa que mais se arrisca, mais apresenta modificações durante a execução sem receio do desconhecido. Vai do tenso ao ameno, da sensualidade à aversão. Entre tantos ambientes diferentes é permitido escutar todos os instrumentos tendo seu local de fala, um tomando o território do outro, permitindo despedir-se de cada um.

Apesar de conter faixas com títulos em inglês e espanhol, bem como uma faixa com a capital alemã no título, todo o som do disco é facilmente reconhecido como brasileiro. A água viva em meio ao oceano na arte da capa e contracapa pode servir de metáfora para esse território comum entre nacionalidades/mundos, cujo mar pode arrastar de uma região a outra sem maiores dificuldades.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Breno Ruiz

Breno Ruiz

Título: Cantilenas brasileiras
Ano: 2016
Impressão:

"Esse disco vai levar um tempo pra escrever a respeito. É bem espesso".

Foram as primeiras conclusões diante do disco Cantilenas Brasileiras do pianista e cantor Breno Ruiz. A capa simples e vintage embrulha tamanha riqueza de conteúdo e detalhes que faz o ouvinte, seja este quem for, sentir-se valorizado. Breno se declara a serviço da Música, mas penso que com este disco a grande consideração dele foi, na verdade, com você. É como se o disco reconhecesse que todo ouvinte, independente de qualquer característica, é um ser apto e gabaritado ao que exige a escuta. Parece complexa de longe, mas de perto é bem direta a partir da entrega. Liberta das amarras cotidianas, do establishment que tão bem motorizou nossas cabeças, a escuta é uma experiência singular. Exige disposição de imergir num universo que dispensa adjetivos - adjetivar também é limitar.

Uma das definições "cantilena" é "canção monótona". Monótono, no senso comum, nos remete ao enfadonho. Mas no canto de Breno o que se percebe é, na verdade, ausência de pressa. A serenidade do cantor que respeita o tempo da música. Aí já se identifica um dos contrastes do universo do disco com o mundo real em aceleração viciosa, no qual estamos automaticamente e integralmente afoitos como se o futuro não fosse chegar nunca e precisássemos correr até ele.

Surpreende saber que o disco foi gravado em 2011, ou seja, quando Breno tinha 28 anos, e já possuía notável maturidade na voz. Maturidade não no sentido clichê a-lá jurado-de-reality-show, mas sim da voz parecer pertencer a alguém que carrega muitas experiências mesmo, como se já tivesse vivido no mínimo uns 20 anos a mais do que tinha ao gravar. Torna mais interessante ainda saber que o próprio já relatou em entrevista sobre seu "pé no ancestral", contando que na infância queria usar paletó e gravata, e que aos 10 anos animava bailes da terceira idade tocando piano junto ao tio sanfoneiro.

No disco, para este que vos escreve, a ancestralidade natural de Breno foi reconhecida em duas faixas: "Donana" e "Caçada de Onça", as respectivas 7 e 8. "Donana" muito recorda histórias de avô e avó, o spin-off das lendas urbanas, aqueles típicos relatos interioranos sobre ataques de bichos selvagens e aparições folclóricas. E a seguinte, "Caçada de Onça", também caberia perfeitamente na narrativa de um avô. A sonoplastia da música é perfeita, graças aos efeitos sonoros de Renato Braz que "responde" com instrumentos de percussão e flauta a cada frase da saga cantada por Breno. Há adrenalina misturada com ingenuidade no canto, como se partisse da preocupação de um sujeito mais velho em entreter uma criança com tal aventura. Porém, ao contrário do termo "monótono" que define "cantilena", a faixa surpreende e revela que o narrador foi engolido pela onça!

Outras faixas que dialogam entre si são as 1 e 2. "Marinheiro do Mar", a primeira, abre o disco com bastante avidez: um piano tenso, pratos de bateria que lembram ondas, uma vastidão sonora possível mesmo com poucos instrumentos. A letra de Paulo César Pinheiro - que compôs todas do disco junto ao Breno - faz uma releitura da tradição das canções de despedida, sendo que nesta o marinheiro não se despede da amada e nem da mãe, mas sim da irmã. Caberia bem como abertura de um musical pois é facilmente reconhecível o personagem principal, com versos que nos aproximam e nos fazem conhecê-lo melhor, como "De tanto olhar pra costeira / Vendo cargueiro atracar / Eu quis de toda maneira / Um dia me alistar".

Já a faixa 2, "Estrela Branca", sugere continuidade à narrativa do marinheiro. O instrumental se inicia semelhante ao anterior, porém, o canto está mais ameno, como se na primeira faixa o marinheiro precisasse ser "durão" na despedida, mas nesta segunda está admirado com as estrelas em alto mar. Aplausos para a poesia da letra, pois a acústica das palavras escolhidas é muito rica ("olerê, olará"). Se fossem apenas declamadas, sem cantar, já seriam musicais!

Se as primeiras faixas parecem feitas para um musical, outras parecem feitas para animarem festas. "Roxina", cuja viola caipira se ouve de cara, revela a disparidade do disco que passeia por diversos estilos e cenários. Sob um andamento dançante e acompanhamento categórico do piano, a letra é a mais ousada do disco: tem erotismo, ritualismo, quebra de tabus e a descortinada de um lado mais selvático. Breno mostra que não tem receio de entregar a interpretação que a composição pede. Outra dançante é "Choro Bordado". Já ouvi de um professor de música que "todo som organizado, por pessoas ou não, é música" - e os assovios e água caindo na introdução de 1 minuto são 1 minuto de "pura" música. "Pura" em qualquer sentido que se queira, não corrompível, completa em absoluto. Piano, baixo e percussão tão bem harmonizados aos sons naturais renderiam, por si só, um belo instrumental! Até que entra a bonita voz de Mônica Salmaso e o que já estava bom fica melhor. São poucos os choros que possuem letra, porém, se o choro "falasse", teria a voz de Mônica, tão bem colocada está, e provavelmente falaria do que esta letra fala.

Outra faixa cuja letra parece fazer uma espécie de tradução simultânea ao que o instrumento está querendo dizer é "Modinha Triste". O canto e a melodia no piano estão tão bem casados que fazem a poesia parecer tentativa das notas do piano em falar com palavras. Curiosamente, como a faixa comentada anteriormente, esta também não é cantada por Breno e sim um convidado - no caso, Renato Braz. Há uma rouquidão interessante em pequenos trechos na voz de Renato que fazem jus à letra e melodia desoladas. Renato também canta em "Viola do Bem Querer", curiosa pelo fato da letra ser declaração de amor à viola, mas não haver uma na gravação. Torna-se então um depoimento, onde piano e baixo emprestam sua sonoridade para que o violeiro declare-se ao instrumento adorado e, como a letra mostra, necessário. Já em "Cantilena Sertaneja" não falta violão! Apesar de sutil, a melodia faz com que nosso ouvido busque ele, se esforce para destacá-lo entre os demais instrumentos, visto a temática de sertão.

Breno distribuiu pelo disco três faixas de apenas piano e voz.

Na primeira delas, "Flor Lilás", o piano da introdução, logo que tocado, é familiar. Está em algum lugar do subconsciente do brasileiro, talvez nos desenhos animados que crescemos assistindo cujos quais eram musicados por pianos, ou alguma outra referência. O tico-tico, pássaro bem brazuca, cujo nome até declamado já é melódico, é citado em uma estrofe que se repete três vezes. Um pássaro ciumento e urbano, tanto que é citado na letra o ninho que fez na cancela. "Dança de Mucama", a segunda piano e voz, também visita nosso memorial inconsciente e de lá traz o tal do Samba-lelê. Por fim, a última piano e voz e também última do disco, "Roseira", conta as diferentes relações de diferentes seres com uma roseira - as relações de uma abelha, um joão de barro, uma borboleta e um louva-a-deus, mostrando como a roseira é traiçoeira com eles.

Há uma certa mística no disco, não sei se intencional ou não, no tanto de imagens que trazem à mente. No quanto nos desliga e religa com nossas origens. No quanto de versos impactantes cuja vontade é anotar para que não sejam esquecidos. Em instrumentos que não estão listados no encarte mas juro ter escutado-os em algum momento.

Evitei adjetivar o universo do disco no primeiro parágrafo, porém, penso que agora, sem jamais querer limitá-lo, "intrigante" talvez seja um bom adjetivo. É pena que "intrigante" tem, popularmente, uma interpretação pejorativa. Mas basta buscar pelos significados completos do termo que, entre os que caberão bem ao disco, estará: "que incita a curiosidade; que consegue surpreender". Creio que é isso mesmo! Lembrando que uma das definições de cantilena é "canção monótona", veja só que beleza: intrigante é justamente o contrário de maçante!


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Cássio Ferreira e Rodrigo Chenta

Cássio Ferreira e Rodrigo Chenta

Título: 3136
Ano: 2017
Impressão:

Concluir uma obra, artística ou não, é passar da intenção à realização. Quando pensa-se nisso logo é imaginado um demorado caminho entre estes dois polos que inclui ideia, planejamento, decisões, recusas, esforços, por vezes aborrecimentos e aguardadas satisfações. O processo de compor costuma integrar todos estes estados e, comumente, leva tempo. No caso de "3136", por se tratar de música espontânea, todas as fases citadas ocorreram simultâneas e instantâneas. Intenção teve duração muito curta pois na fração seguinte já era realização, devidamente gravada e com vaga garantida na posteridade.

Um teatro moderno, confortável e primoroso, e um bar de jazz soturno típico daqueles que se vê em séries norte americanas: em ambos os ambientes, bem distintos e provavelmente longínquos, caberia a performance deste disco. É música erudita e excêntrica conjuntamente. Forma convencional e não convencional conviventes e convenientes uma com a outra.

No título as idades dos dois instrumentistas na época da gravação e, curiosamente, idades que representam o "day after" de períodos determinantes da vida. Mesmo em 2017 os 30 anos ainda são (e certamente continuarão a ser) vistos como idade taxativa e cada qual encara a sua própria maneira, tênue ou não, a chegada - porém, aos 31 nota-se o óbvio de que a vida não para nos 30, na idade que tanto alarde se faz ao redor. Os 35, embora menos discutidos, tem lá seus subtítulos como "o fim da adolescência moderna" ou outros contraditórios entre si como "o auge da satisfação" ou "auge da solidão", fazendo dos 36 o capítulo seguinte de tal pico enigmático. Se estas idades, encaradas com bom humor, podem simbolizar desprendimento e supervivência após a crise dos 30 e o sobressalto dos 35, o disco nomeado com tais números assim o é também desprendido e despojado. Quem aos 29 ou até aos 34 ainda sofre com pautas de uma constituição comportamental invisível, os 31 e os 36 são boa pedida para simplesmente "ser", como as três longas faixas simplesmente "são".

Ao iniciar a escuta da primeira, "31", com poucos segundos já se nota a desconvicção: o sax soprano de Cássio Ferreira com notas que conseguem ser sutis e agressivas unidamente, enquanto Rodrigo Chenta batuca no corpo da guitarra acústica. Não só na madeira mas também nas cordas, causando timbres agudos e aflitivos. Só aos 1:20 de música que a guitarra entra dedilhada, cheia de propostas variadas, em litígio com um sax sem medo de ir ao extremo. Por mais que estejam ambos instrumentistas tomando decisões o tempo todo, em alguns pontos esta ação fica muito clara - como por volta dos 4:28 em que pausas e minúcias entregam as decisões e indecisões.

"Quem está conduzindo agora?" é uma pergunta frequente na audição. Nem sempre é possível definir pois rapidamente um dos dois pode desviar da proposta. Vide aos 5:36 em que o sax sugere um trilho, desenha-se então um cenário alegre, mas logo ambos ficam tortos indo cada um a um lado. Até que a guitarra insiste na mesma região por desmedido tempo e o sax se debruça sob a base formada, fraseando e podendo concluir a proposta apresentada. Já quando se chega aos 7:40 o ambiente é completamente outro e há duvida se os instrumentos não se tornaram, na verdade, uma flauta e um violão, tamanha suavidade e cautela. É a preparação para a parte final e mais curiosa, onde Rodrigo volta a atacar as cordas gerando sonoridade que lembra chuva. Os timbres do batuque se intensificam e a chuva vira chuva de pedra - se a faixa fosse ter outro título ou um subtítulo talvez "Chuva de Pedra" cairia bem. O sax emite ventania e causa o momento mais imagético da faixa. Se música é todo som organizado, espontâneo ou não, aí está o testemunho.

Na segunda faixa, "36", a guitarra acústica da peça anterior dá lugar à maciça e inicia sozinha, propondo uma sonância mais popular e familiar aos ouvidos. O sax entra bastante areado, dando corpo à expectativa que o ouvinte já criou a estas alturas à sequência rotatória de 3 notas que a guitarra vem apresentando, que logo se transformam em 4, depois 5, assim crescente. Logo são ouvidos timbres bastante difíceis de identificar a origem, que lembram água escorrendo pelo ralo após o mesmo ficar entupido - teria sido causado pela chuva de pedra que caiu no disco a pouco? Chega a ser sombrio, incitando muita atenção. Os sons parecem presos dentro de algum lugar da guitarra e agonizam como uma ave presa dentro de uma gaiola, enquanto o sax regojiza-se de liberdade do lado de fora. Só aos 4:30 é que os zumbidos parecem ter encontrado uma frestinha de luz na madeira e podem sair, manifestando-se nas cordas ainda com a visão fragilizada pela claridade repentina.

A ausência de um comandante continua sendo atestada: em torno dos 7 minutos, após audível titubeação, ambos instrumentos se decidem por uma levada mais dançante, mas não demora para que a guitarra mude completamente e soe angustiosa enquanto o sax fica ainda mais funkeado. Mais adiante, aos 9, a guitarra opta por uma região bastante inusitada abusando do grave, causando sons longos que recordam tambores orientais gigantes. Talvez inspirado por isso ou não, o sax opta por uma linha que recorda tal cultura. Logo o sax queda-se nervoso, bastante nervoso, e a guitarra vai na onda, destruindo a serenidade oriental ambientada parindo sons, imagens e sensações tudo junto. Até o final da faixa o desconforto vai do grave ao agudo e ao grave de novo, passeando pelas alturas, amenizando pra depois agredir mais, sugerindo que ambos instrumentos foram rebentados a exaustão e abandonados.

Se a primeira faixa já começava quebrando as expectativas do que um ouvinte poderia esperar de um disco de sax e guitarra, a última, "3136", entrega o esperado pelo senso comum a um duo destes dois instrumentos: iniciam juntos, melodia bonita, sax agitado e guitarra amena, as devidas inversões de intensidade, o que se repete em alguns momentos ao longo da faixa. Há acordes da música "Giant Steps" do saxofonista John Coltrane e trechos do jazz "All The Things You Are" composto por Jerome Kern, jazz este que breve completará centenário.

Alguns momentos merecem destaque, como o raro coro aos 2:38 em que ambos instrumentos vão e param juntos algumas vezes. Já perto dos 4 minutos vem a aflição e, enquanto a guitarra vai pra uma levada mais rock, o sax emite longas notas que lembram distorção de guitarra. Há breve citação de Metallica e interessantíssimo momento em que o sax sola sob a base da guitarra com tamanha altura e vivacidade de modo que caberia muito bem em qualquer metal, bastante criativo e arrojado. Mas neste disco os cenários duram pouco e logo adiante, em meio aos 6 minutos, outro momento é proposto, bem confortável e contemplativo. Segue-se um longo tempo com o que, conforme dito mais acima, talvez seja o que boa parte dos ouvidos espera de um dueto instrumental desses.

Se aproximando dos já 13 minutos de peça, após dedilhados e dedilhados de guitarra, o sax também a passa ser utilizado fisicamente como percussão gerando timbres inéditos e curiosos. A guitarra aprecia a ideia e ouve-se então um excepcional solo de batucadas feito por guitarra e saxofone - curto, mas muito significativo. Em seguida Rodrigo permanece na percussão enquanto Cássio fraseia, e é impressionante pensar que tais batidas são feitas apenas por duas mãos e um instrumento, tamanha variedade e disparidade. A sequência final é de suspense, em que a essência do disco vem a tona com tantas notas pouco usuais. Ambos, neste encerramento, conseguem soar tão sutis e tão presentes que é de se admirar. As notas vão parando aos poucos e então as vozes de quem as produziam são ouvidas.

Música independente é assim chamada quando não depende de investimento institucional, dependendo exclusivamente da força de vontade de seus realizadores. "3136" é uma obra duplamente independente: não só nos termos burocráticos de mercado, mas certamente tão inquietante e misteriosa aos seus próprios criadores que é quase uma criatura independente.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Cézar Roversi

Cézar Roversi

Título: Entre linhas
Ano: 2014
Impressão:

Anos atrás, ao adquirir um celular que, mesmo para a época, já não era considerado tão moderno, notei que entre as opções de câmera havia o tal do modo panorâmico. Estava na moda registrar imagens de paisagens utilizando esse modo, com visão ampla e girando em torno do próprio eixo. Pela inexperiência, ao tentar tirar a primeira imagem panorâmica - um jardim onde haviam alguns indivíduos sentados em um deck - notei a dificuldade de manter o eixo e as falhas que isso gerava com algumas pessoas saindo com movimentos cortados e figuras perdidas no meio do cenário. Mas artisticamente ficava legal, tinha lá seu charme. Recordei-me desta involuntária obra imagética ao escutar a faixa de abertura do disco "Entre Linhas" do saxofonista César Roversi, faixa que leva o título "Panorâmico". Isso porque aos 1 minuto e 10 segundos de música a mesma, que corria muito bem obrigado, tem uma curiosa diminuída de volume e uma brevíssima confusão instrumental, coisa de segundos, que assim como na imagem panorâmica citada teve resultado atrativo.

Colocar este álbum para tocar é sentir o poder de rapidamente modificar o ambiente ao teu redor. Do conforto da tua residência, és levado a outro local realmente, pois diversas são as cidades presentes nas faixas e na sonoridade.

"Panorâmico" e "Corredeira do Rio Pequeno", as duas primeiras, são choros que levam o ouvinte ao arrimo dos bairros boêmios do Rio de Janeiro. Curiosamente César Roversi é de uma cidade paulista cujo nome é o mesmo de um bairro da zona sul carioca, Leme, e estudou no grande empório musical do interior de São Paulo, Tatuí. Na primeira faixa tocando sax tenor e na segunda sax soprando, César traz interessantes diálogos com a flauta de Rodrigo Y Castro, sendo tais instrumentos os protagonistas do álbum. Se na primeira o som dos dois sopros é mais uniforme, na segunda mais dialogam do que fazem coro, perguntando e respondendo, concordando e discordando. Destaque ao ritmo bastante acelerado de correnteza da segunda faixa, com um episódico solo do violão de 7 cordas próximo ao final.

A terceira faixa, "Misto Quente", já tinha me despertado curiosidade de ouvir ao saber que não haveria flauta e sim mais um sax tenor assumido por Nailor Proveta (também compositor da faixa). Como ficarão dois sax iguais na mesma música? Bem, o clima é de amizade, mesa farta, com os dois sax dialogando de modo imprevisível, em frases de pequenas quebras. Violão, cavaquinho, pandeiro e percussão tem todos teus momentos próprios, com a última tendo um timbre bem curioso em certo trecho.

Após três faixas animadas abrindo o disco, chega um momento melancólico com "Saudades de Belo Horizonte" - e mais uma cidade aparece!

Existe certo encargo ao colocar "saudades" no título de uma música. Imagino ser difícil ficar indiferente, já que é uma palavra que muito rapidamente remete ao teu significado e se faz sentir. A própria fonética da palavra já tem esse poder, com o ditongo "au" num "á" que sobe a voz pra descê-la imediatamente com o "u". Sensação boa e ruim juntas, ou então ruim e boa, assim invertido, a depender da preferência e do próprio objeto ou ser de saudade.

Assim, a faixa que exprime a falta de Bê-Agá começa com um sax tenor triste, entrando posteriormente a flauta de Toninho Carrasqueira também a lamentar, mas de forma mais espantada. Este é um feito muito interessante de se observar, os dois modos diferentes dos instrumentos sentirem saudades: o sax mais calmo, mais contido, numa saudade jururu, e a flauta angustiada, gritando mais. O cavaquinho também pranteia a teu modo, com todos os diferentes sentires bem inequívocos, em especial ao final da música.

A melancolia tem continuidade na faixa seguinte, "Doce mente", que chama a atenção de diversas maneiras. Primeiramente por ter o sax acompanhado somente pelo violão e cavaquinho. O compasso então se dá pelas cordas, o que fica bem claro nos dois momentos de mudança de andamento. Posteriormente, o fato de "doce" e "mente" estarem separados no título intriga - doce remete à infância, mas também ao amor e à sensualidade. Enquanto o cavaquinho desta faixa me lembrou uma música de ninar (infância), as duas aceleradas mui breves mudam bruscamente os ares para um tom sensual e adulto, gerando contradição. Seria portanto esse o doce que mente? Vale destacar por fim o quanto é possível escutar o fôlego saindo dos pulmões de César para dar som ao sax tenor nesta gravação. A ausência de tantos instrumentos despiu o sopro.

Na faixa 6, "Jabutunga", o ouvinte que se permitiu viajar pelo Brasil pela escuta será transportado ao Nordeste. O pandeiro dá lugar ao triângulo e forma-se um baião bastante divertido. É significativo como a música não ficou presa apenas dentro deste estilo, evidenciada pelos diferenciados solos de flauta e sax, e também seu final apoteótico onde até exclamações são ouvidas.

Nas seguintes "Coquinho" e "A César o que não é de César" o clima do início do disco é retomado. De volta ao choro mais tradicional, uma clarineta divide as vezes com o sax tenor na faixa 7, enquanto um sax soprano é o único sopro na 8. Bastante espirituoso o título da oitava composição, uma vez que a mesma é de Zé Barbeiro, responsável pela direção do álbum. O sax soprano toca nesta de modo bem enérgico, quase furioso, acompanhado na mesma inquietação pelos demais instrumentos, sem medo de entregarem ao maestro o que lhes exige.

Se em todo este álbum o tradicional e o moderno estão juntos, mesclados e adstritos, no Brasil há alguns anos é possível notar uma prática tradicional retornar às ruas nos primeiros meses do ano após muito tempo esquecida, transfigurando-a numa tradição moderna: os blocos de rua! Na faixa 9, "No Fio da Navalha", o que se escuta é uma deleitosa marchinha de carnaval, que graças ao retorno da tradição dos blocos não precisa ser vista apenas no Rio ou na Bahia, mas também em São Paulo e diversas outras cidades. Esta composição que é parceria de César com Zé Barbeiro lembra confetes, máscaras, baile a fantasia, e faz pensar como equivocado é quem acredita que apenas a música erudita exige esforço e a popular não. Aqui o popular prova ser também dificil, de arranjo bem sofisticado e trabalhoso. E divertido.

A décima e última faixa é "Valsa para Edi", composição de Toninho Carrasqueira na qual o terceiro e último tipo de sax (sax alto) aparece. Nesta, muito audível é o afinco dos pulmões de Toninho trazendo ares para a flauta. O tom é de ternura com sax e flauta dando espaço um pro outro, fraseando de modo próximos. A valsa mais tradicional se manifesta aos 2:50, sem perder a referência do que vinha sendo apresentado antes. Um minuto depois há um curioso e discreto silenciamento dos instrumentos, para uma espécie de bis breve de encerramento. Assim termina o disco, ainda nos últimos segundos sendo possível escutar o som de sopro humano citado. Literalmente o último suspiro após esta experiência que além de sonora também é turística e viajante no tempo.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Dé Bermudez

Dé Bermudez

Título: Colcha de retalhos - parte 1
Ano: 2017
Impressão:

Foi no inverno de 2012 em Campos de Jordão que Dé Bermudez reconheceu a paixão de outrora pelos bordados. "Reconheceu" e "de outrora" pois na árvore genealógica da baixista a costura tem presença resistente e farta. Nas paredes da pousada em que estava hospedada haviam diversos quadros feitos em ponto cruz que muito lhe encantaram. Voltando a São Paulo, Dé comprou algumas linhas e arriscou sua primeira obra: uma toalhinha com os nomes das filhas caninas, Elis e Luiza. Dias depois receberia a visita da avó Doracy que, então, como faz o mestre ao decidir que é enfim o momento de revelar os "segredos" acumulados, os passou adiante à Dé. E assim veio seu primeiro quadrinho: quatro cupcakes coloridos.

Não tem sido tão comum conhecer casos recentes de tradições familiares sendo transmitidas, o que torna o episódio bastante cativante visto que Dé se interessou por tal tradição já adulta e ainda tendo o privilégio de receber as instruções diretamente da própria nata. É como se pudesse identificar aí o reencontro com suas primícias, algo que talvez já estivesse intrínseco no sangue e no pertencimento. Assim como um disco dos pais que na infância e adolescência não nos interessava, e depois crescidos descobre-se o quanto o mesmo é legal e esteve ali o tempo todo.

Há relações além-título entre este passado e o primeiro EP de Dé Bermudez, "Colcha de Retalhos - Parte 1".

Música e bordado tem diversas semelhanças: desde a óbvia de que ambos são expressões artísticas, mas também que ambos são artesanais, ambos necessitam de trabalho manual. A colcha de retalhos cuja qual ilustra a capa é uma reunião de diversos pedaços de imagens em variados formatos e tamanhos, mas a maneira como estão organizados não fazem parecer caótico, irregular e sem propósito. Bem ao contrário, há uma coerência, uma lógica que não tarda a saltar aos olhos, harmônica assim como a reunião de notas o faz na música.

Ao iniciar a primeira faixa, "Paca tatu cotia não", o baixo de Dé é o abre alas. Um dedilhado forte, ansioso. A composição é do baixista Nico Assumpção, cujo um dos primeiros (e, talvez, realmente o primeiro) trabalhos de pesquisa acadêmico sobre sua vida e obra foi feito pela própria Dé! É de se imaginar toda a força vital que deve ter sido necessária para conseguir concluir um trabalho desses nos tempos de internet discada, e tal ímpeto ecoa no dedilhado dos primeiros segundos.

Aos 10 segundos a guitarra de Pedro Pimentel se anuncia com timbre bastante curioso, que num primeiro momento lembra (muito!) um violino. "Se anuncia" pois não é uma entrada brusca e sim aproximatória, como quem observa de longe, se avizinha aos poucos, fazendo notar-se a presença averiguando se é bem vindo ali, pra então instalar-se junto ao baixo de Dé e à bateria de Elder de Souza. Introdução rápida, de 25 segundos, mas com todas essas cenas e memórias.

Inicia-se então o primeiro momento pós-intro com o baixo pontuando agudo ao final das frases, guitarra exprimindo sonoridade divertidamente intrigante, e o prato a anunciar a aproximação do novo ato. Como é esperado em músicas de power trio, os três instrumentos ao longo dos vários atos da música sempre estão bem audíveis e assinalados. Há espaço para a guitarra fritar e distorcer, até a galante inversão aos 2:52 quando a guitarra responsabiliza-se por uma base funkeada e o baixo se põe a solar. Quando se está nos 3:28 a bateria transmuta à batida que os ouvidos prontamente associam ao eletrônico, recordando o próprio conceito citado de colcha de retalhos onde variadas formas se mesclam como os estilos ouvidos (rock, funk, eletrônico) se aglutinam.

Com 4 minutos de música percebe-se que a atmosfera da música mudará consideravelmente, o que é reforçado pela sonoridade em tom de suspense. Novamente a guitarra surpreende bastante com a capacidade de gerar timbres tão envolventes.

O caminho até o fim é uma verdadeira riqueza sonora, trazendo de volta outros cenários pelos quais a faixa passou, novos retalhos de cada instrumento se amostrando, culminando num falso final com aura de conto de fadas do qual pouco se reconhece daquilo que havia ao início. Rola então uma espécie de encore num ato final curto e mais próximo do que se ouviu ao longo da faixa, com encerramento simples e direto.

"Convescote", título da segunda faixa, já como palavra é primorosa como poucas. Tem até certa sonoridade engraçada típica que as palavras de época adquirem, como batuta, quiprocó, fuzarca. Convescote significa piquenique e o ritmo animado com o qual a composição começa não deixa mentir. Baixo e bateria lembrando um samba dominical ótimo pra se haver uma colcha de retalhos estendida sob a grama bem verde, servida de uma cesta cheia dos pitéus, até que a guitarra, ao contrário da faixa anterior, não se aproxima aos poucos e sim invade mesmo, rude, suja e barulhenta!

Porém, o clima de domingo no parque não é abalado e sim graciosamente mantido, com destaque a partir dos 1:12 em que baixo e guitarra executam as mesmas frases num diálogo e sintonia que bem se manterão por toda a faixa. Os dois instrumentos de corda fazem as vezes das mesmas bases um ao outro, permitindo a ambos solar sem sumir as referências. Destaque também à sequência final após os 4 minutos em que diferentes viradas na bateria são ouvidas e a frase principal da música, acelerada porém já cantável, encerra conjuntamente a segunda faixa e a Parte 1 da empreitada de Dé.

As imagens internas do encarte - linhas, tesouras, dedal, fita métrica e outros materiais de costura - são daquelas que rapidamente trazem a associação com "casa de avó". E não é qualquer cacareco que é merecedor do sobrenome "de avó". O grau de exigência é alto! Não basta um bolo de laranja estar bonzinho pra receber o título de "bolo de avó". Não é qualquer jardim que se olha e se reconhece o selo de qualidade de "jardim de avó". Avós deixam impressões digitais de avós nas coisas que mexem. Ao neto, afeto. Todo afeto é subjetivo de se explicar, mas não o é em reconhecer. Afeto este presente, de alguma maneira, nas entrelinhas e entresons destes retalhos.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Daniel Guimarães

Daniel Guimarães

Título: Ensimesmado
Ano: 2014
Impressão:

O distraído está entregue a si mesmo. É uma forma de entretenimento. O entediado nada encontrou que considere merecer concentração naquele momento. Já o ensimesmado está compenetrado em si, como a separação das sílabas deste termo pouco comum já entrega. O quão coerente será que é classificar o introvertido como um indivíduo com falta de atenção? Lembrar-se de uma coisa é um excesso de esquecer-se de outra. Distrair-se é um excesso de atenção ao não visível.

O disco solo do violinista e guitarrista Daniel Guimarães leva por duplo propósito o título "Ensimesmado": não apenas o próprio se considera um ensimesmado, como aposta que sua música dialoga com sua familiaridade mineira por ser, de acordo com o próprio, "meio para dentro". Já disse Carlos Drummond de Andrade: "ser mineiro é ter vida interior".

A introdução de 20 segundos do tema de abertura "Revoada" é um aperitivo do Daniel que se escutará ao longo das faixas: violão microfonado e tocado em totalidade por pizzicato. Considerável pausa, um toque no bumbo, e agora é pra valer! Timbre muito intrigante da guitarra que lembra um teclado vintage, com impressão de ser tocada a certa distância, meio tímida. Até que a voz de quem a toca começa a cantar e se contradiz com tal timidez! A voz logo se transforma em vozes, performando um número tão bonito que facilmente hipnotiza o ouvinte o distraindo. Revoada pode tanto ser o voo da ave de volta ao sítio de onde partira como também um bando de aves ou insetos em bando. Ambos significados cabem para tal composição: o primeiro contato de Daniel com um violão intermediado por um primo de Belo Horizonte, como o efeito de uma revoada de pombos ou insetos que rapidamente nos alerta e pelo volume nos impressiona.

Na sequência a única faixa solo e que denomina o álbum todo, "Ensimesmado", somente Daniel e seu violão diante de dois microfones - quanto mais só, mais exposto; não há bem simplicidade numa situação dessas pois cada nota, cada informação trazida, é altamente percebida. Há uma diferença curiosa de volumes em diferentes momentos da gravação cujos quais causam a impressão de que as notas estão mesmo numa espécie de indecisão, ou de "se deixar levar", ora se mostrando mais, ora parecendo quererem se recolher, bem como uma pessoa introvertida (ou, mais vulgarmente falando, a falsa tímida).

Faixas 3 e 6, duas valsas, "Valsa Amiga" e "Nossa Valsa": a primeira com acordeon de Gabriel Geszti, a segunda com violão de Felipe Machado; o primeiro título caracterizando a valsa, o segundo indicando a quem pertencem. Na primeira a bateria de Georgia Câmara toca com a liberdade e diversão típica de quem está a vontade entre amigos, na segunda destaca-se o improviso das cordas dos amigos Daniel e Felipe. A primeira encerra-se com um começo de nova faixa que morre antes de chegar aos 6 segundos, a segunda com certa tensão ditada pelo baixo de Auriu Irigoite.

"Como se fosse sombra" tem sonoridade oitentista e o título, provavelmente sem querer, gera engraçada relação entre os tempos contemporâneos e os citados anos 80: a nostalgia anda lucrativa, festas temáticas back to 80' não saem de moda, seriados com referências desta década dos filmes de monstro e faixas no cabelo são sucesso até com o público que nasceu bem após a mesma, sugerindo que estamos, como diz o título da composição, vivendo numa espécie de sombra retrô onipresente. As diferentes guitarras que Daniel utilizou na gravação, os ricos timbres e o canto saudoso rompem os muros do tempo e aglutinam passado e presente um a luz e sombra do outro.

Ao terminar esta e iniciar a próxima, "Limbo", a introdução sugere que o disco permanecerá no mesmo universo retrô, um tanto sombria e psicodélica. Até ter a primeira virada aos exatos 15 segundos e pular a um caminho completamente inesperado: um animado frevo com bandolins, moderno e fresco. Parceira da faixa 8, "Carnaval no Andaraí", um samba que assim como o frevo também remete ao tradicionalismo mas aqui em atualizada interpretação, com interessante momento de guitarra solitária porém alegre.

"Trinta Anos" apresenta um duo de violões sem crise, diferenciados e ao mesmo tempo sintonizados sem dificuldades. Há um quê de pranto a competir com uma euforia que sugere querer se manifestar, mas neste caso a lamúria parece vencer ao final devido às notas e timbres lacrimosos.

As faixas que encerram o álbum conversam no título: "Vida e despedida" são dois termos que fazem parte um do outro, pois após um tem o outro - a cada despedida a vida continua, até o dia da nossa própria despedida. Com considerável sobriedade tal composição se dá. O acordeon de Ricardo Rito está bastante confortável, assim como a melodia desenhada pelo bandolim novamente assumido pelo próprio Daniel. Hão improvisos para diversos gostos numa faixa com total cara de encerramento. Uma última insistência do bandolim e do acordeom se prolongando na despedida.

"Ao que virá", última faixa, não é oficialmente um bônus track e talvez não caiba mesmo nesta classificação. Uma extensão, talvez. O título já explica isso: é um aceno ao futuro. É a continuidade pois ao encerrar um ciclo há uma continuidade do feito maior para que possa brevemente iniciar-se um novo ciclo. É a única canção do disco e Daniel Guimarães declarara ter vontade de futuramente gravar mais canções, o que ilustra ainda mais esta convocação ao porvir. Após o por-do-sol há sempre um porvir pois sabe-se que horas depois virá o dia seguinte. E é disso que trata-se tal composição, um chamado otimista, uma proposta pacificadora com a própria vida. O canto de Daniel é realmente bonito, recordando com nobreza mineiros como Flavio Venturini e o próprio Bituca, à altura da letra - a letra apenas como texto lido no encarte já é significativa, cantada ficou impecável! Ao virarmos de costas para o que acabamos de nos despedir, estamos nos virando ao que virá.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Fernando TRZ

Fernando TRZ

Título: Vol. 2
Ano: 2016
Impressão:

O tecladista Fernando TRZ fez, em entrevista, observação bem interessante: o profissional de trilhas sonoras costuma ser bem compreendido e valorizado quando presta serviço para ramos como cinema, teatro e dança; já em outros, como por exemplo o publicitário, o entendimento é diferente. Ainda há bastante preferência por utilizar trilhas já prontas e disponíveis do que investir em um trilheiro para compor algo inédito e exclusivo. Talvez isto signifique, em conclusão um tanto óbvia, que ramos ligados à arte estão mais inteirados do poder de uma trilha - o quanto ambientaliza o público, dá o tom do humor intencionado e carimba uma identidade.

A primeira faixa do disco intitulado "Vol. 2" do TRZ Trio, "Limiar", tem um tanto cara de trilha. Virada na bateria de Paulo Almeida chama os demais para uma introdução entusiasmada e apressada. O timbre do teclado de Fernando TRZ talvez possa ser adjetivado como pós moderno, sem ligação com o conceito histórico do termo e sim por parecer algo que, em algum momento, já fora moderno, mas hoje se junta ao vintage. Como um videogame ou software cuja aspiração de ter sido inovador no passado é seu charme hoje. Com menos de 30 segundos a introdução dá lugar ao que será a linha da música, muito bem qualificada pelo baixo de Fabiano Nunes com certeiras interações do teclado e tema praticável, fácil de "cantar". A percussão bem audível faz com que o elemento humano e o senso comum sobre trilhas de softwares propositalmente se confundam. A piração eletrônica que toma conta do final desmaterializa qualquer ordem e sobriedade sonora esperada em um site comercial, recordando tratar-se de uma faixa de disco.

O termo "limiar" que nomeia a faixa de abertura está ligado ao início de algo, mas também pode se referir à portas e soleiras. Começo do disco, primeira porta aberta, e outros inícios: a gravação foi em São Carlos, cidade cuja qual Fernando TRZ tem como início de si próprio e voltou a ter como residência pouco antes das gravações em fevereiro de 2016. Atravessar em retorno uma porta que deixou aberta durante os 15 anos vividos fora dali. Pensando nas diferenças entre uma capital como São Paulo e uma cidade interiorana como São Carlos, "Alvorada", título da segunda faixa e também composição de Fernando, traz matutações.

Uma noite silenciosa no interior a se escutar grilos e vento é corriqueira. Já em São Paulo uma noite silenciosa é até mais possível do que se imagina, mas a impressão é que sempre haverão sons distantes de caminhões cruzando alguma avenida próxima ou sirenes. E é um instigante som que parece misturar vento uivante com uma sirene distante que abre a segunda faixa. Os instrumentos soam como se estivessem acordando após uma noite de sono, erguendo-se peça a peça. A condução crescente passa toda a ideia da cidade ganhando ritmo pouco a pouco. O sax e flauta de Everton Pêra trazem conforto, semelhante a segurança que o cotidiano também traz. Após um solo de baixo bastante vivente e íntimo onde sugere-se ser permitido escutar de perto os dedos relando nas cordas, há espaço para o sax entregar belo final, sem receio de ir ao estridente, como uma ave preocupada em fazer o anúncio da alvorada chegar o mais longe possível.

"Ueare", composição do baterista Paulo Almeida, é curiosíssima: consegue unir tantos ritmos brasileiros diversos um no outro sem causar estranhamento que parece um desfile alegórico de estilos. Em grande parte mérito do próprio baterista que puxa as batidas características e estabelece os cenários, mas também o bandolim de Lucas Neves quando um choro é apresentado, mais o teclado que ora soa como máquina antiga de música, ora como gaita, fazendo também as vezes do instrumento de choro em divertida mixórdia.

A quarta e última é uma releitura de "Terra de Ninguém" de Marcos Valle, uma marchinha triste como a letra assumia já em seus longínquos anos de composição, aqui em versão contemporânea intrigante. O teclado está psicodélico e provocativo. Difícil ficar indiferente à melodia de lamento chocante enquanto percussão e baixo animados a contrariam. A cuíca manifesta na parte B soa irônica, embaralhando festividade com tristura e protesto. Sons eletrônicos e manuais no que se oferece como ato final se somam para depois irem, seguidos pelos demais, cada um a um lado, a lembrar diversos blocos de rua espalhados e independentes fazendo a sonoridade desvairar mais. Tem-se realmente uma terra anárquica de ninguém, até os sons se ordenarem novamente na longa virada final, encerrando. Já alertaria a letra de Marcos Valle: se a terra é boa o dono sempre (re)aparece.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Fernando TRZ

Fernando TRZ

Título: Vol. 1
Ano: 2015
Impressão:

Estariam tão distantes o tributo monetário e o tributo de homenagem? O primeiro é obrigatório por lei e alvo de protestos, impondo ao indíviduo o dever de entregar parte de sua renda para manter nossa estrutura. Já o segundo, por presumir-se de cara que é espontâneo, já sugere ir na total contra mão. Mas será?

Por mais que raramente alguém obrigará alguém a proporcionar homenagem a outro, muitas vezes sente-se a necessidade de prestar tributo como reconhecimento. "Isso é tão legal que eu PRECISO gravar". Precisar. Assim como o tributo federal, também pode ser alvo de protestos de quem crer que a releitura não está a altura ou os que acham que apenas o original merece valor (aaah, esses radicais...). E como no tributo monetário, quem se prestar a reler uma obra obrigatoriamente terá de doar parte de sua bagagem própria para tal feito.

O disco "Vol. 1" do TRZ Trio reúne dois tributos com uma faixa autoral de guião, "Flanando". O teclado de Fernando TRZ inicia confirmando o título da faixa: flanar é perambular sem pressa e sem rumo definido, e é exatamente esta a impressão, alguém que chegou ao ambiente despreocupado e disposto a descobrir com serenidade o que haverá a oferecer. Tem-se então o baixo de Fabiano Nunes sério e ritmado anunciando acesso, e com a bateria de Paulo Almeida inicia-se de vez o passeio. A bateria está bastante humana, visto os propositais ataques sugerindo quebrar o tempo, como quem caminha observando, decidindo, se distraindo e retomando, virando o rosto e olhando adiante de novo. Próximo aos 4 minutos o teclado mais tenso e bateria frenética formam um redemoinho que conduz aos poucos ao ato final, brando e satisfeito.

Vem então o primeiro tributo, "Malandro" de João Donato, composta em 1970. Curiosamente é a última faixa do disco "A Bad Donato", que tem no título esta gíria "bad" ainda bastante contemporânea, e na época se destacou pela fusão de MPB com eletrônica. O TRZ Trio a traz dos eletrônicos setentistas aos modernos, em timbre de teclado retrô porém com efeitos que nos recordam estarmos nos anos 2010. Graves e agudos gingam com bastante malandragem.

A esta altura o ouvinte já notou o quanto o som do trio é biológico e vivo - passa proximidade, diferente de gravações que mostram-se longínquas e remotas. O ouvinte sente estar na sala com os instrumentistas, sendo o teclado responsável pelo lúdico. Seus timbres invadem as entradas corporais de quem escuta, passa pela mente e expande as sensações e percepções.

O segundo tributo e última faixa relê uma composição advinda do início do governo militar. De 1964, "Coisa Nº 4" do pernambucano Moacir Santos, cuja original soa simultaneamente imperial e irônica. Nesta releitura de 2015 inicia-se com um ataque sombrio do teclado, e então o baixo puxando o tema cinquentenário, ainda a ser assombrado algumas vezes até entrada da bateria. Há uma fusão de estilos dentro da própria faixa, trechos bastante intrigantes e uma riqueza de variantes que, puxando a ironia da original, juntando-as bem se acomodam no termo "coisa".

Se uma obra cinematográfica completa seria aquela que o espectador se esquece de onde está sentado e participa plenamente do universo em tela, sente tensão e emoção que se mantém após o início dos créditos finais, este "Vol. 1" cumpre todas essas funções aqui migradas para a música.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Ivan Barasnevicius Trio

Ivan Barasnevicius Trio

Título: Continuum
Ano: 2014
Impressão:

A capa do primeiro álbum do Ivan Barasnevicius Trio é bastante simples, porém efetiva no que se intenciona: o nome do trio mais o nome do álbum com fundo amarelo, "Ivan" e "Trio" grandes, "Barasnevicius" e "Síntese" menores. A ideia era apresentar o grupo e tal capa bem servia o cartão de visitas, franca e reta. Já o segundo, lançado em 2014, traz na capa uma pintura vistosa e colorida, cheia de detalhes a apurar. Após o "oi, muito prazer", o segundo disco é a oportunidade para conhecer melhor e relacionar-se com a sonoridade e essência do trio.

Um elemento curioso é que as composições deste álbum já existiam anos antes do lançamento - algumas, inclusive, antes do primeiro -, o que mostra que chegaram ao ponto que estão graças à continuidade que Ivan, Dé Bermudez e Thiago Costa dedicaram às mesmas. Do nascimento até a gravação foram tocadas várias vezes, experimentadas, recebendo ingredientes novos e reinvenções resultadas de dedicação contínua. Assim, "Continuum" é título certeiro.

O CD abre com a homenagem de Ivan para tua esposa e baixista do trio em "Groove pra Dé": o prato é atacado e então a bateria inicia sozinha e ansiosa, apesar dos toques bem centrados e reincidentes deste início. O baixo da homenageada surge, a exemplo da bateria primeiro atacando agressivamente uma das cordas anunciando tua chegada para em seguida instaurar a melodia. Por último a guitarra de Ivan, declarando a própria chegada com notas aflitivas e rápidas, então ingressando o tema principal. Não demora para que a música pire, sobressaindo-se o momento perto dos 3 minutos quando guitarra e bateria enlouquecem juntas, exigindo fôlego até de quem escuta. Não há pausa para uma água, apenas mais desatino, guitarra ganhando distorção, bateria estrondando fúria. Aos 4:30 silenciam-se todos e o baixo os reconduz, em linha diferente à inicial, a um pequeno flashback dos ambientes apresentados na primeira parte, numa espécie de "melhores momentos", breves, impactantes.

"Hipnose" já merece de cara felicitação por começar atipicamente com um fade in: revela-se então que a música já começou em algum lugar, silenciosa aos nossos ouvidos, e agora vem se aproximando, o volume aumentando, gerando um cativante mistério de como será que é teu início, de onde está vindo, há quanto tempo começou. O efeito de atenção e curiosidade que pode causar no ouvinte este fade in é comparável ao efeito hipnótico, já que a hipnose traz o hipnotizado integralmente aos comandos da voz do hipnotizador. Cheia de frases cantáveis, mudanças no compasso e no timbre da guitarra que só aprazeiam, improvisos vívidos no baixo e bom espaço para a bateria perto do final sem que os demais instrumentos se silenciem e interrompam a harmonia.

Esta segunda faixa é composição de Luciano Nobre e revela uma das ligações do álbum com o programa Venegas Music TV apresentado por Ivan Barasnevicius, visto ser possível encontrar nos arquivos antigos do programa no YouTube a versão original desta faixa com apenas Ivan e Nobre a tocando. "Pé de Bode", a próxima, também é de um Luciano e também tem ligação com o programa citado: Luciano Magno a apresentou ao Ivan para que tocassem-na juntos no programa. No vídeo em que a tocam no agora longínquo ano de 2011 já é perceptível o tanto que Ivan havia gostado da música. O timbre distorcido e enérgico da guitarra ficou bastante bonito com a linguagem do baião, funcionando habilmente a mistura deste com rock.

Tive de buscar a definição de "Bizuca", título da quarta faixa, pois até então só conhecia tal palavra como nome de um bar de uma cidade interiorana na qual morei anos atrás. Encontrei diversos significados, desde nome de um doce mineiro até "pessoa tapada". A guitarra começa caustrofóbica, aprisionada num repeat, cujos demais instrumentos buscam puxá-la pra fora e até conseguem. O timbre do baixo está bastante bonito e diferentão nesta, e as harmonias que forma junto à guitarra são realmente graciosas de ouvir.

Fácil é ouvir o CD e ter a impressão de não estar escutando um trio e sim uma banda lotada. E, pra entregar a verdade, o "Continuum" não se trata mesmo de um CD gravado por três pessoas em estúdio mas sim quatro - Pietra, filha de Ivan e Dé, participou também das gravações diretamente do conforto da barriga da mãe. A palavra "acalanto", que nomeia a faixa 5 e é composição de Dé, vem do ato de ninar uma criança, cantar para que ela se acalme e durma. O violão, presente também no álbum anterior, reaparece nesta fazendo a base para que o baixo possa frasear e gerir o aconchego que a faixa proporciona. A sonoridade resultante é bastante rica e incomum. Há espaço também para que o pai se manifeste, saindo o violão e entrando uma guitarra, e em outros momentos ambos agregados. Como se o violão, aqui quarto elemento em uma música de trio, representasse a pequena que logo mais chegaria.

Se no primeiro disco o aceno ao passado (e presente e futuro também) no metal de todos os integrantes se dava com "Machine", neste disco se dá com a última faixa, "Granizo". O tema principal pesado caberia bem em qualquer hit do metal, mas aqui se junta no melhor estilo mestiçador - nessas alturas já típico e reconhecido - do trio com um samba, sem a guitarra precisar esconder a distorção nem bateria e baixo perderem a fúria para que o samba role. As encurraladas nas quais o tema principal se coloca são muitas, como um pedestre a buscar um toldo para se proteger de uma chuva de granizo.

Vale mencionar a faixa bônus lançada separadamente em 2015, "Minuano", arranjo de Ivan Barasnevicius para composição de Pat Metheny. Infelizmente há - e provavelmente não são poucos - quem enxergue o termo "abrasileirar" como pejorativo, às vezes nem por crença própria mas por costume adquirido. Ivan afirmou em entrevista que, com o trio, não teve preocupação de criar solos mirabolantes, e sim realizar a mescla de estilos distintos que se ouve nos dois álbuns. E isso foi possível, sem que perdesse a a concordância do conjunto. Logo, pode-se dizer que Ivan requintadamente abrasileirou a composição de Metheny. Destaque a um vilão de nylon de 1998 do próprio Ivan utilizado na gravação, cujo qual não sei se traz ligação fraterna, mas é a sutil impressão que ficou nas entrelinhas do que se escuta.

A sensação ao concluir a audição do disco é a mesma que se tem ao conhecer alguém, ter uma primeira boa impressão e não se decepcionar conforme dá continuidade ao contato.

Continuar pode ser, em boa parte das vezes, bem mais complicado do que recomeçar ou mudar completamente. Pra continuar é preciso manter o vínculo. É preciso ir em frente com o que já se tem. Continuar é preciso.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Ivan Barasnevicius Trio

Ivan Barasnevicius Trio

Título: Síntese
Ano: 2012
Impressão:

Um dia qualquer de 2012. Deparo-me com um meme daqueles de "coisas que farão você se sentir velho". Uma das "coisas": a constatação de que 2007 já tinha sido há meia década. Caramba! Em 2007 eu fazia parte de uma banda cujo estilo definíamos debochadamente como "hardcore universitário" chamada LøF (é, com o "ø" cortado, esses jovens...) e aquele meme me fez cair a ficha de que já fazia meia década do fim dela! Esse tempo que só voa... tanto voa que atualmente faz meia década não do fim da LøF, mas sim QUE EU VI AQUELE MEME! Taca-le mais cinco anos na conta. Qual o espanto, não?

Tais anos se ligam com o primeiro álbum do Ivan Barasnevicius Trio: 2007 foi o ano de início das atividades do trio e 2012 o lançamento do disco. Esta meia década que se passou do lançamento até hoje nos permite observar uma característica de Ivan, iniciada com este álbum "Síntese" e repetida nos demais discos lançados pelo guitarrista ao longo destes cinco anos: intitular os álbuns com a descrição do momento pontual que representavam!

"Novos Caminhos" (2015), título do primeiro disco de Ivan em duo com Rodrigo Chenta, indicaria novos caminhos para ambos - tocando com esta formação de duas guitarras - e também para a música brasileira; "Continuum" (2014), segundo álbum do trio, indicaria continuidade da sonoridade do primeiro; e "Síntese", o pioneiro, era portanto o mesclar de estilos que os levaram até ali, a juntura das diversas influências e referências dos três integrantes em uma unidade, a apresentação da banda.

"Tatuí" é o abre alas, atiçando os ouvidos ao entrechoque de estilos musicais: na primeira parte da faixa o rock domina o maracatu, com a guitarra alvoroçada de Ivan narrando o tema; já na segunda parte, chegando aos 4 minutos, o maracatu se sobrepõe através da bateria engenhosa de Thiago Costa e o baixo bastante exposto de Dé Bermudez que é quem dita o tema agora. Ainda assim, a distorção da guitarra e a rala microfonia conservam o rock junto ao ritmo pernambucano, num diálogo denso e completivo. Tatuí, além de nomear a capital da música do interior de São Paulo, também é o nome de um dos crustáceos mais inteligentes já que consegue produzir diversas respostas a situações diferentes - assim como os instrumentos desta música conseguem fazê-lo com dois ritmos tão díspares.

"Valsa para Ana" já indica, desde o título, um novo estilo posto na mesa. O baixo bem vigoroso prepara e decora todo o terreno, revezando graciosamente com a guitarra o lugar de fala, sem pressa nem fobia. A bateria é o mais agitado dos instrumentos nesta, mas em momento nenhum perde a itinerância. Me veio a mente uma cena do livro "O Apanhador no Campo de Centeio", na qual o protagonista observa um casal a conversar caminhando pela rua em ritmo normal enquanto o filho pequeno deles caminha pulando, se divertindo, cantarolando, bem mais agitado que os pais mas sem ninguém ultrapassar ninguém. É inclusive a cena que justifica o título do livro, já que na visão do personagem principal o pequeno está atravessando o campo de centeio.

A terceira faixa, "Machine", são várias em uma - e não contraditoriamente e sim justamente por isso, a mais singular do disco. O pesado tema principal? Provável reverência e saudação às auroras musicais de Ivan, Dé e Thiago, todos com passagem significativa pelo metal. São diversos ambientes intercalados por este tema colérico. Tem jazz, tem funk, tem desdobramento do metal à uma linha mais melódica e menos tensa, provando o quanto as referências musicais podem se encontrar e se entender.

Não é de meu conhecimento se a Elis homenageada na faixa 4 trata-se da cantora apelidada de Pimentinha por Vinicius de Moraes cuja mera menção ao primeiro nome já traz automaticamente tua imagem e segundo nome à mente, ou se estão homenageando a carismática vira lata de Ivan e Dé que é xará da cantora. Optei por não confirmar diretamente e sim considerar que a música é para ambas pimentinhas. Começa no melhor estilo "cada um com seu cada qual", com cada instrumento executando uma ação diferente na introdução de 40 segundos, até entrar o tema. Cantável, espaçoso, colorido. O timbre diferenciado do baixo prende bastante a atenção em seus momentos de destaque, também merecendo menção o modo bem visível com que o tema principal se encerra a cada execução conduzido pela bateria. No desenredo, aos mesmos moldes da introdução, por um bom tempo os instrumentos se deleitam cada um cada um, quase independentes entre si sem pecar harmonicamente.

"Novos Ares" redesperta o ouvido até daquele que colocou o CD para ouvir e se distraiu rolando a timeline do Facebook por motivos de: um violão! Após o ouvido já estar íntimo da guitarra, um violão muito bem posto traz, como o título assume, novos ares. Faixa animada e serena mutuamente. Destaque para uma espécie de interlúdio que ocorre ao centro da música no qual o compasso muda, ficando mais plácido e insinuando o recolhimento.

A última, "Girando Lâmpada", releitura de Ivan Barasnevicius para a música de mesmo nome d'O Terço, faz jus ao estilo rock progressivo apontado em boa parte das resenhas a respeito deste álbum. Apesar de não ser a mais pesada, é a mais estrondosa do disco, numa espécie de caos/tumulto organizado. Há espaços para solos da bateria, eco e uma curiosa distorção acentuada da guitarra ao final da execução dos temas: a eletricidade chegando e acendendo repentinamente a lâmpada que se girou e girou para encaixá-la. Nos 40 segundos finais a bateria, que iniciou o disco em ritmo nordestino festivo, assume um breve andamento de marcha militar conduzindo os demais ao encerramento. Desfecho classudo e clássico do rock, pratos soando, baquetas por toda a cozinha, distorção e a última nota das cordas alta e seca!

E está entregue a síntese, do simples ao composto. Das causas às consequências. De meia década atrás a uma contemporaneidade atemporal. Dos estilos com nome a uma junção que não necessita de novo nome.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Total de impressões: 23.

Decrescente

Crescente

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