IMPRESSÕES DE RODRIGO VETTORAZZO

Esta coluna não objetiva apresentar análises técnicas sobre as músicas do álbum, mas sim impressões particulares do autor a partir da escuta do próprio, colaborando com a divulgação e a valorização da música independente no Brasil.

Total de impressões: 23.

Decrescente

Crescente

Alexandre Silvério

Alexandre Silvério

Título: Entre mundos
Ano: 2015
Impressão:

Admiráveis mundos novos e velhos estão nas altitudes e latitudes deste álbum do quinteto de Alexandre Silvério. O título "Entre mundos" pode ser interpretado como o pedaço de chão de onde se avistam diversos campos particulares da música. O fagote, do alto de seus dois metros e meio de altura, é quem conduz tamanho giro, apresentando em um álbum duas ocorrências quase tidas como impossíveis: o uso de tal instrumento erudito no jazz e sendo o principal solista.

"Saudade" abre o disco e portas para impressões e interpretações. Um fagote melancólico dá a primeira nota e chama os demais instrumentos que chegam e se apresentam corteses. Pequeno silêncio e inicia-se pra valer uma execução simpática e de alegria triste. O fagote transitando entre o grave e o agudo, o samba ambientalizando um lugar que se assemelha com a Lapa do Rio de Janeiro. No encarte tal faixa é ilustrada com uma poesia de Almir Amarante inspirada na própria composição, onde é mencionada uma imagem cotidiana bastante vigorosa: a Lua já visível no céu azulado de um final de tarde. A saudade, palavra que é lembrada em nota no encarte do CD só existir na língua portuguesa, por mais que tenha esse poder de mexer com nossa alegria e tristeza, não tem o poder de alterar o mundo exterior - ele continua esbanjando beleza, indiferente à nossa falta!

"Tarde em Berlim" e "Meu fagote chorou", respectivas faixas 4 e 9, dialogam bastante com a de abertura. A quarta é uma bossa que, como "Saudade", também rendeu uma poesia que infelizmente não teve tempo de vir no encarte por este já estar finalizado. O título é bastante imagético - muito improvável não imaginar uma cidade abaixo de um céu avermelhado - com a música cumprindo um passeio turístico por Berlim de quatro paradas guiado pelos instrumentos. Inicialmente todos unidos, até o piano assumir o posto de guia com improviso agitado e livre, chamando depois o fagote para a frente junto dele, e deixando a bateria finalizar a incursão. Já "Meu fagote chorou", título que desperta alta curiosidade pela raridade de ouvir um choro com fagote, leva de volta ao bairro carioca de "Saudade" e à alegria triste citada. Tem andamento livre, leve e solto, que se modifica quando bem entende e mesmo assim não descarrilha.

Transitando mais ainda pelo espectro mundial, há a regravação de "My Funny Valentine", já cantada e tocada por tantos e que aqui recebe tratamento peculiar. Certa sensualidade é sugerida e despida, com o fagote na voz principal e os demais instrumentos começando tímidos, até ganharem seu momento e bradarem suas próprias exclamações! Destaque ao improviso das teclas, determinante divisor de águas entre os dois momentos notáveis de acanhamento e desembaraço.

"Valsa para Bill", composição de Vinícius Gomes (guitarras e violão do disco), tem introdução que me remeteu ao fascínio de contos infantis. O piano então muda o clima, acelerando e apresentando outras propostas. Há um interessante trecho em que a bateria se retira e permite um diálogo contemplativo entre fagote, guitarra e piano. É como se fosse um momento de pausa na dança para admirar o salão. O retorno da bateria valoriza a mesma, e o final da faixa é alongado e triunfal, recordando realeza, trazendo novamente a recordação de algum conto de fadas com castelos.

Também pode ser reconhecida como dramatúrgica a faixa "Ballad for Klaus". Um piano desalegre dedica-se à sua introdução, como uma espécie de trilha de abertura indicando que iniciará uma história. O 1º ato se dá tranquilo pelos primeiros dois minutos, até o instante em que os sons parecem requerer maior independência uns dos outros. O 2º ato é feito dos instrumentos entregando algo aos poucos, dando amostras, sugerindo haver algo mais completo escondido, enquanto o fagote bastante deslumbrado improvisa sem interrupções. Então entra a guitarra improvisando bastante contida, se mesclando com o piano em alguns momentos, parecendo todos estarem escondidos observando pelas frestas. Aos seis minutos de música vem o 3º ato, um reencontro com o ambiente do primeiro, a saída do esconderijo. O ato final é como aqueles filmes cheios de "falsos finais", nos quais hão várias cenas que sugerem serem as últimas mas, após o fade out, tem outra cena, indicando ter mais. O fagote chama diversas vezes os demais instrumentos nos três minutos finais, num epílogo extenso e bonito.

A qual considerei mais diferenciada das demais, "Gordus Power", indica pressa. Apresenta piano, baixo e bateria notavelmente apressados. É como se o piano improvisando livremente fosse a trilha, o baixo o personagem a correr, e a bateria os passos do mesmo. Até que fagote e guitarra assumem a corrida, com o fagote apossando-se da trilha e a guitarra sendo o novo persona corredor. Nesta faixa a bateria tem seu local de maior peso do disco, solando e ouvindo-se por inteira, explorando andamentos e ataques.

"Cromática", título da faixa composta por Fábio Leandro (piano e Rhodes), provavelmente se refere à escala musical cromática, mas também recordou-me a escala das cores. A "cor" do fagote parece bem distinta das "cores" dos demais instrumentos nesta, gerando certa tensão. Inicia-se o violão e um fagote que trará frases sutilmente ansiosas, dialogando e discordando. Com a bateria a postos, seguem os dois instrumentos numa direção com os demais. O violão repete as frases marcantes do fagote em um momento, chamando-o para a mesma discussão de novo. Tal ambientação resulta em um interessante final no qual violão e fagote vão revezando nas frases porém de modo mais alegre, como se estivessem rindo da própria polêmica.

O encerramento do álbum se dá com "Un Tango Para El Chico", música de Igor Pimenta (contrabaixo). É a faixa que mais se arrisca, mais apresenta modificações durante a execução sem receio do desconhecido. Vai do tenso ao ameno, da sensualidade à aversão. Entre tantos ambientes diferentes é permitido escutar todos os instrumentos tendo seu local de fala, um tomando o território do outro, permitindo despedir-se de cada um.

Apesar de conter faixas com títulos em inglês e espanhol, bem como uma faixa com a capital alemã no título, todo o som do disco é facilmente reconhecido como brasileiro. A água viva em meio ao oceano na arte da capa e contracapa pode servir de metáfora para esse território comum entre nacionalidades/mundos, cujo mar pode arrastar de uma região a outra sem maiores dificuldades.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Breno Ruiz

Breno Ruiz

Título: Cantilenas brasileiras
Ano: 2016
Impressão:

"Esse disco vai levar um tempo pra escrever a respeito. É bem espesso".

Foram as primeiras conclusões diante do disco Cantilenas Brasileiras do pianista e cantor Breno Ruiz. A capa simples e vintage embrulha tamanha riqueza de conteúdo e detalhes que faz o ouvinte, seja este quem for, sentir-se valorizado. Breno se declara a serviço da Música, mas penso que com este disco a grande consideração dele foi, na verdade, com você. É como se o disco reconhecesse que todo ouvinte, independente de qualquer característica, é um ser apto e gabaritado ao que exige a escuta. Parece complexa de longe, mas de perto é bem direta a partir da entrega. Liberta das amarras cotidianas, do establishment que tão bem motorizou nossas cabeças, a escuta é uma experiência singular. Exige disposição de imergir num universo que dispensa adjetivos - adjetivar também é limitar.

Uma das definições "cantilena" é "canção monótona". Monótono, no senso comum, nos remete ao enfadonho. Mas no canto de Breno o que se percebe é, na verdade, ausência de pressa. A serenidade do cantor que respeita o tempo da música. Aí já se identifica um dos contrastes do universo do disco com o mundo real em aceleração viciosa, no qual estamos automaticamente e integralmente afoitos como se o futuro não fosse chegar nunca e precisássemos correr até ele.

Surpreende saber que o disco foi gravado em 2011, ou seja, quando Breno tinha 28 anos, e já possuía notável maturidade na voz. Maturidade não no sentido clichê a-lá jurado-de-reality-show, mas sim da voz parecer pertencer a alguém que carrega muitas experiências mesmo, como se já tivesse vivido no mínimo uns 20 anos a mais do que tinha ao gravar. Torna mais interessante ainda saber que o próprio já relatou em entrevista sobre seu "pé no ancestral", contando que na infância queria usar paletó e gravata, e que aos 10 anos animava bailes da terceira idade tocando piano junto ao tio sanfoneiro.

No disco, para este que vos escreve, a ancestralidade natural de Breno foi reconhecida em duas faixas: "Donana" e "Caçada de Onça", as respectivas 7 e 8. "Donana" muito recorda histórias de avô e avó, o spin-off das lendas urbanas, aqueles típicos relatos interioranos sobre ataques de bichos selvagens e aparições folclóricas. E a seguinte, "Caçada de Onça", também caberia perfeitamente na narrativa de um avô. A sonoplastia da música é perfeita, graças aos efeitos sonoros de Renato Braz que "responde" com instrumentos de percussão e flauta a cada frase da saga cantada por Breno. Há adrenalina misturada com ingenuidade no canto, como se partisse da preocupação de um sujeito mais velho em entreter uma criança com tal aventura. Porém, ao contrário do termo "monótono" que define "cantilena", a faixa surpreende e revela que o narrador foi engolido pela onça!

Outras faixas que dialogam entre si são as 1 e 2. "Marinheiro do Mar", a primeira, abre o disco com bastante avidez: um piano tenso, pratos de bateria que lembram ondas, uma vastidão sonora possível mesmo com poucos instrumentos. A letra de Paulo César Pinheiro - que compôs todas do disco junto ao Breno - faz uma releitura da tradição das canções de despedida, sendo que nesta o marinheiro não se despede da amada e nem da mãe, mas sim da irmã. Caberia bem como abertura de um musical pois é facilmente reconhecível o personagem principal, com versos que nos aproximam e nos fazem conhecê-lo melhor, como "De tanto olhar pra costeira / Vendo cargueiro atracar / Eu quis de toda maneira / Um dia me alistar".

Já a faixa 2, "Estrela Branca", sugere continuidade à narrativa do marinheiro. O instrumental se inicia semelhante ao anterior, porém, o canto está mais ameno, como se na primeira faixa o marinheiro precisasse ser "durão" na despedida, mas nesta segunda está admirado com as estrelas em alto mar. Aplausos para a poesia da letra, pois a acústica das palavras escolhidas é muito rica ("olerê, olará"). Se fossem apenas declamadas, sem cantar, já seriam musicais!

Se as primeiras faixas parecem feitas para um musical, outras parecem feitas para animarem festas. "Roxina", cuja viola caipira se ouve de cara, revela a disparidade do disco que passeia por diversos estilos e cenários. Sob um andamento dançante e acompanhamento categórico do piano, a letra é a mais ousada do disco: tem erotismo, ritualismo, quebra de tabus e a descortinada de um lado mais selvático. Breno mostra que não tem receio de entregar a interpretação que a composição pede. Outra dançante é "Choro Bordado". Já ouvi de um professor de música que "todo som organizado, por pessoas ou não, é música" - e os assovios e água caindo na introdução de 1 minuto são 1 minuto de "pura" música. "Pura" em qualquer sentido que se queira, não corrompível, completa em absoluto. Piano, baixo e percussão tão bem harmonizados aos sons naturais renderiam, por si só, um belo instrumental! Até que entra a bonita voz de Mônica Salmaso e o que já estava bom fica melhor. São poucos os choros que possuem letra, porém, se o choro "falasse", teria a voz de Mônica, tão bem colocada está, e provavelmente falaria do que esta letra fala.

Outra faixa cuja letra parece fazer uma espécie de tradução simultânea ao que o instrumento está querendo dizer é "Modinha Triste". O canto e a melodia no piano estão tão bem casados que fazem a poesia parecer tentativa das notas do piano em falar com palavras. Curiosamente, como a faixa comentada anteriormente, esta também não é cantada por Breno e sim um convidado - no caso, Renato Braz. Há uma rouquidão interessante em pequenos trechos na voz de Renato que fazem jus à letra e melodia desoladas. Renato também canta em "Viola do Bem Querer", curiosa pelo fato da letra ser declaração de amor à viola, mas não haver uma na gravação. Torna-se então um depoimento, onde piano e baixo emprestam sua sonoridade para que o violeiro declare-se ao instrumento adorado e, como a letra mostra, necessário. Já em "Cantilena Sertaneja" não falta violão! Apesar de sutil, a melodia faz com que nosso ouvido busque ele, se esforce para destacá-lo entre os demais instrumentos, visto a temática de sertão.

Breno distribuiu pelo disco três faixas de apenas piano e voz.

Na primeira delas, "Flor Lilás", o piano da introdução, logo que tocado, é familiar. Está em algum lugar do subconsciente do brasileiro, talvez nos desenhos animados que crescemos assistindo cujos quais eram musicados por pianos, ou alguma outra referência. O tico-tico, pássaro bem brazuca, cujo nome até declamado já é melódico, é citado em uma estrofe que se repete três vezes. Um pássaro ciumento e urbano, tanto que é citado na letra o ninho que fez na cancela. "Dança de Mucama", a segunda piano e voz, também visita nosso memorial inconsciente e de lá traz o tal do Samba-lelê. Por fim, a última piano e voz e também última do disco, "Roseira", conta as diferentes relações de diferentes seres com uma roseira - as relações de uma abelha, um joão de barro, uma borboleta e um louva-a-deus, mostrando como a roseira é traiçoeira com eles.

Há uma certa mística no disco, não sei se intencional ou não, no tanto de imagens que trazem à mente. No quanto nos desliga e religa com nossas origens. No quanto de versos impactantes cuja vontade é anotar para que não sejam esquecidos. Em instrumentos que não estão listados no encarte mas juro ter escutado-os em algum momento.

Evitei adjetivar o universo do disco no primeiro parágrafo, porém, penso que agora, sem jamais querer limitá-lo, "intrigante" talvez seja um bom adjetivo. É pena que "intrigante" tem, popularmente, uma interpretação pejorativa. Mas basta buscar pelos significados completos do termo que, entre os que caberão bem ao disco, estará: "que incita a curiosidade; que consegue surpreender". Creio que é isso mesmo! Lembrando que uma das definições de cantilena é "canção monótona", veja só que beleza: intrigante é justamente o contrário de maçante!


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Cássio Ferreira e Rodrigo Chenta

Cássio Ferreira e Rodrigo Chenta

Título: 3136
Ano: 2017
Impressão:

Concluir uma obra, artística ou não, é passar da intenção à realização. Quando pensa-se nisso logo é imaginado um demorado caminho entre estes dois polos que inclui ideia, planejamento, decisões, recusas, esforços, por vezes aborrecimentos e aguardadas satisfações. O processo de compor costuma integrar todos estes estados e, comumente, leva tempo. No caso de "3136", por se tratar de música espontânea, todas as fases citadas ocorreram simultâneas e instantâneas. Intenção teve duração muito curta pois na fração seguinte já era realização, devidamente gravada e com vaga garantida na posteridade.

Um teatro moderno, confortável e primoroso, e um bar de jazz soturno típico daqueles que se vê em séries norte americanas: em ambos os ambientes, bem distintos e provavelmente longínquos, caberia a performance deste disco. É música erudita e excêntrica conjuntamente. Forma convencional e não convencional conviventes e convenientes uma com a outra.

No título as idades dos dois instrumentistas na época da gravação e, curiosamente, idades que representam o "day after" de períodos determinantes da vida. Mesmo em 2017 os 30 anos ainda são (e certamente continuarão a ser) vistos como idade taxativa e cada qual encara a sua própria maneira, tênue ou não, a chegada - porém, aos 31 nota-se o óbvio de que a vida não para nos 30, na idade que tanto alarde se faz ao redor. Os 35, embora menos discutidos, tem lá seus subtítulos como "o fim da adolescência moderna" ou outros contraditórios entre si como "o auge da satisfação" ou "auge da solidão", fazendo dos 36 o capítulo seguinte de tal pico enigmático. Se estas idades, encaradas com bom humor, podem simbolizar desprendimento e supervivência após a crise dos 30 e o sobressalto dos 35, o disco nomeado com tais números assim o é também desprendido e despojado. Quem aos 29 ou até aos 34 ainda sofre com pautas de uma constituição comportamental invisível, os 31 e os 36 são boa pedida para simplesmente "ser", como as três longas faixas simplesmente "são".

Ao iniciar a escuta da primeira, "31", com poucos segundos já se nota a desconvicção: o sax soprano de Cássio Ferreira com notas que conseguem ser sutis e agressivas unidamente, enquanto Rodrigo Chenta batuca no corpo da guitarra acústica. Não só na madeira mas também nas cordas, causando timbres agudos e aflitivos. Só aos 1:20 de música que a guitarra entra dedilhada, cheia de propostas variadas, em litígio com um sax sem medo de ir ao extremo. Por mais que estejam ambos instrumentistas tomando decisões o tempo todo, em alguns pontos esta ação fica muito clara - como por volta dos 4:28 em que pausas e minúcias entregam as decisões e indecisões.

"Quem está conduzindo agora?" é uma pergunta frequente na audição. Nem sempre é possível definir pois rapidamente um dos dois pode desviar da proposta. Vide aos 5:36 em que o sax sugere um trilho, desenha-se então um cenário alegre, mas logo ambos ficam tortos indo cada um a um lado. Até que a guitarra insiste na mesma região por desmedido tempo e o sax se debruça sob a base formada, fraseando e podendo concluir a proposta apresentada. Já quando se chega aos 7:40 o ambiente é completamente outro e há duvida se os instrumentos não se tornaram, na verdade, uma flauta e um violão, tamanha suavidade e cautela. É a preparação para a parte final e mais curiosa, onde Rodrigo volta a atacar as cordas gerando sonoridade que lembra chuva. Os timbres do batuque se intensificam e a chuva vira chuva de pedra - se a faixa fosse ter outro título ou um subtítulo talvez "Chuva de Pedra" cairia bem. O sax emite ventania e causa o momento mais imagético da faixa. Se música é todo som organizado, espontâneo ou não, aí está o testemunho.

Na segunda faixa, "36", a guitarra acústica da peça anterior dá lugar à maciça e inicia sozinha, propondo uma sonância mais popular e familiar aos ouvidos. O sax entra bastante areado, dando corpo à expectativa que o ouvinte já criou a estas alturas à sequência rotatória de 3 notas que a guitarra vem apresentando, que logo se transformam em 4, depois 5, assim crescente. Logo são ouvidos timbres bastante difíceis de identificar a origem, que lembram água escorrendo pelo ralo após o mesmo ficar entupido - teria sido causado pela chuva de pedra que caiu no disco a pouco? Chega a ser sombrio, incitando muita atenção. Os sons parecem presos dentro de algum lugar da guitarra e agonizam como uma ave presa dentro de uma gaiola, enquanto o sax regojiza-se de liberdade do lado de fora. Só aos 4:30 é que os zumbidos parecem ter encontrado uma frestinha de luz na madeira e podem sair, manifestando-se nas cordas ainda com a visão fragilizada pela claridade repentina.

A ausência de um comandante continua sendo atestada: em torno dos 7 minutos, após audível titubeação, ambos instrumentos se decidem por uma levada mais dançante, mas não demora para que a guitarra mude completamente e soe angustiosa enquanto o sax fica ainda mais funkeado. Mais adiante, aos 9, a guitarra opta por uma região bastante inusitada abusando do grave, causando sons longos que recordam tambores orientais gigantes. Talvez inspirado por isso ou não, o sax opta por uma linha que recorda tal cultura. Logo o sax queda-se nervoso, bastante nervoso, e a guitarra vai na onda, destruindo a serenidade oriental ambientada parindo sons, imagens e sensações tudo junto. Até o final da faixa o desconforto vai do grave ao agudo e ao grave de novo, passeando pelas alturas, amenizando pra depois agredir mais, sugerindo que ambos instrumentos foram rebentados a exaustão e abandonados.

Se a primeira faixa já começava quebrando as expectativas do que um ouvinte poderia esperar de um disco de sax e guitarra, a última, "3136", entrega o esperado pelo senso comum a um duo destes dois instrumentos: iniciam juntos, melodia bonita, sax agitado e guitarra amena, as devidas inversões de intensidade, o que se repete em alguns momentos ao longo da faixa. Há acordes da música "Giant Steps" do saxofonista John Coltrane e trechos do jazz "All The Things You Are" composto por Jerome Kern, jazz este que breve completará centenário.

Alguns momentos merecem destaque, como o raro coro aos 2:38 em que ambos instrumentos vão e param juntos algumas vezes. Já perto dos 4 minutos vem a aflição e, enquanto a guitarra vai pra uma levada mais rock, o sax emite longas notas que lembram distorção de guitarra. Há breve citação de Metallica e interessantíssimo momento em que o sax sola sob a base da guitarra com tamanha altura e vivacidade de modo que caberia muito bem em qualquer metal, bastante criativo e arrojado. Mas neste disco os cenários duram pouco e logo adiante, em meio aos 6 minutos, outro momento é proposto, bem confortável e contemplativo. Segue-se um longo tempo com o que, conforme dito mais acima, talvez seja o que boa parte dos ouvidos espera de um dueto instrumental desses.

Se aproximando dos já 13 minutos de peça, após dedilhados e dedilhados de guitarra, o sax também a passa ser utilizado fisicamente como percussão gerando timbres inéditos e curiosos. A guitarra aprecia a ideia e ouve-se então um excepcional solo de batucadas feito por guitarra e saxofone - curto, mas muito significativo. Em seguida Rodrigo permanece na percussão enquanto Cássio fraseia, e é impressionante pensar que tais batidas são feitas apenas por duas mãos e um instrumento, tamanha variedade e disparidade. A sequência final é de suspense, em que a essência do disco vem a tona com tantas notas pouco usuais. Ambos, neste encerramento, conseguem soar tão sutis e tão presentes que é de se admirar. As notas vão parando aos poucos e então as vozes de quem as produziam são ouvidas.

Música independente é assim chamada quando não depende de investimento institucional, dependendo exclusivamente da força de vontade de seus realizadores. "3136" é uma obra duplamente independente: não só nos termos burocráticos de mercado, mas certamente tão inquietante e misteriosa aos seus próprios criadores que é quase uma criatura independente.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Cézar Roversi

Cézar Roversi

Título: Entre linhas
Ano: 2014
Impressão:

Anos atrás, ao adquirir um celular que, mesmo para a época, já não era considerado tão moderno, notei que entre as opções de câmera havia o tal do modo panorâmico. Estava na moda registrar imagens de paisagens utilizando esse modo, com visão ampla e girando em torno do próprio eixo. Pela inexperiência, ao tentar tirar a primeira imagem panorâmica - um jardim onde haviam alguns indivíduos sentados em um deck - notei a dificuldade de manter o eixo e as falhas que isso gerava com algumas pessoas saindo com movimentos cortados e figuras perdidas no meio do cenário. Mas artisticamente ficava legal, tinha lá seu charme. Recordei-me desta involuntária obra imagética ao escutar a faixa de abertura do disco "Entre Linhas" do saxofonista César Roversi, faixa que leva o título "Panorâmico". Isso porque aos 1 minuto e 10 segundos de música a mesma, que corria muito bem obrigado, tem uma curiosa diminuída de volume e uma brevíssima confusão instrumental, coisa de segundos, que assim como na imagem panorâmica citada teve resultado atrativo.

Colocar este álbum para tocar é sentir o poder de rapidamente modificar o ambiente ao teu redor. Do conforto da tua residência, és levado a outro local realmente, pois diversas são as cidades presentes nas faixas e na sonoridade.

"Panorâmico" e "Corredeira do Rio Pequeno", as duas primeiras, são choros que levam o ouvinte ao arrimo dos bairros boêmios do Rio de Janeiro. Curiosamente César Roversi é de uma cidade paulista cujo nome é o mesmo de um bairro da zona sul carioca, Leme, e estudou no grande empório musical do interior de São Paulo, Tatuí. Na primeira faixa tocando sax tenor e na segunda sax soprando, César traz interessantes diálogos com a flauta de Rodrigo Y Castro, sendo tais instrumentos os protagonistas do álbum. Se na primeira o som dos dois sopros é mais uniforme, na segunda mais dialogam do que fazem coro, perguntando e respondendo, concordando e discordando. Destaque ao ritmo bastante acelerado de correnteza da segunda faixa, com um episódico solo do violão de 7 cordas próximo ao final.

A terceira faixa, "Misto Quente", já tinha me despertado curiosidade de ouvir ao saber que não haveria flauta e sim mais um sax tenor assumido por Nailor Proveta (também compositor da faixa). Como ficarão dois sax iguais na mesma música? Bem, o clima é de amizade, mesa farta, com os dois sax dialogando de modo imprevisível, em frases de pequenas quebras. Violão, cavaquinho, pandeiro e percussão tem todos teus momentos próprios, com a última tendo um timbre bem curioso em certo trecho.

Após três faixas animadas abrindo o disco, chega um momento melancólico com "Saudades de Belo Horizonte" - e mais uma cidade aparece!

Existe certo encargo ao colocar "saudades" no título de uma música. Imagino ser difícil ficar indiferente, já que é uma palavra que muito rapidamente remete ao teu significado e se faz sentir. A própria fonética da palavra já tem esse poder, com o ditongo "au" num "á" que sobe a voz pra descê-la imediatamente com o "u". Sensação boa e ruim juntas, ou então ruim e boa, assim invertido, a depender da preferência e do próprio objeto ou ser de saudade.

Assim, a faixa que exprime a falta de Bê-Agá começa com um sax tenor triste, entrando posteriormente a flauta de Toninho Carrasqueira também a lamentar, mas de forma mais espantada. Este é um feito muito interessante de se observar, os dois modos diferentes dos instrumentos sentirem saudades: o sax mais calmo, mais contido, numa saudade jururu, e a flauta angustiada, gritando mais. O cavaquinho também pranteia a teu modo, com todos os diferentes sentires bem inequívocos, em especial ao final da música.

A melancolia tem continuidade na faixa seguinte, "Doce mente", que chama a atenção de diversas maneiras. Primeiramente por ter o sax acompanhado somente pelo violão e cavaquinho. O compasso então se dá pelas cordas, o que fica bem claro nos dois momentos de mudança de andamento. Posteriormente, o fato de "doce" e "mente" estarem separados no título intriga - doce remete à infância, mas também ao amor e à sensualidade. Enquanto o cavaquinho desta faixa me lembrou uma música de ninar (infância), as duas aceleradas mui breves mudam bruscamente os ares para um tom sensual e adulto, gerando contradição. Seria portanto esse o doce que mente? Vale destacar por fim o quanto é possível escutar o fôlego saindo dos pulmões de César para dar som ao sax tenor nesta gravação. A ausência de tantos instrumentos despiu o sopro.

Na faixa 6, "Jabutunga", o ouvinte que se permitiu viajar pelo Brasil pela escuta será transportado ao Nordeste. O pandeiro dá lugar ao triângulo e forma-se um baião bastante divertido. É significativo como a música não ficou presa apenas dentro deste estilo, evidenciada pelos diferenciados solos de flauta e sax, e também seu final apoteótico onde até exclamações são ouvidas.

Nas seguintes "Coquinho" e "A César o que não é de César" o clima do início do disco é retomado. De volta ao choro mais tradicional, uma clarineta divide as vezes com o sax tenor na faixa 7, enquanto um sax soprano é o único sopro na 8. Bastante espirituoso o título da oitava composição, uma vez que a mesma é de Zé Barbeiro, responsável pela direção do álbum. O sax soprano toca nesta de modo bem enérgico, quase furioso, acompanhado na mesma inquietação pelos demais instrumentos, sem medo de entregarem ao maestro o que lhes exige.

Se em todo este álbum o tradicional e o moderno estão juntos, mesclados e adstritos, no Brasil há alguns anos é possível notar uma prática tradicional retornar às ruas nos primeiros meses do ano após muito tempo esquecida, transfigurando-a numa tradição moderna: os blocos de rua! Na faixa 9, "No Fio da Navalha", o que se escuta é uma deleitosa marchinha de carnaval, que graças ao retorno da tradição dos blocos não precisa ser vista apenas no Rio ou na Bahia, mas também em São Paulo e diversas outras cidades. Esta composição que é parceria de César com Zé Barbeiro lembra confetes, máscaras, baile a fantasia, e faz pensar como equivocado é quem acredita que apenas a música erudita exige esforço e a popular não. Aqui o popular prova ser também dificil, de arranjo bem sofisticado e trabalhoso. E divertido.

A décima e última faixa é "Valsa para Edi", composição de Toninho Carrasqueira na qual o terceiro e último tipo de sax (sax alto) aparece. Nesta, muito audível é o afinco dos pulmões de Toninho trazendo ares para a flauta. O tom é de ternura com sax e flauta dando espaço um pro outro, fraseando de modo próximos. A valsa mais tradicional se manifesta aos 2:50, sem perder a referência do que vinha sendo apresentado antes. Um minuto depois há um curioso e discreto silenciamento dos instrumentos, para uma espécie de bis breve de encerramento. Assim termina o disco, ainda nos últimos segundos sendo possível escutar o som de sopro humano citado. Literalmente o último suspiro após esta experiência que além de sonora também é turística e viajante no tempo.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Dé Bermudez

Dé Bermudez

Título: Colcha de retalhos - parte 1
Ano: 2017
Impressão:

Foi no inverno de 2012 em Campos de Jordão que Dé Bermudez reconheceu a paixão de outrora pelos bordados. "Reconheceu" e "de outrora" pois na árvore genealógica da baixista a costura tem presença resistente e farta. Nas paredes da pousada em que estava hospedada haviam diversos quadros feitos em ponto cruz que muito lhe encantaram. Voltando a São Paulo, Dé comprou algumas linhas e arriscou sua primeira obra: uma toalhinha com os nomes das filhas caninas, Elis e Luiza. Dias depois receberia a visita da avó Doracy que, então, como faz o mestre ao decidir que é enfim o momento de revelar os "segredos" acumulados, os passou adiante à Dé. E assim veio seu primeiro quadrinho: quatro cupcakes coloridos.

Não tem sido tão comum conhecer casos recentes de tradições familiares sendo transmitidas, o que torna o episódio bastante cativante visto que Dé se interessou por tal tradição já adulta e ainda tendo o privilégio de receber as instruções diretamente da própria nata. É como se pudesse identificar aí o reencontro com suas primícias, algo que talvez já estivesse intrínseco no sangue e no pertencimento. Assim como um disco dos pais que na infância e adolescência não nos interessava, e depois crescidos descobre-se o quanto o mesmo é legal e esteve ali o tempo todo.

Há relações além-título entre este passado e o primeiro EP de Dé Bermudez, "Colcha de Retalhos - Parte 1".

Música e bordado tem diversas semelhanças: desde a óbvia de que ambos são expressões artísticas, mas também que ambos são artesanais, ambos necessitam de trabalho manual. A colcha de retalhos cuja qual ilustra a capa é uma reunião de diversos pedaços de imagens em variados formatos e tamanhos, mas a maneira como estão organizados não fazem parecer caótico, irregular e sem propósito. Bem ao contrário, há uma coerência, uma lógica que não tarda a saltar aos olhos, harmônica assim como a reunião de notas o faz na música.

Ao iniciar a primeira faixa, "Paca tatu cotia não", o baixo de Dé é o abre alas. Um dedilhado forte, ansioso. A composição é do baixista Nico Assumpção, cujo um dos primeiros (e, talvez, realmente o primeiro) trabalhos de pesquisa acadêmico sobre sua vida e obra foi feito pela própria Dé! É de se imaginar toda a força vital que deve ter sido necessária para conseguir concluir um trabalho desses nos tempos de internet discada, e tal ímpeto ecoa no dedilhado dos primeiros segundos.

Aos 10 segundos a guitarra de Pedro Pimentel se anuncia com timbre bastante curioso, que num primeiro momento lembra (muito!) um violino. "Se anuncia" pois não é uma entrada brusca e sim aproximatória, como quem observa de longe, se avizinha aos poucos, fazendo notar-se a presença averiguando se é bem vindo ali, pra então instalar-se junto ao baixo de Dé e à bateria de Elder de Souza. Introdução rápida, de 25 segundos, mas com todas essas cenas e memórias.

Inicia-se então o primeiro momento pós-intro com o baixo pontuando agudo ao final das frases, guitarra exprimindo sonoridade divertidamente intrigante, e o prato a anunciar a aproximação do novo ato. Como é esperado em músicas de power trio, os três instrumentos ao longo dos vários atos da música sempre estão bem audíveis e assinalados. Há espaço para a guitarra fritar e distorcer, até a galante inversão aos 2:52 quando a guitarra responsabiliza-se por uma base funkeada e o baixo se põe a solar. Quando se está nos 3:28 a bateria transmuta à batida que os ouvidos prontamente associam ao eletrônico, recordando o próprio conceito citado de colcha de retalhos onde variadas formas se mesclam como os estilos ouvidos (rock, funk, eletrônico) se aglutinam.

Com 4 minutos de música percebe-se que a atmosfera da música mudará consideravelmente, o que é reforçado pela sonoridade em tom de suspense. Novamente a guitarra surpreende bastante com a capacidade de gerar timbres tão envolventes.

O caminho até o fim é uma verdadeira riqueza sonora, trazendo de volta outros cenários pelos quais a faixa passou, novos retalhos de cada instrumento se amostrando, culminando num falso final com aura de conto de fadas do qual pouco se reconhece daquilo que havia ao início. Rola então uma espécie de encore num ato final curto e mais próximo do que se ouviu ao longo da faixa, com encerramento simples e direto.

"Convescote", título da segunda faixa, já como palavra é primorosa como poucas. Tem até certa sonoridade engraçada típica que as palavras de época adquirem, como batuta, quiprocó, fuzarca. Convescote significa piquenique e o ritmo animado com o qual a composição começa não deixa mentir. Baixo e bateria lembrando um samba dominical ótimo pra se haver uma colcha de retalhos estendida sob a grama bem verde, servida de uma cesta cheia dos pitéus, até que a guitarra, ao contrário da faixa anterior, não se aproxima aos poucos e sim invade mesmo, rude, suja e barulhenta!

Porém, o clima de domingo no parque não é abalado e sim graciosamente mantido, com destaque a partir dos 1:12 em que baixo e guitarra executam as mesmas frases num diálogo e sintonia que bem se manterão por toda a faixa. Os dois instrumentos de corda fazem as vezes das mesmas bases um ao outro, permitindo a ambos solar sem sumir as referências. Destaque também à sequência final após os 4 minutos em que diferentes viradas na bateria são ouvidas e a frase principal da música, acelerada porém já cantável, encerra conjuntamente a segunda faixa e a Parte 1 da empreitada de Dé.

As imagens internas do encarte - linhas, tesouras, dedal, fita métrica e outros materiais de costura - são daquelas que rapidamente trazem a associação com "casa de avó". E não é qualquer cacareco que é merecedor do sobrenome "de avó". O grau de exigência é alto! Não basta um bolo de laranja estar bonzinho pra receber o título de "bolo de avó". Não é qualquer jardim que se olha e se reconhece o selo de qualidade de "jardim de avó". Avós deixam impressões digitais de avós nas coisas que mexem. Ao neto, afeto. Todo afeto é subjetivo de se explicar, mas não o é em reconhecer. Afeto este presente, de alguma maneira, nas entrelinhas e entresons destes retalhos.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Daniel Guimarães

Daniel Guimarães

Título: Ensimesmado
Ano: 2014
Impressão:

O distraído está entregue a si mesmo. É uma forma de entretenimento. O entediado nada encontrou que considere merecer concentração naquele momento. Já o ensimesmado está compenetrado em si, como a separação das sílabas deste termo pouco comum já entrega. O quão coerente será que é classificar o introvertido como um indivíduo com falta de atenção? Lembrar-se de uma coisa é um excesso de esquecer-se de outra. Distrair-se é um excesso de atenção ao não visível.

O disco solo do violinista e guitarrista Daniel Guimarães leva por duplo propósito o título "Ensimesmado": não apenas o próprio se considera um ensimesmado, como aposta que sua música dialoga com sua familiaridade mineira por ser, de acordo com o próprio, "meio para dentro". Já disse Carlos Drummond de Andrade: "ser mineiro é ter vida interior".

A introdução de 20 segundos do tema de abertura "Revoada" é um aperitivo do Daniel que se escutará ao longo das faixas: violão microfonado e tocado em totalidade por pizzicato. Considerável pausa, um toque no bumbo, e agora é pra valer! Timbre muito intrigante da guitarra que lembra um teclado vintage, com impressão de ser tocada a certa distância, meio tímida. Até que a voz de quem a toca começa a cantar e se contradiz com tal timidez! A voz logo se transforma em vozes, performando um número tão bonito que facilmente hipnotiza o ouvinte o distraindo. Revoada pode tanto ser o voo da ave de volta ao sítio de onde partira como também um bando de aves ou insetos em bando. Ambos significados cabem para tal composição: o primeiro contato de Daniel com um violão intermediado por um primo de Belo Horizonte, como o efeito de uma revoada de pombos ou insetos que rapidamente nos alerta e pelo volume nos impressiona.

Na sequência a única faixa solo e que denomina o álbum todo, "Ensimesmado", somente Daniel e seu violão diante de dois microfones - quanto mais só, mais exposto; não há bem simplicidade numa situação dessas pois cada nota, cada informação trazida, é altamente percebida. Há uma diferença curiosa de volumes em diferentes momentos da gravação cujos quais causam a impressão de que as notas estão mesmo numa espécie de indecisão, ou de "se deixar levar", ora se mostrando mais, ora parecendo quererem se recolher, bem como uma pessoa introvertida (ou, mais vulgarmente falando, a falsa tímida).

Faixas 3 e 6, duas valsas, "Valsa Amiga" e "Nossa Valsa": a primeira com acordeon de Gabriel Geszti, a segunda com violão de Felipe Machado; o primeiro título caracterizando a valsa, o segundo indicando a quem pertencem. Na primeira a bateria de Georgia Câmara toca com a liberdade e diversão típica de quem está a vontade entre amigos, na segunda destaca-se o improviso das cordas dos amigos Daniel e Felipe. A primeira encerra-se com um começo de nova faixa que morre antes de chegar aos 6 segundos, a segunda com certa tensão ditada pelo baixo de Auriu Irigoite.

"Como se fosse sombra" tem sonoridade oitentista e o título, provavelmente sem querer, gera engraçada relação entre os tempos contemporâneos e os citados anos 80: a nostalgia anda lucrativa, festas temáticas back to 80' não saem de moda, seriados com referências desta década dos filmes de monstro e faixas no cabelo são sucesso até com o público que nasceu bem após a mesma, sugerindo que estamos, como diz o título da composição, vivendo numa espécie de sombra retrô onipresente. As diferentes guitarras que Daniel utilizou na gravação, os ricos timbres e o canto saudoso rompem os muros do tempo e aglutinam passado e presente um a luz e sombra do outro.

Ao terminar esta e iniciar a próxima, "Limbo", a introdução sugere que o disco permanecerá no mesmo universo retrô, um tanto sombria e psicodélica. Até ter a primeira virada aos exatos 15 segundos e pular a um caminho completamente inesperado: um animado frevo com bandolins, moderno e fresco. Parceira da faixa 8, "Carnaval no Andaraí", um samba que assim como o frevo também remete ao tradicionalismo mas aqui em atualizada interpretação, com interessante momento de guitarra solitária porém alegre.

"Trinta Anos" apresenta um duo de violões sem crise, diferenciados e ao mesmo tempo sintonizados sem dificuldades. Há um quê de pranto a competir com uma euforia que sugere querer se manifestar, mas neste caso a lamúria parece vencer ao final devido às notas e timbres lacrimosos.

As faixas que encerram o álbum conversam no título: "Vida e despedida" são dois termos que fazem parte um do outro, pois após um tem o outro - a cada despedida a vida continua, até o dia da nossa própria despedida. Com considerável sobriedade tal composição se dá. O acordeon de Ricardo Rito está bastante confortável, assim como a melodia desenhada pelo bandolim novamente assumido pelo próprio Daniel. Hão improvisos para diversos gostos numa faixa com total cara de encerramento. Uma última insistência do bandolim e do acordeom se prolongando na despedida.

"Ao que virá", última faixa, não é oficialmente um bônus track e talvez não caiba mesmo nesta classificação. Uma extensão, talvez. O título já explica isso: é um aceno ao futuro. É a continuidade pois ao encerrar um ciclo há uma continuidade do feito maior para que possa brevemente iniciar-se um novo ciclo. É a única canção do disco e Daniel Guimarães declarara ter vontade de futuramente gravar mais canções, o que ilustra ainda mais esta convocação ao porvir. Após o por-do-sol há sempre um porvir pois sabe-se que horas depois virá o dia seguinte. E é disso que trata-se tal composição, um chamado otimista, uma proposta pacificadora com a própria vida. O canto de Daniel é realmente bonito, recordando com nobreza mineiros como Flavio Venturini e o próprio Bituca, à altura da letra - a letra apenas como texto lido no encarte já é significativa, cantada ficou impecável! Ao virarmos de costas para o que acabamos de nos despedir, estamos nos virando ao que virá.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Fernando TRZ

Fernando TRZ

Título: Vol. 2
Ano: 2016
Impressão:

O tecladista Fernando TRZ fez, em entrevista, observação bem interessante: o profissional de trilhas sonoras costuma ser bem compreendido e valorizado quando presta serviço para ramos como cinema, teatro e dança; já em outros, como por exemplo o publicitário, o entendimento é diferente. Ainda há bastante preferência por utilizar trilhas já prontas e disponíveis do que investir em um trilheiro para compor algo inédito e exclusivo. Talvez isto signifique, em conclusão um tanto óbvia, que ramos ligados à arte estão mais inteirados do poder de uma trilha - o quanto ambientaliza o público, dá o tom do humor intencionado e carimba uma identidade.

A primeira faixa do disco intitulado "Vol. 2" do TRZ Trio, "Limiar", tem um tanto cara de trilha. Virada na bateria de Paulo Almeida chama os demais para uma introdução entusiasmada e apressada. O timbre do teclado de Fernando TRZ talvez possa ser adjetivado como pós moderno, sem ligação com o conceito histórico do termo e sim por parecer algo que, em algum momento, já fora moderno, mas hoje se junta ao vintage. Como um videogame ou software cuja aspiração de ter sido inovador no passado é seu charme hoje. Com menos de 30 segundos a introdução dá lugar ao que será a linha da música, muito bem qualificada pelo baixo de Fabiano Nunes com certeiras interações do teclado e tema praticável, fácil de "cantar". A percussão bem audível faz com que o elemento humano e o senso comum sobre trilhas de softwares propositalmente se confundam. A piração eletrônica que toma conta do final desmaterializa qualquer ordem e sobriedade sonora esperada em um site comercial, recordando tratar-se de uma faixa de disco.

O termo "limiar" que nomeia a faixa de abertura está ligado ao início de algo, mas também pode se referir à portas e soleiras. Começo do disco, primeira porta aberta, e outros inícios: a gravação foi em São Carlos, cidade cuja qual Fernando TRZ tem como início de si próprio e voltou a ter como residência pouco antes das gravações em fevereiro de 2016. Atravessar em retorno uma porta que deixou aberta durante os 15 anos vividos fora dali. Pensando nas diferenças entre uma capital como São Paulo e uma cidade interiorana como São Carlos, "Alvorada", título da segunda faixa e também composição de Fernando, traz matutações.

Uma noite silenciosa no interior a se escutar grilos e vento é corriqueira. Já em São Paulo uma noite silenciosa é até mais possível do que se imagina, mas a impressão é que sempre haverão sons distantes de caminhões cruzando alguma avenida próxima ou sirenes. E é um instigante som que parece misturar vento uivante com uma sirene distante que abre a segunda faixa. Os instrumentos soam como se estivessem acordando após uma noite de sono, erguendo-se peça a peça. A condução crescente passa toda a ideia da cidade ganhando ritmo pouco a pouco. O sax e flauta de Everton Pêra trazem conforto, semelhante a segurança que o cotidiano também traz. Após um solo de baixo bastante vivente e íntimo onde sugere-se ser permitido escutar de perto os dedos relando nas cordas, há espaço para o sax entregar belo final, sem receio de ir ao estridente, como uma ave preocupada em fazer o anúncio da alvorada chegar o mais longe possível.

"Ueare", composição do baterista Paulo Almeida, é curiosíssima: consegue unir tantos ritmos brasileiros diversos um no outro sem causar estranhamento que parece um desfile alegórico de estilos. Em grande parte mérito do próprio baterista que puxa as batidas características e estabelece os cenários, mas também o bandolim de Lucas Neves quando um choro é apresentado, mais o teclado que ora soa como máquina antiga de música, ora como gaita, fazendo também as vezes do instrumento de choro em divertida mixórdia.

A quarta e última é uma releitura de "Terra de Ninguém" de Marcos Valle, uma marchinha triste como a letra assumia já em seus longínquos anos de composição, aqui em versão contemporânea intrigante. O teclado está psicodélico e provocativo. Difícil ficar indiferente à melodia de lamento chocante enquanto percussão e baixo animados a contrariam. A cuíca manifesta na parte B soa irônica, embaralhando festividade com tristura e protesto. Sons eletrônicos e manuais no que se oferece como ato final se somam para depois irem, seguidos pelos demais, cada um a um lado, a lembrar diversos blocos de rua espalhados e independentes fazendo a sonoridade desvairar mais. Tem-se realmente uma terra anárquica de ninguém, até os sons se ordenarem novamente na longa virada final, encerrando. Já alertaria a letra de Marcos Valle: se a terra é boa o dono sempre (re)aparece.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Fernando TRZ

Fernando TRZ

Título: Vol. 1
Ano: 2015
Impressão:

Estariam tão distantes o tributo monetário e o tributo de homenagem? O primeiro é obrigatório por lei e alvo de protestos, impondo ao indíviduo o dever de entregar parte de sua renda para manter nossa estrutura. Já o segundo, por presumir-se de cara que é espontâneo, já sugere ir na total contra mão. Mas será?

Por mais que raramente alguém obrigará alguém a proporcionar homenagem a outro, muitas vezes sente-se a necessidade de prestar tributo como reconhecimento. "Isso é tão legal que eu PRECISO gravar". Precisar. Assim como o tributo federal, também pode ser alvo de protestos de quem crer que a releitura não está a altura ou os que acham que apenas o original merece valor (aaah, esses radicais...). E como no tributo monetário, quem se prestar a reler uma obra obrigatoriamente terá de doar parte de sua bagagem própria para tal feito.

O disco "Vol. 1" do TRZ Trio reúne dois tributos com uma faixa autoral de guião, "Flanando". O teclado de Fernando TRZ inicia confirmando o título da faixa: flanar é perambular sem pressa e sem rumo definido, e é exatamente esta a impressão, alguém que chegou ao ambiente despreocupado e disposto a descobrir com serenidade o que haverá a oferecer. Tem-se então o baixo de Fabiano Nunes sério e ritmado anunciando acesso, e com a bateria de Paulo Almeida inicia-se de vez o passeio. A bateria está bastante humana, visto os propositais ataques sugerindo quebrar o tempo, como quem caminha observando, decidindo, se distraindo e retomando, virando o rosto e olhando adiante de novo. Próximo aos 4 minutos o teclado mais tenso e bateria frenética formam um redemoinho que conduz aos poucos ao ato final, brando e satisfeito.

Vem então o primeiro tributo, "Malandro" de João Donato, composta em 1970. Curiosamente é a última faixa do disco "A Bad Donato", que tem no título esta gíria "bad" ainda bastante contemporânea, e na época se destacou pela fusão de MPB com eletrônica. O TRZ Trio a traz dos eletrônicos setentistas aos modernos, em timbre de teclado retrô porém com efeitos que nos recordam estarmos nos anos 2010. Graves e agudos gingam com bastante malandragem.

A esta altura o ouvinte já notou o quanto o som do trio é biológico e vivo - passa proximidade, diferente de gravações que mostram-se longínquas e remotas. O ouvinte sente estar na sala com os instrumentistas, sendo o teclado responsável pelo lúdico. Seus timbres invadem as entradas corporais de quem escuta, passa pela mente e expande as sensações e percepções.

O segundo tributo e última faixa relê uma composição advinda do início do governo militar. De 1964, "Coisa Nº 4" do pernambucano Moacir Santos, cuja original soa simultaneamente imperial e irônica. Nesta releitura de 2015 inicia-se com um ataque sombrio do teclado, e então o baixo puxando o tema cinquentenário, ainda a ser assombrado algumas vezes até entrada da bateria. Há uma fusão de estilos dentro da própria faixa, trechos bastante intrigantes e uma riqueza de variantes que, puxando a ironia da original, juntando-as bem se acomodam no termo "coisa".

Se uma obra cinematográfica completa seria aquela que o espectador se esquece de onde está sentado e participa plenamente do universo em tela, sente tensão e emoção que se mantém após o início dos créditos finais, este "Vol. 1" cumpre todas essas funções aqui migradas para a música.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Ivan Barasnevicius Trio

Ivan Barasnevicius Trio

Título: Continuum
Ano: 2014
Impressão:

A capa do primeiro álbum do Ivan Barasnevicius Trio é bastante simples, porém efetiva no que se intenciona: o nome do trio mais o nome do álbum com fundo amarelo, "Ivan" e "Trio" grandes, "Barasnevicius" e "Síntese" menores. A ideia era apresentar o grupo e tal capa bem servia o cartão de visitas, franca e reta. Já o segundo, lançado em 2014, traz na capa uma pintura vistosa e colorida, cheia de detalhes a apurar. Após o "oi, muito prazer", o segundo disco é a oportunidade para conhecer melhor e relacionar-se com a sonoridade e essência do trio.

Um elemento curioso é que as composições deste álbum já existiam anos antes do lançamento - algumas, inclusive, antes do primeiro -, o que mostra que chegaram ao ponto que estão graças à continuidade que Ivan, Dé Bermudez e Thiago Costa dedicaram às mesmas. Do nascimento até a gravação foram tocadas várias vezes, experimentadas, recebendo ingredientes novos e reinvenções resultadas de dedicação contínua. Assim, "Continuum" é título certeiro.

O CD abre com a homenagem de Ivan para tua esposa e baixista do trio em "Groove pra Dé": o prato é atacado e então a bateria inicia sozinha e ansiosa, apesar dos toques bem centrados e reincidentes deste início. O baixo da homenageada surge, a exemplo da bateria primeiro atacando agressivamente uma das cordas anunciando tua chegada para em seguida instaurar a melodia. Por último a guitarra de Ivan, declarando a própria chegada com notas aflitivas e rápidas, então ingressando o tema principal. Não demora para que a música pire, sobressaindo-se o momento perto dos 3 minutos quando guitarra e bateria enlouquecem juntas, exigindo fôlego até de quem escuta. Não há pausa para uma água, apenas mais desatino, guitarra ganhando distorção, bateria estrondando fúria. Aos 4:30 silenciam-se todos e o baixo os reconduz, em linha diferente à inicial, a um pequeno flashback dos ambientes apresentados na primeira parte, numa espécie de "melhores momentos", breves, impactantes.

"Hipnose" já merece de cara felicitação por começar atipicamente com um fade in: revela-se então que a música já começou em algum lugar, silenciosa aos nossos ouvidos, e agora vem se aproximando, o volume aumentando, gerando um cativante mistério de como será que é teu início, de onde está vindo, há quanto tempo começou. O efeito de atenção e curiosidade que pode causar no ouvinte este fade in é comparável ao efeito hipnótico, já que a hipnose traz o hipnotizado integralmente aos comandos da voz do hipnotizador. Cheia de frases cantáveis, mudanças no compasso e no timbre da guitarra que só aprazeiam, improvisos vívidos no baixo e bom espaço para a bateria perto do final sem que os demais instrumentos se silenciem e interrompam a harmonia.

Esta segunda faixa é composição de Luciano Nobre e revela uma das ligações do álbum com o programa Venegas Music TV apresentado por Ivan Barasnevicius, visto ser possível encontrar nos arquivos antigos do programa no YouTube a versão original desta faixa com apenas Ivan e Nobre a tocando. "Pé de Bode", a próxima, também é de um Luciano e também tem ligação com o programa citado: Luciano Magno a apresentou ao Ivan para que tocassem-na juntos no programa. No vídeo em que a tocam no agora longínquo ano de 2011 já é perceptível o tanto que Ivan havia gostado da música. O timbre distorcido e enérgico da guitarra ficou bastante bonito com a linguagem do baião, funcionando habilmente a mistura deste com rock.

Tive de buscar a definição de "Bizuca", título da quarta faixa, pois até então só conhecia tal palavra como nome de um bar de uma cidade interiorana na qual morei anos atrás. Encontrei diversos significados, desde nome de um doce mineiro até "pessoa tapada". A guitarra começa caustrofóbica, aprisionada num repeat, cujos demais instrumentos buscam puxá-la pra fora e até conseguem. O timbre do baixo está bastante bonito e diferentão nesta, e as harmonias que forma junto à guitarra são realmente graciosas de ouvir.

Fácil é ouvir o CD e ter a impressão de não estar escutando um trio e sim uma banda lotada. E, pra entregar a verdade, o "Continuum" não se trata mesmo de um CD gravado por três pessoas em estúdio mas sim quatro - Pietra, filha de Ivan e Dé, participou também das gravações diretamente do conforto da barriga da mãe. A palavra "acalanto", que nomeia a faixa 5 e é composição de Dé, vem do ato de ninar uma criança, cantar para que ela se acalme e durma. O violão, presente também no álbum anterior, reaparece nesta fazendo a base para que o baixo possa frasear e gerir o aconchego que a faixa proporciona. A sonoridade resultante é bastante rica e incomum. Há espaço também para que o pai se manifeste, saindo o violão e entrando uma guitarra, e em outros momentos ambos agregados. Como se o violão, aqui quarto elemento em uma música de trio, representasse a pequena que logo mais chegaria.

Se no primeiro disco o aceno ao passado (e presente e futuro também) no metal de todos os integrantes se dava com "Machine", neste disco se dá com a última faixa, "Granizo". O tema principal pesado caberia bem em qualquer hit do metal, mas aqui se junta no melhor estilo mestiçador - nessas alturas já típico e reconhecido - do trio com um samba, sem a guitarra precisar esconder a distorção nem bateria e baixo perderem a fúria para que o samba role. As encurraladas nas quais o tema principal se coloca são muitas, como um pedestre a buscar um toldo para se proteger de uma chuva de granizo.

Vale mencionar a faixa bônus lançada separadamente em 2015, "Minuano", arranjo de Ivan Barasnevicius para composição de Pat Metheny. Infelizmente há - e provavelmente não são poucos - quem enxergue o termo "abrasileirar" como pejorativo, às vezes nem por crença própria mas por costume adquirido. Ivan afirmou em entrevista que, com o trio, não teve preocupação de criar solos mirabolantes, e sim realizar a mescla de estilos distintos que se ouve nos dois álbuns. E isso foi possível, sem que perdesse a a concordância do conjunto. Logo, pode-se dizer que Ivan requintadamente abrasileirou a composição de Metheny. Destaque a um vilão de nylon de 1998 do próprio Ivan utilizado na gravação, cujo qual não sei se traz ligação fraterna, mas é a sutil impressão que ficou nas entrelinhas do que se escuta.

A sensação ao concluir a audição do disco é a mesma que se tem ao conhecer alguém, ter uma primeira boa impressão e não se decepcionar conforme dá continuidade ao contato.

Continuar pode ser, em boa parte das vezes, bem mais complicado do que recomeçar ou mudar completamente. Pra continuar é preciso manter o vínculo. É preciso ir em frente com o que já se tem. Continuar é preciso.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Ivan Barasnevicius Trio

Ivan Barasnevicius Trio

Título: Síntese
Ano: 2012
Impressão:

Um dia qualquer de 2012. Deparo-me com um meme daqueles de "coisas que farão você se sentir velho". Uma das "coisas": a constatação de que 2007 já tinha sido há meia década. Caramba! Em 2007 eu fazia parte de uma banda cujo estilo definíamos debochadamente como "hardcore universitário" chamada LøF (é, com o "ø" cortado, esses jovens...) e aquele meme me fez cair a ficha de que já fazia meia década do fim dela! Esse tempo que só voa... tanto voa que atualmente faz meia década não do fim da LøF, mas sim QUE EU VI AQUELE MEME! Taca-le mais cinco anos na conta. Qual o espanto, não?

Tais anos se ligam com o primeiro álbum do Ivan Barasnevicius Trio: 2007 foi o ano de início das atividades do trio e 2012 o lançamento do disco. Esta meia década que se passou do lançamento até hoje nos permite observar uma característica de Ivan, iniciada com este álbum "Síntese" e repetida nos demais discos lançados pelo guitarrista ao longo destes cinco anos: intitular os álbuns com a descrição do momento pontual que representavam!

"Novos Caminhos" (2015), título do primeiro disco de Ivan em duo com Rodrigo Chenta, indicaria novos caminhos para ambos - tocando com esta formação de duas guitarras - e também para a música brasileira; "Continuum" (2014), segundo álbum do trio, indicaria continuidade da sonoridade do primeiro; e "Síntese", o pioneiro, era portanto o mesclar de estilos que os levaram até ali, a juntura das diversas influências e referências dos três integrantes em uma unidade, a apresentação da banda.

"Tatuí" é o abre alas, atiçando os ouvidos ao entrechoque de estilos musicais: na primeira parte da faixa o rock domina o maracatu, com a guitarra alvoroçada de Ivan narrando o tema; já na segunda parte, chegando aos 4 minutos, o maracatu se sobrepõe através da bateria engenhosa de Thiago Costa e o baixo bastante exposto de Dé Bermudez que é quem dita o tema agora. Ainda assim, a distorção da guitarra e a rala microfonia conservam o rock junto ao ritmo pernambucano, num diálogo denso e completivo. Tatuí, além de nomear a capital da música do interior de São Paulo, também é o nome de um dos crustáceos mais inteligentes já que consegue produzir diversas respostas a situações diferentes - assim como os instrumentos desta música conseguem fazê-lo com dois ritmos tão díspares.

"Valsa para Ana" já indica, desde o título, um novo estilo posto na mesa. O baixo bem vigoroso prepara e decora todo o terreno, revezando graciosamente com a guitarra o lugar de fala, sem pressa nem fobia. A bateria é o mais agitado dos instrumentos nesta, mas em momento nenhum perde a itinerância. Me veio a mente uma cena do livro "O Apanhador no Campo de Centeio", na qual o protagonista observa um casal a conversar caminhando pela rua em ritmo normal enquanto o filho pequeno deles caminha pulando, se divertindo, cantarolando, bem mais agitado que os pais mas sem ninguém ultrapassar ninguém. É inclusive a cena que justifica o título do livro, já que na visão do personagem principal o pequeno está atravessando o campo de centeio.

A terceira faixa, "Machine", são várias em uma - e não contraditoriamente e sim justamente por isso, a mais singular do disco. O pesado tema principal? Provável reverência e saudação às auroras musicais de Ivan, Dé e Thiago, todos com passagem significativa pelo metal. São diversos ambientes intercalados por este tema colérico. Tem jazz, tem funk, tem desdobramento do metal à uma linha mais melódica e menos tensa, provando o quanto as referências musicais podem se encontrar e se entender.

Não é de meu conhecimento se a Elis homenageada na faixa 4 trata-se da cantora apelidada de Pimentinha por Vinicius de Moraes cuja mera menção ao primeiro nome já traz automaticamente tua imagem e segundo nome à mente, ou se estão homenageando a carismática vira lata de Ivan e Dé que é xará da cantora. Optei por não confirmar diretamente e sim considerar que a música é para ambas pimentinhas. Começa no melhor estilo "cada um com seu cada qual", com cada instrumento executando uma ação diferente na introdução de 40 segundos, até entrar o tema. Cantável, espaçoso, colorido. O timbre diferenciado do baixo prende bastante a atenção em seus momentos de destaque, também merecendo menção o modo bem visível com que o tema principal se encerra a cada execução conduzido pela bateria. No desenredo, aos mesmos moldes da introdução, por um bom tempo os instrumentos se deleitam cada um cada um, quase independentes entre si sem pecar harmonicamente.

"Novos Ares" redesperta o ouvido até daquele que colocou o CD para ouvir e se distraiu rolando a timeline do Facebook por motivos de: um violão! Após o ouvido já estar íntimo da guitarra, um violão muito bem posto traz, como o título assume, novos ares. Faixa animada e serena mutuamente. Destaque para uma espécie de interlúdio que ocorre ao centro da música no qual o compasso muda, ficando mais plácido e insinuando o recolhimento.

A última, "Girando Lâmpada", releitura de Ivan Barasnevicius para a música de mesmo nome d'O Terço, faz jus ao estilo rock progressivo apontado em boa parte das resenhas a respeito deste álbum. Apesar de não ser a mais pesada, é a mais estrondosa do disco, numa espécie de caos/tumulto organizado. Há espaços para solos da bateria, eco e uma curiosa distorção acentuada da guitarra ao final da execução dos temas: a eletricidade chegando e acendendo repentinamente a lâmpada que se girou e girou para encaixá-la. Nos 40 segundos finais a bateria, que iniciou o disco em ritmo nordestino festivo, assume um breve andamento de marcha militar conduzindo os demais ao encerramento. Desfecho classudo e clássico do rock, pratos soando, baquetas por toda a cozinha, distorção e a última nota das cordas alta e seca!

E está entregue a síntese, do simples ao composto. Das causas às consequências. De meia década atrás a uma contemporaneidade atemporal. Dos estilos com nome a uma junção que não necessita de novo nome.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Leandro Cabral

Leandro Cabral

Título: Sobre tradição
Ano: 2015
Impressão:

A tradição não existe por si só, independente e sozinha. Para que exista é preciso que haja transmissão. Vem do latim tradítio, significando "passar adiante" - implica ação nos dias atuais, movimento, o não esquecimento. Vida, vivida e vívida. Muito se debate atualmente sobre família tradicional, arquitetura moderna, "na nossa época era melhor", "não sei como eu vivia sem isso antes", manter ou abandonar tradições. E, em meio a discursos apaixonados e de desapego, a música: uma tradição em si própria e ponto importante em inúmeras outras tradições.

De cara no título de seu primeiro EP solo lançado em 2015 o pianista Leandro Cabral compromete-se a fazer jus a esta condicional da tradição: trazê-la ao agora, reconhecível, e mesclá-la com o moderno sem que se perca aquilo que nossos ouvidos reconhecem como tradicional. Nostalgia da contemporaneidade. Os músicos que o acompanham são conhecidos dele de anos tocando juntos na noite paulistana (tradição) e as composições tomaram forma durante a feitura de uma série musical ao YouTube (patrono da modernidade).

São seis faixas, mas também pode-se dizer que são três pares, visto que cada uma delas tem parentesco com outra.

No encarte, Leandro Cabral diz que buscou trazer "melodias gravadas no inconsciente coletivo". É interessantíssimo confirmar isso logo que se põe a tocar a primeira faixa, "Corcovado": todo brasileiro que se preze terá a sensação de estar em casa, de reconhecer de algum local aqueles sons, a melodia ensolarada do piano. O Cristo Redentor, situado no morro que nomeia a composição, estampa algum local da nossa mente e civilismo, mesmo a quem nunca o viu de perto. Bastante curioso é o primeiro momento protagonizado pelo baixo acústico de Sidiel Vieira: um tanto agoniado, uma aparente falta de folego proposital em cordas que sugerem se esforçar para soarem, abatendo o clima há pouco ensolarado com nuvens escuras chegando sem informe. Com a posterior retomada do piano e o destaque da bateria mais adiante, a faixa se revela um verdadeiro sobe e desce de tensões: do ensolarado ao melancólico ao festivo e ao tristonho de novo. Condizente com a capital que abriga o Corcovado: bela, que sofre.

Próximo ao final, quando os instrumentos estão próximos de se estabilizarem, um novo entra: a voz de Leandro Cabral! É um instrumento intruso e convidado ao mesmo tempo. Ao ouvido atento é possível ouvir Leandro cantando a melodia junto ao piano, recordando como faz o pianista estaduniense Keith Jarrett. É um fenômeno bastante interessante de assistir em vídeo a tamanha entrega corpórea-musical de Jarrett, performático involuntário, um pianista cujas câmeras não focam apenas nas mãos mas também dão closes nos pés, na coluna, fazendo do próprio corpo um instrumento participante. Ao permitir que ouçamos tua voz, Leandro deixa, como Jarrett, a música ainda mais humana, braçal e maciça.

"Stella by starlight" é a faixa que faz par com "Corcovado", não apenas pela mesma formação de piano, baixo e bateria, mas também pela forma desobrigada: sai para caminhar sem destino esclarecido e no andar que bem quiser, explorando as vielas sem critério pré definido. Os solos de baixo e bateria colaboram com a imprevisibilidade e mudanças de direção, sendo o de baixo bastante independente do rumo que o piano vinha traçando até ali, e o de bateria materializando através dos sons a auto desconstrução constante da faixa. Ainda assim, passa longe de ser confusa e tem encerramento clássico.

"Minha saudade" e "Eu e a brisa" formam o segundo par de faixas, sendo assim parentes graças ao sax de Cássio Ferreira e ao fato de serem mais diretas, lineares, inclusive na duração mais correspondente à média.

"Minha saudade", como Leandro explicara em entrevista, é um samba jazz sessentista, uma tradição palpável e, ao pé do nome, saudosa. As pausas do sax são bem valorizadas e em primorosa medida, com o piano nunca deixando a peteca ir ao chão. Já em "Eu e a brisa" há apenas piano e sax sem os demais parças, fundamentando o título que sugere só o autor e outro elemento. O sax soprano calmo, que aparenta querer dar forma a uma coisa bonita, emite poucas e longas notas enquanto o piano emite muitas e breves, aglomeradas, gizando juntos uma paisagem sonora. E o sax vai sem medo até as notas mais altas, sem perder a sobriedade que a composição propôs. É brazuca, gringa, familiar mundo a fora. Encerra-se com o sax sugerindo querer repousar, mas recusando-se a fazê-lo para deixar propositalmente inconcluso, como a brisa do título que também vai embora sem interesse num gran finale.

As duas últimas do EP são faixas solo, nas quais Leandro sonorizará tua mente pelas teclas. Cada uma de suas mãos é um componente convidado a manter o diálogo com o ouvinte e o movimento que cada composição inicia a partir da primeira nota.

Ambas tem títulos lúdicos: "Someday my prince will come" seria relacionado a contos de fadas? Paternidade? As notas graves estão bem presentes e carregadas, em polifonia com as mais agudas, colocando tensão e bonança a ajustarem-se. Não é triste, prevalecendo ares esperançosos sugeridos pelo título. Esperança vem de espera, tal qual o personagem do título espera teu príncipe, com esperança.

"Moon River", diferente da anterior em que o personagem está fisicamente presente mas com a cabeça em outro local, é mais contemplativa e paisagística. Consegue ser bastante imprevisível mesmo sendo faixa de um instrumento só, com destaque aos 2:15 em que o piano corre com notas em disparado, causando deslumbre certeiro no ouvinte. Se aproximando do fim as notas se apresentam mais lentamente, parecendo espécimes vivas a buscar o silêncio. E o encontram.

A escuta é rápida, mas evidencia: enquanto houverem composições apaixonadas como estas, e ouvintes, a tradição está garantida. Já dissera o espirituoso e saudoso cabeleireiro do meu bairro chamado Adão, falecido em 2013, quando uma cliente reclamou por ele ouvir no salão músicas que ela achava "muito velhas": "Que bobeira, menina, música é a arte que nunca fica velha, vai pra sempre se reinventar".


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Manu Cavalaro

Manu Cavalaro

Título: Cantora não
Ano: 2016
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"A gente canta a nossa saúde", escutei certa vez de um professor de canto. "Ao observar um pianista ou violonista em ação, piano ou violão são os instrumentos, e pianista ou violonista os instrumentistas. Já no cantor, o instrumento está dentro do instrumentista, então é inevitável a saúde dele aparecer no resultado", completou. Alguns podem discordar no que compete à influência da saúde do cantor no canto. Talvez seja mesmo algo a se discutir. Porém, o que mais pode causar polêmica - e é bem pouco discutido - é que provavelmente há quem estranhe o modo cujo qual o profesor se referiu ao cantor: como um instrumentista.

Ao receber para escutar o disco de estreia de Manu Cavalaro das mãos do meu xará Rodrigo Chenta, as exatas palavras dele foram: "Trata-se de uma cantora que não precisa de letras. Usa a voz como instrumento". As letras aparecem em algumas composições, porém, Manu dedica-se antes de qualquer pré etiquetagem ou sofisticação à função primordial e vital do cantor: cantar a melodia. Daí o título "Cantora não", em provocação ao senso comum de que cantores só cantam canções. Assim, apesar de poder ser considerado como um disco de música vocal, é antes um disco instrumental.

Apertando o play da primeira faixa, "Era pra ser maior", uma manada instrumental atropela o ouvinte que abria uma frestinha na porta para espiar: uma brevíssima virada na bateria e todos os instrumentos entram juntos, dispensando propositalmente as tradicionais introduções do ameno ao crescente feitas para o ouvido se ambientar. O bonde andando apanha de imediato o ouvinte do local onde sua mente e ouvidos estavam a pouco direto à música. O andamento acelera logo, revelando que os trilhos pelos quais caminhará a composição - e, conforme as próximas faixas mostrarão, o próprio disco - estão mais para uma montanha russa cuja surpresa está sempre ali do que uma linha reta de trem. Curiosamente esta é, segundo Manu, a primeira composição que ela teve coragem de mostrar às pessoas, condizendo não só ser a primeira do disco, como também a este "chegar chegando" da faixa.

Todas estas informações surgindo duma vez, ordenadas pela bonita voz de Manu, correspondem ao colorido do encarte: assim como a música, consegue ter muitos informes nas diversas cores e formas sem que disperse ou dê a impressão de bagunça. Há uma ordenação respeitável nas muitas notas cantadas, nos demais instrumentos todos muito presentes, e no encarte multicor e urbano.

Esta primeira faixa tem letra da própria Manu, e o que é muito notável é que o instrumento Voz - com letra maiúscula, em primeira pessoa, nome próprio - se confunde com o eu lírico. Versos como "Senti a sensação de um ré maior e assim, fiquei por aqui" podem ser interpretados como uma alegria, e em outros como um pranto, da protagonista Voz. É esta o personagem a nos relatar experiências pessoais, reconhecíveis até mesmo no verso em que cita músicos que a influenciaram: se Manu assume influência deles, tua Voz assume também.

A segunda faixa, "Saudade Federal", tem um clima bastante diferente da primeira, com piano e canto tristes na introdução. O fato de não possuir letra, com exceção de uma única frase ("Que saudade, federal"), confere à própria indefinição do que é saudade. Aí está sublime representação desta palavra no canto de lamento de Manu, que a compôs em memória de um federal citado no encarte.

"A Lua", faixa 3, inicia-se com piano entusiasmado favorável ao ambiente de fantasia infantil que se dará. Com versos que graciosamente caberiam na boca de uma criança, como "Quem que fez a Lua e botou ela lá?", recordou-me de uma mulher com quem convivi na infância chamada Gessina. Ela afirmava convicta: "Pode vir qualquer cientista falar pra mim que o homem pisou na Lua, eu não acredito de jeito nenhum". O motivo: São Jorge, também lembrado na composição de Manu no verso "Será que São Jorge mora lá?". Gessina, ao contrário, não tinha dúvidas disso e afirmava (com uma segurança difícil de descrer) conseguir enxergar, daqui, São Jorge espetando o dragão na Lua! "Até parece que o homem foi até a Lua e não filmou São Jorge".

Outra menção sobre esta faixa é o modo como a letra cantada por Manu está perfeitamente encaixada aos demais instrumentos. É comum na música vocal uma certa independência, mas neste caso a voz caminha nos mesmos passos, fazendo raro jus ao que se pode chamar de "todos uma coisa só".

A quarta, "Pra me visitar", tem no arranjo o conforto caseiro, aconchego, café na mesa, roupa de cama, sugeridos não só pela letra mas também por todo o instrumental. Há diálogo da voz de Manu com o clavinet, cujo qual responde com notas a cada frase por ela cantada, com interpretação que muito bem convence tratar-se de alguém na cama sem vontade de abandonar tal conforto e tentando convencer o/a visitante ficar. Ao final, após a última frase com letra, Manu entrega notas mais altas - "entrega" em todos os sentidos do termo, como quem entrega um presente, quem denuncia algo, quem se rende. Cantar é se expor e aqui talvez seja um dos momentos do disco em que Manu mais se expõe.

Na metade do disco, em "Olha Iemanjá" são ouvidas diversas Manus a cantar com um piano. As várias vozes colaboram com a aura mística que envolve tal entidade. Ao dizer que uma coisa é ritualístico é comum pensarmos em religiões, porém, já não seria o próprio fazer música, de qualquer tipo, individual ou coletiva, um ritual?

A faixa 6, "Funk com tudo", dialoga com a faixa 8, "Cantora não", por não possuírem nenhuma letra, nenhuma palavra. São faixas com diversos atos, separados por mudanças no andamento que ambientam cada novo rito. Manu contou em entrevista que "Funk com tudo" nasceu como um funk, mas se transformou em baião e depois jazz. Isto muito recorda escritores revelando como, em certo ponto, seus personagens começam a "falar sozinhos" e guiam a história para um rumo diferente do planejado a princípio. Assim o é com música também: adquire autonomia, decide sozinha onde ir e, de acordo com Manu, "a gente ouve e obedece ao que ela pede".

"Diminuta", sétima faixa, tem parentesco com a primeira: na primeira, a Voz pode ser interpretada como eu lírico da composição; já nesta, a Música, aqui também como substantivo próprio, é o assunto de si mesma. A opção, ou falta de opção, por viver financeiramente dela. A letra é um "Justifique sua resposta" pronto aos que costumam perguntar para músicos se estes trabalham "só" com música. A voz de Rinah Souto, cantora que participa da faixa, é um verdadeiro achado, caprichando na interpretação/dramatização, algo tão cobrado dos cancioneiros.

Se aproximando do final, "Frevendo" tem ritmo festivo, alegre, carnavalesco. Há considerável espaço para os demais instrumentos além da voz solarem, e um espaço apertado próximo ao final onde entram algumas frases velozes não só no andamento mas no próprio conteúdo da letra, sugerindo muita pressa.

A última, "Gratidão", composta pelo baixista Itiberê Zwarg, diferente da faixa de abertura (que, como dito, começa com o bonde já andando), tem uma introdução solene, como se estivesse preparando o público a um pronunciamento importante. E o é realmente. Os agradecimentos finais em áudio e musicados. Mesmo quando o andamento dá lugar a outro mais animado, não perde o tom de celebração. "Dividir com vocês, é tudo que sonhei". Manu dividiu e agora agradece. Gratidão é um rito bastante importante nas religiões tradicionais. Religião, antes de qualquer pré conceito da moda, é religação. Agradecer nesta última faixa é se religar com o que motivou e motiva tudo isso que acabou-se de escutar.

Se o professor citado ao início estiver certo (e, pessoalmente, creio que está) e nós, realmente, "cantamos nossa saúde", solicito que a cada aniversário de Manu Cavalaro teus afetos não esqueçam do voto de "muita saúde".


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Mauricio Cailet

Mauricio Cailet

Título: Time's up
Ano: 2013
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Um dos mais comuns pré conceitos em relação à música instrumental é a crença de que este tipo de música é som de gente cult, intelectual, elitizada. Que necessariamente precisará ter instrumentos refinados e eruditos, executando coisas complexas, que somente um gosto que despreza o popular se agradará ao ouvir. Levando em conta isso, o álbum "Time's up" do guitarrista Mauricio Cailet pode ser uma convidativa porta de entrada ao universo do instrumental para os ouvidos que creem nessa lenda urbana.

É um álbum essencialmente de rock, embora alguns outros estilos manifestem-se em certas faixas. Os instrumentos em cena - guitarra, baixo, bateria, percussão e teclado - são conhecidos do grande público e facilmente reconhecíveis na audição.

Mauricio Cailet assumidamente não se interessa em apresentar no disco frases de alta complexidade e difícil absorção, mas sim composições que cheguem em locais do ouvinte que só a música tem eficiência de chegar. O resultado é um álbum de melodias muito bonitas, em que Mauricio se entrega e expõe bastante de si. O rock tem várias facetas e uma delas é justamente a faceta emotiva, muitas vezes auto biográfica, que faz o fã de rock se identificar com a experiência pessoal retratada, a alegria ou a tristeza do compositor. Tal faceta está nesse disco que, sem nenhuma voz audível, consegue relatar muitas inspirações, implícitas e explicitas.

Foi dito em entrevista pelo próprio Mauricio que muitos contam-lhe pegar estrada ouvindo o álbum. As primeiras faixas, "Cadillac" e "Return", dão a atmosfera de road album. Retornar tem a ver com estrada, estradas tem a ver com rock, carros antigos como Cadillacs tem a ver com os chavões de rock. Já nessas primeiras se tem um panorama do que será ouvido: faixas enérgicas, guitarra de timbre muito bonito, bateria bastante presente e forte, pausas valorizadas. Os riffs poderiam facilmente estar presentes em hits de bandas roqueiras com vocal, daquelas quais ovacionam guitarristas ímpares que levantam a plateia. "Cadillac" termina com um solo de bateria, modo bem clássico do rock, e "Return" curiosamente com um fade out, algo que se tornou raro nos dias atuais e, portanto, remete também ao clássico.

"Sleepless city" me fez pensar, pelo título, se estaria falando de São Paulo, que empresta de New York o subtítulo de "cidade que não dorme". A faixa possui diversas pontes, assim como São Paulo de várias pontes e viadutos. Penso todas as contradições da cidade terem sido retratadas pelas mudanças da música: algumas mais agressivas e aceleradas, outras mais calmas e contemplativas com auxílio das teclas, chamando a atenção o fato de serem um tanto breves, como as paisagens na cidade grande, tantas e tão variadas que cada uma parece pequena e rápida de se observar pois logo ao lado tem outra bastante diferente pra ver.

A de número 4, "Only this", é a primeira que mais se diferencia das anteriores. Percussão na introdução, teclado bem vistoso e um tanto vintage, oitentista. Os instrumentos vão chamando um por vez, se unindo em trechos dançantes que se contradizem legal ao tema principal mais tenso.

"Smiles" tem título sugestivo. Mauricio deixou claro que pretende, através das composições, contar histórias, e o título acaba direcionando bastante a esta dramaturgia. Não é preciso manjar de linguagem corporal para perceber que o ato de sorrir para outra pessoa é o ato de baixar a defensiva, abrir as portas, romper alguns tijolos da parede invisível do nosso espaço particular. Nesta faixa os instrumentos parecem bradar frases uns aos outros, se comunicando, como se dessem permissão uns aos outros para avançarem e fraternizarem. Há muita vida expressa na harmonia da composição. O final, onde guitarra e bateria se manifestam rapidamente entre algumas pausas, me lembrou um brinde coletivo, em que se escutam várias batidas de copos espalhadas.

Mesmo o álbum em questão sendo de um guitarrista, a faixa 6 é apenas do contrabaixo de Edson Barreto. Tal ato, quando realizado em um show, tem bastante virtude: auxilia na dinâmica do espetáculo, afinal, por mais que o nome no letreiro seja o do músico considerado principal, o outro também faz parte daquilo e tem então o canhão de luz direcionado a si. Permitir esta mudança de "cara" em um álbum é muito relevante, silenciando todos os instrumentos que até então muito presentes e altos estavam, para que o contrabaixo conte uma história sozinho. "Father and Mother" é esse momento de calma, conseguindo com apenas um instrumento uma breve peça de pequenos atos, com notas que definem bem o final austero. Achei esta uma faixa bastante visualizável, pois parecia conseguir "enxergar", imageticamente, os dedos atacando as cordas. Curiosamente uma mãe está presente no título e, graças aos ares eruditos, acabei associando com a minha, cuja qual tocava violão erudito há anos atrás e uma das primeiras vezes que a vi tocar uma peça fiquei impressionado com o dedilhar rápido e colado um no outro, cena bastante parecida com a imagem citada que me veio à cabeça nesta composição.

"Time's up" é faixa título e imagino que leve este nome por conta do próprio elemento tempo, muito presente na criação e concretização do álbum. Pensar que as composições começaram no final dos anos 90, quando termos como Wifi e Facebook nem existiam, quando celular ainda era coisa de granfino, indo iniciar as gravações na década de 2000, pra tudo estar pronto e ser lançado somente em 2013! Quem presenciou um bebê nascendo em 1997 o viu em 2013 se preparando para logo tirar carta de motorista. A faixa possui diversos ambientes diferentes um do outro, mesclados em uma das passagens por um solo do baterista Johnny Moreira, retratando o passar do tempo e seus intercalares, suas veredas e encantamentos.

Além de "Father and Mother", outras figuras paternais aparecem no final.

"My Light" é dedicada à mãe de Mauricio, Yvonne F. Cailet. Celeste poderia adjetivar a composição, que se inicia e permanece emotiva, não perdendo o tom sensível mesmo com a entrada de uma guitarra de mais peso e das aceleradas no andamento. Possui cor una, é forte e engrandece. Já o pai de Mauricio, Oglai Cailet, tem em dedicatória a última faixa "In Memorian". Interessante o fato de que a mesma começou a ser composta enquanto o homenageado ainda estava vivo, e foi continuada e finalizada após tua partida. O momento da partida é o momento em que o elemento tempo, citado e dignificado no disco, termina para quem partiu, mas ainda assim continua a passar - assim como esta música, que continuou sendo escrita após a partida. É repetido algumas vezes um trecho compassado levemente tenso cujos dedos começam a acompanhar sozinhos após a terceira ou quarta vez que é tocado na música. A temática de falar de alguém que já partiu poderia sugerir tristeza, mas esta acaba sendo, na verdade, uma composição para celebrar uma vida.

O encarte possui arte simples e direta, assim como o é o álbum: o tempo ilustrado na capa através de um relógio com números romanos no qual Mauricio e guitarra estão ao centro. Clássico e novidade estão aqui intrínsecos, se completando, sendo tempo e passar do tempo conjuntamente.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Pedro Pimentel

Pedro Pimentel

Título: Pedro Pimentel
Ano: 2012
Impressão:

Vários estereótipos do que se imagina a respeito de música instrumental caem por terra com esse álbum.

Capa abstrata, requintada e poética? Sim, de todos esses adjetivos, mas de um modo completamente independente ao esperado. Anúncios cheios de pontos de exclamação em balõezinhos coloridos, um televisor daqueles que víamos na casa de nossos avós, um formato de videogame cujo qual estudantes colegiais contemporâneos nunca viram mais gordo na frente. Pedro Pimentel optou por uma arte que lembra os anos nos quais se assoprava fitas de videogame para que essas funcionassem, cujas embalagens vinham cheias de informações e de cores. Assim, Pedro entrega a seu modo uma capa abstrata, poética e requintada - abstrata pelo nó na cabeça proposital, requintada pelo estilo retrô e poética por tudo que significa.

Uma das definições que Pedro Pimentel deu ao CD foi "uma documentação da época", e isso está - não nas entrelinhas, e sim bem exposto - na capa e nas composições. O retrato de alguém que nasceu na segunda metade dos anos 80, foi criança nos anos 90 e adolescente nos anos 2000. Curiosamente o álbum não tem nenhum título além do nome próprio de seu criador, o que torna tal retrato mais personalizado e direcionado ainda.

Apesar de todos os instrumentos terem sido tocados por um único Pedro, não soa como um álbum solitário. Não saberia dizer se é pelos instrumentos estarem tocando conjuntamente em formato de banda, mas creio ir além disso e ter a ver com os 7 anos que o mesmo passou compondo, provavelmente conhecendo e se despedindo de bastante gente no período.

Assim como no álbum "Time's Up" de Mauricio Cailet, quem tem preguiça de discos instrumentais por achar que escutará um som de intelectual irrisório com monóculo nos olhos vai se surpreender com os caminhos possíveis. O disco de Pedro Pimentel vai do agressivo ao emotivo, e faz referências nostálgicas à cultura pop de quem viveu nas épocas abordadas.

"Fechou o Tempo", faixa de abertura, desenha todo o plano de fundo de onde e quando se passa o álbum: Pedro a compôs após fugir de assaltantes, ou seja, adrenalina e perigo são reconhecidos na sonoridade. A bateria programada e o baixo dão a velocidade, enquanto a guitarra parece querer gritar. Há atmosfera de game, soando como algo que já fora moderno e se tornou vintage em poucos anos.

A seguinte "Cavalo de Pau", apesar do andamento diferente, preserva o clima de adolescente de cidade grande de duas décadas atrás jogando dentro de um quarto. As notas furiosas da guitarra e o prato enérgico da bateria passam a ideia de muita energia contida, e até de caustrofobia - joga-se um game e com isso vive-se várias emoções inquietas e pulsantes dentro de um cômodo limitado. Os bends batem e rebatem nas paredes do quarto, buscando com ansiedade se expandirem para além dali.

Dois apontamentos se fazem necessários:

O primeiro é o título desta segunda faixa. Não lembro a última vez que vi pessoalmente um cabo de madeira com uma cabeça de cavalo na ponta. Para alguns, da época do Pedro ou de antes ou depois, apenas um cabo velho de vassoura sem nada nas pontas já servia como cavalo de brinquedo. Notável como Pedro Pimentel referencia games, que foram e ainda são itens modernos - como na faixa 6, "Strider", referência assumida a um jogo lançado em 1990 de mesmo nome - como também traz ao álbum este brinquedo de madeira que é mais simples e antigo, porém mais orgânico e palpável, que também permite boas aventuranças ao miúdo que souber criá-las.

O segundo apontamento é o fato de que Pedro gravou as músicas em seu próprio quarto de dormir, contrariando aquela balela de que atividades criativas não devem ser feitas no ambiente em que se dorme. A vivacidade e intensidade enclausuradas despontaram no som.

A terceira faixa, "O Som do Vidro", me fez questionar se não seria justamente o vidro da janela do quarto a vibrar diante de tanta carga. Porém, essa é uma composição mais calma que as anteriores, que após os curiosos e enigmáticos sons de introdução já se mostra bem distante das supostas trilhas de games. Destaque para os dois timbres de guitarras colocados para um dueto esbelto perto dos 3 minutos.

"No Veneno" e "Tarja Preta" parecem faixas parentes. Os títulos fazem pensar no sangue no zóio que pra muitos é necessário num jogo, e na contenção brusca e química a esse mesmo sangue. Ambas começam marrentas, entregando após o primeiro minuto a música para uma guitarra solar - a primeira com frases mais sensíveis, já a segunda mais colérica. Os estados se mesclam, numa com notas altas e longas, noutra com mais agilidade e menos altura.

Estamos falando de um disco instrumental cujo uma das músicas se chama "O Grito Mudo", ou seja, se já não se espera ouvir vozes aqui, não se esperará especialmente numa faixa com "mudo" no título. Mas, ao ouvido entregue e aberto, essa faixa traz vozes sim! O arranjo um tanto sombrio monta o cenário para que uma espécie de suspiro instrumental se manifeste em escala de tempo muito próxima da respiração do ouvinte. Hão suspiros herméticos ao início, ao solo de baixo, e mesmo quando a guitarra ganha completamente a composição o ouvido ainda busca por eles. Um falso final entrega silêncio de alguns segundos antes da conclusão, sendo talvez uma ilustração à referida mudez do título.

"O Beco", apesar do nome que sugere riscos, é uma composição mais descontraída, do tipo que faz dançar morosamente na cadeira, surpreendente pela imprevisibilidade. Tem um longo solo de teclado, revelando um lado mais tranquilo do disco, embora a faixa termine com o mesmo teclado tenso junto a uma guitarra angustiada.

É de se supor que esteve presente durante todo o disco uma certa nostalgia com as épocas e referências que levaram o Pedro a ser quem era no ano em que lançou o disco (2012), mas na faixa "Um Grande Amigo" o tom emotivo assume o lugar de fala com maior maestria. Antes da bateria entrar já é possível sentir colher determinadas áreas internas nossas sem nome as quais apenas a música consegue descortinar. Frases cantáveis, variações muito interessantes delas, e mesmo nos trechos em que há acelaração o tinido emotivo continua ali.

A última faixa, "Nova Era", é a mais diferentona de todas. Talvez arriscasse afirmar que nem parece ser do mesmo álbum que as demais, sem que isso jamais insinue incoerência - a guitarra forte de todas elas continua aqui, o tom comovente da faixa anterior também. A introdução com cordas acústicas suscita o ouvido, a percussão que lembra chocalho - mais um item de brincar, ao lado do cavalo de pau e dos games - muito bem aproveitada ativa a curiosidade e um sorrir interno. A faixa cresce na medida certa, chegando a seu ápice com as mesmas guitarras nervosas da primeira faixa agora mais enlevadas. Apesar de, conforme Pedro contou, o título ter sido gerado um tanto depois da própria composição, este encaixou-se jeitosamente com a missão de encerrar o álbum: após tantos itens de suas memórias serem postos na mesa, a porta já encontra-se aberta para o novo.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Ricardo Carneiro

Ricardo Carneiro

Título: NY 7577
Ano: 2016
Impressão:

Infantil é um adjetivo cujo qual na maioria das vezes é usado como sinônimo para imaturo, tolo ou instável. Alheia a esta visão pejorativa, a verdadeira definição de infantil é aquilo que diz respeito à infância. Está ligada à proteção, a um ponto de vista mais lúdico da vida.

"NY 7577", de um solitário Ricardo Carneiro nostalgiando através de violões e violas, é um álbum que remete à aurora da vida. Traz a tona a criança que o próprio Ricardo foi um dia, permitindo que o ouvinte resgate também aquele ser que hoje parece tratar-se de um desconhecido ao observá-lo em fotografias. Não apenas o miúdo é apresentado, mas também um local e a maneira como este local era visto através dos olhos de quem está descortinando o mundo.

Quem já revisitou algum local que faça parte das memórias de infância provavelmente se surpreendeu com o tamanho das coisas vistas agora em perspectiva de adulto. Há algum tempo precisei revisitar a escola da qual saí quando tinha 8 anos e lembrei do quanto achava gigante e sinistra uma gruta com a imagem de uma santa que tinham na entrada. A gruta e a santa ainda estão lá, porém, hoje tendo outra altura e outros olhos, achei as mesmas bastante pequenas. Revi também um muro cujo qual era uma aventura dificultosa escalar, e que atualmente bate na minha cintura. Esta perspectiva meninil de visão de mundo se faz presente no álbum, no qual o Ricardo guri e a cidade de Nova York, onde o mesmo vivera de 1975 à 77, são os personagens centrais.

Muita curiosidade de escutar o disco me veio rapidamente quando abri o encarte e percebi do que se tratava. Aquelas imagens tão bonitas de uma Nova York que provavelmente não existe mais, com um filtro antigo verdadeiro que atualmente tanto tenta-se reproduzir nos instagrams da vida, tão bem ilustrando o conceito do álbum que é assumidamente uma nostalgia de período e local vividos por Ricardo Carneiro, dando a certeza de estar prestes a apreciar uma obra em que imagens, sons e relatos se complementam. Os pequenos textos no encarte contando sobre a mudança do Brasil para NY dos 2 aos 4 anos de idade, as músicas que escutava em família na época, bem como os depoimentos a respeito da cada composição, aproximam e ambientalizam o ouvinte ao enredo do que será ouvido.

Uma feliz coincidência é que o álbum, por ser instrumental, não tem nenhuma fala audível, e isso remete à própria palavra infância que, do latim infantia, pode ser definida como "indivíduo que ainda não aprendeu a falar". Ricardo Carneiro, na época agraciada no disco, provavelmente estava no período de aprender a verbalizar e as músicas que escutava na época e cita no encarte (Bob Dylan, Peter Seger, e outros) devem ter tido uma eficiente participação nisso. Aqui ouviremos portanto explanações sem frases palavreadas, sem o verbo, mas de um pequeno indivíduo que já observava, sentia e se expressava de alguma forma.

Ao colocar para tocar a primeira faixa, "Voo 7577", a animação da criança já aparece, na euforia e curiosidade típicas de quem ainda encara o planeta como uma grande diversão a desvendar e aproveitar. Não é de se estranhar o fato de que tal música foi utilizada como tema para um app que mostra a história e cultura americana para crianças e bebês, pois tem tudo a ver. Já se percebe de cara o grande domínio do violão e o clima regional, saudoso e petiz que envolverão o disco.

No hemisfério norte as estações do ano costumam ser bem mais definidas e características do que no hemisfério sul, onde nem estranhamos precisar se agasalhar no verão ou se queimar no inverno. Duas estações do ano vividas no norte estão retratadas no álbum. "Paisagens Americanas", de título que auto explica a inspiração, tem timbres muito curiosos, alguns lembrando chocalhos. É bastante imprevisível, alterando o andamento a bel-prazer sem escapar ao ambiente desenhado. Passa a ideia de frio que é confirmada pelo depoimento no encarte falando de cachoeiras congeladas. Outra que também está envolta por uma estação climática e curiosamente também tem andamento fortuito é "Uma Folha para Nena", sendo esta sobre o outono que presenteou a avó de Ricardo com uma folha caída de uma de árvore enviada por carta ao Brasil.

"Tati na Rede", embora não seja exatamente sobre os anos de Ricardo Carneiro criança e sim uma composição feita para embalar o sono de sua esposa numa rede, ainda assim remete à infância pois é uma canção de ninar. Tem conforto, ingenuidade e meninice. A seguinte também é dedicada a uma pessoa, "Feliz Aniversário, Jan", e apesar de ser, como todas as demais, uma composição de um instrumento só, é uma das mais solitárias. Notas bem espalhadas, sem alvoroço, momento de bonança.

"Belle" faz fantasiar o faroeste que se vê nos desenhos animados, com casas de madeira, as típicas portas de arestas dos saloons, poços, areia e, do próprio título da composição, um furacão. Belle é o nome do furacão que passou por NY justamente no ano que fica entre 75 e 77. Ricardo conta no encarte ter lembrança de esperar na janela o tornado passar, e esta é uma imagem muito rica. Um tornado pode ser assustador a um adulto já que este conhece as possíveis consequências, mas a uma criança de 3 anos, idade de Ricardo na época, pode ser algo aventuroso e mais contemplativo do que preocupante. A composição é bem preenchida e revela uma característica também identificada em outras deste álbum que é a parada, o rápido silêncio, a respirada para uma retomada enérgica.

Outro evento novaiorquino presente no disco é um apagão que ocorreu em 1977 lembrado na faixa "Blackout '77". É um blues atiçador, livre e divertido. Visto que o blackout facilitou a ação de muitos ladrões, a faixa acaba dialogando não apenas com a anterior, por retratarem momentos históricos, mas também com o título da próxima, "Forasteiro". A introdução desta é bem interessante, com uma nota única soando baixa e constante, demorando a entrar a melodia. É feita de diversas frases bonitas, quebras bruscas e singulares momentos de notas solitárias sendo pontes entre os recintos mais fartos.

"Asa Branca", composição de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, é uma clara referência às origens enquanto estava fora. A percussão deixou a faixa dançante e brasileiríssima. Por ter feito seu próprio arranjo e trazido sua própria leitura para tão celebrado hino, Ricardo Carneiro conseguiu, intencionalmente ou não, materializar o espectro da música brasileira em terras americanas, na surpresa do gringo que escuta tal música tão diferente do que está acostumado, ou do brasileiro em terras distantes com saudades do Brasil.

A décima, que também é faixa título, "NY 7577", tem revelada no encarte ter levado um tempo para ficar pronta, assim como o próprio CD que sempre foi um desejo de Ricardo Carneiro. É uma faixa animada e que, imagino, seja a homenagem definitiva à cidade que Nova York era nos anos citados e às memórias ali vividas, como se condensasse toda a ideia nostálgico-afetiva (e existe nostalgia não afetiva?) do disco e desembocasse aqui. Composição desprendida e celebrativa.

O encerramento se dá com "Farewell...e Bem Vindo", lembrando que os ciclos terminam para que se iniciem novos. Se a faixa anterior reunia e contemplava todo o período vivido em Nova York numa coisa só, esta última é a partida após a despedida. Uma viola e melodia simpáticas acenam para os três anos vividos na gringa, sem melancolia e sim com satisfação de ter vivido um período bom, e olham com ternura às terras tupiniquins para onde os bons filhos retornam. Um dado curioso é que tanto essa como a primeira são as faixas mais breves, tematizando chegada, partida e nova chegada.

Ao soar da última nota do disco, e sabendo que Ricardo Carneiro nunca retornou a Nova York, a sensação é de umas tantas variadas saudades - de algo não vivido, de algo mentalizado através destas composições, dos pequenos seres que fomos antes de nos tornarmos adultos supostamente civilizados, de todas essas memórias que são do Ricardo mas durante a audição pareceram nossas e que resistimos em deixar partir.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Rodrigo Chenta

Rodrigo Chenta

Título: Influência brasileira
Ano: 2017
Impressão:

Uma viola dinâmica é escolha acertada para iniciar um disco que tem a nacionalidade por extenso no título. É um tipo de viola cuja própria aparência condiz à extravagância que alguns brasileiros assumem com orgulho e outros negam. Além de ser a viola dos repentistas, originários da Paraíba mas que se popularizaram bastante no Rio Grande do Sul mesmo com tantos estados entre ambos, e isso já bem antes da internet pensar em existir. De fato o que se ouvirá das primeiras notas ao fim do disco é legítimo Brasil, se preservando dentro dos limites estabelecidos pelo contorno do mapa na capa. Ainda que na influência brasileira haja influência gringa inevitavelmente, o carimbo brasileiro está lá.

Bastante interessante o mapa do Brasil na capa sem fronteiras entre os estados visto que, como o repente, há décadas os ritmos regionais atravessam quilômetros. Mas também interessante porque este mapa é provavelmente a primeira consciência que o brasileiro médio tem de seu país. A bandeira nacional é o maior dos símbolos, mas é na aula de Geografia no primário, quando vê pela primeira vez um mapa do Brasil, que o brasileiro criança entende o que é um país e que mora nele. Entende o que é uma nacionalidade ao descobrir que há muitas pessoas morando até nos estados bem longe do teu, todas elas brasileiras também.

"Pescoço torto" inicia o disco e o resgate das influências brasileiras de Rodrigo Chenta com a já citada viola dinâmica de César Petaná, puxando um baião tradicional. Brasilidade íntegra, som divertido como o brasileiro é adjetivado na gringa, até o baião dar lugar a uma sequência anárquica. Todos os (muitos) instrumentos improvisam soando bastante livres e soltos, embora ainda assim sintonizados. Da mesma forma que uma sociedade que aderisse à anarquia exigiria atenção para não se tornar barbárie, aqui os instrumentos fazem-se atentos uns aos outros evitando balbúrdia. Uma cuíca tristonha encerra esta sequência lembrando um choro animal ou até humano ecoando pelo sertão deserto e solitário, ou o final do carnaval. Ainda que Rodrigo explique o título da composição a partir de uma briga com peixeira, pode destinar-se também a personagens folclóricos brasileiros que comumente tem características peculiares nos membros, como o Saci Pererê com uma perna só ou o Curupira com os pés ao contrário.

A segunda faixa, "Calor do Nordeste no Sul", curiosamente é um tanto antônima a anterior já que com apenas três instrumentos - viola caipira, guitarra acústica e participação especial do cavaco - consegue se dispor muito alegre. Assim como os ritmos locais viajam pelos estados, os climas também não são exclusivos. E a provável tendência, para ambos, é cada vez serem menos exclusivos.

Se na primeira faixa chama a atenção na ficha técnica o uso de folha de sulfite como instrumento, na de número 3, "Sem discussão", há uso de sacola plástica. Representação prática da aptidão do brasileiro de se virar e musicalizar quase que por natureza o que tiver em mãos. Mas a sacola se ouve somente no terceiro ato da composição. O primeiro apresenta uma guitarra ranzinza e incomodada com algo, baixinha mas sugerindo provocação. Já no segundo, que entra somente após a guitarra silenciar, é ocupado pela flauta transversal aborrecida, desinteressada em comprar a discussão. Aos 1:45 revela-se uma bossa triste, iniciando o terceiro e mais longo ato, cabendo à sacola plástica responsabilizar-se pela cadência com sonoridade muito prazenteira. Ao entrar a voz de Rodrigo Chenta, é grata surpresa a quem conhece toda sua discografia e ainda não havia escutado-o cantar, e outra grata surpresa pelo quanto num primeiro momento recorda a voz do Bituca (Milton Nascimento). O encaminhamento para o final se dá com sax e realmente não houve discussão e sim espaço a todos - embora cada ato seja por si só tão cativante que a única briga que caberia é "por que não duraram mais?".

"Tio Dum" foi composta por Rodrigo em 2012, enquanto seu tio Oswaldo era vivo. Na cultura brasileira os parentes costumam ser influência forte na formação do indivíduo, e aqui tal influência é retratada e honrada num xote animado referenciando os bailes que o tio do interior gostava de frequentar com a tia Rosa. Aos 1:35 sai o ato festivo para entrar flauta e guitarra bastante lamentosas simbolizando a partida do tio. Mesmo melancólico é um lamento consolado, que volta a dar espaço ao xote animado. Bem envolvente e bonito é o final após a saída do triângulo, quando há repetição de parte do tema numa consonância dos instrumentos a reverenciar o tio Dum, misturando tristeza com alegria ao mesmo modo que se misturam na saudade.

"Deus amado" é uma expressão exclamativa um tanto fora de moda no Brasil, e na quinta faixa tem sentido mais literal visto ser, de acordo com o próprio Rodrigo Chenta, uma oração não verbal. Ainda que a defina assim, as frases são tão bem feitas que é quase como se houvessem palavras/verbos ali. Percebe-se claramente a intenção de cada, uma comunicação impressionante. Somete guitarra acústica e violão trazem sonoridade bastante caipira. Se na cidade grande há resposta rápida a respeito de quem criou todos os prédios, carros e viadutos ao redor, no campo o mistério da criação está bem visível e disponível - quem criou todas as árvores, lagos e céu? Seja ateu ou com fé, é no campo, longe do "conforto" que a vida urbana nos proporciona, onde percebemos nosso real tamanho e fragilidade diante da natureza, planeta e universo.

Na faixa 6, "Angu de caroço", Rodrigo une os dois parceiros com os quais formou duos: Ivan Barasnevicius no violão e Cássio Ferreira no sax soprano. Já há uma tensão instrumental logo no início, que se formaliza aos 20 segundos e é repetida em outros momentos, numa sequência crescente que recorda temas cinematográficos como o do hitchcockiano "Psicose". Há um certo humor que já parte do título e se manifesta por toda a composição, com os instrumentos parecendo bem dispostos a tirar sarro um do outro.

Chegando na metade do álbum, "Dançando no chão rachado" surpreende por começar tímida e por ser de apenas uma guitarra acústica. Introdução discreta, o baixo da guitarra dita o ritmo dançante que virá e então logo é possível dançar. Um bailado contido, de semblante sério. Aos 1:52 entra o segundo ato, que ainda tem muito do primeiro, acrescido do bater nas cordas que levanta um tanto do astral. O encerramento se dá aos 3:15 com o tema ficando mais lento e melancólico, gerando antítese intencional de Rodrigo Chenta a representar manifestações culturais brasileiras realizadas em regiões que sofrem muitos problemas mas ainda assim realizam-se.

Um sax soprano de quem se recolheu para prantear inicia "Triste coração". A interação das cordas é um tanto explosiva: notas longas do sax são respondidas por notas desesperadas das cordas como se fossem lágrimas. Ação e reação. O timbre do violão de 7 cordas está bem atípico no momento que assume o lugar de lamento, pois se escuta seus sons batendo na parede da sala de gravação, bem ao vivo e fortemente ambientado, levando o ouvinte ao momento da gravação. Parece haver cada vez menos pressa, como o lamento o é inicialmente desesperado para depois acalmar. Novamente há o canto de Rodrigo Chenta, comovente e encaixando bem com o cavaco, repetindo a interação da primeira parte da música: o canto lamenta, o cavaco lacrimeja.

A viola caipira retorna em "Ansiedade", inicialmente sozinha e entediada, ansiando por mudanças como Rodrigo explica que era a intenção. A percussão que entra lembra capoeira, um som ritualístico, preparando território para a flauta transversal de Raphael Ferreira com timbre bastante bonito e frases a altura. Aos 2:36 surge proposital esquisitice, estranha mas funcional, com andamento parecendo ansioso para acelerar e sempre recuando, a desaguar num inesperado batuque de encerramento. É um dos momentos mais curiosos do disco pela pouca associação ao que se ouviu antes, característica que Rodrigo revelou gostar de inserir em suas músicas, e aqui mais interessante ainda por estar ao final e não no meio.

Elder de Souza, que toca boa parte dos instrumentos de percussão no disco, assume o mais conhecido deles do samba na faixa 10, "Uma boa tarde". O pandeiro dita um ritmo singular e divertido junto ao cavaco, violão e guitarra, resultando no que Rodrigo muito bem definiu como "encontro de amigos em uma boa tarde de música". A percussão com violão abafado causa muita curiosidade e vai puxando cada vez mais tensão. Não há medo de nenhuma das partes de se entregar ao que música pede, cedendo à aceleração, ao aumento de intensidade e energia. O título pode se referir tanto a uma tarde específica agradável, como também a uma das variações dos modos brasileiros de cumprimentar que utiliza o artigo "uma" antes da saudação: "Uma boa tarde para você".

As quatro faixas finais formam a "Suite Aracaju", baseada na experiência gastronômica que Rodrigo Chenta teve numa viagem à capital do Sergipe. No 1° movimento, "Pastel de aratu", chama a atenção um violão de 7 cordas ser usado apenas para batuque. A percussão com triângulo e pandeiro é forte e estrutura os ares de alegria que Rodrigo teve ao experimentar tal pastel. Há uma inserção curiosa de uma guitarra triste no meio, que chega e vai sem maiores explicações. Já no 2° movimento, "Caranguejo", Rodrigo toca guitarra e canta acompanhado de sax e flauta uma melodia de lamento e inconvencional pois os sons vão-se cedo e só sobra uma guitarra fria. Um solo de conga abre o 3° movimento "Cocada de mangaba", explorando timbres e alturas, andamentos e intensidades, só aos 1:23 entrando a guitarra mandando a frase que breve terá coro de quase todos os instrumentistas. É uma das faixas mais longas ainda que parte de uma Suíte, com extenso espaço para improvisação. O coro é um tanto intrigante pois é alegre mas há certa melancolia ao se referirem à cocada de mangaba como "um doce que vai te alegrar". Mas, como é a última aparição da maioria deles no disco, foi um fértil modo de se despedirem. O fade out encerra o movimento, recurso usado outrora no disco e comum em discos brasileiros pré anos 90. E é o fim, mas não é.

"Carne de carneiro" soa como uma brincadeira de bastidores após fechamento das cortinas. Não só pelo fade out do movimento anterior que conclui com maestria a obra, mas por parecer descompromissada. Batuques de violão e um sax sarcástico. O típico brasileiro que ainda que cercado de tribulações sempre arruma um cantinho pra se divertir.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Rodrigo Chenta

Rodrigo Chenta

Título: Concepção
Ano: 2016
Impressão:

Fiquei bem curioso para escutar o EP do Rodrigo Chenta ao saber que seria lançado. Por já conhecer tuas músicas do duo com Ivan Barasnevicius, bem como por já ter assistido apresentações do mesmo acompanhado em trio e quarteto, algo que peculiarmente me despertou curiosidade para ouvir foi o fato de que o EP leva apenas teu nome.

Existe uma responsabilidade a assumir quando um músico assina uma criação desta forma que chamam de "solo", cuja definição do espanhol é "puro, sozinho, sem nada a mais". É dar a cara a tapa e se expor, fazer jus solitariamente aos conceitos de autor/autoridade. Mesmo que hajam participações, como hão no caso, serão exclusivamente teu nome e sobrenome que bancarão e etiquetarão o que será ouvido.

A primeira faixa, "Concepção", condiz com esse comprometimento: é solitária, de apenas um único instrumento, mas é uma solidão preenchida. O baixo da guitarra presente, mais de três sons sendo escutados ao mesmo tempo em alguns momentos, terminando com apenas um. Interessante saber, através do encarte, que esta composição nasceu em plena performance, conseguindo manter o tom tenso proposto desde o início. Por algum motivo sonoro curiosamente me lembrou relógio, como se representasse uma espera por algo ou alguém. Esperas costumam ser solitárias, porém, são preenchidas por expectativas, da mesma forma que esta composição o é: solitária e cheia de sons.

Se a faixa-título causou impressões diretas, em contraponto a "Suite for Schafer" causou diversas.

No 1º Movimento, ao entrar a voz de Roberto Agnelli a primeira sensação foi de estranhamento. Quando soube que haveria uma voz participante nesta faixa imaginei que a mesma entraria cantando, e provavelmente uma melodia sem letra. Mas aí a voz escapou ao esperado e entrou falando, inserindo palavras em um ambiente onde não eram esperadas. A quem acostumado estava com as músicas lançadas nos últimos anos por Rodrigo Chenta, cuja voz-mor é a guitarra, a entrada da voz falante foi um salto pro lado de fora da zona de conforto. Logo na primeira frase pensei receoso "será que esta voz citando frases trará um tom didático e pouco artístico?". Segui escutando.

Já no 2º Movimento chamou de cara a atenção o "dueto" das cordas com a madeira da guitarra sendo materialmente usada, característica facilmente reconhecida aos que estão familiarizados com as composições de Rodrigo Chenta no duo com Ivan Barasnevicius. Em certo momento é citado pela voz um relógio, a mim dialogando com a primeira faixa e o suposto relógio que havia enxergado naquela composição. "Fazemos de nós mesmos uns pobres relógios" - pois é!

A partir do 3º Movimento até o 6º e último já havia me acostumado com a estética desta Suite, curioso a escutar as próximas frases que seriam ditas por aquela voz cuja qual reconhece-se sotaque bastante puro e inominável e as respostas da guitarra à elas. Merece menção honrosa o 4º Movimento, onde há até uma mise-en-scène vocal e o flagrante de me ver aproximando o ouvido da caixa de som para melhor escutar os sussuros falando a respeito dos que, como eu, estavam se esforçando para ouvi-los.

Não é tão raro nos depararmos com um áudio onde haja uma voz declamando algo acompanhada de um fundo musical, geralmente sendo frases bonitas e uma harmonia que ajuda no tom de comoção ou de engrandecimento à beleza do que está sendo falado. Mas raramente voz e música de fundo estarão tão diretamente ligados como no caso desta Suite, pois tudo que é dito pela voz de Roberto Agnelli reflete nas improvisações de Rodrigo Chenta na guitarra acústica e vice-versa. Necessariamente voz e guitarra estão falando da mesma coisa: se cortejam, confabulam e palavreiam. Cada uma dá forma ao que a outra está narrando.

Rodrigo Chenta não apenas merece cumprimentos pelo compromisso de lançar uma obra levando tão somente teu nome, como também pelo desembaraço de prover essa Suite de proposta sonora rara e inabitual.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Rodrigo Chenta & Ivan Barasnevicius Duo

Rodrigo Chenta & Ivan Barasnevicius Duo

Título: Standards?
Ano: 2017
Impressão:

Interrogar é quase cantar: há um ritmo específico para se falar em voz alta uma frase interrogativa. Se a entonação de dúvida não for ouvida, a frase perderá o sentido e a comunicação também. Assim, o EP "Standards?" do Rodrigo Chenta e Ivan Barasnevicius Duo já o é musical desde o título. Tal ponto de interrogação no nome sugere falta de cerimônia e informalidade: um título que se auto questiona e uma obra que aparenta ser resultado de diversão.

O EP traz duas faixas já conhecidas de quem frequenta os shows do duo, e que beleza poder tê-las agora em registro!

É bastante divertido notar a surpresa da plateia quando o duo toca a primeira faixa do EP, "Cantaloupe Sandman", logo que "Enter Sandman" do Metallica é reconhecida. A inconfundível linha de guitarra não está ali como mero chamariz, pois se faz presente por praticamente toda a música, cedendo espaço algumas vezes mas sempre retornando. Há o que se impressionar com a facilidade na qual passam da tensão patente e até sombria do riff de Kirk Hammett para uma levada jazzística animosa. O bom humor do jazz e a fúria do metal encontram espaço e diálogo na mesma música. Para quem já é familiarizado com o som do duo é fabuloso como, mesmo partindo de um sucesso do Metallica (entre outros, como "Welcome Home (Sanitarium)" que Rodrigo cita em seu solo, e também frases do pianista Herbie Hancock no solo de Ivan), é perceptível o estilo próprio consolidado, a impressão digital garantida.

Já a outra faixa, "Saga of Harrison Crabfeathers", também carrega responsa pois sua harmonia é bastante conhecida dos fãs e músicos de jazz. Lembrar que seu compositor Steve Kuhn vem de um dos bairros mais icônicos de Nova York, o Brooklyn, faz pensar na relação do local de vivência com a composição, e o quanto a cidade de São Paulo pode também ter influenciado Rodrigo e Ivan nesse standard.

O início é bem a-lá duo e cinzento como a cidade em que residem, meio nublado, abafado, sonorizando o escurecer do céu que anuncia chuva. Segue assim até entrarem as frases famosas de Steve, afastando as nuvens e clareando/colorindo já aos 40 segundos de música. Essa variação climática, brusca como o é na capital paulista, está em toda a gravação enfatizando a falta de medo do duo de arriscar notas aflitivas sob uma composição famosa dessas.

Aos 4:18, após momento de muito som e agitação, instala-se uma calmaria comandada pelos próprios sons, quase sem precisar utilizar-se do silêncio, lembrando aquele professor que todos já tiveram cujo qual, apenas com o olhar, fazia os alunos entenderem suas ordens.

Dos 6 minutos em diante o que se ouve são as tais alterações meteorológicas revezando-se até o final, do acinzentado ao ensolarado, das notas aflitivas às confortáveis. O final é atípico, com um acúmulo muito interessante de notas - visto não ser tão comum pensar em muitas notas próximas ao encerramento -, para deixar que as ultimas escolhidas soem até o final de si próprias sem corte. A mistura da beleza com aflição, presentes em todo o standard, aqui estão NAS MESMAS NOTAS, simultaneamente. Alcançam um ponto sensível do ouvido que consegue incomodar e encantar conjuntamente.

Os palitos de fósforo na capa do EP talvez remetam ao próprio conceito do que significa standard, afinal, este padrão de palito que hoje em dia conhecemos demorou bastante a aparecer. Já houveram outros bem maiores e até perigosos, que chegavam a queimar sozinhos dentro da embalagem. Curioso como, apesar do nome ser "palito", já chamamos direto de "fósforo", sendo que NÃO há fósforo no palito e sim na lateral da caixa onde o acendemos.

Encerrando com uma interrogação: será que, do mesmo modo que o palito de fósforo precisa necessariamente da caixa para acender, não precisaria também o standard de jazz de improvisos e alterações para ser efetivamente um standard?


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Rodrigo Chenta & Ivan Barasnevicius Duo

Rodrigo Chenta & Ivan Barasnevicius Duo

Título: Antítese
Ano: 2016
Impressão:

Diferenças em relação ao primeiro álbum do duo era uma das promessas de "Antítese". Com apenas duas guitarras seria possível lançar um conjunto de dez músicas novas que se diferenciassem notavelmente das anteriores?

É um tanto clichê apontar essa característica, mas creio caber bem: foi necessário ousadia por parte de Rodrigo Chenta e Ivan Barasnevicius. Se o primeiro disco indicava a abertura de novos caminhos, como o próprio título sugerira, conquistando conforto e estilo, este segundo foi a virada inesperada em uma curva acentuada, a debandada da área de proteção. É quase uma instalação sonora.

O primeiro contato que tive com o que viria a se tornar o disco "Antítese", meses antes de seu lançamento, fora com as faixas "Novos Caminhos 2" e "Nove Horas" disponibilizadas pelo YouTube. "Nove Horas", na época, me chamou muito a atenção por conta da quebra: a música começa, cria um ambiente ao seu redor, constrói um cenário rapidamente para então quebrá-lo. O próprio som da frase que muda a música bruscamente lembra um som de quebra. Mas o rompimento é rápido, e logo és inserido novamente no ambiente de antes, agora já território conhecido. Este é o enredo: ambientaliza, desperta com uma "quebra", para em seguida retornar.

A "quebra" está bastante presente no álbum. A começar pela capa na qual as imagens estão invertidas em relação ao nome do duo - Ivan primeiro, Chenta depois. Já nisto, intencional ou não, pode ser revelado que não estou em mãos com uma obra fechada. Não é para ser concreto, geométrico, facilmente digerível. A interrogação é parte do conjunto. Nas duas faixas curtas esta indagação é bem visível: "Quartais" começa, parece que pegará força, e quando o ouvinte já a compreendeu e quer ouvir o que tem a dizer, ela simplesmente o abandona, terminando sem se explicar muito; já "Antítese", a faixa título, intriga! A guitarra é fisicamente usada ali. A própria madeira vira som - é orgânico, palpável, tateável. Sempre espero que a faixa título traga em si a razão para dar nome ao álbum. Sempre espero que não se revele como escolha aleatória, e sim que intuitivamente sejam percebidos os motivos para que aquela faixa nomeie toda a obra. No caso, a quase caótica "Antítese" cumpre tal expectativa.

Conversando com Ivan a respeito do primeiro disco na época que foi lançado, disse a ele que havia percebido como um álbum urbano. Mais especificamente começando com uma visita ao interior nas duas primeiras faixas e na sequência voltando à cidade grande. É um álbum ensolarado que tem cara de praça, ruas arborizadas, paisagem da janela do ônibus, raios de sol entrando pela janela da sala. Já "Antítese" percebi como um álbum noturno. Tem o charme da noite. Combina ser ouvido no silêncio da madrugada, solitário. Assim como no anterior, também enxerguei uma storyline: inicia-se de tardinha com as duas mais alegres do álbum, "Fritando Panqueca" (festiva) e "Faça a Luz!", para depois anoitecer. "Faça-se a Luz!", aliás, que tem uma "dança" encantadora das guitas - não diálogo, e sim dança, um passo aqui, um passo acolá - passa ideia de ansiedade. Muito espirituoso foi saber que Ivan a compôs num momento de inquietação quando faltou energia em sua casa e tinha várias coisas a fazer.

É na terceira faixa, "Crossfades", que começa o cair da noite. "Crossfades" é aquele momento em que não é nem noite nem dia. Em que não se sabe se dá "boa tarde" ou já "boa noite". Me levou pra confusão do fim do dia, quando os carros estão em peso na rua, o transporte público cheio, todos querendo escapar rapidamente das obrigações e da burocracia, para ao final me levar à calmaria extrema que fica na cidade quando já é tarde da noite. A aparição de tantas frases e propostas diferentes na música uma seguida da outra, uma quase atropelando a outra, trouxeram à encrenca das 18h de um dia de semana. Até que chega uma calmaria na música e que permanece, como se todos os carros já tivessem deixado as avenidas, o metrô vazio prestes a fechar, os grilos já audíveis.

Daí até o final é noite em "Antítese". Mesmo sabendo que "Nove Horas", por exemplo, segundo o próprio Ivan, refere-se às nove horas da manhã. Taí uma das graças da arte, a possibilidade de atingir cada um de maneira personalizada. Tenho afeto especial por "Nove Horas" devido a um singelo episódio: numa sexta-feira estava parado em um farol da Avenida Dom Pedro I e, então, ao começar a tocar tal música no celular, olhei no relógio do carro e vi que eram exatamente 21h. Foi o momento em que minha impressão a respeito do álbum e desta faixa em particular se materializaram diante dos olhos, andando por aquela avenida naquele exato horário que se apresentava exatamente como havia percebido a música, o momento em que muitos já se recolheram dentro de seus lares enquanto alguns ainda estão circulando.

Quando Ivan me contou que o título de "Nove Horas" se referia na verdade ao período matutino conversamos sobre títulos: o quanto títulos podem, dependendo do ouvinte, direcionar à visualização de imagens mentais a partir do que se ouve? "Sem Água" é uma na qual creio que o título leve bastante importância. Chenta já havia revelado que a inspiração para a própria vem da crise hídrica de São Paulo. É a mais melancólica do duo até o momento, a de maiores vazios. Não há pressa na execução, deixando as notas soarem solitárias até o final, acabarem como a água acabou. Curiosamente me lembrou sertão, apesar da inspiração urbana. Soou quase caipira.

"Novos Caminhos 2" é interessantíssima. O diálogo com a faixa título do primeiro disco é facilmente perceptível. Se a "Novos Caminhos" do primeiro apresentava tom um pouco triste, em "Novos Caminhos 2" as frases que estabelecem o diálogo com a anterior são executadas pra cima, mais esperançosas. A volta toda que esta música dá é longa e cheia de ambiente diferentes, porém, o (novo) caminho entre cada ambiente da música é elegantemente percebido. E é literalmente uma "volta", retornando no final ao primeiro dos ambientes, reencontrando às primeiras frases já familiares. Impossível terminar de ouvi-la sem um sorriso largo no rosto.

"Suite #1 (For Derek Bailey)" é um espetáculo com 3 atos: começa bem, te envolve e é até aconchegante, até que cai. Agoniza legal, sofre, parecendo que vai sucumbir a qualquer momento. E aí renasce. Respira novamente. Belíssima faixa, dramatúrgica, literária. Se é um tanto comum em músicas instrumentais me virem imagens na cabeça, nesta não veio nenhuma, eram os sons e somente os sons contando uma história com começo, conflito e final.

Estava bastante curioso para ouvir "Tema pro Caguaçu" por saber que Caguaçu se trata de um local que fora descaracterizado nos últimos anos graças à urbanização. O que chamou-me muita atenção nesta foi o conflito. Se em "Faça a Luz!" as guitas dançam uma com a outra, nesta tive a impressão de que tudo ia bem, porém, em certo momento, elas propositalmente entraram em desentendimento e deixaram de falar a mesma língua. Não é um duelo, é uma discussão. Mas, claro, logo se entendem. Se é convenientemente esperado que os últimos sons de um álbum façam algo de especial já que carregam a responsa de encerrarem a obra, neste caso, fazendo jus à toda não-obviedade do disco, não ocorre isso: a última faixa termina simples, se retirando apenas, sem muita despedida. Apaga as luzes e vaza com um aceno tímido.

A escolha da estética do encarte foi certeira. Imagens em preto e branco dão ideia de serenidade. É a serenidade da madrugada na qual quem fica acordado é porque está querendo resolver algo. Levei um tempo para compreender que os símbolos ao lado das imagens eram um código para identificar o fotógrafo: tinha achado que eram uma mera opção estética, que condizia - e, mesmo não sendo "só" estética, continua condizendo - bastante com o título "Antítese".


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Rodrigo Chenta & Ivan Barasnevicius Duo

Rodrigo Chenta & Ivan Barasnevicius Duo

Título: Novos caminhos
Ano: 2015
Impressão:

O título do álbum pode, intencionalmente ou não, sugerir ser a justificativa à proposta sonora apresentada. Duos de guitarras não são muito comuns, porém, o que deveras configura o primeiro disco do duo de Rodrigo Chenta e Ivan Barasnevicius como nova possibilidade de caminho à música brasileira é o tanto de características originais e possibilidades manifestas.

Surgir como "novo caminho" pode causar a expectativa de escutar um trabalho quase experimental, timidamente indefinido, quase uma aventura musical que não se sabe bem aonde vai desaguar. Não é o caso: trata-se de um álbum seguro e vigoroso no que se propõe. Os vários meses de pesquisa e preparação para que Rodrigo e Ivan dessem forma e delineassem as ideias tiveram como resultado um disco que adjetivaria como "ensolarado" e "urbano".

A faixa que abre o álbum e a vida do duo é a própria "Novos Caminhos", com um dedilhado levemente triste pela primeira guitarra e uma frase marcante sob o próprio tocada pela segunda. É o carro-chefe e a amostra do que serão esses novos caminhos agora abertos: duas guitarras perceptíveis e diferenciadas entre si, o som da palheta e o da mão batendo nas cordas não como acidentes e sim como integrantes. A extensão percorrida por esta faixa é longa e abrangente, "parando" em diversos locais desses caminhos para conhecê-los, até deparar-se aos cinco minutos da música com o tema principal se repetindo e encerrando o itinerário.

Há um certo deslumbramento nesta faixa de abertura atrelado a uma serenidade. O clima ocasionado se mantém na segunda, "Serra do Cafezal parte 3", composição de Ivan. Tal serra presente na rodovia que liga São Paulo ao Paraná nomeia também a faixa "Serra do Cafezal parte 1", que se diferencia da primeira sendo um tanto mais animada e com uma frase no "refrão" graciosamente cantável e que facilmente fica na cabeça.

Ao conversar com Ivan a respeito de tais faixas mencionei que a parte 3 e a "Novos Caminhos", em sequência abrindo o álbum, me fizeram pensar numa pessoa de cidade grande visitando o campo, contemplando paisagens naturais e o sossego - afinal, muito diferente a estes lugares será o olhar vindo de uma pessoa que mora em uma selva de concreto comparado ao de alguém que já vive em meio ao verde. Ivan surpreso ficou e revelou que a composição batizada com o nome da região serrana foi concebida em frente a uma cachoeira, exatamente durante uma viagem de férias ao interior e de afastamento temporário da vida metropolitana.

"Sente o sete" e "Contrastes" sugerem ser irmãs. São diferentes uma da outra mas são faixas nas quais hão mudanças bastante notáveis ao longo dos poucos minutos que duram, mais curtas que as demais. Quase fazem jus à expectativa mencionada de som experimental e aventureiro.

Se apenas um local é citado no álbum todo - Serra do Cafezal, um "caminho" encontrado pra quem cruza a BR 116 -, mulheres são três as presentes no CD.

A primeira mulher a aparecer é qualificada como "brava", em composição feita por Rodrigo Chenta quando conheceu a mulher que viria futuramente a se tornar sua esposa. A faixa começa bastante doce, podendo facilmente servir de trilha ao clássico momento que todos passam ao menos uma vez na vida do amor à primeira vista - o momento em que se avista pela primeira vez uma pessoa que, por algum motivo inclassificável, faz as demais ao redor ficarem em marca d'água. O contentamento com o acaso por este ter feito vossos passos coincidirem perfeitamente e estarem ali, no mesmo local e na mesma hora. Porém, após a breve introdução de menos de um minuto, a música arrebata e se modifica, acelerando, ganhando ares de folia e agitação, sonoridades que se mostram possíveis em meio aos tantos caminhos das duas guitarras. Seria tal mudança uma representação da surpresa que o "eu lírico" da música teve com a mulher que lhe causou o encanto à primeira vista, revelando esta uma braveza inesperada? Quem sabe... Mesmo a música desviando a um clima mais festivo, não perde a ternura.

A mulher brava também é agraciada em "Minha neném", uma bossa bastante simpática e de tom mais delicado que a outra faixa em sua homenagem. Se na outra o tom dançante é de festa, já nesta é para dançar a dois num bailinho.

A segunda mulher do álbum é na verdade uma menina, a filha de Ivan Barasnevicius que empresta teu nome à cativante faixa "Tema para Pietra". Sabendo que Pietra é uma criança o ouvinte poderia esperar uma música com sonoridade puxada ao infantil, mas como (e não apenas por isso) esta é uma obra de caminhos novos, o caminho escolhido a esta composição também não foi o provável. É uma música de levada funkeada, divertida e que está entre as que mais surpreende pelo fato de possibilitar tantos sons a partir de duas guitarras apenas. Uma curiosa tendência deste que vos escreve ao ouvir esta música é, em alguns momentos, "enxergar" diversas luzes pequenas acendendo e apagando, numa espécie de "giro", um carrossel. Toda a animação se encerra primorosamente com uma canção de ninar, sacada genial que me fez questionar o Ivan se tratava-se realmente disso - "é isso mesmo", o próprio certificou.

"Inocência", que no álbum antecede o tema composto à pequena Pietra, dialoga com o assunto infância e pós infância. É uma faixa que a mim em particular acabou tendo um grande montante na época em que a escutei pela primeira vez. Estava melancolicamente surpreso como o passar do tempo e o tanto que o mesmo deturpa aqueles a quem há pouco viam o mundo como um local legal a ser descoberto. Os locais costumam ter maior resistência a continuarem como são. Os humanos não. Esta música traz todo o tom ingênuo, puro e singelo que o passar do tempo teima em levar dos que não se corromperam com o mundo dos grandes e não inocentes.

Por fim a terceira e última mulher, tendo esta o atributo de encerrar o álbum, é a mãe de Ivan Barasnevicius. "Valsa para Ana" possui variados temas memoráveis, do tipo que se for escutada em uma apresentação do duo ao vivo logo será identificada. A composição segue linha coerente nos quase cinco minutos, com um final em que as guitarras ganham força e se dizimam numa despedida sutil.

"Novos" e "caminhos" são os dois termos que intitulam tal obra. A palavra "caminhos" surgiu diversas vezes ao longo destas impressões, revelando escolhas do duo, um lote rodoviário citado no álbum e o próprio percurso. Já o vocábulo "novos" intervém não apenas na proposta musical inédita trazida para travessia pelo duo, mas também no perceber que este é um daqueles álbuns que, independente de quando for escutado, sempre soará "novo".


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Rodrigo Digão Braz Trio

Rodrigo Digão Braz Trio

Título: Carvão
Ano: 2015
Impressão:

Há uma comédia romântica típica da Sessão da Tarde chamada no Brasil de "O amor não tira férias" na qual Cameron Diaz tem como profissão montar trailers de filmes. Há todo um processo de inserir letreiros com frases de efeito e um narrador motivando a não perder o lançamento, mas o trabalhoso está na seleção das cenas para tal. É preciso que chamem a atenção sem dar spoilers, serem apresentadas rapidamente em ritmo de videoclipe tradicional, compilando muitas informações num curto espaço de tempo.

O disco "Carvão" do baterista Rodrigo 'Digão' Braz tem curiosamente efeito de trailer e obra completa em si ao mesmo tempo. Ao longo da escuta são tantos ambientes apresentados que a sensação se compara a de quando se assiste um trailer ou videoclipe em que cenas selecionadas são mostradas mui brevemente exigindo de ti total atenção e até certo fôlego. São diversos retalhos sonoros, uns altamente breves, outros no qual se encontra repouso, revelando um processo de muita liberdade e criatividade ininterrupta, sem pausar nunca a criação. Coincidentemente o próprio Digão revelou em entrevista ter certa dificuldade em, como diz o próprio, "fechar ciclos", e é como se sonoramente neste disco estivesse a prova, com tantas ideias gerando-se continuamente que, se não fossem inseridas muitas dessas bem brevemente como o são, talvez não houvesse tempo para todas.

Se colocar este disco para tocar em um ambiente onde as pessoas estejam distraídas, muito dificilmente a primeira faixa passará despercebida. Apesar de cantada por vozes adultas, "Cortejo de abertura" num primeiro momento pareceu tratar-se de um coro infantil a receber o ouvinte. O modo como o acorde de vozes é formado intriga, e surpreende saber que o arranjo nasceu praticamente na hora da gravação. Um louvor acompanhado de percussão utilizando apito carnavalesco gera excentricidade fantástica! Uma voz bastante grave cantando junto a uma voz bastante aguda na outra ponta são como se representassem gerações diferentes, maturidade e meninez, os tais "filhos" citados na letra.

"Tune up", composição de Miles Davis e primeira faixa no formato trio, apresenta já antes dos 50 segundos o primeiro trailer dentro do disco, com tantos retalhos de andamentos e ambientes diferentes, uma verdadeira anunciação da diversidade sortida de propostas que o trio tem a oferecer. O tema depara-se com repouso porém o passeio é imprevisível. Há um maracatu perto do fim dialogando com uma finalização tradicional de jazz abrasileirando a releitura. O quão longa é essa sequência final deixa clara a soltura e atrevimento que já abrigam o disco.

A terceira faixa, "Carvão", tem início tenso, que anda em círculos, até descobrir conforto. Tal passagem recorda a própria extração subterrânea de carvão, que exige bastante esforço e exploração até enfim encontrá-lo. Impossível não ficar alerta ao piano de Salomão Soares que tem um destaque bem grande nesta faixa - imponderável, mão direita e esquerda executando coisas bastante distintas, tumultuação do ambiente com baixo e bateria enérgicos, balbúrdia harmônica que diverte e intriga.

Tive de sorrir ao título da quarta faixa, "Pro Digão", visto que "Digão" era e é até hoje meu apelido aos amigos de colegial. No caso da faixa, uma composição do guitarrista Michel Leme diretamente dedicada ao baterista xará de apelido deste que vos escreve. Nesta gravação há um flugelhorn, antigamente utilizado para comandar infantarias, sendo inevitável portanto não recebê-lo como um anúncio - e novamente a linguagem de trailer aparece de algum jeito, anunciando algo ao ouvinte. Seu timbre é bem introspectivo e troca as vezes da improvisação com a guitarra do compositor. Cativante o quanto a guitarra acompanha a mesma introspecção trazida pelo flugelhorn. Os introspectivos são os chamados "falsos tímidos", aqueles que parecem tímidos quando na verdade não o são, e aqui isto fica atestado na sequência final com a bonita execução do tema pelo instrumento de sopro.

A expressão que nomeia a faixa de número 5, "De peito aberto", traz em si já nas palavras as boas vindas. Estar de peito aberto é estar com as armas abaixadas sem estar vulnerável - muito pelo contrário, é estar muito seguro para deixar vir. É o que esta bonita composição passa, braços e peito abertos em alta receptividade, acolhimento e conforto. Por vezes recorda um samba brazuca de alto nível com saxofone tenor e trompete, por vezes uma marchinha, e isto fica mais precioso ao saber que foi a música da entrada de Fabiana, esposa de Digão, na cerimônia do vosso matrimônio. Por não ter improvisação soa bem direta, decidida e certeira, como uma pessoa está nos momentos em que dá os passos que precedem o firmamento de um compromisso como esse.

As faixas 6 e 7, "Conterrâneo" e "Fiz, mas não sei tocar!", são ambas de trio e ambas nada cautelosas no que se refere a explorar ritmos, tensões e vida própria da música. Destaque ao choro de baixo da faixa 6, que dialoga de forma afetiva com o título visto o choro ser de berço brasileiro.

"Solo sagrado" é solo não apenas no título como na execução, performada apenas por Digão em dedicatória às escolas de samba de São Paulo. São tantos timbres e alturas que talvez por isso esteja ocupando o 8º espaço na sequência do disco, a infinitude representada pelo numeral. Tamanhas propostas sonoras imagináveis e concebíveis dentro deste terreno sagrado das escolas de samba que possivelmente só caibam no infinito.

Ainda em atenção aos números, a próxima faixa tem como título "4 de abril", sugerindo que a data provavelmente tem significado importante ao Digão. O número 4 foi utilizado por Pitágoras para fazer referência ao nome de Deus já que, para o matemático, o número 4 era perfeito. 4 direções cardeais, 4 estações do ano, 4 elementos, 4 do 4. Esta composição que na gravação conta com saxofone tenor é uma prima da faixa "De peito aberto", com um quê de romântico no tema. Passa do ambiente de paz e assento para o "meio do caminho", com movimentação e alvoroço, desembarcando num final apoteótico.

As duas próximas, "Aruana" (10) e "Tema para Aruano Suassuna" (11), contam ambas com dobradinhas: a primeira de cantoras e baixistas, a segunda de bateristas. "Aruana" é peculiar pois apresenta tema bem definido e aprazível, e isso condiz aos ares tribais e ritualísticos apresentados, mantidos inclusive ao entrarem as improvisações. Um tema cantado por vozes a dar espaço às improvisações instrumentais furiosas provocam contrassenso curioso. Quantas coisas cabem dentro da faixa! Já a composição para Aruano Suassuna feita pelo baterista Nene, que toca bateria junto de Digão na gravação, tem no baixo timbre um tanto místico que parece uma voz a cantar! Suassuna era paraibano e o tema no teclado remete a um baião. As duas faixas terminam com cortes bruscos, como alguém desligando máquinas da tomada.

E então chega-se ao "Cortejo de encerramento", retomando o mesmo louvor do início agora com piano, baixo, e uma bateria viva e comemorativa! Se a faixa de abertura já era intrigante, nesse encerramento o nível de intriga vai pras alturas com o piano se encaixando de modo tão excêntrico e perfeito ao canto e percussão. O disco termina em fade out, permitindo um final aberto, como um cortejo que passou pela sua rua e seguiu em frente, silenciando-se para quem ficou ali, mas deixando o mistério de até onde e até quando continuou a tocar.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Yuval Ben Lior

Yuval Ben Lior

Título: Natureza urbana
Ano: 2015
Impressão:

Existe um filme francês de suspense chamado "Tom à la ferme" (Tom na fazenda) dirigido por Xavier Dolan cujos créditos finais exibem, do primeiro ao último crédito, uma espécie de plano sequência da paisagem da janela de um carro que sai de uma área rural dirigindo até um centro urbano. Vê-se a natureza selvagem se transformando aos poucos em natureza urbana, as árvores altas iluminadas por frestas de Sol que as atravessam dando lugar aos arranha-céus cheio de janelas acesas, a terra e o mato sendo substituídos por asfalto e concreto, os diversos sons naturais indecifráveis cobertos por buzinas, anúncios, entre outros também indecifráveis. Há uma beleza complexa na natureza urbana a qual foge um pouco à definição formal de "belo" que implica em "formas e proporções harmônicas", mas condiz com uma definição mais informal de que "produz viva impressão de deleite e admiração".

Yuval Ben Lior, israelense radicado no Brasil, chama seu primeiro álbum lançado em 2015 de "Natureza Urbana" já se identificando como pessoa urbana - "dos teatros, bares, botecos, ruas asfaltadas". Após conseguir ser dispensado de servir o Exército de Israel devido às habilidades musicais, migrou para Los Angeles onde pôde ter aulas com Pat Metheney e contato com Hermeto Paschoal e o choro brasileiro. Tamanha diversidade de terras e influências está bem substanciada no disco, que assim como uma cidade grande congrega também variações estéticas, sotaques bairrísticos, costumes e culturas.

Em "Choro do Curvelo" logo nos primeiros segundos de violão e sanfona o ouvinte já é despachado no Rio de Janeiro, centro urbano adotado como residência por Yuval e cidade berço do choro. Curvelo é o nome de um largo situado no bairro de Santa Tereza no qual ainda passa bonde, endereçando um tipo de natureza urbana quase extinta no Brasil. Ao escutar a faixa a impressão é de estar realmente sentado a assistir uma apresentação do quarteto de Yuval no próprio largo em questão, que tradicionalmente ainda abriga encontros musicais. A gravação foi toda ao vivo e nota-se pelo toque afiado e entendido. As dobras entre os dois instrumentos que iniciam a composição e a guiam são muito bem feitas e bem servem de conectoras das narrativas apresentadas.

"Parlando Muito" inicia com um riff de baixo interessantíssimo de Berval Morais, meio roqueiro que caberia muito bem num hit de um White Stripes da vida. Mas a composição surpreende com a entrada dos demais pois são diversos estilos que grudam um ao outro com certa fúria, parecendo em alguns trechos música eletrônica pela batida e violão enérgico, e em outros música altamente regional, meio cigana. Como o título sugere é um falatório instrumental que na juntura ganha sentido, como os variados sons urbanos se tornam sintônicos aos ouvidos acostumados com eles.

As faixas 3 e 5, "Una Vez Mais" e "Made in Israel", merecem ser comentadas conjuntamente: ambas tem longas introduções com instrumentos solistas e cheias de tensão. A primeira apresenta acordes cheios de aflição, a outra sugere aura melancólica. Trazem duas culturas distintas e longíquas, a argentina com o tango que se forma na faixa 3 e a israelense pelo próprio título da 5. O tango foi uma das primeiras músicas a retratar sensualidade, sempre acompanhada de certa apreensão e inquietação, mas a composição não se define como um tango puro e simples pois o violão lembra um choro unindo mais uma cultura nesta já mixórdia audição. Já a faixa que cita Israel carrega nostalgia, um certo lamento pelos conflitos da região difíceis de serem esquecidos ao pensar no país, e recorda da curiosidade sobre o quanto a música israelense é, segundo o próprio Yuval, bem cosmopolita, por conta do grande número de judeus espalhados pelo mundo absolvendo sortidas culturas.

"Granada", faixa 4, tem pesada constatação de música flamenca, mas que, como já se mostrou o disco até então, não ficará presa em um estilo somente, sem dispensar o intercâmbio. É uma composição animada e cuja breve participação da voz de Ana Sola parece genuína diversão, bem como as vozes que se escutam ao final em tom comemorativo.

"Cubanas" também tem consideráveis adereços culturais e destacam-se os improvisos bem virtuosos de Chico Chagas, as pausas longas, e a voz de Yuval que, como na faixa comentada anteriormente, tem rápida atuação. Talvez pela música vocal ser tão popular é do senso comum esperar que a entrada da voz irá guiar e protagonizar a composição a partir dali, mas neste disco as vozes são convidadas de gala em aparição e extravio - como na própria natureza urbana em que tão comum é o movimento e o que apareceu ao lado e chamou atenção tão breve pode já não estar mas ali pois nós ou a própria aparição se deslocou.

Capricho constitui bem a penúltima faixa, "Capricio pro Pancho", devido ao tanto de transmutações. Introdução solo de 1 minuto e meio, até entrar a percussão e abrir caminho para variados campos e contextos. Aqui toda a mestiçagem que se falou e ouviu a respeito chega ao auge num caos organizado. Caótico não é defeito, é característica. Caos caprichado, modo de vida urbano que conta com infraestrutura moderna, opções e ofertas, mas enfrenta também as consequências de aglomerações.

Aglomerações trazem certa segurança, o conforto em saber que haverá quem lhe socorrer por perto em caso de necessidade. Trazem alternativas de conversas e pensamentos. Mas é quase impossível falar sobre cidades grandes sem falar sobre solidão, são temas ligados e manifestos em várias obras. Pertencer a um grupo é busca quase instintiva do ser humano que por natureza prefere andar em bando. Mas se sentir só é mais interno que externo. Não implica no ato físico e sim na compatibilidade. É mais empatia que companhia. E se fisicamente há muitos outros seres por perto e a solidão é condição humana de cada um, nos centros urbanos estamos "Juntos na solidão", título que encerra o disco.

Yuval deixa o violão e apanha a guitarra para solar pelo meio minuto de introdução numa lamúria resignada. Nesta composição o instrumental está mais sereno, não triste e sim firmado. Solidão é um ato de se firmar, assumir-se como indivíduo que é um só desde o momento em que o cordão umbilical foi cortado. Pausas longas já se mostraram comuns no disco e há uma dessas aos 4:25, um momento de silêncio necessário até a música retornar. Como quem nota que, apesar de condicional e comum nas cidades grandes - ou então como Yuval que foi de Israel a Los Angeles e ao Rio enfrentando provavelmente experiências clássicas de solidão ao deixar parentes, amigos e lugares para trás -, na natureza urbana é sempre possível formar uma microliga, uma conexão entre seres através da música ou de uma boa conversa. Um local onde a solidão nunca será totalmente plena pois sempre haverá outro a cruzar o caminho.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Zeli

Zeli

Título: Voando baixo
Ano: 2002
Impressão:

Aonde você estava na noite do dia 20 de fevereiro de 2002, mais precisamente às 20h02?

De acordo com o pessoal dos astros, este minuto exato era o momento indicado para mentalizar um desejo. Estava ocorrendo uma capicua completa, bem provavelmente a última que presenciamos em vida. Capicua, que no catalã significa "cabeça e cauda", é o termo que batiza um conjunto de números cujo reverso é ele próprio. Assim, eram 20h02 do dia 20/02 do ano de 2002. A próxima é só em 2112, ou seja... quem pegou, pegou.

Além da última capicua, foi também naquele ano a última vitória do Brasil numa Copa do Mundo. Bom, ao menos até 2017. Os buffets que em 2017 realizaram festas de debutante as fizeram para as bebês nascidas em 2002. As nascidas no primeiro semestre presenciaram a conquista do Penta mas não se recordam, se igualando às que nasceram a partir de julho e também (ainda) não fazem ideia do que é ver o Brasil ganhar a Copa.

Em 2002 era lançado o CD "Voando Baixo" do baixista Zéli Silva, na época assinando apenas como Zeli. Ainda sem ter ouvido nenhuma faixa, tendo o encarte em mãos e observando os títulos já se transpira brasilidade. Bastante interessante é a experiência de escutá-lo agora que o álbum está debutando, pensando no contexto do Brasil na época da gravação, tentando desvendar nos entresons e na própria arte do encarte elementos que de alguma forma remetam há 15 anos atrás. Música e seu poder sobrenatural de não envelhecer.

"Voando Baixo" nomeia o álbum e a faixa de abertura, título ao qual é fácil sorrir por se tratar de um disco de baixista. Apertando o play, lá estão o baixo de Zéli e uma cuica que no primeiro ronco já remete a aquele patriotismo exclusivo de época de Copa. Há uma particularidade subjetiva de descrever, mas presente na nossa memória pronta a despertar de 4 em 4 anos. Sonoridades que estão no inconsciente do brasileiro. Menção justa ao solo de bateria de Edu Ribeiro, longo, com alterações no volume, pausas certeiras e mudanças que aparecem mas conseguem retomar ao lugar conhecido.

A mudança de clima para a segunda faixa "Refúgio" é quase brusca, e por isso merece cumprimentos. Faixas 2 tem uma missão, não oficial, de manter o que foi conquistado pela faixa de abertura. É momento de estabilizar o ouvinte na proposta. Colocar uma faixa 2 triste após uma abertura animada é ir sem medo pela contramão. Nesta Zéli toca, além do baixo acústico, violão, e se na anterior abria acompanhado de cuica festiva, aqui entram violão, piano e clarinete amargurados, a desenhar um cenário de noite de chuvinha fraca. A bela e boêmia voz de Simone Guimarães, que junto a Zéli assina a composição, canta para uma moça na janela. Talvez a moça seja uma segunda pessoa, porém - "moça da janela diz pra mim quem sou" - por que não seu próprio reflexo no vidro?

"Suíte" muda novamente o clima e não parece intencionar complementar alguma das propostas anteriores pois trará uma inédita. Tem ares um tanto internacionais. O diálogo de abertura entre o violão de Renato Consorte e o baixo sem trastes é muito bem posto. A faixa se desenvolve no sentido pleno da definição de elegante, uma riqueza harmônica impressionante. Não cabe em uma só audição. Até então é como o disco vem se apresentando, uma diversidade nada econômica de sons e instrumentos. Mas, como já se sabe, modificar completamente não é tabu no cosmo deste disco. "Carinhoso", patrimônio brazuca de Pixinguinha e João de Barro, é reinterpretada por um Zéli totalmente solitário no baixo. Trazer uma composição célebre destas é arriscado, ainda mais responsabilizando-se sozinho pela mesma. Mas o resultado é uma releitura íntima, singela e, fazendo jus, carinhosa.

O título da quinta faixa, "Remexendo", fez lembrar que no início dos anos 2000 era comum uma espécie de Carnaval o ano inteiro pois era momento do axé. Já a composição de Zéli é um samba divertido e requintado, sem poupar a alta roda instrumental. O dueto da voz de Luciana Alves com as flautas, momento no qual os diferentes timbres buscam alcançar um ao outro, é de não acomodar adjetivos. "Julho por Deus" também é um samba com a peculiaridade de transformar um casco de baixo acústico em percussão. Julho injustamente não é um mês valorizado. Deveria! Bom mês para reavaliar como estão indo os planos feitos para o ano que não é mais novo mas ainda está longe de ser velho. Talvez então, graças a falta desse costume, Julho realmente fique "por Deus" apenas.

"Corra e olhe o céu" está interessantíssima. É o tipo que escuta-se e pensa-se como nunca antes havia escutado tal arranjo. O modo como baixo, clarinete e sax tenor conseguem revezar para que cada um possa "fazer o Cartola" é digno de correr e escutar. Uma das poucas faixas com poucos instrumentos, sem fazer dívida às demais. Já a seguinte "Todos Lados (Afroamerica)" retoma o estúdio cheio trazendo congas e djembê, um tambor originário da África Ocidental que se mescla e se caldeia com violão e piano, sublinhando o título entre parenteses.

Antes de escutar a faixa 9, "Luzia", deduzi que este título provavelmente tratava-se de uma senhora, o tal do senso comum de ligar nomes a idades. Ao ver na ficha técnica "Voz: Luzia" pensei "legal, uma cantora cantando uma faixa xará". Esta segunda dedução acertei - mas só essa. Uma introdução instrumental doce de 8 segundos até que entra a voz. Se num dos primeiros parágrafos foram citadas bebês que nasceram por volta de 2002, aqui se escuta uma delas! Cantando na linguagem dos bebês, com risos, balbucios, exclamações soltas. Há também a voz do próprio Zéli junto a uma pluralidade de timbres de baixos diferentes que são um presente aos ouvidos. Luzia pode ainda não ter visto o Brasil ganhar uma Copa, mas terá para sempre esta canção de ninar primorosa.

"Mulher", releitura da composição do maestro Custódio Mesquita com o ator Sadi Cabral, assim como nas demais releituras do disco opta por poucos instrumentos. Formação mais clássica de quarteto com baixo, sax, piano e bateria, com longa introdução do baixo de Zéli bastante confortável. Um violão é adicionado e o quarteto se torna quinteto nas faixas seguintes e autorais "Balada Capital" e "Samba Amigo". Dois títulos que, talvez, propositalmente se oponham: uma balada outra samba, uma capitalizada outra amigável. Condiz com as sonoridades, uma mais formal e lúgubre, outra mais animada e celebrativa, na única repetição de formação do disco.

"Estrada Branca", igual ocorre com "Mulher", também é releitura e também abre com longo baixo solitário. Uma composição em duo de Tom Jobim com Vinicius Moraes relida num duo de Zéli com o guitarrista Marcelo Gomes. Não há pressa e sim audível curiosidade em explorar as possibilidades que ali estão. Serena e que resgata fácil a alegria triste típica de Tom.

Por fim, "Oculto", não apenas é uma das mais bonitas como também traz a curiosidade de ter sido gravada em 1994 no Canadá. Coincidentemente, o penúltimo ano em que o Brasil foi campeão da Copa. Optou-se por encerrar o disco com a mais longa e mais antiga, que muito bem poderia ter sido gravada hoje. Há um "quê" de retrô em especial na guitarra de Marcelo Gomes, um timbre que leva a algum local entre as décadas de 80 e 90, com a exuberância de saber que não trata-se de efeito e sim de gravação feita realmente no período.

A foto de capa, em duas olhadas a ela (realizadas uma logo após a outra), rendeu duas cenas diferentes. À primeira vista pareceu tratar-se de um arco-íris sob um lago com paisagem urbana ao fundo. À segunda, os chafarizes do lago do Parque do Ibirapuera. Porém, quando a foto é transformada no desenho que aparece por diversas vezes no encarte e no CD físico, pode ganhar uma nova interpretação: o próprio voo baixo do título do disco, representado pela curvatura do arco-íris/chafariz. O trajeto do besouro ou avião voando próximo à cidade.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Total de impressões: 23.

Decrescente

Crescente

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