IMPRESSÕES DE RODRIGO VETTORAZZO

Esta coluna não objetiva apresentar análises técnicas sobre as músicas do álbum, mas sim impressões particulares do autor a partir da escuta do próprio, colaborando com a divulgação e a valorização da música independente no Brasil.

Total de impressões: 23.
Impressões iniciando com 'D': 2.

Decrescente

Crescente

Dé Bermudez

Dé Bermudez

Título: Colcha de retalhos - parte 1
Ano: 2017
Impressão:

Foi no inverno de 2012 em Campos de Jordão que Dé Bermudez reconheceu a paixão de outrora pelos bordados. "Reconheceu" e "de outrora" pois na árvore genealógica da baixista a costura tem presença resistente e farta. Nas paredes da pousada em que estava hospedada haviam diversos quadros feitos em ponto cruz que muito lhe encantaram. Voltando a São Paulo, Dé comprou algumas linhas e arriscou sua primeira obra: uma toalhinha com os nomes das filhas caninas, Elis e Luiza. Dias depois receberia a visita da avó Doracy que, então, como faz o mestre ao decidir que é enfim o momento de revelar os "segredos" acumulados, os passou adiante à Dé. E assim veio seu primeiro quadrinho: quatro cupcakes coloridos.

Não tem sido tão comum conhecer casos recentes de tradições familiares sendo transmitidas, o que torna o episódio bastante cativante visto que Dé se interessou por tal tradição já adulta e ainda tendo o privilégio de receber as instruções diretamente da própria nata. É como se pudesse identificar aí o reencontro com suas primícias, algo que talvez já estivesse intrínseco no sangue e no pertencimento. Assim como um disco dos pais que na infância e adolescência não nos interessava, e depois crescidos descobre-se o quanto o mesmo é legal e esteve ali o tempo todo.

Há relações além-título entre este passado e o primeiro EP de Dé Bermudez, "Colcha de Retalhos - Parte 1".

Música e bordado tem diversas semelhanças: desde a óbvia de que ambos são expressões artísticas, mas também que ambos são artesanais, ambos necessitam de trabalho manual. A colcha de retalhos cuja qual ilustra a capa é uma reunião de diversos pedaços de imagens em variados formatos e tamanhos, mas a maneira como estão organizados não fazem parecer caótico, irregular e sem propósito. Bem ao contrário, há uma coerência, uma lógica que não tarda a saltar aos olhos, harmônica assim como a reunião de notas o faz na música.

Ao iniciar a primeira faixa, "Paca tatu cotia não", o baixo de Dé é o abre alas. Um dedilhado forte, ansioso. A composição é do baixista Nico Assumpção, cujo um dos primeiros (e, talvez, realmente o primeiro) trabalhos de pesquisa acadêmico sobre sua vida e obra foi feito pela própria Dé! É de se imaginar toda a força vital que deve ter sido necessária para conseguir concluir um trabalho desses nos tempos de internet discada, e tal ímpeto ecoa no dedilhado dos primeiros segundos.

Aos 10 segundos a guitarra de Pedro Pimentel se anuncia com timbre bastante curioso, que num primeiro momento lembra (muito!) um violino. "Se anuncia" pois não é uma entrada brusca e sim aproximatória, como quem observa de longe, se avizinha aos poucos, fazendo notar-se a presença averiguando se é bem vindo ali, pra então instalar-se junto ao baixo de Dé e à bateria de Elder de Souza. Introdução rápida, de 25 segundos, mas com todas essas cenas e memórias.

Inicia-se então o primeiro momento pós-intro com o baixo pontuando agudo ao final das frases, guitarra exprimindo sonoridade divertidamente intrigante, e o prato a anunciar a aproximação do novo ato. Como é esperado em músicas de power trio, os três instrumentos ao longo dos vários atos da música sempre estão bem audíveis e assinalados. Há espaço para a guitarra fritar e distorcer, até a galante inversão aos 2:52 quando a guitarra responsabiliza-se por uma base funkeada e o baixo se põe a solar. Quando se está nos 3:28 a bateria transmuta à batida que os ouvidos prontamente associam ao eletrônico, recordando o próprio conceito citado de colcha de retalhos onde variadas formas se mesclam como os estilos ouvidos (rock, funk, eletrônico) se aglutinam.

Com 4 minutos de música percebe-se que a atmosfera da música mudará consideravelmente, o que é reforçado pela sonoridade em tom de suspense. Novamente a guitarra surpreende bastante com a capacidade de gerar timbres tão envolventes.

O caminho até o fim é uma verdadeira riqueza sonora, trazendo de volta outros cenários pelos quais a faixa passou, novos retalhos de cada instrumento se amostrando, culminando num falso final com aura de conto de fadas do qual pouco se reconhece daquilo que havia ao início. Rola então uma espécie de encore num ato final curto e mais próximo do que se ouviu ao longo da faixa, com encerramento simples e direto.

"Convescote", título da segunda faixa, já como palavra é primorosa como poucas. Tem até certa sonoridade engraçada típica que as palavras de época adquirem, como batuta, quiprocó, fuzarca. Convescote significa piquenique e o ritmo animado com o qual a composição começa não deixa mentir. Baixo e bateria lembrando um samba dominical ótimo pra se haver uma colcha de retalhos estendida sob a grama bem verde, servida de uma cesta cheia dos pitéus, até que a guitarra, ao contrário da faixa anterior, não se aproxima aos poucos e sim invade mesmo, rude, suja e barulhenta!

Porém, o clima de domingo no parque não é abalado e sim graciosamente mantido, com destaque a partir dos 1:12 em que baixo e guitarra executam as mesmas frases num diálogo e sintonia que bem se manterão por toda a faixa. Os dois instrumentos de corda fazem as vezes das mesmas bases um ao outro, permitindo a ambos solar sem sumir as referências. Destaque também à sequência final após os 4 minutos em que diferentes viradas na bateria são ouvidas e a frase principal da música, acelerada porém já cantável, encerra conjuntamente a segunda faixa e a Parte 1 da empreitada de Dé.

As imagens internas do encarte - linhas, tesouras, dedal, fita métrica e outros materiais de costura - são daquelas que rapidamente trazem a associação com "casa de avó". E não é qualquer cacareco que é merecedor do sobrenome "de avó". O grau de exigência é alto! Não basta um bolo de laranja estar bonzinho pra receber o título de "bolo de avó". Não é qualquer jardim que se olha e se reconhece o selo de qualidade de "jardim de avó". Avós deixam impressões digitais de avós nas coisas que mexem. Ao neto, afeto. Todo afeto é subjetivo de se explicar, mas não o é em reconhecer. Afeto este presente, de alguma maneira, nas entrelinhas e entresons destes retalhos.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Daniel Guimarães

Daniel Guimarães

Título: Ensimesmado
Ano: 2014
Impressão:

O distraído está entregue a si mesmo. É uma forma de entretenimento. O entediado nada encontrou que considere merecer concentração naquele momento. Já o ensimesmado está compenetrado em si, como a separação das sílabas deste termo pouco comum já entrega. O quão coerente será que é classificar o introvertido como um indivíduo com falta de atenção? Lembrar-se de uma coisa é um excesso de esquecer-se de outra. Distrair-se é um excesso de atenção ao não visível.

O disco solo do violinista e guitarrista Daniel Guimarães leva por duplo propósito o título "Ensimesmado": não apenas o próprio se considera um ensimesmado, como aposta que sua música dialoga com sua familiaridade mineira por ser, de acordo com o próprio, "meio para dentro". Já disse Carlos Drummond de Andrade: "ser mineiro é ter vida interior".

A introdução de 20 segundos do tema de abertura "Revoada" é um aperitivo do Daniel que se escutará ao longo das faixas: violão microfonado e tocado em totalidade por pizzicato. Considerável pausa, um toque no bumbo, e agora é pra valer! Timbre muito intrigante da guitarra que lembra um teclado vintage, com impressão de ser tocada a certa distância, meio tímida. Até que a voz de quem a toca começa a cantar e se contradiz com tal timidez! A voz logo se transforma em vozes, performando um número tão bonito que facilmente hipnotiza o ouvinte o distraindo. Revoada pode tanto ser o voo da ave de volta ao sítio de onde partira como também um bando de aves ou insetos em bando. Ambos significados cabem para tal composição: o primeiro contato de Daniel com um violão intermediado por um primo de Belo Horizonte, como o efeito de uma revoada de pombos ou insetos que rapidamente nos alerta e pelo volume nos impressiona.

Na sequência a única faixa solo e que denomina o álbum todo, "Ensimesmado", somente Daniel e seu violão diante de dois microfones - quanto mais só, mais exposto; não há bem simplicidade numa situação dessas pois cada nota, cada informação trazida, é altamente percebida. Há uma diferença curiosa de volumes em diferentes momentos da gravação cujos quais causam a impressão de que as notas estão mesmo numa espécie de indecisão, ou de "se deixar levar", ora se mostrando mais, ora parecendo quererem se recolher, bem como uma pessoa introvertida (ou, mais vulgarmente falando, a falsa tímida).

Faixas 3 e 6, duas valsas, "Valsa Amiga" e "Nossa Valsa": a primeira com acordeon de Gabriel Geszti, a segunda com violão de Felipe Machado; o primeiro título caracterizando a valsa, o segundo indicando a quem pertencem. Na primeira a bateria de Georgia Câmara toca com a liberdade e diversão típica de quem está a vontade entre amigos, na segunda destaca-se o improviso das cordas dos amigos Daniel e Felipe. A primeira encerra-se com um começo de nova faixa que morre antes de chegar aos 6 segundos, a segunda com certa tensão ditada pelo baixo de Auriu Irigoite.

"Como se fosse sombra" tem sonoridade oitentista e o título, provavelmente sem querer, gera engraçada relação entre os tempos contemporâneos e os citados anos 80: a nostalgia anda lucrativa, festas temáticas back to 80' não saem de moda, seriados com referências desta década dos filmes de monstro e faixas no cabelo são sucesso até com o público que nasceu bem após a mesma, sugerindo que estamos, como diz o título da composição, vivendo numa espécie de sombra retrô onipresente. As diferentes guitarras que Daniel utilizou na gravação, os ricos timbres e o canto saudoso rompem os muros do tempo e aglutinam passado e presente um a luz e sombra do outro.

Ao terminar esta e iniciar a próxima, "Limbo", a introdução sugere que o disco permanecerá no mesmo universo retrô, um tanto sombria e psicodélica. Até ter a primeira virada aos exatos 15 segundos e pular a um caminho completamente inesperado: um animado frevo com bandolins, moderno e fresco. Parceira da faixa 8, "Carnaval no Andaraí", um samba que assim como o frevo também remete ao tradicionalismo mas aqui em atualizada interpretação, com interessante momento de guitarra solitária porém alegre.

"Trinta Anos" apresenta um duo de violões sem crise, diferenciados e ao mesmo tempo sintonizados sem dificuldades. Há um quê de pranto a competir com uma euforia que sugere querer se manifestar, mas neste caso a lamúria parece vencer ao final devido às notas e timbres lacrimosos.

As faixas que encerram o álbum conversam no título: "Vida e despedida" são dois termos que fazem parte um do outro, pois após um tem o outro - a cada despedida a vida continua, até o dia da nossa própria despedida. Com considerável sobriedade tal composição se dá. O acordeon de Ricardo Rito está bastante confortável, assim como a melodia desenhada pelo bandolim novamente assumido pelo próprio Daniel. Hão improvisos para diversos gostos numa faixa com total cara de encerramento. Uma última insistência do bandolim e do acordeom se prolongando na despedida.

"Ao que virá", última faixa, não é oficialmente um bônus track e talvez não caiba mesmo nesta classificação. Uma extensão, talvez. O título já explica isso: é um aceno ao futuro. É a continuidade pois ao encerrar um ciclo há uma continuidade do feito maior para que possa brevemente iniciar-se um novo ciclo. É a única canção do disco e Daniel Guimarães declarara ter vontade de futuramente gravar mais canções, o que ilustra ainda mais esta convocação ao porvir. Após o por-do-sol há sempre um porvir pois sabe-se que horas depois virá o dia seguinte. E é disso que trata-se tal composição, um chamado otimista, uma proposta pacificadora com a própria vida. O canto de Daniel é realmente bonito, recordando com nobreza mineiros como Flavio Venturini e o próprio Bituca, à altura da letra - a letra apenas como texto lido no encarte já é significativa, cantada ficou impecável! Ao virarmos de costas para o que acabamos de nos despedir, estamos nos virando ao que virá.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Total de impressões: 23.
Impressões iniciando com 'D': 2.

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