IMPRESSÕES DE RODRIGO VETTORAZZO

Esta coluna não objetiva apresentar análises técnicas sobre as músicas do álbum, mas sim impressões particulares do autor a partir da escuta do próprio, colaborando com a divulgação e a valorização da música independente no Brasil.

Total de impressões: 23.
Impressões iniciando com 'R': 7.

Decrescente

Crescente

Ricardo Carneiro

Ricardo Carneiro

Título: NY 7577
Ano: 2016
Impressão:

Infantil é um adjetivo cujo qual na maioria das vezes é usado como sinônimo para imaturo, tolo ou instável. Alheia a esta visão pejorativa, a verdadeira definição de infantil é aquilo que diz respeito à infância. Está ligada à proteção, a um ponto de vista mais lúdico da vida.

"NY 7577", de um solitário Ricardo Carneiro nostalgiando através de violões e violas, é um álbum que remete à aurora da vida. Traz a tona a criança que o próprio Ricardo foi um dia, permitindo que o ouvinte resgate também aquele ser que hoje parece tratar-se de um desconhecido ao observá-lo em fotografias. Não apenas o miúdo é apresentado, mas também um local e a maneira como este local era visto através dos olhos de quem está descortinando o mundo.

Quem já revisitou algum local que faça parte das memórias de infância provavelmente se surpreendeu com o tamanho das coisas vistas agora em perspectiva de adulto. Há algum tempo precisei revisitar a escola da qual saí quando tinha 8 anos e lembrei do quanto achava gigante e sinistra uma gruta com a imagem de uma santa que tinham na entrada. A gruta e a santa ainda estão lá, porém, hoje tendo outra altura e outros olhos, achei as mesmas bastante pequenas. Revi também um muro cujo qual era uma aventura dificultosa escalar, e que atualmente bate na minha cintura. Esta perspectiva meninil de visão de mundo se faz presente no álbum, no qual o Ricardo guri e a cidade de Nova York, onde o mesmo vivera de 1975 à 77, são os personagens centrais.

Muita curiosidade de escutar o disco me veio rapidamente quando abri o encarte e percebi do que se tratava. Aquelas imagens tão bonitas de uma Nova York que provavelmente não existe mais, com um filtro antigo verdadeiro que atualmente tanto tenta-se reproduzir nos instagrams da vida, tão bem ilustrando o conceito do álbum que é assumidamente uma nostalgia de período e local vividos por Ricardo Carneiro, dando a certeza de estar prestes a apreciar uma obra em que imagens, sons e relatos se complementam. Os pequenos textos no encarte contando sobre a mudança do Brasil para NY dos 2 aos 4 anos de idade, as músicas que escutava em família na época, bem como os depoimentos a respeito da cada composição, aproximam e ambientalizam o ouvinte ao enredo do que será ouvido.

Uma feliz coincidência é que o álbum, por ser instrumental, não tem nenhuma fala audível, e isso remete à própria palavra infância que, do latim infantia, pode ser definida como "indivíduo que ainda não aprendeu a falar". Ricardo Carneiro, na época agraciada no disco, provavelmente estava no período de aprender a verbalizar e as músicas que escutava na época e cita no encarte (Bob Dylan, Peter Seger, e outros) devem ter tido uma eficiente participação nisso. Aqui ouviremos portanto explanações sem frases palavreadas, sem o verbo, mas de um pequeno indivíduo que já observava, sentia e se expressava de alguma forma.

Ao colocar para tocar a primeira faixa, "Voo 7577", a animação da criança já aparece, na euforia e curiosidade típicas de quem ainda encara o planeta como uma grande diversão a desvendar e aproveitar. Não é de se estranhar o fato de que tal música foi utilizada como tema para um app que mostra a história e cultura americana para crianças e bebês, pois tem tudo a ver. Já se percebe de cara o grande domínio do violão e o clima regional, saudoso e petiz que envolverão o disco.

No hemisfério norte as estações do ano costumam ser bem mais definidas e características do que no hemisfério sul, onde nem estranhamos precisar se agasalhar no verão ou se queimar no inverno. Duas estações do ano vividas no norte estão retratadas no álbum. "Paisagens Americanas", de título que auto explica a inspiração, tem timbres muito curiosos, alguns lembrando chocalhos. É bastante imprevisível, alterando o andamento a bel-prazer sem escapar ao ambiente desenhado. Passa a ideia de frio que é confirmada pelo depoimento no encarte falando de cachoeiras congeladas. Outra que também está envolta por uma estação climática e curiosamente também tem andamento fortuito é "Uma Folha para Nena", sendo esta sobre o outono que presenteou a avó de Ricardo com uma folha caída de uma de árvore enviada por carta ao Brasil.

"Tati na Rede", embora não seja exatamente sobre os anos de Ricardo Carneiro criança e sim uma composição feita para embalar o sono de sua esposa numa rede, ainda assim remete à infância pois é uma canção de ninar. Tem conforto, ingenuidade e meninice. A seguinte também é dedicada a uma pessoa, "Feliz Aniversário, Jan", e apesar de ser, como todas as demais, uma composição de um instrumento só, é uma das mais solitárias. Notas bem espalhadas, sem alvoroço, momento de bonança.

"Belle" faz fantasiar o faroeste que se vê nos desenhos animados, com casas de madeira, as típicas portas de arestas dos saloons, poços, areia e, do próprio título da composição, um furacão. Belle é o nome do furacão que passou por NY justamente no ano que fica entre 75 e 77. Ricardo conta no encarte ter lembrança de esperar na janela o tornado passar, e esta é uma imagem muito rica. Um tornado pode ser assustador a um adulto já que este conhece as possíveis consequências, mas a uma criança de 3 anos, idade de Ricardo na época, pode ser algo aventuroso e mais contemplativo do que preocupante. A composição é bem preenchida e revela uma característica também identificada em outras deste álbum que é a parada, o rápido silêncio, a respirada para uma retomada enérgica.

Outro evento novaiorquino presente no disco é um apagão que ocorreu em 1977 lembrado na faixa "Blackout '77". É um blues atiçador, livre e divertido. Visto que o blackout facilitou a ação de muitos ladrões, a faixa acaba dialogando não apenas com a anterior, por retratarem momentos históricos, mas também com o título da próxima, "Forasteiro". A introdução desta é bem interessante, com uma nota única soando baixa e constante, demorando a entrar a melodia. É feita de diversas frases bonitas, quebras bruscas e singulares momentos de notas solitárias sendo pontes entre os recintos mais fartos.

"Asa Branca", composição de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, é uma clara referência às origens enquanto estava fora. A percussão deixou a faixa dançante e brasileiríssima. Por ter feito seu próprio arranjo e trazido sua própria leitura para tão celebrado hino, Ricardo Carneiro conseguiu, intencionalmente ou não, materializar o espectro da música brasileira em terras americanas, na surpresa do gringo que escuta tal música tão diferente do que está acostumado, ou do brasileiro em terras distantes com saudades do Brasil.

A décima, que também é faixa título, "NY 7577", tem revelada no encarte ter levado um tempo para ficar pronta, assim como o próprio CD que sempre foi um desejo de Ricardo Carneiro. É uma faixa animada e que, imagino, seja a homenagem definitiva à cidade que Nova York era nos anos citados e às memórias ali vividas, como se condensasse toda a ideia nostálgico-afetiva (e existe nostalgia não afetiva?) do disco e desembocasse aqui. Composição desprendida e celebrativa.

O encerramento se dá com "Farewell...e Bem Vindo", lembrando que os ciclos terminam para que se iniciem novos. Se a faixa anterior reunia e contemplava todo o período vivido em Nova York numa coisa só, esta última é a partida após a despedida. Uma viola e melodia simpáticas acenam para os três anos vividos na gringa, sem melancolia e sim com satisfação de ter vivido um período bom, e olham com ternura às terras tupiniquins para onde os bons filhos retornam. Um dado curioso é que tanto essa como a primeira são as faixas mais breves, tematizando chegada, partida e nova chegada.

Ao soar da última nota do disco, e sabendo que Ricardo Carneiro nunca retornou a Nova York, a sensação é de umas tantas variadas saudades - de algo não vivido, de algo mentalizado através destas composições, dos pequenos seres que fomos antes de nos tornarmos adultos supostamente civilizados, de todas essas memórias que são do Ricardo mas durante a audição pareceram nossas e que resistimos em deixar partir.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Rodrigo Chenta

Rodrigo Chenta

Título: Influência brasileira
Ano: 2017
Impressão:

Uma viola dinâmica é escolha acertada para iniciar um disco que tem a nacionalidade por extenso no título. É um tipo de viola cuja própria aparência condiz à extravagância que alguns brasileiros assumem com orgulho e outros negam. Além de ser a viola dos repentistas, originários da Paraíba mas que se popularizaram bastante no Rio Grande do Sul mesmo com tantos estados entre ambos, e isso já bem antes da internet pensar em existir. De fato o que se ouvirá das primeiras notas ao fim do disco é legítimo Brasil, se preservando dentro dos limites estabelecidos pelo contorno do mapa na capa. Ainda que na influência brasileira haja influência gringa inevitavelmente, o carimbo brasileiro está lá.

Bastante interessante o mapa do Brasil na capa sem fronteiras entre os estados visto que, como o repente, há décadas os ritmos regionais atravessam quilômetros. Mas também interessante porque este mapa é provavelmente a primeira consciência que o brasileiro médio tem de seu país. A bandeira nacional é o maior dos símbolos, mas é na aula de Geografia no primário, quando vê pela primeira vez um mapa do Brasil, que o brasileiro criança entende o que é um país e que mora nele. Entende o que é uma nacionalidade ao descobrir que há muitas pessoas morando até nos estados bem longe do teu, todas elas brasileiras também.

"Pescoço torto" inicia o disco e o resgate das influências brasileiras de Rodrigo Chenta com a já citada viola dinâmica de César Petaná, puxando um baião tradicional. Brasilidade íntegra, som divertido como o brasileiro é adjetivado na gringa, até o baião dar lugar a uma sequência anárquica. Todos os (muitos) instrumentos improvisam soando bastante livres e soltos, embora ainda assim sintonizados. Da mesma forma que uma sociedade que aderisse à anarquia exigiria atenção para não se tornar barbárie, aqui os instrumentos fazem-se atentos uns aos outros evitando balbúrdia. Uma cuíca tristonha encerra esta sequência lembrando um choro animal ou até humano ecoando pelo sertão deserto e solitário, ou o final do carnaval. Ainda que Rodrigo explique o título da composição a partir de uma briga com peixeira, pode destinar-se também a personagens folclóricos brasileiros que comumente tem características peculiares nos membros, como o Saci Pererê com uma perna só ou o Curupira com os pés ao contrário.

A segunda faixa, "Calor do Nordeste no Sul", curiosamente é um tanto antônima a anterior já que com apenas três instrumentos - viola caipira, guitarra acústica e participação especial do cavaco - consegue se dispor muito alegre. Assim como os ritmos locais viajam pelos estados, os climas também não são exclusivos. E a provável tendência, para ambos, é cada vez serem menos exclusivos.

Se na primeira faixa chama a atenção na ficha técnica o uso de folha de sulfite como instrumento, na de número 3, "Sem discussão", há uso de sacola plástica. Representação prática da aptidão do brasileiro de se virar e musicalizar quase que por natureza o que tiver em mãos. Mas a sacola se ouve somente no terceiro ato da composição. O primeiro apresenta uma guitarra ranzinza e incomodada com algo, baixinha mas sugerindo provocação. Já no segundo, que entra somente após a guitarra silenciar, é ocupado pela flauta transversal aborrecida, desinteressada em comprar a discussão. Aos 1:45 revela-se uma bossa triste, iniciando o terceiro e mais longo ato, cabendo à sacola plástica responsabilizar-se pela cadência com sonoridade muito prazenteira. Ao entrar a voz de Rodrigo Chenta, é grata surpresa a quem conhece toda sua discografia e ainda não havia escutado-o cantar, e outra grata surpresa pelo quanto num primeiro momento recorda a voz do Bituca (Milton Nascimento). O encaminhamento para o final se dá com sax e realmente não houve discussão e sim espaço a todos - embora cada ato seja por si só tão cativante que a única briga que caberia é "por que não duraram mais?".

"Tio Dum" foi composta por Rodrigo em 2012, enquanto seu tio Oswaldo era vivo. Na cultura brasileira os parentes costumam ser influência forte na formação do indivíduo, e aqui tal influência é retratada e honrada num xote animado referenciando os bailes que o tio do interior gostava de frequentar com a tia Rosa. Aos 1:35 sai o ato festivo para entrar flauta e guitarra bastante lamentosas simbolizando a partida do tio. Mesmo melancólico é um lamento consolado, que volta a dar espaço ao xote animado. Bem envolvente e bonito é o final após a saída do triângulo, quando há repetição de parte do tema numa consonância dos instrumentos a reverenciar o tio Dum, misturando tristeza com alegria ao mesmo modo que se misturam na saudade.

"Deus amado" é uma expressão exclamativa um tanto fora de moda no Brasil, e na quinta faixa tem sentido mais literal visto ser, de acordo com o próprio Rodrigo Chenta, uma oração não verbal. Ainda que a defina assim, as frases são tão bem feitas que é quase como se houvessem palavras/verbos ali. Percebe-se claramente a intenção de cada, uma comunicação impressionante. Somete guitarra acústica e violão trazem sonoridade bastante caipira. Se na cidade grande há resposta rápida a respeito de quem criou todos os prédios, carros e viadutos ao redor, no campo o mistério da criação está bem visível e disponível - quem criou todas as árvores, lagos e céu? Seja ateu ou com fé, é no campo, longe do "conforto" que a vida urbana nos proporciona, onde percebemos nosso real tamanho e fragilidade diante da natureza, planeta e universo.

Na faixa 6, "Angu de caroço", Rodrigo une os dois parceiros com os quais formou duos: Ivan Barasnevicius no violão e Cássio Ferreira no sax soprano. Já há uma tensão instrumental logo no início, que se formaliza aos 20 segundos e é repetida em outros momentos, numa sequência crescente que recorda temas cinematográficos como o do hitchcockiano "Psicose". Há um certo humor que já parte do título e se manifesta por toda a composição, com os instrumentos parecendo bem dispostos a tirar sarro um do outro.

Chegando na metade do álbum, "Dançando no chão rachado" surpreende por começar tímida e por ser de apenas uma guitarra acústica. Introdução discreta, o baixo da guitarra dita o ritmo dançante que virá e então logo é possível dançar. Um bailado contido, de semblante sério. Aos 1:52 entra o segundo ato, que ainda tem muito do primeiro, acrescido do bater nas cordas que levanta um tanto do astral. O encerramento se dá aos 3:15 com o tema ficando mais lento e melancólico, gerando antítese intencional de Rodrigo Chenta a representar manifestações culturais brasileiras realizadas em regiões que sofrem muitos problemas mas ainda assim realizam-se.

Um sax soprano de quem se recolheu para prantear inicia "Triste coração". A interação das cordas é um tanto explosiva: notas longas do sax são respondidas por notas desesperadas das cordas como se fossem lágrimas. Ação e reação. O timbre do violão de 7 cordas está bem atípico no momento que assume o lugar de lamento, pois se escuta seus sons batendo na parede da sala de gravação, bem ao vivo e fortemente ambientado, levando o ouvinte ao momento da gravação. Parece haver cada vez menos pressa, como o lamento o é inicialmente desesperado para depois acalmar. Novamente há o canto de Rodrigo Chenta, comovente e encaixando bem com o cavaco, repetindo a interação da primeira parte da música: o canto lamenta, o cavaco lacrimeja.

A viola caipira retorna em "Ansiedade", inicialmente sozinha e entediada, ansiando por mudanças como Rodrigo explica que era a intenção. A percussão que entra lembra capoeira, um som ritualístico, preparando território para a flauta transversal de Raphael Ferreira com timbre bastante bonito e frases a altura. Aos 2:36 surge proposital esquisitice, estranha mas funcional, com andamento parecendo ansioso para acelerar e sempre recuando, a desaguar num inesperado batuque de encerramento. É um dos momentos mais curiosos do disco pela pouca associação ao que se ouviu antes, característica que Rodrigo revelou gostar de inserir em suas músicas, e aqui mais interessante ainda por estar ao final e não no meio.

Elder de Souza, que toca boa parte dos instrumentos de percussão no disco, assume o mais conhecido deles do samba na faixa 10, "Uma boa tarde". O pandeiro dita um ritmo singular e divertido junto ao cavaco, violão e guitarra, resultando no que Rodrigo muito bem definiu como "encontro de amigos em uma boa tarde de música". A percussão com violão abafado causa muita curiosidade e vai puxando cada vez mais tensão. Não há medo de nenhuma das partes de se entregar ao que música pede, cedendo à aceleração, ao aumento de intensidade e energia. O título pode se referir tanto a uma tarde específica agradável, como também a uma das variações dos modos brasileiros de cumprimentar que utiliza o artigo "uma" antes da saudação: "Uma boa tarde para você".

As quatro faixas finais formam a "Suite Aracaju", baseada na experiência gastronômica que Rodrigo Chenta teve numa viagem à capital do Sergipe. No 1° movimento, "Pastel de aratu", chama a atenção um violão de 7 cordas ser usado apenas para batuque. A percussão com triângulo e pandeiro é forte e estrutura os ares de alegria que Rodrigo teve ao experimentar tal pastel. Há uma inserção curiosa de uma guitarra triste no meio, que chega e vai sem maiores explicações. Já no 2° movimento, "Caranguejo", Rodrigo toca guitarra e canta acompanhado de sax e flauta uma melodia de lamento e inconvencional pois os sons vão-se cedo e só sobra uma guitarra fria. Um solo de conga abre o 3° movimento "Cocada de mangaba", explorando timbres e alturas, andamentos e intensidades, só aos 1:23 entrando a guitarra mandando a frase que breve terá coro de quase todos os instrumentistas. É uma das faixas mais longas ainda que parte de uma Suíte, com extenso espaço para improvisação. O coro é um tanto intrigante pois é alegre mas há certa melancolia ao se referirem à cocada de mangaba como "um doce que vai te alegrar". Mas, como é a última aparição da maioria deles no disco, foi um fértil modo de se despedirem. O fade out encerra o movimento, recurso usado outrora no disco e comum em discos brasileiros pré anos 90. E é o fim, mas não é.

"Carne de carneiro" soa como uma brincadeira de bastidores após fechamento das cortinas. Não só pelo fade out do movimento anterior que conclui com maestria a obra, mas por parecer descompromissada. Batuques de violão e um sax sarcástico. O típico brasileiro que ainda que cercado de tribulações sempre arruma um cantinho pra se divertir.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Rodrigo Chenta

Rodrigo Chenta

Título: Concepção
Ano: 2016
Impressão:

Fiquei bem curioso para escutar o EP do Rodrigo Chenta ao saber que seria lançado. Por já conhecer tuas músicas do duo com Ivan Barasnevicius, bem como por já ter assistido apresentações do mesmo acompanhado em trio e quarteto, algo que peculiarmente me despertou curiosidade para ouvir foi o fato de que o EP leva apenas teu nome.

Existe uma responsabilidade a assumir quando um músico assina uma criação desta forma que chamam de "solo", cuja definição do espanhol é "puro, sozinho, sem nada a mais". É dar a cara a tapa e se expor, fazer jus solitariamente aos conceitos de autor/autoridade. Mesmo que hajam participações, como hão no caso, serão exclusivamente teu nome e sobrenome que bancarão e etiquetarão o que será ouvido.

A primeira faixa, "Concepção", condiz com esse comprometimento: é solitária, de apenas um único instrumento, mas é uma solidão preenchida. O baixo da guitarra presente, mais de três sons sendo escutados ao mesmo tempo em alguns momentos, terminando com apenas um. Interessante saber, através do encarte, que esta composição nasceu em plena performance, conseguindo manter o tom tenso proposto desde o início. Por algum motivo sonoro curiosamente me lembrou relógio, como se representasse uma espera por algo ou alguém. Esperas costumam ser solitárias, porém, são preenchidas por expectativas, da mesma forma que esta composição o é: solitária e cheia de sons.

Se a faixa-título causou impressões diretas, em contraponto a "Suite for Schafer" causou diversas.

No 1º Movimento, ao entrar a voz de Roberto Agnelli a primeira sensação foi de estranhamento. Quando soube que haveria uma voz participante nesta faixa imaginei que a mesma entraria cantando, e provavelmente uma melodia sem letra. Mas aí a voz escapou ao esperado e entrou falando, inserindo palavras em um ambiente onde não eram esperadas. A quem acostumado estava com as músicas lançadas nos últimos anos por Rodrigo Chenta, cuja voz-mor é a guitarra, a entrada da voz falante foi um salto pro lado de fora da zona de conforto. Logo na primeira frase pensei receoso "será que esta voz citando frases trará um tom didático e pouco artístico?". Segui escutando.

Já no 2º Movimento chamou de cara a atenção o "dueto" das cordas com a madeira da guitarra sendo materialmente usada, característica facilmente reconhecida aos que estão familiarizados com as composições de Rodrigo Chenta no duo com Ivan Barasnevicius. Em certo momento é citado pela voz um relógio, a mim dialogando com a primeira faixa e o suposto relógio que havia enxergado naquela composição. "Fazemos de nós mesmos uns pobres relógios" - pois é!

A partir do 3º Movimento até o 6º e último já havia me acostumado com a estética desta Suite, curioso a escutar as próximas frases que seriam ditas por aquela voz cuja qual reconhece-se sotaque bastante puro e inominável e as respostas da guitarra à elas. Merece menção honrosa o 4º Movimento, onde há até uma mise-en-scène vocal e o flagrante de me ver aproximando o ouvido da caixa de som para melhor escutar os sussuros falando a respeito dos que, como eu, estavam se esforçando para ouvi-los.

Não é tão raro nos depararmos com um áudio onde haja uma voz declamando algo acompanhada de um fundo musical, geralmente sendo frases bonitas e uma harmonia que ajuda no tom de comoção ou de engrandecimento à beleza do que está sendo falado. Mas raramente voz e música de fundo estarão tão diretamente ligados como no caso desta Suite, pois tudo que é dito pela voz de Roberto Agnelli reflete nas improvisações de Rodrigo Chenta na guitarra acústica e vice-versa. Necessariamente voz e guitarra estão falando da mesma coisa: se cortejam, confabulam e palavreiam. Cada uma dá forma ao que a outra está narrando.

Rodrigo Chenta não apenas merece cumprimentos pelo compromisso de lançar uma obra levando tão somente teu nome, como também pelo desembaraço de prover essa Suite de proposta sonora rara e inabitual.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Rodrigo Chenta & Ivan Barasnevicius Duo

Rodrigo Chenta & Ivan Barasnevicius Duo

Título: Standards?
Ano: 2017
Impressão:

Interrogar é quase cantar: há um ritmo específico para se falar em voz alta uma frase interrogativa. Se a entonação de dúvida não for ouvida, a frase perderá o sentido e a comunicação também. Assim, o EP "Standards?" do Rodrigo Chenta e Ivan Barasnevicius Duo já o é musical desde o título. Tal ponto de interrogação no nome sugere falta de cerimônia e informalidade: um título que se auto questiona e uma obra que aparenta ser resultado de diversão.

O EP traz duas faixas já conhecidas de quem frequenta os shows do duo, e que beleza poder tê-las agora em registro!

É bastante divertido notar a surpresa da plateia quando o duo toca a primeira faixa do EP, "Cantaloupe Sandman", logo que "Enter Sandman" do Metallica é reconhecida. A inconfundível linha de guitarra não está ali como mero chamariz, pois se faz presente por praticamente toda a música, cedendo espaço algumas vezes mas sempre retornando. Há o que se impressionar com a facilidade na qual passam da tensão patente e até sombria do riff de Kirk Hammett para uma levada jazzística animosa. O bom humor do jazz e a fúria do metal encontram espaço e diálogo na mesma música. Para quem já é familiarizado com o som do duo é fabuloso como, mesmo partindo de um sucesso do Metallica (entre outros, como "Welcome Home (Sanitarium)" que Rodrigo cita em seu solo, e também frases do pianista Herbie Hancock no solo de Ivan), é perceptível o estilo próprio consolidado, a impressão digital garantida.

Já a outra faixa, "Saga of Harrison Crabfeathers", também carrega responsa pois sua harmonia é bastante conhecida dos fãs e músicos de jazz. Lembrar que seu compositor Steve Kuhn vem de um dos bairros mais icônicos de Nova York, o Brooklyn, faz pensar na relação do local de vivência com a composição, e o quanto a cidade de São Paulo pode também ter influenciado Rodrigo e Ivan nesse standard.

O início é bem a-lá duo e cinzento como a cidade em que residem, meio nublado, abafado, sonorizando o escurecer do céu que anuncia chuva. Segue assim até entrarem as frases famosas de Steve, afastando as nuvens e clareando/colorindo já aos 40 segundos de música. Essa variação climática, brusca como o é na capital paulista, está em toda a gravação enfatizando a falta de medo do duo de arriscar notas aflitivas sob uma composição famosa dessas.

Aos 4:18, após momento de muito som e agitação, instala-se uma calmaria comandada pelos próprios sons, quase sem precisar utilizar-se do silêncio, lembrando aquele professor que todos já tiveram cujo qual, apenas com o olhar, fazia os alunos entenderem suas ordens.

Dos 6 minutos em diante o que se ouve são as tais alterações meteorológicas revezando-se até o final, do acinzentado ao ensolarado, das notas aflitivas às confortáveis. O final é atípico, com um acúmulo muito interessante de notas - visto não ser tão comum pensar em muitas notas próximas ao encerramento -, para deixar que as ultimas escolhidas soem até o final de si próprias sem corte. A mistura da beleza com aflição, presentes em todo o standard, aqui estão NAS MESMAS NOTAS, simultaneamente. Alcançam um ponto sensível do ouvido que consegue incomodar e encantar conjuntamente.

Os palitos de fósforo na capa do EP talvez remetam ao próprio conceito do que significa standard, afinal, este padrão de palito que hoje em dia conhecemos demorou bastante a aparecer. Já houveram outros bem maiores e até perigosos, que chegavam a queimar sozinhos dentro da embalagem. Curioso como, apesar do nome ser "palito", já chamamos direto de "fósforo", sendo que NÃO há fósforo no palito e sim na lateral da caixa onde o acendemos.

Encerrando com uma interrogação: será que, do mesmo modo que o palito de fósforo precisa necessariamente da caixa para acender, não precisaria também o standard de jazz de improvisos e alterações para ser efetivamente um standard?


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Total de impressões: 23.
Impressões iniciando com 'R': 7.

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